quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Cassandra e Heleno os filhos de Priamo




Cassandra, também conhecida como Alexandra "aquela que envolve os homens" e o seu irmão gêmeo Heleno, eram dois dos 20 filhos do rei Priamo e da rainha Hécuba de Troia. Sempre brincavam no Templo de Apolo, mas certa vez anoiteceu e os gêmeos dormiram no templo. Enquanto as crianças dormiam, duas serpentes passaram a lingua nos ouvidos das crianças e eles se tornaram tão sensíveis que podiam escutar as vozes dos deuses.

Cassandra tornou-se uma jovem de magnífica beleza, fiel servidora de Apolo. Tanto se dedicava, que Apolo se apaixonou por ela e lhe ensinou os segredos da profecia. Assim, Cassandra tornou-se uma profetisa. Porém, quando repudiou o amor de Apolo ele cuspiu em sua boca e retirou o dom da persuasão. Por isso Cassandra era desacreditada por todos, mesmo sendo
verdadeiras as suas profecias.

 
Ela passou a ser considerada uma louca, quando tentou comunicar aos troianos as suas previsões de catástrofes e desgraças. C
onstantemente era ridicularizada, embora tenha feito inúmeras profecias a alguns de seus irmãos como Heitor, Polido, Creusa, Laódice, Páris, Dêifobo, Polixena, Polidoro, Antifo, Tróilo e Ilíone.
Quando Páris nasceu, Cassandra teria profetizado de que ele causaria a destruição de Troia. A falta de credibilidade das suas previsões levou à queda e consequente destruição de Tróia, quando ela viu frustradas as suas sucessivas tentativas de implorar a Príamo que ele destruísse o cavalo de madeira - o Cavalo de Tróia - enviado por Ulisses para a conquista de Tróia.

Com a cidade tomada pelos gregos, Cassandra foi dada na partilha a Agamenon que partiu com ela em seu navio de volta à Micenas. No entanto, ao chegar, Agamenon foi assassinado por Egisto, amante da sua mulher Clitemnestra. Cassandra partiu para a Cólquida, onde encontrou Zakíntio e com ele foi fundar uma nova cidade, pois ele havia recebido uma mensagem dos deuses que deveria fundar uma cidade juntando-se a uma sacerdotisa.


Heleno também recebeu de Apolo o dom da adivinhação e predisse que a viagem de Páris à Grécia seria nefasta. Com efeito, no seguimento da viagem desencadeou-se uma guerra. Durante a guerra e após a morte de Páris, Heleno aspirou à mão de Helena, mas foi-lhe recusada em favor de Deifobo. Frustado, Heleno retirou-se para o monte Ida onde foi capturado e torturado pelos gregos, que aconselhados pelo adivinho Calcas, lhes disse que Heleno poderia dizer como invadir e vencer Troia.


As profecias de Heleno indicaram que os gregos venceriam se conseguissem recuperar as flechas de Héracles em posse de Filoctetes. Se roubassem o paládio troiano através do estratagema do cavalo de Tróia e se persuadissem o filho de Aquiles, Neoptólemo, a juntar-se à guerra. Neoptólemo estava escondido em Esciro, mas os gregos convenceram-no a ir a Tróia.

Depois que seus pais, Priamo e Hécuba foram mortos pelos aqueus durante a guerra de Troia, Heleno foi escravizado por Neoptólemo, filho de Aquiles, mas ganhou a liberdade e a sua confiança ao impedi-lo de zarpar com o resto da frota dos aqueus, predizendo uma terrível tempestade. Existem muitas versões sobre o destino de Heleno.

Alguns dizem que ele foi levado para o Épiro onde desposou Andromaca, viúva de Heitor, sendo declarado herdeiro do trono de Neoptólemo. Outros dizem que ele partiu para o país dos Molossos, onde posteriormente fundou uma cidade na Molóssia, onde viveu pelo resto de seus dias...


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O mito de Cassandra e Heleno simbolizam a confiança entre os seres humanos. Tem sido utilizado na psicologia e em outras ciências como metáfora. Quando alguém consegue ver a realidade de uma forma mais esclarecida e tenta avisar os outros sem sucesso, essa pessoa pode ser considerada portadora do "Complexo de Cassandra".

É usual que as pessoas evitem pareceres que não estejam de acordo com as suas expectativas e evitem previsões catastrofistas em detrimento de pareceres mais favoráveis. As pessoas dão mais atenção a quem lhes augura um futuro auspicioso do que aos ‘profetas da desgraça’.

Este é um mecanismo psicológico que pretende salvaguardar o bem-estar emocional. No entanto, gera-se uma tremenda angústia em quem vê a desgraça aproximar-se e ninguém presta atenção às suas recomendações. As pessoas não gostam de previsões negativas; regra geral, elas gostam é de ouvir boas notícias e palavras cheias de esperança...



Ino, a madrastra de Frixo e Hele



Frixo e Hele eram filhos de Athamante, Rei da Beócia e Nefele. Mas Athamante se apaixonou por Ino, filha de Cadmo e Harmonia, repudiando sua esposa. Atamante levou Ino para seu reino, tendo com ela dois filhos: Learco e Melicerte. Ino não suportava os filhos de Néfele com Atamante e arquitetou um plano cruel. Na época da semeadura, ela molhou o trigo, o que fez com que a colheita anual fosse um fracasso.

Athamante mandou mensageiros ao Oráculo de Delfos, mas Ino havia instruído os mensageiros a dizer que Frixo deveria ser sacrificado a Zeus.
Sabendo dos planos de Ino, Néfele que tinha recebido dos deuses um carneiro voador com o velo ou lã de ouro, chamado Crisomalo, mandou que o carneiro voasse para longe levando seus filhos Frixo e Hele. Porém Hele caiu no mar na região que passou a chamar-se Helesponto.

Frixo prosseguiu até chegar ao reino da Cólquida, sacrificou o carneiro e deu o velocino de ouro a Eeter, Rei da Cólquida, que lhe retribuiu dando-lhe tempos depois em troca sua filha Calcíope e d
essa união nasceu Argos. O Rei Eeter havia sido prevenido para temer a morte por um estranho, por isso matou Frixo e lançou Argos ao mar que foi salvo pelos deuses. Em outras terras da Cólquida, nascia Jasão que também foi lançado ao mar, sendo salvo pelos deuses. Isso faria com que Jasão e Argos se encontrassem. Quando crescessem, teriam a missão de buscar o velocino de ouro junto com os argonautas.

Athamante foi banido da Beócia e perguntando onde devia morar recebeu do oráculo a instrução que deveria morar onde ele fosse alimentado por animais selvagens. Ele encontrou um grupo de lobos, mas quando os lobos o viram, fugiram. Athamante se estabeleceu neste lugar, chamando-o de Athamantia.


Ino era irmã de Semele, a mãe de Dioniso, a quem Hera perseguia por ser filho de Zeus com a amante. Após a morte de Semele, Ino passou a cuidar de Dioniso e por isso, Hera passou a perseguí-la e ordenou às Erinias que afligisse de loucura Athamante e Ino. Acometido de súbita fúria, Atamante tomou Learco dos braços de Ino e atirou-o contra a parede, depois ateou fogo ao palácio. Tomada de furor, Ino se precipitou de um rochedo com o outro filho Melicerte.

Ao assistir tamanha barbarie, Afrodite e Poseidon transformou Ino e Melicerdes em divindades marinhas, dando-lhes novos nomes: Leucotéia e Palemon, que se tornaram protetores dos marinheiros. Ambos tinham o poder de salvar os homens em naufrágios. Palemon geralmente era representado cavalgando um golfinho e os Jogos Ístmicos eram celebrados em sua honra. Era chamado Portuno pelos romanos e acreditava-se que governava os portos e as costas. Leucotéia aparece na Odisséia salvando Ulisses da fúria de Poseidon quando este sai da ilha Ogigia, o antro de Calipso.


Logo que a notícia se espalhou pela cidade, as mulheres correram à margem do mar em busca de Ino. Na aflição que lhes causava tão trágico desfecho, rasgaram as vestes, arrancaram os cabelos e deploram as desventuras da infeliz casa de Cadmo. Zangaram-se com Hera e censuram-lhe a injustiça e crueldade. A deusa, ofendida com as suas queixas, diz-lhes: "Ides ser vós outras os mais terríveis exemplos dessa crueldade que tanto me censurais. O efeito segue-se à ameaça. "

A que mais era afeiçoada a Ino, imobilizou-se e viu-se presa ao rochedo. Outra, feriu o próprio seio e sentiu os braços tornarem-se duros e inflexíveis. Outra, com os braços estendidos para o mar, não mais conseguiu movê-los. E mais outra, que estava arrancando os cabelos com as mãos, sentiu que as mãos e os cabelos se transformaram em pedra. A maioria sofreu mudanças análogas e ficaram na mesma atitude em que estavam no momento da metamorfose. As demais amigas de Ino foram transformadas em aves e esvoaçavam no mesmo lugar roçando as ondas com a ponta das asas. "


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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Aracne, a artesã



Aracne era uma bela moça, filha de um tintureiro de lã na cidade de Colofon, e por isso bordava e tecia, tendo um grande talento para essa arte. À medida que Aracne foi tornando-se adulta, sua arte também se aperfeiçoava, e logo seus trabalhos eram disputados por todas as mulheres da cidade. Algumas mulheres vinham de longa distância para ter uma peça bordada da artesã e todas comentavam sobre a beleza de seu trabalho.

