terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Cíclopes



Os ciclopes, que significam "olho redondo", eram gigantes imortais, alguns com um só olho no meio da testa. Eles aparecem em vários mitos da Grécia, porém com uma origem bastante controversa. Os ciclopes eram divididos em dois grupos de acordo com o tempo de existência: os ciclopes antigos ou da primeira geração e os ciclopes jovens - a nova geração. De acordo com sua origem, esses seres eram organizados em três diferentes espécies:
  • os contrutores que provêm do território da Lícia,
  • os urânios, filhos de Urano e Gaia,
  • os sicilianos filhos do deus dos mares Posídon.
Nova geração de Cíclopes

Os Cíclopes mais jovens ou da nova geração eram gigantes e tinham apenas um olho na testa. Porém, diferentemente das raças anteriores, eram pastores e viviam em uma ilha chamada Hypereia, conhecida entre os romanos como a Sicília. Diz-se que essa nova raça de ciclopes nasceu do sangue do deus Urano que espirrou sobre a Terra.

A terceira raça de Cíclopes eram denominados construtores, provenientes do território da Lícia. Esses posuíam grande poder físico e não eram violentos. A eles eram dados trabalhos muito pesados que nenhum humano conseguiria realizá-lo tão facilmente. Talvez tenha sido esses ciclopes que construiram as muralhas de Tirinto e Micenas.

Os Urânios

Os urânios, Arges, Brontes e Estéropes são considerados os ciclopes mais antigos descendentes de Urano e Gaia. Diz a lenda que, ao nascerem com enormes poderes, seu pai Urano, senhor dos céus, trancou-os no interior da Terra com seus irmãos os hecatônquiros, os gigantes de cinquenta cabeças e cem braços. Indignada por ter os filhos presos no Tártaro, Gaia os convenceu a apoiar a guerra travada pelos titãs. Filhos de Urano, os Titãs pretendiam tomar o trono do pai que governava os céus.

Os titãs venceram, porém os ciclopes foram enviados novamente para o abismo do Tártaro. Algumas vezes, os titãs Zeus, Posídon e Hades, libertava os ciclopes com a intenção de tê-los como aliados na guerra contra Cronos e os titãs. Os ciclopes, como bons ferreiros, forjavam armas mágicas e poderosas: Zeus recebeu raios e relâmpagos, Posídon recebeu um tridente capaz de provocar terríveis tempestades e Hades um capacete da invisibilidade.

Tempos depois, quando os ciclopes já eram considerados ministros e ferreiros permanentes de Zeus, o grande deus percebeu uma ameaça no médico Asclépio, filho do deus Apolo, que conseguia fazer ressuscitar os mortos. Para que isso não causasse qualquer impacto com a ordem do mundo, Zeus decidiu exterminá-lo. Ofendido com a ira de Zeus sobre seu filho Asclépio, Apolo decidiu matar os ciclopes que fabricavam os raios de Zeus. Há outras versões sobre o desaparecimento dos cíclopes.

Os sicilianos

Os sicilianos são retratados nos poemas homéricos como gigantescos e insolentes pastores fora da lei, que habitavam a parte sudoeste da Sicília. Não se importavam muito com a agricultura e todos os pomares cultivados eram invadidos por eles quando procuravam por comida. Algumas vezes se alimentavam de carne humana, por isso eram considerados como seres sem lei e sem moral. Morando em cavernas, cada um vivia com sua esposa e filhos que eram disciplinados de forma muito arbitrária.

Segundo Virgílio e Eurípedes, os cíclopes eram assistentes de Hefesto e trabalhavam com ele dentro dos vulcões no Monte Etna na Sicília, como também em outras ilhas próximas. Sendo ferreiros, eles trabalhavam para os deuses e heróis, forjando suas armas. O poder dos ciclopes era tão grande, que a Sicília e outros locais mais próximos conseguiam ouvir o som de suas marteladas enquanto trabalhavam na forja. Devido ao aumento da população de cíclopes, sua moradia teria sido remanejada para a parte sudeste da Sicília.

Foi exatamente um desses ciclopes, que Ulisses encontrou quando de sua viagem de regresso a seu lar em Ítaca. Quando Ulisses e seus homens desembarcam na terra dos Ciclopes no caminho de Troia até Ítaca, eles buscaram abrigo numa gruta. Polifemo que era antropófago, filho de Posídon e da ninfa Teosa, morava nessa gruta e não foi amistoso. Logo Polifemo devorou um dos homens. Arquitetando um plano, quando o gigante perguntou seu nome, Ulisses disse que se chamava Ninguém.

Ulisses ofereceu vinho a Polifemo embebedando-o. Enquanto Polifemo dormia, Ulisses furou seu olho e escapou com seus amigos embaixo de peles de animais. Urrando de dor, Polifemo foi socorrido por outros cíclopes mas só conseguia gritar que “Ninguém queria matá-lo”. Por ser filho de Posídon, o deus dos mares, Ulisses foi perseguido por um longo tempo retardando seu retorno para sua casa.


Calisto, a constelação da Ursa Maior



Calisto era filha de Licaon, um fanático que foi transformado em lobo. Licaón tivera quase 50 filhos que eram tão cruéis quanto o próprio pai e se tornaram famosos por sua insolência e seus crimes. Tão logo ficou sabendo das barbaridades dos filhos de Licaón, Zeus se disfarçou de um velho mendigo e foi ao palácio dos Licaónidas para comprovar os rumores.

Os jovens príncipes tiveram a ousadia de assassinar o próprio irmão Níctimo e servir suas entranhas ao hóspede, misturadas com entranhas de animais. Zeus descobriu a crueldade e enfurecido converteu todos em lobos, exilando-os. Apenas Calisto, a bela ninfa filha de Licaón por quem Zeus se apaixonou, foi poupada.