Atena, a deusa protetora das obreiras e artesãos, teve conhecimento de que todas as mulheres consideravam os bordados de Aracne melhores do que os seus. Como Deusa das Artes, Atena foi desafiada numa competição de destreza. Ambas trabalhavam com rapidez e habilidade.

Quando as tapeçarias ficaram terminadas, Atena admirou o trabalho impecável de sua competidora, mas ficou furiosa porque Aracne ousou ilustrar as desilusões amorosas de Zeus, pai de Atena, em sua tapeçaria. O tema de sua tapeçaria ocasionou a ruína de Aracne. Atena ficou furiosa e destruiu o trabalho de Aracne, transformando-a em aranha, condenada para sempre a tecer.

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O mito de Atena e Aracne mostra o comprometimento de julgamento, quando se esquece da questão principal para se preocupar com detalhes alheios aos fatos. Como defensora categórica do pai, Atena pune Aracne por tornar público o comportamento ilícito de Zeus, sem questionar o desaforo do próprio desafio.

Irritada, Atena transformou Aracne em uma aranha, mas imediatamente, Aracne começou a tecer um lindo manto de seda, cujos fios ela produzia em si mesma. E contando agora com muitos braços, tinha muito mais agilidade. E ainda que Atena tenha tentado prejudicá-la, seus talentos se multiplicaram.


Mesmo que os obstáculos da vida venham a nos transformar, são eles que devem servir de incentivo, para que possamos aprimorar nossos talentos. Mas assim como o mito, recorda que devemos nos ater apenas ao essencial, sem nos preocuparmos com fatos subjacentes que em nada acrescentam. E jamais devemos nos deter diante dos fracassos ou das injustiças, mas devemos prosseguir com fé e confiança em nós mesmos, e assim podemos tecer o melhor curso de nossa história.

Thanatus e as finalizações



Thanatus e Hypnos eram os filhos gêmeos de Nix e Érubus - a noite e a escuridão. Thanatus era a própria personificação da morte, enquanto Hades reinava sobre os mortos no submundo. Inimigo do gênero humano, odioso mesmo aos deuses, ele morava no Tártaro e estava sempre à porta dos Infernos. Tinha o coração de ferro e entranhas de bronze. Os gregos o representavam com a figura de uma criança de cor preta com os pés tortos e acariciada pela Noite, ou ainda, com o rosto desfeito e emagrecido, coberto por um véu, os olhos fechados e com uma foice na mão.

Esses atributos parece significar que os homens são ceifados em multidão, como as flores e as ervas efêmeras. Além da foice, asas e um facho em queda, uma urna e uma borboleta. As asas indicariam a velocidade com que se aproxima dos mortais. O facho em queda indicam a extinção de uma etapa de realizações. A urna representa tanto o segredo de pós-morte quanto o corpo, resíduo da vida e a borboleta, a alma.


Nas lendas romanas era chamado de Orco ou Horco, que se transformou num espirito da floresta e devorava as pessoas, sendo provável que encarnasse a divindade infernal que castigava os perjuros ou até mesmo que fosse uma primitiva divindade romana identificada com Plutão. Era uma espécie de anjo da morte que assassinava os moribundos, supondo-se que o dia do seu aniversário era o 5º dia de cada mês considerado infausto.
Thanatus atuava junto de seus irmãos: Kera - o destino do homem em seus momentos finais ou a morte em batalha, Moro - o escárnio e o quinhão que cada homem receberá em vida e o destino,  e Átropos - uma das Moiras. Juntos determinavam o fim da vida. Thanatus tem em sua significação grega os verbos dissipar e extinguir, nesse caso, acreditava-se que morrer significava ocultar-se, pois o morto tornava-se “eídolon”, um corpo insubstancial.

Vivia a serviço das ordens dos deuses. Certa vez Thanatus foi incumbido de levar Sisifo, o delator de Zeus, aos infernos. Sisifo elogiou sua beleza e pediu-lhe para deixá-lo enfeitar seu pescoço com um colar de diamantes. A morte se deixou prender por sua vaidade. Na verdade, o colar não passava de uma coleira com a qual Sísifo manteve a Morte aprisionada e conseguiu driblar seu destino. Sísifo soube enganar a Morte.


Durante um tempo não morreu mais ninguém, nem mesmo nas batalhas. Logo Hades tratou de libertar a Thanatus e ordenou que fosse buscar novamente Sisifo. Quando Sísifo se despediu de sua mulher teve o cuidado de pedir secretamente que ela não enterrasse seu corpo. Já no inferno, Sísifo reclamou com Hades da falta de respeito de sua esposa em não enterrá-lo. Então suplicou por mais um dia de prazo para se vingar da mulher ingrata e cumprir os rituais fúnebres. Hades lhe concedeu o pedido e Sísifo retomou seu corpo mas fugiu com a esposa. Pela segunda vez havia enganado a morte.


Descoberta a sua trama, Thanatus voltou para buscar Sisifo que foi punido pelos deuses. Seu castigo consistia em ter que rolar, penosamente, uma pesada pedra até o alto de uma montanha. Mas, sempre que chegava perto do cume, a pedra escapulia-lhe das mãos e rolava morro abaixo. E Sísifo tinha de começar tudo outra vez restando assim por toda a eternidade.


Hades também incumbiu Thanatus de levar o Rei Admeto aos infernos. Porém Admeto tinha sido muito generoso quando hospedou Apolo e, em retribuição, Apolo pediu às Parcas que estas poupassem a vida de Admeto se alguém quisesse morrer em seu lugar. Quando chegou o momento ninguém do reino quis morrer em lugar de Admeto. Como prova de fidelidade sua esposa Alceste se ofereceu para ir em seu lugar. Esta dedicação comoveu Proserpina, esposa de Hades, que a libertou.


Como sua mãe, Nix - a noite e seu irmão Hipno - o sono, Thanatus tem o poder de regenerar, porque a morte não é o fim em si, mas uma passagem. A morte é a porta da vida - Mors Ianua Vitae. Com essa complexa narrativa, podemos entender uma série de síndromes, complexos e situações que levam o nome de figuras mitológicas e ter um conhecimento mais profundo da tanatologia. Da mesma raiz de Thanatus provém a Tanatofobia - medo da morte e a Eutanásia, que significa alivio pela boa morte.
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Thanatus é o aspecto perecível e destruidor e está presente em quase todos os ritos de passagem. Toda iniciação é precedida pela morte, ou seja, uma finalização para se chegar a uma vida nova. Ela extirpa as forças negativas e liberta as energias. A Tanatologia trata não só com a morte física mas principalmente com as perdas, porque a grande maioria sente dificuldade no enfrentamento dessa questão. Assim, ela se torna um instrumento para facilitar o manejo das situações de perda e morte.


Quando se fala em perdas, isso nos remete diretamente à questão do apego. Dificilmente sentimos a falta de algo ou de alguém se não temos proximidade, se não tivermos formado um apego ou vínculo. É muito difícil para o ser humano lidar com as perdas, pois faz parte da condição humana querer ganhar. Apesar dessa dificuldade, sabemos que a vida é feita de perdas e ganhos. Uma das maiores perdas que enfrentamos é a morte, mesmo assim continuamos a insistir no caráter ocasional da morte. Como nos disse Freud "destituímos a morte do seu caráter, nos enganamos e vivemos como se não fossemos morrer, nem nós nem nossos entes queridos."

Nos apegamos em demasia às coisas materiais, pensamos em ter cada vez mais e nos angustiamos com a possibilidade de perdê-las. Sobre essa terrível angústia e terror da perda que nos acompanha, comportarmos de forma extrema e paradoxal. Esse terror da perda é o criador de todas as angústias e ao mesmo tempo a mola mestra da atividade humana, influenciando tanto seu comportamento quanto a sua subjetividade.

Os valores aos quais nos prendemos tornam-se inconsistentes quando pensamos na possibilidade da impermanência. Costumamos resignificar idéias, conceitos e atitudes quando admitimos que em algum momento perderemos a oportunidade de estarmos no mundo com as coisas, com os outros e com nós mesmos. Queremos fazer tudo que todos fazem, viver todas as experiências possíveis vividas por todos, pois, sabemos que a qualquer momento essas possibilidades podem se tornar impossibilidades.


Quem nunca perdeu na vida? Viver significa correr riscos e riscos levam a perdas e ganhos. Não há quem somente vença, tampouco quem seja eterno perdedor. Perder muitas vezes dói, machuca, incomoda, frustra. Perder um parente, um emprego, uma oportunidade, um amor, uma chance de ser feliz; tudo isso representa um momento de grande sofrimento na vida de cada pessoa. Há quem não suporte, porém, a maioria das pessoas consegue dar a volta por cima. É isso dá força para continuar arriscando, continuar vivendo.


Algumas perdas são necessárias, aquelas com as quais somos confrontados diariamente e que às vezes não entendemos o porquê, mas certamente há uma razão. Talvez a principal razão seja de desacomodar, de fazer com que as pessoas saiam do comum, do ócio, da preguiça, do comodismo. A estabilidade das coisas traz uma acomodação e as pessoas tendem a se acostumar até mesmo com as coisas ruins: um mal relacionamento, um mal emprego, uma casa desconfortável etc. Muitas vezes é preciso um choque para que haja uma nova ação ou uma nova atitude.


Quantas pessoas perdem boas oportunidades pelo medo de mostrar-se capaz de assumí-las? Quantas pessoas são surpreendidas com uma demissão por não acompanharem a evolução da empresa? Quantos casamentos são desfeitos por não observar as insatisfações dos parceiros? Muitas vezes, o choque, a decepção, o inconformismo, a raiva, a depressão, a vontade de chorar, de bater em todos, de brigar com o ex-chefe... enfim, tudo isso vem misturado com um gosto amargo de perda.


A pessoa pensa que tudo para ela dá errado, que não tem sorte, que é um fracasso, pode encontrar a resposta nas próprias atitudes. É preciso reformular a si mesma, na forma de pensar e agir, na reflexão do que se quer e do que se pretende no futuro. Quando acreditamos que simplesmente perdemos algo ou alguém, não estamos tendo a percepção mais ampla do que precisamos aprender com aquilo. A perda por si só não existe, ela é uma resposta a algo maior. E, tenha certeza de que, na maioria das vezes é fruto de nossas ações ou da falta delas.


Sentir-se vítima ou derrotada é um papel extremamente cômodo. Quando alguém diz: “não tive oportunidades na vida”, é mentira. A vida é feita de riscos e todo risco leva a perdas e ganhos. Quem não arrisca não perde e nem ganha. Não tem oportunidades porque não as cria. As oportunidades não caem do céu, elas são geradas por nossas buscas ou por meio de nossos atos. Aqueles que incessantemente buscam oportunidades estão correndo os riscos de não conseguirem alcançá-las, mas tem a coragem de serem os autores de suas próprias vidas. Isso já é o suficiente para se sentirem vencedores.

Se você quer o emprego dos seus sonhos, ou uma vida melhor, ou um relacionamento mais satisfatório, é preciso correr riscos. É preciso ter coragem de tentar, há 50% de chance de dar certo ou errado. Mas se você não arriscar, nunca saberá.

As perdas necessárias são importantes para que possamos amadurecer nossa capacidade de superação. Refletir sobre nossas perdas e buscar os motivos de cada uma delas, é enxergar além da perda em si. É muitas vezes nas perdas é que ganhamos, porque para muitas perdas há ganhos, pelo menos de uma grande experiência que nos ensina a lidar com o medo das perdas e das mudanças. 

sábado, 22 de janeiro de 2011

Pandora, a deusa da ressureição



Os gregos acreditavam que no início do mundo as mulheres não existiam e que os homens levavam uma vida de abundância e despreocupação, passando incontáveis anos nessa bem-aventurança, sem conhecerem a dor, a doença, o ódio e a inveja, até que, um dia, adormeciam para nunca mais acordarem. O aparecimento de Pandora na Mitologia alterou esse Paraiso.

Prometeu "o que pensa antes" e Epimeteu "o que pensa depois" se tornaram os criadores da raça humana e dos animais. Epitemeu havia criado os animais, colocando neles as características da força, coragem, os dentes e as garras afiadas para lutar. Prometeu sabia que nas entranhas da terra dormiam algumas sementes dos céus. Pegando um pouco de terra em suas mãos, molhou-a obtendo a argila. Moldando-a obteve uma imagem semelhante aos deuses. Para dar vida à sua criação, Prometeu colocou no peito da imagem todas as boas e más características dos animais. Com o sopro divino, o homem adquiriu vida e os primeiros seres humanos passaram a caminhar sobre a terra, povoando-a.

Porém o homem saia das mãos de Prometeu, nú, vulnerável, indefeso, sem armas e sem conhecimento. Condenados desde o seu nascimento, os primeiros homens se nutriam de frutas e carne crua, e usavam folhagens para se protegerem do frio. Tinham como abrigo apenas grutas profundas e escuras, não sabendo usar a centelha divina com a qual haviam sido presenteados. Podiam ver, mas não percebiam a beleza do céu azul e nem das estrelas. Podiam comer, mas não saboreavam as frutas. Podiam escutar, mas não sonhavam com o barulho das cascatas e o som divino do canto dos pássaros.

Enquanto Zeus reinava junto com os outros deuses, exigia dos humanos honras e sacrifícios em troca de sua proteção. Prometeu intercedeu como defensor de suas criaturas e pediu aos deuses que não exigissem tanto delas. E para por à prova a clarividência de Zeus, sacrificou um enorme touro, dividindo-o em duas partes. Os deuses do Olimpo deveriam escolher uma das partes, e a outra parte seria dos homens. Os montes pareciam desiguais. Um dos montes tinha apenas ossos cobertos com o sebo do animal, parecendo ser maior. A outra parte era apenas de carnes cobertas com a pele de Touro. E assim Zeus escolheu o monte maior, mas ao descobrir que fora enganado por Prometeu, recusou-se a dar aos homens o último dos dons para que eles se mantivessem vivos: o fogo. Simbolicamente, Zeus privou o homem da luz na alma, da consciência.

Sentido pena das criaturas, Prometeu desceu à terra para ensinar os homens a domesticar os animais, fazer seus barcos e navegar, fazer remédios para curar suas feridas, além de ensiná-los a cantar e ver as estrelas. Deu-lhes o dom da profecia para o entendimento dos sonhos; mostrou-lhes o fundo da terra e suas riquezas minerais: o cobre, a prata e o ouro para fazer da vida algo mais confortável. Por fim, roubou uma centelha do fogo dos deuses e deu à humanidade.

Com o fogo Prometeu ensinou aos homens a arte de trabalhar os metais. Esta seria uma forma de reanimar a inteligência do homem, dando-lhes consciência, e de proporcionar melhores condições de vida para poderem se defender com armas eficazes contra as feras e cultivar a terra com instrumentos adequados. Logo que a primeira semente do fogo do Sol foi utilizada em fogueiras, a humanidade passou a conhecer a felicidade de viver melhor, de cozinhar, aquecer-se e receber luz.

O fogo era o símbolo do espírito criador que pertencia somente aos deuses. Porém com sua alegria imoderada, os homens julgaram-se iguais aos deuses, esquecendo seus deveres. Enfurecido, Zeus viu que o novo brilho que emanava da Terra era o do fogo. Pensou numa vingança sutil e enviou a bela jovem Pandora, dotada de todos os encantos.

De Afrodite, Pandora recebeu a beleza, o desejo indomável e os encantos que seriam fatais aos indefesos homens. Apolo deu-lhe a voz suave do canto e a música. As Graças a adornaram com a riqueza e Hermes deu-lhe o dom da persuasão, a graciosa fala e coração cheio de artimanhas, imprudência, ardis, mentira e astúcia. Por tudo isso ela recebeu o nome de Pandora "a que possui todos os dons". Por não ter nascido como uma deusa, Pandora era conhecida como uma semideusa.


Embora alertado por Prometeu "o que pensa antes", para não receber nenhum presente dos deuses, seu irmão se apaixonou pela jovem e a levou para junto dos homens. Epimeteu recebeu Pandora como uma dádiva divina, tornando-se o primeiro marido da história. Hermes, o mensageiro dos deuses, lhe trouxe uma caixa como presente de casamento. Dentro da caixa estavam todos os males que o mundo ainda desconhecia: o Medo, o Sofrimento, o Trabalho e Esforço para sobreviver, o Frio, a Fome, as Doenças, a Míseria, a Violência e todos os demais sofrimentos, e Hermes lhe recomendou não abrir a caixa.

Zeus esperava que a curiosidade de Pandora vencesse aquela recomendação de Hermes, e eles foram felizes por muito tempo, até que Epimeteu atraído pelo barulho que vinha de dentro da caixa e vencido pela curiosidade, pediu a Pandora para abrir a caixa. Imediatamente libertou todos os males que afligiriam aos homens e modificaria o destino da humanidade. Pandora caiu fulminada. Assim, essa narração mítica explica a origem do males, trazidos com a perspicácia e astúcia “daquela que possui todos os dons”.

Hades, o deus com interesse nas ambições de Pandora, procurou as Moiras, dominadoras do tempo, e lhes pediu para que voltassem o tempo. Sem permissão de Zeus, elas nada puderam fazer. Hades convenceu o irmão a ressuscitar Pandora e lhe dar a divindade que ela sempre desejara. Foi assim que Pandora tornou-se a deusa da ressurreição. Para um espírito ressuscitar Pandora entrega-lhe uma tarefa; se o espírito cumprir a devida tarefa, ele é ressuscitado. No entanto, Pandora só tem tarefas impossíveis, e por isso nenhum espírito ressuscitará.