Zeus e Calisto tiveram um filho, Arkas. Não suportando a traição, a ciumenta esposa de Zeus transformou Calisto numa enorme ursa e assim ela fugiu para a floresta. Às vezes Calisto vagava durante as noites ao redor de sua casa com a esperança de ver seu filho, mas ela agora não podia mais conviver no meio dos homens e seu espírito não admitia a possibilidade de conviver com as embrutecidas feras.

Hera tirou-lhe a voz e Calisto tentava lutar contra seu destino tentando despertar a piedade dos deuses, apesar disso, ela só conseguia rugir. Sua vida era repleta de medo dos caçadores que rodeavam sua antiga casa e ela temia as noites que passava sozinha. Temia as feras embora ela mesma fosse uma delas.

O tempo passou e seu filho Arcas cresceu transformando-se em um belo jovem. Certo dia, em uma de suas caminhadas pelo bosque, Calisto reconheceu seu filho Arkas, um homem caçador. Envolvida pela emoção Calisto quis abraçá-lo, mas foi tomada de pavor quando Arkas ergueu a lança para desferir-lhe um golpe certeiro. Ela quis falar com o filho mas de sua garganta saiu apenas um terrível rugido. Arkas esteve frente à sua mãe mas logicamente não a reconheceu.

Aterrorizado Arkas preparava uma flecha para acertar a Ursa mas Zeus compadeceu-se do amor de mãe filho separados e transformou-a na Constelação da Ursa maior. Para que estivessem sempre juntos, Arkas foi transformado na constelação da ursa menor, o guardião da ursa.

Indignada com a interferência e as honras concedidas a Calisto e Arkas, Hera empurrou os dois para perto do pólo norte onde as estrelas seriam sempre visíveis, mas mãe e filho nunca teriam descanso. Hera ainda pediu a Tétis que jamais permitisse que as duas constelações mergulhassem nas águas puras do oceano. Por essa a razão, as duas constelações movem-se sempre em circulos no céu ao contrário de outras que estão sempre junto à linha do horizonte.

Junto a elas colocou a constelação do Boieiro para que não as deixe afastar do pólo gelado. Arcturo, a brilhante estrela do Boieiro, ficou de guarda às ursas para que não se afastassem do gélido pólo. O vocábulo «Ártico» significa «norte» e Arcturo têm a mesma origem grega.

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A Ursa Maior e Ursa Menor, estando perto do pólo, são sempre visíveis nas noites de quase todo o hemisfério norte, por isso são chamadas constelações circumpolares. O asterismo das sete estrelas da Ursa Maior, sendo claramente reconhecível, é de uma grande ajuda para nos orientação no céu. Na cauda da Ursa Maior está a famosa estrela Polar.

Na antiguidade, as estrelas serviam de orientação para os gregos, para as caravanas que atravessavam os desertos e os marinheiros em alto mar. Os diversos padrões que formavam nos céus levou os antigos a nomearem as estrelas conforme as figuras que lhes pareciam: animais, cabeleiras, homens, mulheres etc. Às constelações, os gregos deram o nome de figuras mitológicas, sendo algumas delas parte do Zodíaco.

No hemisfério norte, as mais conhecidas são as constelações boreais da Ursa Maior e da Ursa Menor, também chamadas de Grande Carro ou Carro de David e Pequeno Carro. Embora a constelação da Ursa Maior seja muito grande, são as suas brilhantes sete estrelas desenhando um quadrado e uma cauda no azul-escuro do céu noturno que a tornam tão útil e conhecida. Prologando cinco vezes as guardas da Ursa Maior, está a Estrela Polar na cauda da Ursa Menor, que há mais de 2000 anos nos indica o Norte.

A Ursa Maior é conhecida por vários nomes conforme as tradições dos povos que por ela se orientam. Assim, na França chamavam de Caçarola, na Inglaterra era O Arado ou a Biga do Rei Artur e na Europa Medieval, de Carruagem ou Carroça. Na Índia, era chamada de Os Sete Sábios. Na China era chamada de “Pei-To” e as suas sete estrelas representavam uma concha que oferecia comida nos tempos de fome.

Os egípcios a associavam à imortalidade, pois as suas estrelas visíveis todo o ano representavam a vida eterna. Na mitologia nórdica é O Carro ou Carruagem de Odin puxada por 3 cavalos. Para os índios Cherokee as estrelas representavam um grupo de caçadores que perseguiam um urso desde o princípio da Primavera até ao Outono. Os árabes viam nela uma caravana.

A Ursa Maior tem alguns objetos notáveis. Em boas condições de observação nota-se que a estrela no meio da cauda não é apenas uma estrela, mas sim duas. Os gregos e os árabes usavam essas duas estrelas como teste de visão. A estrela da cauda se divide em duas: as célebres Mizar e Alcor. Estas duas estrelas não estão fisicamente associadas. A sua proximidade é aparente para observadores sobre a Terra e são chamadas binárias visuais, mas um telescópio permite mostrar que Mizar é um sistema binário, composto por duas estrelas brancas gêmeas que se orbitam mutuamente.