Com Pandora iniciou-se a degradação da humanidade. Para explicá-la, o poeta Hesíodo introduziu o mito das Cinco Idades, em que as raças sucedem-se em decadência progressiva.
  • Na Era do Ouro o homem não precisava fazer nenhum esforço para sobreviver. Tudo permanecia intocado pois não havia necessidade de fortificações, armas ou barcos. Uma era de inocência e felicidade onde a verdade prevalecia e não havia nenhum juiz para ameaçar ou punir.
  • Na Era de Prata, Zeus encurtou a Primavera e assolou a Terra com o calor e frio criando as estações. As casas se tornaram necessárias, a terra deveria ser tratada para produzir frutos e a juventude eterna não existiria mais.
  • A Era do Bronze deu início aos conflitos.
  • Na Era dos Herois, Astréia foi a última Deusa a deixar a humanidade. Ela era a Deusa da Inocência e da Pureza que depois de deixar a Terra foi colocada entre as estrelas na Constelação de Virgem – a Virgem Temis ( Justiça ) era a mãe de Astréia ou Dike. Ela é representada segurando uma balança onde ela pesa as reclamações dos lados oponentes.
  • Na Era do Ferro as discórdias aumentaram. O crime, a ambição e a violência reinaram expulsando a modéstia, a verdade e a honra.

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A expressão Caixa de Pandora é usada em sentido figurado quando se diz que alguma coisa, sob uma aparente inocência ou beleza, é na verdade uma fonte de calamidades. Abrir a Caixa de Pandora significa que uma pequena e bem intencionada ação pode liberar uma avalanche de repercussões negativas. A Esperança contida na caixa, dependendo da perspectiva em que olharmos, também pode conter uma conotação negativa, pois a esperança pode minar as nossas ações nos fazendo aceitar coisas que deveríamos confrontar. E ainda nos previne contra a fé cega que não tem nenhuma ação positiva.

A imagem de Pandora e a esperança são símbolos de uma parte do ser humano que apesar das frustrações, desapontamentos e perdas, ainda tem forças para se agarrar ao sentido da vida e ao futuro, para superar a infelicidade do passado. Além dos planos para o futuro, Pandora representa a espera, pois a esperança é sempre uma tênue luz que brilha para nos guiar, mesmo que não dissipe a escuridão que nos aflige. É o desafio de viver ainda que tenhamos de confrontar com desafios maiores que a própria resistência, tal como aqueles que estiveram nos campos de concentração da Alemanha e da Polônia, que sentiram a força da esperança significando a diferença entre a vida e a morte.

A esperança é algo profundo e misterioso pois transcende a qualquer coisa, a qualquer catástrofe. Entretanto ela não surge de uma vontade, não é um ato deliberado. Ela aparece encerrada na Caixa de Pandora junto de todos os males, e quando conseguimos perceber seu brilho, então a reação às dificuldades são totalmente alteradas. É a fé em meio às atribulações que nos faz ressurgir, assim como Pandora que se tornou a deusa da ressureição.

Do Paraíso inicial, a humanidade decaiu até a idade do ferro, reino da maldade e da injustiça. O ato de Pandora provocou a perda do paraíso, mas dentro da caixa estava também a Esperança, a única que serviria para confortar os seres humanos; a única forma do ser humano não sucumbir às dores e aos sofrimentos da vida.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Nyx a rainha da noite



A deusa grega Nix era a personificação da noite, que desempenhou um papel importante no mito como um dos primeiros seres da existência. Filha do Caos, irmã gêmea de Érebo, a personificação da escuridão, eles foram as primeiras criaturas a emergir do vazio. Dessas forças primordiais sobreveio o resto das divindades gregas. Foi Nyx que colocou Hélios entre seus filhos: Hemera, Éther e Hespérides, quando os outros Titãs tentaram assassinar Hélios.

Deusa dos segredos e mistérios noturnos, rainha dos astros da noite, era cultuada por bruxas e feiticeiras, que
acreditavam que ela dava fertilidade a terra para brotar ervas encantadas. Acreditava-se que Nyx tinha total controle sobre vida e morte, tanto de homens como de Deuses, e os outros deuses respeitavam-na e a temiam. Zeus tinha enorme respeito e temível pavor da deusa da Noite.

Diziam que ela conhecia o segredo da imortalidade dos Deuses podendo
tirá-la e transformar um Deus em mortal, como ela fez com Cronos, após ser destronado por Zeus. Assim como Hades, Nyx possuía um capuz que a tornava invisível e podia assistir ao universo sem ser notada. Algumas vezes, a exemplo de Hades, cujo nome evitava-se de pronunciar, davam a Nix nomes gregos de Eufrone e Eulalia, isto é, Mãe do bom conselho.

Nyx aparecia ora como uma deusa benéfica simbolizando a beleza da noite; ora como a cruel
deidade do Tártaro, a Tartárea, que proferia maldições e castigava com terror noturno. Era também considerada deusa da Morte, a primeira rainha do mundo das Trevas e tinha dons proféticos.

Desposou seu irmão Erebus com quem teve os filhos Éter (luz celestial) e Hemera (Dia). Dizia-se que ela dominava os
limites do mundo e sozinha, sem se unir a outra divindade, procriara outros filhos:
  • Moros, o inevitável e inflexível destino
  • Leto, o esquecimento
  • Kera, a morte em batalha
  • Tânatos, a morte
  • Hypnos, o Sono
  • Oniro, a legião dos Sonhos
  • Momos ou Delirium, o escárnio
  • Oizus, a miséria
  • Hespérides, as guardiãs dos pomos de ouro
  • Moiras, as desapiedadas deusas do destino (Cloto, Laquesis e Átropos)
  • Nêmesis, deusa da retribuição
  • Apate, o engano e a fraude
  • Philotes, a amizade
  • Geras, a velhice
  • Éris, o desejo e a discórdia
  • Limos, a fome
  • Phtono, a inveja
  • Ênio Belona, deusa da carnificina
  • Lissa, a loucura e desespero
  • Caronte, o barqueiro do mundo dos mortos.
  • Em uma versão, as Erínias seriam filhas de Nyx.
Os filhos de Nyx eram a hierarquia em poder para os deuses, e sua maioria eram divindades que habitavam o mundo subterrâneo e representavam forças indomáveis e que nenhum outro Deus poderia conter. Tudo quanto havia de doloroso na vida dizia-se ser obra de Nix. A maior parte dos outros descendentes de Nyx que são apenas conceitos e abstrações personificados e sua importância nos mitos é muito variável.

Na tradição Órfica, todo universo e demais Deuses primordiais nasceram do Ovo Cósmico de Nyx. Certos poetas a
consideram como mãe de Urano e de Gaia e Hesíodo deu-lhe o posto de Mãe dos Deuses, porque sempre se acreditou que a Nyx e Érebo haviam precedido a todas as coisas. Muito frequentemente colocam-na no mundo subterrâneo, entre Hipnos e Tânatos, seus filhos.

Hemera e as Hespérides nasceram para ajudar Nyx a não se cansar, assim nasceu o ciclo diário: Hemera trazia o dia e se
relacionava com Eos - a aurora; Helios - o Sol e as Hespérides traziam a tarde e se relacionava com Selene, a Lua. Nyx traria a noite absoluta. Todas estas deidades em conjunto conduziam à dança das horas.

Outros deuses, de outras linhagens, complementavam os ciclos, a continuidade dos poderes gigantescos de Nyx do negro
véu: as Horas, que representam ciclos mensais e anuais; Leto e Hécate que recebem o legado de Nyx como deidade da noite; as Moiras, filhas de Nyx (Cloto, Laquesis e Átropos).

Nyx era representada com um manto negro recamado de estrelas por cima de sua cabeça ou representavam-na como uma mulher nua, com longas asas de morcego e um fanal na mão. Também era representada coroada de papoulas e envolta num grande manto negro, estrelado. Na mitologia grega a papoula era relacionada a Hipnos, que a tinha como planta favorita e, por isso, era representado com os frutos desta planta na mão.

Outras vezes era representada num carro arrastado por cavalos pretos, com um vasto véu semeado de estrelas e com uma lua minguante na testa ou como brincos. Nos relatos que aparecem em inúmeras referências, aparecem os filhos da noite como sendo perpétuos. Os perpétuos são: Sonho, Desejo, Destino, Desespero, Delirium, Morte e Destruição e seriam superiores aos deuses porque já existiam antes deles.

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Período sombrio quando a visão fica diminuída, a noite foi a grande geradora dos mitos, com os quais a humanidade explicava seus temores. Ruídos inexplicáveis e visões enevoadas, acendiam a imaginação dos antigos, fazendo surgir os inúmeros mitos que amedrontavam as pessoas diante dos seus medos e fobias.

O medo é um sentimento que conduz a um estado de alerta, quando nos sentimos ameaçados, podendo provocar reações
físicas como descarga de adrenalina, aceleração cardíaca e tremor. Precedida pela ansiedade, a pessoa teme por antecipação o encontro com uma pessoa ou objeto que lhe causa medo. Assim se pode traçar uma escala de graus do medo, que vai desde uma leve ansiedade ao grande pavor. Quando se dá demasiada atenção aos medos, surge a depressão, o pânico e o pavor, que é a ênfase do medo.

É normal sentirmos medo diante de um estímulo físico ou mental que gera uma resposta de alerta no organismo. Esta
reação inicial dispara uma resposta fisiológica no organismo que libera hormônios do estresse, a adrenalina, que é uma preparação para a fuga. É o instinto de se proteger. Porém o medo pode se transformar em uma doença, a Fobia, que pode comprometer as relações sociais e causar sofrimento psiquico.

Tem gente que tem de trovão e avião. Outros de injeção e escuridão. Tem gente que tem de polícia e outros de ladrão. Os
medos podem ser divididos em duas categorias: os normais e os irracionais.