Um outro objeto interessante da Ursa Maior é a galáxia M 81, facilmente visível com binóculos e que revela uma estrutura espiral com braços bem marcados. É um dos grandes espectáculos do céu, mesmo com telescópios modestos. Calisto foi também o nome dado a uma das luas de Júpiter, a terceira maior do nosso Sistema Solar, descoberta em 1610 por Galileu Galilei, mas assim nomeada por Johannes Kepler.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tros e Tântalos, a responsabilidade das decisões



Trós era um próspero rei das Frígia, hoje chamada Turquia. Muito rico, seu tesouro não era feito de moedas mas de muitos rebanhos de carneiros e manadas de gado. Ele orgulhava-se especialmente de seus 3.000 cavalos, os mais belos do mundo. Quando Dárdano, o avô de Trós, instalou-se naquelas terras, tinha formado sítios na extensa planície desde o Monte Ida até o litoral, que foi herdado por Erictônio de Dardânia e posteriormente por seu filhoTrós.

Para proteger seu reino dos ataques das tribos errantes, Trós resolveu construir uma povoação defendida por fortes muralhas no Monte Ida. Dos morros distantes, esse era o monte mais elevado no centro da planície e terminava em um penhasco rochoso. De suas espessas muralhas se podia ver toda a planície e contemplar até as ondas do mar. Ali Trós fundou a cidade de Tróia.

O Rei Tros tinha três filhos: Ganimedes, o mais novo, Assáraco e Ilo o mais velho que herdou o trono. Os três filhos do rei trabalhavam arando os campos e cuidando dos cavalos e a cada ano as safras se tornavam melhores e crescia os rebanhos, tornando Tros o soberano mais rico de todos os reinos.

Já velho, Trós dividiu seu reino em 3 partes e deu a seus 3 filhos. Desde a infância, o filho caçula Ganimedes era o mais belo menino. Por ser o mais afetuoso de todos, era muito querido em Tróia e sempre saía pelos campos para caçar ou galopar. Aos 16 anos, Ganimedes saiu para os campos e nunca mais voltou, embora o rei tenha mandado mensageiros para procurá-lo.

Certo dia chegou um homem contando que havia visto uma grande águia voar levando em suas garras um rapaz parecido com o príncipe. Na verdade Ganimedes tinha sido raptado por Zeus mas logo deduziram que Ganimedes tinha sido raptado um bando do reino de Tântalo. O Rei Trós mandou uma mensagem a Tântalo exigindo devolução de seu filho, que interpretou a mensagem como uma provocação.

Tântalo era um homem rancoroso e invejoso da prosperidade de Trós e, ao ler aquela mensagem, viu uma oportunidade de atacar o reino da Frigia. Quando as duas nações se defrontaram no campo de batalha, o resultado foi diverso daquele que o Rei Tântalo previra. O povo de Dardânia venceu e derrotou os guerreiros do Rei Tântalo que também foi ferido.

Sem alternativa, Tântalo mandou chamar seu filho Pélops para que partissem para outras terras. Levando seu pai, Pélops conduziu seu povo até o litoral. Sem mapas nem fronteiras, Pélops se aventurou no mar em barcos lentos porque tinham de esperar o vento soprar ou remar. Assim velejou até chegar ao sul da grande península grega que foi chamada de Peloponeso, nome que permanece até os dias atuais.

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O mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares, já que uma narrativa tem o propósito de levar à reflexão do comportamento humano. Os mitos estão perto do inconsciente coletivo e por isso são infinitos na sua revelação. Aquilo que os seres humanos têm em comum revela-se no mito.

Segundo Campbell, são histórias da nossa vida, da nossa busca da verdade, da busca do sentido de estarmos vivos. Os mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana, daquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente.

A idéia do determinismo expressa que algo ou alguém tem o controle de nossas vidas e que estamos impossibilitados de mudar o nosso destino. Sartre recusava a ideia do determinismo, demonstrando que o ser humano é livre quando escolhe as próprias ações, quando controla a própria vida e sabe que tem a possibilidade e o poder de mudá-la. A liberdade é algo condicionado por questões concretas, entretanto, ao tentarmos resolver os problemas e realizar os próprios projetos, temos escolhas.

A forma como fazemos as nossas escolhas é que determina a realização do que projetamos. Muitas vezes, por forças das circunstâncias, podemos eliminar algumas situações e ao mesmo tempo criamos outras. Assim, somos agentes ativos de nossa história e da história da humanidade.

Não podemos responsabilizar nem aos outros e nem aos deuses por nossos erros e acertos; podemos sim, sermos responsáveis pela nossa vida, por nossas escolhas, pelos caminhos que optamos seguir. Quando escolhemos algo, significa que teremos de abrir mão de outras. Essa é a responsabilidade da liberdade, e as duas são inseparáveis...

sábado, 10 de dezembro de 2011

Métis, a deusa da prudência



Metis era a deusa da prudência, das habilidades e dos ofícios e pertenceu à geração dos Titãs. Como deusa primordial, era filha de Oceannus e Tétis. Ela tinha o poder de se autotransformar e seu nome significava a qualidade da sabedoria combinada com a astúcia. Esta qualidade altamente admirável, foi considerada como uma das características notáveis do caráter ateniense.

Ela foi a primeira esposa de Zeus, que temia ser destronado devido a uma profecia que dizia que um de seus filhos se tornaria o deus dos deuses. Propondo uma brincadeira, Zeus sugeriu a Métis transformar-se em uma mosca. Sem perceber as intenções de Zeus, ela voou e pousou em suas mãos. Imediatamente, ele a aprisionou e a engoliu.

Zeus não sabia que Métis estava grávida e depois de algum tempo sua cabeça passou a crescer a cada dia. Não suportando as dores, Zeus pediu a seu filho Hefesto que o libertasse. Hefesto usou um machado para abrir a cabeça de Zeus, de onde saltou Athena, adulta e armada com sua lança, a deusa estrategista da guerra e da sabedoria.