Os medos normais são aqueles que se
encaixam na explicação científica do medo, são os temores que nos previnem do perigo, como por exemplo, medo de assaltos, medo de sequestro, medo de cair de um edifício alto, medo de ser demitido do emprego. Porém existem os medos irracionais são os que fazem mudar nossa rotina. Ter medo de assalto é normal e a pessoa pode tomar alguns cuidados ao sair de casa. Mas quando a pessoa não sai de casa por medo de assalto, então o medo passa a ser irracional.

Por trás de um medo, aparentemente banal, podem estar problemas mais graves, por exemplo,
uma pessoa que se vê mergulhada em reações paralisantes. A melhor maneira de descobrirmos de onde vem os nossos medos é analisar a nossa história de vida. Na maioria das vezes, o medo surge na infância, quase sempre incutido pelos adultos ou por experiências traumáticas. O medo é aprendido, pois a criança não teme nada.

Quando o medo começa a atrapalhar a vida, a solução quase sempre é simples na teoria e difícil na prática. É importante descobrir que outras pessoas sentem os mesmos temores e discutir como enfrentá-los. Como dizia o filósofo grego Epicuro: Para encontrar a felicidade, o homem precisa superar seu temores, até mesmo os medos da morte...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Faetonte e a impulsividade



Faetonte era o filho de Hélios e da ninfa Climene, que prometeu à ninfa quando nasceu Faetonte jamais recusar um pedido de seu filho e lhe confidenciou o caminho para chegar ao seu palácio. Faetonte crescia e os amigos duvidavam de que o resplandecente Helios fosse seu pai, e até ele mesmo tinha dúvidas. Por isso certo dia foi procurá-lo.

O palácio de Helios era um lugar fulgurante. Tinha o brilho do ouro, o lampejo do marfim e a cintilação das
jóias. Por dentro e por fora, tudo era resplendor e luminescência. Ali era sempre meio-dia, e a penumbra sombria nunca vinha turvar a claridade. A escuridão e a noite eram ali desconhecidas. Atravessando as portas que conduziam à sala do trono, onde estava o deus Helios, envolto por um brilho resplandecente e ofuscante, Faetonte parou.

Nada escapa aos olhos do deus Sol, que imediatamente se deu conta da presença do jovem.
Faetonte lhe disse que o motivo da sua viagem. Enquanto Faetonte observava o brilho de Helios percorrendo os caminhos do Céu, com sentimento misto de respeito e admiração, punha-se a imaginar como seria estar também naquele carro, dirigindo os corcéis ao longo daquela vertiginosa trajetória com a finalidade de levar a luz ao mundo. Assim, desejava concretizar seu sonho de, por apenas um dia, estar no lugar de seu pai.

Helios não poderia concordar mas devido à promessa que fizera no nascimento de Faetonte, teve de concordar, embora
jamais tivesse imaginado do desejo imprudente do filho. E devido à insistência do filho, Helios concordou porém lhe fazendo inúmeras advertências:

- " És filho meu filho mas és um mortal e a nenhum mortal é dado os poderes dos deuses. Porém reflete sobre a trajetória a seguir. Subindo a partir do mar, o caminho é tão íngreme que os cavalos mal conseguem avançar, por mais descansados que estejam pela manhã. Ao chegar à metade do percurso, a altura é tão vertiginosa que nem eu mesmo gosto de olhar para baixo. Mas muito pior é a descida, quando esta se precipita e os deuses do mar admiram quando me lanço abaixo. Guiar os cavalos é também uma luta infindável. Sua natureza de fogo vai tornando-os mais impetuosos à medida que sobem, e só com muita dificuldade consigo mantê-los sob meu controle. O que não fariam eles contigo? Deves imaginar que lá em cima existem todas as espécies de maravilhas, cidades divinas cheias de coisas belas, mas nada disso existe. Terás de passar por feras e terríveis animais de rapina; é o que verás. O Touro, o Leão, o Escorpião, o grande Câncer, todos eles tentarão fazer-te algum mal, e não duvides por um só instante que assim será. Olha ao teu redor e vê quantas coisas belas existem no mundo. Escolhe uma que seja o mais profundo desejo de teu coração, e ela será tua. Se desejas uma prova de que sou teu pai, que prova melhor posso dar-te do que meus receios pela tua vida?

Porém, para o jovem Faetonte, toda a sabedoria da conversa não surtiu efeito. Ele apenas conseguia visualizar a
perspectiva gloriosa de guiar orgulhosamente aqueles córceis que nem mesmo seu pai conseguia controlar. Sem se importar com os perigos que seu pai lhe descrevera, e sem nenhuma dúvida, Faetonte se preparava para partir. Seu pai viu que todas as tentativas de persuadi-lo a desistir da louca aventura eram inúteis.

As portas do leste já atingiam
seu brilho purpúreo e a Aurora já vinha abrindo o seu caminho cheio de luz rósea. As estrelas já começavam a abandonar o céu e a última estrela da manhã já partia. As guardiãs do Olimpo, as estações do ano, estavam preparadas para abrir as portas e os cavalos estavam preparados. Com grande júbilo e orgulho, Faetonte partiu. Tinha feito sua escolha, e só lhe restava agora arcar com as consequências. Não desejava mudar nada naquela primeira corrida magnífica pelos ares.

O próprio Vento Leste foi
ultrapassado; as velozes patas dos cavalos passavam pelas nuvens baixas, mais próximas do oceano, como se estivessem atravessando uma fina névoa marítima, e depois se elevavam rumo aos ares translúcidos das grandes alturas do Céu. Durante alguns momentos de puro êxtase, Faetonte sentiu-se o próprio senhor do firmamento.

Subitamente,
algo se modificou. O carro oscilava de um lado a outro; a velocidade aumentava e Faetonte percebeu que tinha perdido o controle. Os cavalos sairam do caminho habitual e se lançavam para todos os lados. Ele já não sabia como controlá-los, e na corrida louca e avassaladora, os cavalos mergulharam e incendiaram o mundo. Montanhas e florestas foram sendo consumidas pelas chamas; as fontes evaporavam e os rios se tornavam apenas regatos. O Rio Nilo fugiu e escondeu sua nascente, que ainda hoje permanece escondida.

Faetonte foi envolvido num calor
infernal e ele apenas queria que tudo aquilo terminasse para aliviar seu tormento e terror. A Mãe Terra lançou um grito que ecoou junto aos deuses e a salvação do mundo dependia de uma rápida ação. Zeus lançou um raio contra o imprudente condutor arrependido e Faetonte caiu morto. O carro foi destroçado e os cavalos enlouquecidos foram lançados nas profundezas do mar. O misterioso rio Eridano, nunca visto por qualquer mortal, recebeu o corpo de Faetonte extinguindo o fogo.

As Helíades,
suas irmãs, vieram chorá-lo e foram transformadas em álamos junto às margens do rio Eridano, onde pesarosas vertem lágrimas eternas no leito do rio. E cada uma delas, ao cair, cintila em suas águas como reluzente gota de âmbar. As Náiades, com pena de vê-lo morrer tão jovem e cheio de coragem, sepultaram-no e gravaram em seu túmulo: " Aqui jaz Faetonte; grande foi sua queda, grande foi o seu fracasso, grande foi sua tolice e grande foi seu castigo; porém grande foi sua ousadia e sua glória, de sua altura foram maior os seus sonhos!..

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O mito de Faetonte representa a virtude. Conduzir um carro é a representação simbólica da capacidade do ego de usar suas potencialidades e habilidades e ter sob controle os seus impulsos, desejos e vontades. Saber conduzir um carro é saber lidar com a noção de tempo e espaço, que são os princípios básicos que definem a condição humana; somos mortais submetidos à experiência terrena que não dura para sempre.

Aquele que conduz o carro representa tanto a natureza espiritual do homem quanto a sua natureza material.
O carro e seu condutor representam o corpo como veículo da alma em experiência; ele transporta esta alma pelo tempo que dura uma encarnação. O carro de fogo é um símbolo universal do carro alado da alma, a representação do ego, o veículo que possibilita a expressão do Self individual, que transporta a psique em sua experiência humana.

No aspecto material, representa o desejo da posse e do controle dos bens materiais, seu instinto de conservação e de destruição. No plano espiritual, representa a busca do controle dos instintos e das paixões desenfreadas. O carro e seu condutor representam o homem e a forma como ele lida com a realidade, o seu maior grau de consciência ou de inconsciência.

“In medio est vistus” - a virtude está no meio. O caminho do meio é uma expressão usada desde os antigos e sugere evitar os extremos. Os gregos ensinavam a prudência e a moderação como um estado de espírito saudável. O oposto dessa virtude era o orgulho, a vaidade e o desejo de onipotência. Nada em excesso, recomendavam os mestres ao contar histórias de homens e heróis castigados pelos deuses por conta de seus excessos.

O que seu pai lhe recomendara é que não podia ir rasteiro na terra, nem levantar altos voos no céu. O conselho final foi “Voa no meio e correrás seguro”. Porém Faetonte não percebeu que sua força era limitada. Embora fosse apenas um mortal, ele quis se igualar à divindade dos deuses e se tornou vítima de sua própria vaidade.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Glauco e a ninfa Sila



Glauco era uma divindade marinha cujas origens divergem, mas a lenda mais conhecida diz que era filho de um pescador. Um dia, pescando em uma ilha, descobriu que ao colocar na relva os peixes que pescava, os peixes retornavam à vida. Assim decidiu provar as folhas.