A inclinação guerreira de Atena foi reconhecida a partir de seu nascimento e ela era diferente de seu irmão Ares, o deus da guerra. Athena cultivava seus altos princípios e ponderação sobre a necessidade de lutar para preservar e manter a verdade. Ela era estrategista e equilibrava a força bruta de Ares com sua lógica, diplomacia e sagacidade. Filha da prudência, oferecia armas aos herois mas recomendava que deveriam ser usadas com inteligência, maestria e planejamento.

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Classicamente, prudência é considerada uma virtude e, de fato, é uma das quatro virtudes cardinais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. A prudência é a principal virtude visto que se utiliza da razão para discernir em todas as circunstâncias o verdadeiro bem e a escolher os justos meios para atingir objetivos. Ela nos conduz às outras virtudes, indicando-nos as regras e as medidas certas, por isso, é considerada a mãe de todas as virtudes.

A justiça está relacionada ao propósito firme e constante de dar aos outros o que lhe é de direito ou que lhe é devido. A fortaleza ou força, assegura a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem. A temperança ou moderação assegura o domínio da vontade sobre os instintos, modera a atração pelos prazeres e proporciona o equilíbrio, sendo portanto uma prudência aplicada.

Prudência vem do latim prudentia, que significa previsão e sagacidade, frequentemente associada à ação com sabedoria, introspecção e conhecimento. Neste caso, é a virtude de julgar entre ações maliciosas e virtuosas, não só num sentido geral mas com referência a ações apropriadas em um dado tempo e lugar. É a prudência que nos recomenda não executar qualquer ação antes de refletir, por isso regula as outras virtudes.

A prudência é gerada e desenvolvida pela experiência e pelo tempo que resulta da memória dos casos repetidos. Consideraria, assim, que os velhos estariam mais preparados do que os jovens para agir prudentemente, embora a prudência não lhes seja exclusiva. Todo o processo da razão procede do intelecto e a prudência é, justamente, a aplicação da razão reta aos atos, que deriva do que se aprende através da realidade de si e dos outros.

Ser prudente é estar atento à realidade e agir de acordo com o que é real. É estar aberto a aprender e apreender de suas próprias experiências. É ter a capacidade de prever os resultados de seus atos. Prudência corresponde à retidão no modo de viver, na obediência das regras e leis estabelecidas para a vida em sociedade, virtude essencial na arte de governar e liderar.

Prudente é quem não gasta mais do que lhe sugere a prudência; é evitar ser movido pelo impulso e pela precipitação. É quem se afasta da desmedida aspiração evitando a avareza e, embora a prudência deva ser aplicada a qualquer julgamento, o que distingue uma pessoa prudente é o discernimento para não causar danos e ofensas.

Distinguir atos corajosos dos atos descuidados, negligentes ou covardes, é um ato de prudência. Convencionalmente, prudência é o exercício do julgamento sadio em negócios práticos. Modernamente, prudência tornou-se sinônimo de cautela. Neste sentido, a prudência nomeia uma relutância de tomar riscos, que permanece como uma virtude ao evitar riscos desnecessários. Cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém, mas quando a cautela se torna excessiva, pode tornar-se um vício de covardia.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Eros, filho da penúria e da esperteza



Porus - o esperto, era uma personificação da riqueza, filho de Métis - a deusa da Prudência e irmão de Athena - a deusa a estratégia. Na festa em honra ao nascimento de Afrodite, os deuses fizeram um grande banquete e Penia, a penúria e deficiência, foi mendigar as sobras da festa.

Encontrando Porus nos jardins embriagado pelo néctar dos deuses, pela carência em que se encontrava de tudo o que em Porus tinha abundância, Penia uniu-se a ele. Assim ela concebeu Eros, que se tornou seguidor de Afrodite porque foi gerado durante sua festa e também porque era por natureza amante da beleza.

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Devido à união da pobreza e riqueza, o amor tem o caráter de estar sempre ávido de algo, ao mesmo tempo em que sente-se pleno. Por ser filho de Porus - a riqueza e Penia - a penúria e pobreza, Eros está muito longe de ser belo como todos pensam. Eros, na realidade, é rude, sujo, anda descalço, não tem lar, dorme no chão frio e duro junto aos umbrais das portas ou nas ruas, sem leito nem conforto. É a natureza de sua mãe. Por influência da natureza que recebeu do pai, Eros dirige a atenção para tudo que é belo e gracioso: é bravo, audaz, constante e grande caçador. Está sempre a deliberar e planejar suas ações, a desejar e adquirir conhecimentos.

Sua vida é a do grande feiticeiro, mago e sofista. Não vive e propriamente não é mortal e nem mortal. Ora floresce e vive, ora morre e renasce graças aos dons recebidos pela herança paterna. Rapidamente passam pelas suas mãos os proveitos que lhe trazem a sua esperteza, assim, nunca se encontra em completo estado de miséria nem tampouco na opulência.

Oscila entre a sabedoria e a tolice. Como os deuses, não deseja ser sábio. Como os tolos, tem o defeito da tolice. Considera-se perfeito, enquanto na realidade não seja nem justo nem inteligente. O mito do nascimento de Eros é usado por Platão para ilustrar a característica fundamental do amor: a insuficiência. E quem não se considera incompleto e insuficiente, não deseja aquilo cuja falta não pode notar. Ama-se quando se deseja algo que não se tem e por isso o amor pode ser considerado filósofo. De fato, assim como o amor não tem a beleza mas a deseja, o filósofo aspira a sabedoria porque não a possui. Portanto, o amor é essencialmente uma necessidade não satisfeita, a percepção da falta de alguma coisa essencial para a própria completude.