Logo sentiu vontade de entrar na água e os deuses Oceano e Tétis receberam o
novo membro com honras. Seu aspecto mudou, passou a ter cabelos verdes e cauda de peixe no lugar das pernas. A partir daí, pertencia definitivamente ao mar. Glauco se apaixonou pela bela ninfa Sila, mas não foi correspondido, pois ela se afastou assustada rejeitando sua aparência. Ele contou a história de sua metamorfose mas a ninfa continuou fugindo.

Glauco resolveu pedir ajuda à Circe, feiticeira
que morava na ilha. Solicitou-lhe uma poção para que retomasse seu antigo aspecto. Porém, Circe se apaixonou por Glauco e tentou fazê-lo mudar de ideia, dizendo que ele devia desprezar a ninfa e devotar seu amor a quem pudesse correspondê-lo, mas não adiantou. Glauco disse que era mais fácil árvores crescerem no fundo do oceano e algas no alto das montanhas do que ele deixar de amar Sila.

Como Circe o amava e não quis puni-lo, voltou-se
contra a rival. Foi até a Sicília e derramou uma poção venenosa na fonte em que a ninfa se banhava, pronunciando encantamentos. Quando Sila entrou na fonte, viu serpentes e outros monstros na água. Tentou fugir mas descobriu que os monstros eram partes de si mesma. Desesperada corre ao encontro de Glauco mas ele lamenta que a beleza perdida e sua rejeição anterior fez morrer o amor que sentia.

Sila retirou-se e foi viver no estreito Messina, entre a Sicília e a Itália, aterrorizando os mortais que antes a cortejavam,
deslumbrados com sua extraordinária beleza. Glauco passou toda sua existência na lembrança da bela e doce ninfa que se perdeu nos feitiços criados pelo ciúme. Presa no local, Sila tornou-se horrível como sua forma e passou a devorar os marinheiros que por ali passavam. Depois transformou-se num rochedo, mas mesmo assim continuou a ser o terror dos marinheiros, que passaram a evitar de navegar perto dos rochedos.

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O mito simboliza as tramas do amor não correspondido. Um dos mais terríveis sentimentos experimentados pelo ser humano é o de rejeição. Todo ser humano está sujeito a isso. Em algum momento de nossas vidas podemos nos sentir rejeitados, sentir-se não querido, não amado, não aceito, preterido, discriminado, humilhado. Isso provoca sensação de abandono e de depreciação. A rejeição pode ser real ou imaginária, mas sempre é dolorosa. Ocorre nos relacionamentos amorosos, na vida social, familiar ou no trabalho.


Algumas pessoas são mais sensíveis a esse sentimento e muitas vezes, basta um estímulo pouco significativo para sensibilizar uma personalidade já predisposta, que interpreta como uma rejeição de fato. Habitualmente são pessoas com baixa auto-estima ou que sofreram em situações anteriores. São afetivamente carentes e apresentam maior vulnerabilidade, já que desejam amor e aceitação a qualquer preço. Uma critica pode significar humilhação.

Nas relações amorosas a sensação de rejeição pode precipitar sérias consequências. Ao iniciar um relacionamento o medo da rejeição é normal e à medida em que a relação progride, essa insegurança diminui. Porém, em pessoas predispostas, ocorre o inverso. O medo da rejeição leva à necessidade insaciável de segurança e tem o mesmo efeito da rejeição real. Como consequência, seu comportamento se molda de modo a gerar raiva em seu parceiro. A todo o momento tem de ser ressegurado do afeto do outro.


Uma observação, um tom de voz, uma resposta considerada evasiva, mobiliza o sentido de perda e abandono. Quando não está junto, sente dúvidas sobre os sentimentos do outro. A insegurança reforça o sentimento de rejeição e o sentimento de rejeição reforça a insegurança. Parece emitir a mensagem: faça o que quiser, mas não me abandone, num constante estado de alerta a qualquer nuance que lhe soe rejeição. Finalmente a profecia se auto realiza. O relacionamento termina. A obsessiva solicitação, a desconfiança, o ciúme, acabam sufocando o parceiro que põe fim à situação.


Para qualquer um, o término de um relacionamento é desagradável. Pessoas emocionalmente maduras lamentam a perda, mas levam sua vida em frente. Pessoas imaturas, com baixa auto-estima, resistem à perda, reagem a ela como se perdessem a si mesmas e não ao outro. O amor próprio precário é ferido e a pessoa insiste em ter de volta o ser amado, considerando ser sua tábua de salvação.


A sensação crônica de rejeição leva à ansiedade, raiva, depressão, ao ciúme patológico e a pessoa pode entrar em processos autodestrutivos. Diferentemente do que pensam essas pessoas, a cura não é procurar encontrar um outro amor, pois ainda estariam vulneráveis à rejeição. O alivio é procurar a si mesmas, num trabalho de resgate da auto-estima que possibilite amar a si mesma, para poder amar e ser amada pelo outro.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Hera, a deusa das deusas



Na mitologia grega Hera é a deusa dos deuses, regente do casamento. Retratada como majestosa e solene, muitas vezes coroada, Hera algumas vezes ostenta em sua mão uma romã, símbolo da fertilidade, sangue e morte, um substituto para as cápsulas da papoula de ópio. Argos Panoptes foi um dos seus fieis ajudantes e em recompensa, após sua morte, ela o transformou em um pavão que passou a ser relacionado a ela. Iris era sua fiel servente e mensageira.

Hera, a mais excelsa das deusas, é representada na Ilíada como orgulhosa, vaidosa, obstinada, ciumenta e rixosa. Possuía sete templos na Grécia e mostrava apenas seus olhos aos mortais, usando uma pena do seu pavão para marcar os locais que protegia. Como esposa de Zeus, Hera também tinha poder sobre os fenômenos celestes. Podia derramar chuvas benéficas ou desencadear tempestades. A união de Zeus e Hera era como um símbolo de toda a natureza. O calor, as chuvas e os raios do sol que penetravam no solo através do casal, fecundavam a Terra.

Presidia a casamentos e nascimentos e era representada como uma respeitável matrona, conduzindo um cetro ou coroa. Em Roma seu festival era chamado Matronália, onde era tratada como Juno. Sua figura era considerada maléfica e vingativa, e Hera não poupava seus inimigos e suas rivais. Hera teve quatro filhos, e nem mesmo com eles, Hera foi condescendente:
  • Hefesto, a divindade do fogo e dos metais, foi considerado muito feio e desajeitado quando nasceu. Hera jogou-o do Monte Olimpo tornando Hefesto coxo. Mas Hefesto aprendeu um ofício e se tornou um hábil ferreiro. Casou com Afrodite, que tinha muitos amantes e seu principal rival era seu irmão Ares.
  • Ares, deus da guerra e da violência, tinha Éris como companheira de batalha - deusa da discórdia. Ares amava o calor da batalha e exultava em derrotar o inimigo. Sempre foi repelido pelos deuses pois estava sempre associado aos conflitos e guerras sangrentas, usando sua força bruta e sem refinamento. Era amante de Afrodite, a esposa de seu irmão Hefesto, com quem teve vários filhos, e também outras inúmeras amantes.
  • Hebe, a deusa da eterna juventude, servia néctar e ambrosia aos deuses. Casou-se com Héracles ou Hércules quando ele foi aceito no Olimpo.
  • Ilítia era a deusa responsável pelos partos e foi convencida por Hera a antecipar o parto da irmã de Alcmena, para evitar que Hercules fosse rei na Grécia.
  • Segundo as lendas, teria ainda gerado sozinha Tifão, um monstro terrível, que trazia o corpo coberto por escamas, cabeças de dragão entre os dedos, lançando fogo dos olhos
Hera e Zeus tiveram as núpcias no Jardim das Hespérides, em eterna primavera. Como legítima esposa de Zeus, Hera foi considerada protetora das esposas e do amor legítimo. A deusa era excessivamente ciumenta e sempre estava irritada com as infidelidades do marido, perseguindo suas amantes e filhos gerados com deusas e mortais.

Hera possuia muitas rivais, entre elas, a bela Calisto. Por inveja da sua imensa beleza, que conquistara o seu marido, transformou-a numa ursa. Helena de Tróia, possuia a reputação de mulher mais bonita do mundo e isso despertava a inveja em Hera. Outra de suas rivais foi Io, transformada em uma vaca e perseguida por Hera em muitas partes da terra.

O único filho de Zeus que Hera não odiava era Hermes e sua mãe Maia, porque Hermes demonstrou grande habilidade e inteligência, tornando-se o mensageiro dos deuses.
Hera também provocou a morte de Sêmele quando ela estava grávida de Dioniso e tentou impedir o nascimento dos gêmeos Apolo e Ártemis, filhos de Zeus e Leto. Para fugir da vigilância da esposa, Zeus se metamorfoseava em diferentes formas, como em touro, cisne, chuva de ouro ou no marido da mulher desejada, como fez para seduzir Alcmena, mãe de Hercules.

Quando Zeus engravidou a mortal Alcmena, Ilitia predisse que o primeiro neto do pai da Alcmena ia se tornar o rei da Grécia. Alcmena e sua irmã estavam grávidas. Hera, com ciúmes de Zeus, pediu a Ilítia que causasse o parto da irmã antes de 9 meses e nasceu Euristeus que se tornou rei da Grécia, posto que era reservado para Hercules, filho de Alcmena.

Hera odiava sobretudo Hercules. Quando ele nasceu, para torná-lo imortal, Zeus pediu a Hermes que o levasse ao seio de Hera e o fizesse mamar. Ele sugou o leite divino com tanta força que feriu a deusa. Hera o afastou com violência mas o leite continuou a jorrar e as gotas formaram a Via Láctea.


Hera tentou matar Hercules quando ele era apenas um bebê. Com sua tentativa frustrada de matá-lo ainda criança, Hera influenciou Euristeus, que o envolveu em muitas aventuras perigosas que ficaram conhecidas como "doze trabalhos". Mas Hércules destruiu seus sete templos e, antes de terminar sua vida mortal, aprisionou Hera em um jarro de barro que entregou a Zeus. Depois disso, ele foi aceito como deus do Olimpo.

Tirésias também foi uma de suas vítimas. Certa vez, tendo sido chamado para resolver uma questão entre Hera e Zeus, enraivecida com as verdades do adivinho, Hera o cegou. Ixíon, rei dos Lápitas, tentou seduzir a deusa, mas acabou abraçando uma nuvem, que Zeus confeccionou à semelhança da esposa. Os Centauros nasceram dessa união. Para castigar Íxion, Zeus fez com que se alimentasse de ambrosia, o manjar da imortalidade, e o lançou-o no Tártaro, onde ficou girando eternamente numa roda de fogo.

Durante as núpcias de Peleu e Tétis, Éris – a Discórdia – convidada a não comparecer, jogou uma maçã de ouro para a mais bela das deusas. Nessa célebre disputa da mais bela deusa entre Hera, Atena e Afrodite, Zeus incumbiu Paris de decidir a disputa. As deusas tentaram subornar Paris, prometendo presentes em troca do voto: Hera ofereceu o governo do mundo; Atena, sabedoria. Afrodite ofereceu o amor da mais bela mulher, conseguindo ganhar o cobiçado título. Isso deu origem à famosa Guerra de Troia.

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O mito de Hera se consolidou numa época em que a Grécia passava a defender os princípios da monogamia e a adotava como regra, tornando necessário a personificação de uma divindade que defendesse esses princípios. Eles foram atribuídos a Hera, deusa-rainha, deusa-mãe, elevada à companheira de Zeus.

As lendas que envolvem Hera mostram o ciúme excessivo, o desejo de vingança para punir as traições do marido, a perseguição às amantes do marido infiel e, consequentemente, os filhos que resultaram das infidelidades. É a personificação humana que mais se aflora dentro de um deus e suas características essenciais são levadas ao seu mais extremado zelo, que defende a perpetuação do amor único e exclusivo entre os casais, o senso de justiça limitado ao lar, ao casamento, à família, e a tudo que possa corromper esse universo.


Hera é considerada o mais irritante dos mitos, porém é o mais humano deles. É a personificação da mais pura essência da alma humana na forma de amar dentro de uma relação consolidada pela sociedade, opondo-se aos amores clandestinos e dos amantes da madrugada. É a essência do matrimônio e suas prisões psicológicas, que são menores do que a visão de uma sociedade talhada pelos princípios da monogamia.

Todo simbolismo está contido no princípio do lar, da esposa perfeita, mantendo o equilíbrio do casamento através da fidelidade exigida e jamais alcançada; da mulher disposta à contendas conjugais com motivos para isso. Nos dias atuais, embora a mulher conquistado seu espaço, os casamentos não se modificaram tanto assim. Permanecemos em uma sociedade patriarcal e o casamento ainda é considerado uma instituição de procriação.

As mulheres continuam a sofrer violências domésticas e profissionais. A busca do tão almejado casamento por amor com satisfação sexual plena, é castrado pelas concepções obsoletas cristãs. Mas apesar de todas as limitações e deficiências do casamento, a mulher sente-se profundamente atraída por estabelecer e manter um relacionamento conjugal. Romanticamente todas sonham em compartilhar a tarefa de criar seus filhos e estabelecer uma unidade chamada família.

Toda Mulher-Hera sabe que o casamento é o caminho pela qual se chega à inteireza e plenitude. O arquétipo de Hera leva a mulher a estabelecer um pacto de lealdade e fidelidade com seu companheiro para sempre. Hera é a personificação do feminino maduro, que sabe o que quer e só sentirá completa através do sagrado matrimônio. Hera estabelece o arquétipo da relação homem-mulher numa sociedade patriarcal, como esposa e companheira ideal. Assim, é uma deusa do casamento, da maternidade e da fidelidade, além de ser a guardiã ciumenta do matrimônio e da hereditariedade.

No mito, a prole pequena concebida dentro do casamento e numerosa nas relações extraconjugais, tem em Ares - o deus da guerra, filho de Zeus e Hera, o simbolo dos conflitos conjugais como também das tensões que nascem no mundo entre homens e mulheres. Quando se desfaz de Hefesto, o filho desajeitado e Tifão, o filho monstro, simboliza a rejeição da procriação sem amor. As duas lendas personificam a preocupação dos gregos com as imperfeições genéticas.

Hera não personifica os mistérios da maternidade, ela personifica os mistérios da mulher dentro das relações afetivas ou conjugais. O arquétipo de Hera se manifesta nas mulheres quando desejam apenas duas coisas: igualdade e parceria. A esposa-Hera assume o trono ao lado do marido para compartilhar do seu poder. Hera é a representação mais pura de que: " Junto de um grande homem, há sempre, uma grande mulher...

Argos Panoptes



Argos Panoptes, o monstro de cem olhos, era o fiel servo de Hera. Era ele quem cumpria as ordens de Hera liquidando quem ela determinasse. Foi ele quem liquidou Equidna, o monstro de natureza terrível que devorava viajantes inocentes, enquanto ela dormia. Também foi ele quem vigiava com seus cem olhos, que nunca dormiam, Io - a amante de Zeus, que foi transformada em novilha.

Recomendado por Zeus - o marido de Hera, Hermes fêz Argos Panoptes dormir e matou-o. Quando Argos morreu, Hera o transformou de monstro a um lindo e exuberante pavão real, com suas penas marcadas pelos olhos de Argos Panoptes, em reconhecimento por suas grandes tarefas cumpridas.

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O mito de Argos Panoptes representa os fiéis servidores que cumprem suas tarefas com prontidão e competência, tomando para si a responsabilidade para o bom desenvolvimento do seu trabalho. Argos era incumbido de tarefas que visavam eliminar problemas e ele não se distraia de suas incumbências.

Por sua eficiência, Argos foi reconhecido nas tarefas cumpridas. Assim também devemos reconhecer o esforço e dedicação daqueles que nos servem, que se dedicam a nós, com seu trabalho e sua atenção.


Hera tinha em Argos um aliado que a ajudava nas suas intenções. Assim também, quando necessário, não devemos nos acanhar em pedir ajuda, em compartilhar os nossos problemas. Mesmo nas piores situações, sempre há algo a se fazer. A saída sempre existe, mesmo sendo difícil de encontrá-la. Devemos nos apoiar naqueles que possam nos ajudar a superar nossos pontos fracos.

Também só devemos ajudar a quem pede ajuda para evitarmos interferir demais na vida das pessoas. E quando alguém pedir algo,
só devemos dizer "sim" se realmente estivermos dispostos e em condições de atender ao pedido. Não devemos nos culpar quando não podemos atender.



Io e Zeus, a força da determinação

 

Io era uma jovem princesa e sacerdotisa de Hera por quem Zeus alimentava uma secreta paixão. Para seduzí-la, Zeus cobriu o mundo com um manto de nuvens escuras na tentativa de esconder seus atos da visão de sua esposa Hera. Na vã tentativa de iludir sua esposa ciumenta, Zeus transformou a amante em uma belíssima novilha branca.

Intrigada pelo interesse e atenção que o marido dedicava ao animal,
Hera exigiu a novilha para si e colocou-a sob a guarda do gigante Argos Panoptes que tinha cem olhos e nunca dormia. Mas Zeus encarregou Hermes de libertar sua amada. O mensageiro dos deuses conseguiu fazer dormir e matar o monstro libertando Io de seu cativeiro. Hera recolheu os olhos de seu servo e os colocou na cauda do pavão, animal consagrado a ela.

Io se livrou do
cativeiro mas não se livrou de Hera. Io perambulou de Micenas até a Trácia, sendo as praias por onde ela percorridas chamadas de Mar Iônio. Ao chegar ao Monte Cáucaso encontrou Prometeu acorrentado em uma rocha. Ele profetizou que Io teria sua forma humana restaurada quando chegasse ao Egito e onde teria um filho.

Quando Io chegou às margens do Nilo a previsão se concretizou: ela recuperou a forma humana e nasceu Épafo. Hera
tentou roubar-lhe o filho, mas Io o protegeu e reinou sobre o Egito sob o nome de Isis ao se casar com Telégono. Sua coroa tinha dois pequenos chifres de ouro, lembranças de sua transformação.