O pleno gozo, oriundo da mãe, é interditado pelo pai. A partir daí, cada homem vive uma busca constante por sanar sua incompletude. Cada mulher é uma tentativa, sempre fracassada, de saciar seu desejo primordial. Dessa dialética entre carência e astúcia move-se o desejo, agitando Eros infinitamente. Filho da penúria e da esperteza, o amor é medicante mas cheio de artimanhas...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Dioniso e Penteu, o preço das paixões




Cadmo e Harmonia reinavam em Tebas e eram pais de Ino, Sêmele, Autônoe, Polidoro e Agave. Quando Sêmele estava grávida sua família não acreditava que o filho era de Zeus, o deus dos deuses. Apaixonado pela bela Sêmele, Zeus atendeu ao seu pedido de mostrar-se em seu esplendor e foi fulminada pelos raios que dele emanava.

Zeus conseguiu salvar o filho e guardá-lo em sua própria coxa, onde ele completou seu desenvolvimento. Quando Dioniso nasceu, foi entregue para ser criado pelas ninfas pois foi rejeitado pela família de Sêmele que se recusou a prestar-lhe um lugar de honra.

Ao se tornar adulto, Dioniso não era ainda, totalmente divino. Tendo descoberto a videira e seu uso, foi enlouquecido por Hera e vagou por algum tempo até ser curado por Cíbele, a deusa-mãe da Frígia. Depois disso, disseminou seu culto pelo mundo e estava sempre acompanhado por um cortejo de seguidoras que bebiam vinho e, em êxtase místico, dançavam freneticamente.

Dioniso estabeleceu o seu culto e enlouquecia a todos que se opunham ao culto oferecido a ele. Embora Tebas tenha prosperado sob o reinado de Cadmo, ele havia sido amaldiçoado por ter matado o dragão consagrado a Ares e todos os seus descendentes tiveram a vida marcada por tragédias.

Já idoso, Cadmo entregou o trono de Tebas ao seu neto Penteu, filho de Equion e Agave. Após viajar por toda a Ásia e outras terras estrangeiras, Dioniso foi a Tebas disfarçado em forasteiro onde reinava seu primo Penteu e que havia proibido o culto a Dioniso.

Reunindo um grupo de devotas, as Bacantes, Dioniso levou todas as mulheres de Tebas ao delírio no Monte Citéron. O velho Cadmo e Tirésias, embora não estivessem enfeitiçados, apaixonaram-se pelos rituais das bacantes e quando estavam saindo para a celebração, o Rei Penteu ordenou que fossem presos todos os que participassem do culto dionisíaco.

Os guardas do palácio retornaram com o próprio Dioniso, disfarçado como um sacerdote de seu próprio culto. Penteu o interrogou com grande interesse nos ritos, mas Dioniso não se revelou e foi encarcerado. Sendo um deus, rapidamente conseguiu se libertar e destruiu o palácio de Penteu com um grande terremoto seguido por um incêndio.

Logo em seguida chegou um pastor trazendo a notícia de que as Bacantes estavam no Monte Citéron realizando feitos incríveis, como colocar serpentes em seus próprios cabelos para reverenciar o deus Dioniso, amamentando gazelas, lobos selvagens e fazendo o mel e vinho brotar do solo. Quando tentaram capturar estas mulheres, elas avançaram sobre um rebanho de vacas rasgando-as em pedaços com suas próprias mãos.

Atendendo ao desejo de Penteu em ver as mulheres em êxtase, Dioniso o convenceu a vestir-se com roupas de mulher, como uma Mênade, para observar os rituais. De repente, Penteu começou a ver tudo em duplicidade. Quando quis escalar uma árvore para poder ver melhor as bacantes, Dioniso usou seu poder divino e colocou-o nos galhos mais altos.

Assim que ele chegou ao topo da árvore, Dioniso gritou às suas devotas e mostrou-lhes um homem no topo da árvore. Ensandecidas, as bacantes arrancaram Penteu da árvore e rasgaram seu corpo em pedaços.

Agave, a mãe de Penteu, estava junto das bacantes e ainda em estado de êxtase retornou à sua casa carregando a cabeça de seu filho Penteu acreditando que fosse a cabeça de um leão da montanha que havia caçado. Ao perceber a expressão de horror de Cadmo, lentamente Agave percebeu a tragédia consumada e enloqueceu.

Inconformados, Cadmo e Harmonia não esqueciam seu infortúnio e atormentado pela lembrança dolorosa que não o abandonava Cadmo descontrolou-se, voltou os olhos para o céu e exclamou inconformado: “Se a vida de uma serpente é tão cara aos deuses, eu preferia ser uma serpente!”. Imediatamente, eles foram transformados em serpentes. Porém a maldição pesaria sobre todos os seus descendentes como nos mostra o mito de Édipo, o trineto de Cadmo.

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Para os gregos os mitos não eram apenas contos de entretenimento, eles diziam algo a respeito do mundo e dos seres humanos. Essa fonte de conhecimento, por sua profundidade, atravessou os séculos e até hoje nos valemos dela.

Distinguindo-se dos animais, não sendo dominado apenas pelos instintos e nem somente pelo condicionamento biológico, o ser humano aprendeu a pensar e a se questionar sobre sua existência para entender a si mesmo e conhecer sua natureza. Se o conto é apenas um mito, o que ele nos revela é realidade humana.

O filósofo e político inglês Francis Bacon, um dos homens mais importantes de sua época, se dedicou especificamente sobre a mitologia grega e, de cada personagem, Bacon retirou um ensinamento.

Do mito de Penteu podemos depreender as consequências das paixões, da ilusão desordenada, do delírio do poder, da irracionalidade, do desvario, da perturbação e das loucuras, demonstrando a necessidade de auto-controle, moderação e sabedoria para evitar dois extremos: a tirania da ordem excessiva e o frenesi das paixões.

De fato, a paixão nos estimula a viver cada instante com intensidade, nos motiva a realizar façanhas inimagináveis em busca de objetivos aparentemente inatingíveis, tornando possível o que antes parecia impossível.

Apaixonados por um estudo, por um trabalho, por uma causa ou por uma pessoa, somos capazes de buscar em nosso íntimo a maior das forças para superar qualquer obstáculo. No entanto, se nos entregarmos irracionalmente ao frenesi da paixão, nos tornamos cegos para todas as outras questões, o que pode nos levar além do que é moralmente e eticamente aceitável.

Se uma das funções do mito é possibilitar que estejamos em contato com os nossos próprios aspectos que nos causa temor, também nos mobiliza para nos reconhermos em nossos atos. A vida humana não tem a melhor das eficácias, não é regular, nem linear e muito menos coerente.

Somos responsáveis por nossas paixões e pelos rumos de nossa vida. Se nos deixarmos ser governados pela desrazão, podemos pagar um alto preço. No entanto, a razão excessiva impõe limites e restrige a nossa criatividade.


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mênades ou Bacantes, o lado sombrio de todos nós



As Mênades, também conhecidas como Bacantes, Tíades ou Bassáridas, eram fanáticas mulheres seguidoras e adoradoras do culto de Dioniso, conhecidas como selvagens e enlouquecidas porque delas não se conseguia um raciocínio claro. Durante o culto dançavam de uma maneira muito livre e lasciva, em total concordância com as forças mais primitivas da natureza.

Os mistérios que envolviam o deus Dioniso provocavam nelas um estado de êxtase absoluto e elas entregavam-se à desmedida violência, derramamento de sangue, sexo, embriaguez e autoflagelação. Estavam sempre acompanhadas dos sátiros embalados pelos sons dos tamborins dos coribantes, formando uma espécie de trupe que acompanhava o deus do vinho nas suas aventuras. Andavam nuas ou vestidas só com peles, grinaldas de Hera e empunhavam um tirso - um bastão envolto em ramos de videira.

Por onde passavam iam atuando como chamariz na conversão de outras mulheres atraindo-as para a vida lasciva. Evidentemente que o comportamento livre e desregrado delas causava apreensão, senão pânico nos lugarejos e cidades onde o cortejo báquico passava. Quando assaltadas por um furor qualquer, não conheciam limites ao descarregar a sua cólera. O maior divertimento das Mênades ou Bacantes era submeter os homens ao sofrimento, despedaçando-os antes de comê-los enquanto estavam em transe. Por isso, obrigavam-se a procurar refúgio no alto das montanhas, onde podiam exercer sua estranha liturgia sem a presença de olhares de censura ou reprovação.

As Mênades estão presentes no mito de Orfeu, que se recusava a olhar para outras mulheres após a morte de sua amada Eurídice. Furiosas por terem sido desprezadas, as Mênades o atacaram atirando dardos. Os dardos de nada valiam contra a sua música mas elas, abafando sua música com gritos, conseguiram atingi-lo e o mataram. Depois despedaçaram seu corpo e jogaram sua cabeça cortada no rio Hebro, que flutuava cantando: "Eurídice! Eurídice!"

Por sua crueldade, às Mênades não foi concedida a misericórdia da morte. Quando elas bateram os pés na terra em triunfo, sentiram seus dedos entrarem no solo. Quanto mais tentavam tirá-los, mais profundamente eles se enraizavam até que elas se transformaram em silenciosos carvalhos. E assim permaneceram pelos anos, batidas pelos ventos furiosos que antes se emocionavam ao som da lira de Orfeu.

No mundo grego e romano, a Bacchanalia ou Bacanais eram festas em honra de Dioniso e as sacerdotisas que organizavam a cerimônia eram as Bacantes. O culto primitivo era exclusivamente feito por mulheres e somente para mulheres, cujo culto teve início na época de Pã. Introduzido em Roma em 200 a.C., a partir da cultura grega do sul da Itália ou através da Etruria influenciado pela Grécia, os bacanais eram realizados em segredo e com a participação exclusiva de mulheres no bosque de Simila, perto da Aventino.

Posteriormente, os rituais foram extendidos aos homens mas denunciado por um jovem que se recusava a participar das celebrações, o Senado, temendo que houvesse alguma conspiração política, proibiu as festas prometendo recompensas a quem desse informações sobre os rituais. Apesar da severa punição infligida àqueles que violassem o decreto, os bacanais continuaram a ser realizados no sul da Itália. O carnaval vem do legado atual do antigo Bacchanalia, Saturnália e Lupercalia. Na obra intitulada Dionísiacas são citadas dezoito Ménades:
  • Acrete - o vinho sem mistura
  • Arpe - a flor do vinho
  • Bruisa - a florescente
  • Cálice - a taça
  • Calícore - a formosa dança
  • Egle - o esplendor
  • Ereuto - a corada
  • Enante - a foice
  • Estesícore - a bailarina
  • Eupétale - as belas pétalas
  • Ione - a harpa
  • Licaste - a espinhosa
  • Mete - a embriaguez
  • Oquínoe - a mente veloz
  • Prótoe - a corredora
  • Rode - a rosada
  • Silene - a lunar
  • Trígie - a vindimadora
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O mito das Mênades ou Bacantes revela a apreensão do ser humano no que ele tem de selvagem, perigoso e sombrio. Consideradas devoradoras dos homens, essa característica das Bacantes tem um simbolismo muito marcante, pois o mito leva o homem a olhar para si e a reconhecer sua passionalidade e sua desrazão.