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O mito de Io está relacionado à determinação, ao caminhar sem se deter, em busca de um ideal ou de uma transformação. Lentamente por sua densidade, Io percorreu grande distância para chegar ao Egito. Assim também predomina o nosso espírito de determinação, onde podemos chegar a um ponto onde iremos encontrar abundância e segurança. Mas para isso é necessário ter a força, o ímpeto, a ousadia e a franqueza.

A franqueza define, delineia e fortalece as
pessoas. Assim como Io, as experiências pelas quais passamos durante a nossa vida, devem servir para buscarmos novas formas de viver, que nos transformarão em seres mais humanos. E também para aprendermos que, a melhor maneira de lidar com os problemas, é sempre enfrentando-os.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os destinos atrelados de Aquiles e Heitor




Aquiles era filho de Tétis, que o mergulhou nas águas do rio Esfinge tornando-o invulnerável, exceto pelo seu calcanhar, por onde sua mãe o segurou. O calcanhar de Aquiles era seu ponto fraco. Heitor era filho de Priamo, rei de Troia, e no mais famoso confronto da Guerra de Troia, Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos, venceu facilmente o mais valoroso dos troianos, que era Heitor.

Aquiles se recusava a participar da guerra, porém seu grande amigo Pátroclo furta-lhe a armadura e vai para o campo de batalha onde acabou por encontrar a morte nas mãos de Heitor, que pensava estar lutando com Aquiles. Enlouquecido de dor pela perda de seu amigo, Aquiles saltou sem armas para o campo de batalha e num bramido demente e insano, só pensou em vingar-se e investiu sobre Heitor matando-o.

Não satisfeito em matá-lo, Aquiles amarrou o corpo de Heitor no seu carro e o arrastou pelo pó da planície até o
acampamento grego, onde o deixou insepulto para ser devorado pelos cães famintos que rondavam o campo de batalha. Do alto das muralhas os troianos assistiram estarrecidos seu herói ser morto por Aquiles, mas ninguém se desesperou mais do que seu pai, o velho rei Príamo, por não poder dar ao seu filho um digno funeral.

No Olimpo os deuses também
se indignaram com o triste fim de Heitor, pois ele era um homem justo, um grande guerreiro e não merecia esse derradeiro ultraje. A uma ordem de Zeus, o cadáver do herói foi coberto por um bálsamo divino que impedia a putrefação. Íris a deusa mensageira, foi sugerir a Príamo que oferecesse um rico resgate pelo corpo, como era costume entre os gregos, enquanto a deusa Tétis, mãe de Aquiles, foi até sua tenda para convencê-lo a devolver Heitor à sua família.

Príamo deixou a
cidade e dirigiu-se ao acampamento grego, com uma carreta pesada de riquezas. Hermes, o deus dos caminhos, guiou-o na escuridão até o campo inimigo. Lá, Hermes adormeceu os guardas e o carro pode passar desapercebido, deixando Príamo frente à tenda de Aquiles, que surpreendeu-se quando o velho rei surgiu à sua frente, de joelhos a suplicar: " Dá o meu Heitor de volta, Aquiles! Pensa no teu pai, que também deve ter cabelos brancos e deve te amar como eu amei meu filho!"

Ouvindo essas palavras, Aquiles lembrou com tristeza que seu pai, o velho Peleu, devia estar de longe, lá na Grécia,
esperando seu retorno, sem saber que o oráculo havia predito que ele não voltaria de Tróia. Comovido, ele tomou as mãos de Príamo, e os dois, frente a frente, unidos pelo mesmo sentimento de dor e solidão, irromperam num pranto comum que veio encher a imensidão daquela noite com os seus soluços, não mais como dois inimigos, mas como dois simples homens que choravam a infinita saudade de todos os pais e de todos os filhos que nunca mais irão se ver.

Este é o tema central da cena magistral que Homero escolheu para encerrar sua Ilíada e o restante seria contado na
Odisséia. Após a morte de Heitor, muitos aliados ajudaram os troianos. Aquiles foi morto por uma flecha que o atingiu justamente no calcanhar, lançada por Páris, o filho recém nascido que o rei Priamo havia abandonado nas montanhas, e que motivou a Guerra e a destruição de Troia.

O corpo de Aquiles foi resgatado com grande dificuldade pelos gregos. Sua mãe havia profetizado que ele
poderia escolher entre dois destinos: lutar em Troia, alcançar a glória eterna mas morrer jovem; ou permanecer em sua terra natal e ter uma longa vida, mas sendo logo esquecido. Aquiles preferiu a glória...

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O destino de Aquiles, Páris e Heitor não estava determinado pelo oráculo; Aquiles podia se valer do livre arbítrio. Ele tinha o poder de escolher sobre seu destino. As expressões figurativas do mito mostram exatamente a construção dos destinos. Somos os únicos responsáveis por tudo que nos acontece. Nenhum fato de nossas vidas acontece sem que tenhamos colaborado, consciente ou inconscientemente, por sua realização.

Todos nós temos ciclos na vida que determinam nossa entrada na vida dos outros e de outros em nossas vidas, atrelando todos num elenco. O que ocorre é uma correspondência, uma inter-relação permanente em tudo. A interpretação está exatamente em correlacionar o que acontece com uma pessoa, ligando-a a outras coisas. É dar significado e recodificar os fatos. Um exemplo é quando você percebe que acontecem fatos simultãneos, que aparentemente não teriam relação entre si.

Existe uma teoria que é a sincronicidade, em que tudo acontece num mesmo tempo determinado, parecendo estarem interligados na mesma corrente de significados. A teoria junguiana explica que se você está pensando uma coisa e aquela coisa acontece, então esse é o agente de correspondência e interligação de uma rede. As conexões são muito mais profundas e existe uma teoria de Danna Kuningham que ela chama de simpatia.

Simpatia quer dizer que você seleciona e está mais empático com uns do que com outros. Sua percepção está alterada, seu magnetismo se torna alterado, seu nível energético se altera, e você atua magnetizando uns e afastando outros. Além de você selecionar, o seu campo vibratório tem maior ressonância para algumas coisas, pessoas e fatos; e menor ressonância para outros. Assim se tece a teia do destino, que nos encaminha exatamente para onde permitimos ser encaminhados, através do livre arbítrio que nos concede o poder das escolhas.
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O segredo do Rei Midas



Dizem que o Rei Midas da Frígia era um sujeito atrapalhado, que ousou afirmar um dia, que a flauta tocada pelo sátiro Marsias era muito mais melodiosa do que a harpa tocada por Apolo. Quando o deus da música soube disso ficou furioso e castigou aquela afronta fazendo as orelhas de Midas crescerem longas e peludas, como as orelhas de burro. Para ocultá-las, o rei colocou na cabeça um barrete vermelho do tipo que os camponeses frígios costumavam usar naquela época.

Depois de um ano, o cabelo do rei tinha crescido tanto que ele precisou chamar um barbeiro ao palácio. Com ar ameaçador, Midas conduziu o homem a uma sala sem janelas e fechou a porta com chave. Quando tirou o barrete e deixou as longas orelhas à mostra, o barbeiro começou a trabalhar com suas tesouras como se nada notasse de diferente. Ao terminar o corte, Midas avisou-o que aquilo era segredo e o ameaçou caso contasse para alguém.

O barbeiro aparentando indiferença, disse: - Não sei do que Vossa Majestade está falando, pois eu nada vi nesta sala que já não tivesse visto antes. O rei ficou tão satisfeito com a resposta que o gratificou generosamente. O barbeiro saiu do palácio trêmulo por perceber que tinha estado em grande perigo.

Pouco a pouco aquele segredo começou a pesar tanto para o pobre barbeiro que ele acabou ficando mais infeliz do que o rei orelhudo. Precisava contar aquilo para alguém, dividir aquele peso insuportável, aliviar sua mente mas temia ainda as ameaças do rei. Continuou a sofrer até que um dia, teve uma inspiração. Afastou-se o mais que pode da cidade e, lá longe, na curva deserta de um rio, cavou um buraco na margem, ajoelhou-se na areia úmida e sussurou ao buraco três vêzes: "Midas tem orelhas de burro".

Aliviado, repôs a terra cuidadosamente, cobrindo assim as perigosas palavras que tinha proferido e retornou em silêncio para casa. Mas bem ali, naquele ponto onde cavou o buraco, algum tempo depois nasceu uma touceira de juncos que, na primavera seguinte, quando o vento agitava suas hastes flexíveis, faziam um barulho que parecia reproduzir na linguagem deles, o segredo que tinha sido confiado à terra: "Midas tem orelhas de burro".

O vento espalhou aquele segredo pelos campos, e os campos o repetiu para os cascos dos cavalos que por ali passavam, em direção à cidade, e a cidade o repetiu nas esquinas, nas feiras e no mercado, até que todos se inteirassem daquele fato.

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Enfrentar a verdade é um modo de evitar tornar-se refém da mentira e das falsidades que tenta sustentar embora saiba que elas tem uma vida curta. Tornar-se íntegro e inteiro é o modo mais eficiente e prático de viver, sem simulações que cedo cedem lugar ao que é verdadeiro.

Midas foi um grande tolo, como tolos são todos aqueles que pensam poder ocultar, com dinheiro, poder e ameaças, as suas orelhas de burro. Mais cedo do que imaginam, o vento espalhará pela cidade os segredos e as verdades que em vão tentam esconder.

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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