A violência que Dioniso impõe, na
verdade já está dentro do homem. Essa violência inclui tudo aquilo que é negado, rejeitado, oprimido, desprezado, tudo o que assusta e que é moralmente e eticamente inaceitável e que, como parte da natureza humana, precisa ser aceito e pensado. Se não se dá o espaço necessário na mente para o encontro com o lado sombrio de si mesmo, as perturbações afetivas podem ser muito amplas e, por vezes, irreversíveis, desencadeando-se a loucura e o sofrimento desnecessário.

Um dos dramas humanos está associado à necessidade e à dificuldade do homem em aceitar e se entender com seus aspectos destrutivos, com seus sentimentos agressivos, o ódio, violência, o medo, sem deixar-se dominar por aquilo que sente. A necessidade de aprender a conviver com a própria realidade interior impõe-se ao homem, desde que ele nasce e começa a interagir com o ambiente. O destino que cada um dá a tal necessidade vai depender do interjogo constante entre as condições psíquicas e as facilitações ou obstáculos que o ambiente externo lhe propicia.

O não que Dioniso diz às normas pré-estabelecidas, ao estado controlado e regulador das coisas, às leis, abre infinitas possibilidades. É preciso se opor para criar. A criatividade implica um movimento em sentido oposto ao corrente, ou pelo menos, um novo enfoque ao conhecido, que venha a lançar outra luz sobre ele. Implica numa tomada de posição pessoal.

Apesar de sua proposta de liberdade, o grego não se iludiu a ponto de supor que o homem poderia escapar de si
mesmo. O homem conhece seu destino e não pode evitá-lo, quando tenta fazê-lo paga um alto preço. Não há concessões, ou aprende a conviver com sua realidade ou se perde na loucura, na morte, na alucinação e nas sombras...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Satiros, Egipãs e silenos, o bode expiatório



Os Sátiros, Egipãs e Silenos eram ardentemente cultuados pelos pastores e agricultores gregos, que faziam ofertas de animais e produtos da terra. Os sátiros, em grego Sathê que significa pênis, eram divindades menores da natureza com aspecto de homens com cauda e orelhas de asno, barbas longas e grandes órgãos sexuais frequentemente exibidos em ereção. Tinham um apetite sexual insaciável, assim como a voracidade para o vinho e a embriaguez. Eternos perseguidores das ninfas, a permanente sensualidade dos Sátiros revelava sua vigorosa forma física.

Filhos dos Curetes e das Hecatérides, irmãos das Oreades, eles viviam nos campos e bosques perseguindo as ninfas, principalmente as Mênades, como também aos homens e mulheres que a eles se juntavam no cortejo de Dioniso. Caracterizados por uma bestialidade, de gênio preguiçoso, covardes e movidos pela sensualidade, os Sátiros se divertiam aterrorizando os pastores e os viajantes, mas, ao mesmo tempo, protegia-os das feras dos bosques, assim como protegiam os seus rebanhos.

Com o tempo passaram a ser descritos como dóceis, maliciosos, travessos, amantes da música e da dança. Com uma nova imagem, os Sátiros passaram a ser representados com as orelhas pontiagudas, pequenos chifres e os pés caprinos. Apesar de serem divinos, eles não eram imortais mas normalmente eram-lhes consagrados o pinho e a oliveira.

O mais famoso dos Sátiros foi Pã, o deus pastor, filho de Hermes e da ninfa Dríope. Segundo a lenda, Dríope rejeitou o filho tão logo nasceu por não aceitar a sua forma híbrida. Hermes levou-o para o Olimpo onde foi criado. Por seu jeito alegre, logo conquistou a simpatia e a afeição de todos os deuses, sendo chamado por eles de Pã, que em grego significa O tudo. Vivendo errante pelas montanhas e pelos vales, Pã se tornou o deus dos rebanhos e em torno dele viviam os gênios campestres e os espíritos dos bosques. Além de pastor, Pã dedicava-se à música.

A origem do mito vem da Arcádia, lugar montanhoso, que tinha como riqueza apenas a criação de cabritos e carneiros. Pã era um deus secundário representado pelo corpo coberto por pêlos negros, chifres na cabeça e patas de bode. Devido à sua fisionomia, Pã teve muitas desventuras amorosas. Os Egipãs eram descendentes diretos do deus Pã e também tinham os corpos peludos, chifres e pés de cabras. Nascidos da união de Pã e a ninfa Ega, eles foram concebidos numa noite de embriaguez dos pais. A eles são atribuídos o som que se ouve nas conchas do mar, que se transformou num instumento de sopro. Por isso tornaram-se considerados gênios das águas.

Os Sátiros compunham o cortejo de Dioniso, deus da luz e do êxtase, que foi perseguido por Hera mesmo antes de seu nascimento. Dioniso foi criado por Sileno e quando cresceu, ele foi convocado por Zeus para viver na terra junto aos homens. Dioniso compartilhava com os mortais das alegrias e das tristezas, mas foi atingido pela loucura de Hera e passou a perambular pelo mundo atraindo seguidores como os sátiros, os loucos e animais. Dioniso deu à humanidade o vinho e suas bençãos, concedeu o êxtase da embriaguez e a redenção espiritual a todos que decidiam abandonar suas riquezas e renunciar ao poder material.

Dezoito sátiros eram servos de dioniso: Pomenio, guia dos pastores - Thiaso, guia dos seguidores - Hipcéros, o grande chifre - Oréstes, guia nas montanhas - Flégraios, a paixão ardente - Napeus, guia nos vales - Gemon, era o carregador - Licos, o fanático e foi transformado em lobo - Fereus, guia das bestas - Petreu, guia nos rochedos - Lamis, o guia das covas - Lenóbios, o guia pisador das uvas - Ecirtos, guia satador - Oistros, guia frenético - Pronomios, guia da pastagem -Férespondo, guia das bestas - Ampelos, guia da videira - Cisseus, guia da coroa de heras.

Apreciando a alegria de Dioniso, o vinho, a música e as orgias, os Sátiros o seguiam dançando ao som de flautas, dos címbalos, castanholas e gaitas de foles. Junto também seguiam as Ninfas, os Silenos e as Bacantes carregando troncos de videira, coroas de hera, taças cheias de vinho, cachos de uva e o tirso enlaçado com folhagens. As Bacantes ou Mênades eram as jovens que tomadas por loucura mística, pareciam tomadas pelo deus. Em sua jornada Dioniso castigava severamente todos aqueles que se recusassem a cultuá-lo.

Com grande habilidade de envolver as pessoas, algumas vezes muito teatrais, os Sátiros usavam de sua forte sensualidade como fator de atração. Muito autoconfiantes, não se deixavam afetar pela oposição às suas ideias ou suas ações. Concentrados em seus objetivos, se distinguiam porque acreditavam no seu poder de persuadir as pessoas e na sua capacidade de liderança.

Os Sátiros envelhecidos eram chamados de Silenos, isto porque Sileno era o líder ou pai dos sátiros e silenos, representado calvo e barrigudo, montado num burro onde se equilibrava com dificuldade devido à sua constante embriaguês. Sileno era um descendente de Pã e foi encarregado de tomar conta de Dioniso que o criou junto dos seus filhos Astreu - o brilho estelar, Maron - o cinza puro e Leneus - o vinho forte.

Quando Dioniso cresceu, Sileno se estabeleceu na Arcádia. Seu caráter jovial e brincalhão atraiu a simpatia e o afeto dos pastores, que construíram um templo dedicado a ele. Com sua coroa de hera e uma taça de vinho nas mãos, Sileno era carregado pelos sátiros durante os cortejos e as ninfas admiravam sua bondade. Durante seus momentos de sobriedade, Sileno se tornava grande profeta e sábio. Ele tinha o dom de prever o futuro, porém só revelava a verdade quando estava embriagado sob os efeitos do vinho.

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As estranhas e fascinantes criaturas mitológicas, com a dualidade do seu corpo traduziam a essência da evolução da civilização humana, muitas vezes racional, outras vezes meramente animal. Esse misto humano-animal era comum na mitologia grega e muitas vezes simbolizava exatamente algum aspecto animal da natureza humana. Comumente associados a Dioniso, os Sátiros estão relacionados ao lado instintivo do ser humano.

O mito dos Sátiros está relacionado ao desejo desenfreado, a todos os tipos de excessos e às forças incontroláveis da natureza animal e vegetal. Eles eram a personificação da vitalidade animal, se distinguiam pela impulsividade e eram ligados à luxúria, ao êxtase, sexo e embriaguês. Dos sátiros derivam os termos satirismo ou satiromania, que significa o desejo sexual excessivamente forte nos homens ou uma insatisfação sexual que leva a uma compulsão sexual, assim como a ninfomania está relacionada à insatisfação sexual da mulher.

O êxtase está relacionado à modificação da consciência através de uma experiência que leva a um estado de total ausência de sofrimento, um despreendimento do mundo material que corresponderia a um absoluto sentimento de prazer, orgasmo ou estado de transe. E por derivar-se de uma palavra grega ékstasis, poderia se ter como padrão o transe profético e visões.

Os sátiros apareciam obrigatoriamente nos dramas satíricos, peças leves que o teatro grego apresentava como complemento e alívio cômico de uma trilogia trágica em honra de Dioniso. Nos dramas satíricos, os heróis são sérios mas seus atos são satirizados por comentários irreverentes e obscenos dos sátiros. No entanto, a sátira não está etimologicamente relacionada aos sátiros pois provém do latim, uma mistura de prosa e verso, um gênero satírico ou também satura, um prato cheio de vários tipos de frutos reunidos, abundante, uma saturação.

Na mitologia grega, o bode era associado à depravação, considerado um animal lascivo e desprezível. Hoje tem o simbolismo do bode expiatório, algo ou alguém sobre a qual projetamos o lado inferior de nós mesmos para nos livrarmos da culpa ou culpamos por nossos problemas. Pã mora no domínio mais inacessível do inconsciente.

Os romanos identificaram os sátiros gregos com o deus Fauno e com os faunos. Suas características eram originalmente diferentes, mas a literatura e a arte clássica da Europa moderna trataram os dois termos como sinônimos e misturaram suas características. Os faunos tinham aspecto animalesco mas eram de comportamento digno. Nas traduções do Antigo Testamento, o termo sátiro é às vezes traduzido como demônios ou bodes. No folclore dos antigos hebreus, se'irim era um tipo de daimon ou ser sobrenatural que habitava lugares desolados.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Daimones Coribantes, Curetes e cabiros



Os Coribantes eram sacerdotes de Réia, peritos na arte de trabalhar em metais. Assim como os Curetes e os Cabiros, os coribantes eram divindades misteriosas. Nos seus êxtases sagrados executavam danças e conduziam seus cultos em ritos de orgia, acompanhados por gritos selvagens e a música frenética de flautas, tambores e címbalos. Possuídos pela febre da dança, não realizam suas evoluções segundo uma clara consciência e eram capazes de atrair seguidores embalados por sua música.

Poetas líricos obtinham a harmonia de seus versos embalados pelo Coribantes em suas belas poesias. Daimones rústicos, os Coribantes e os Curetes foram nomeados por Réia para guardar Zeus quando ele ainda era criança. Escondido em uma caverna do Monte Ita em Creta, Zeus era o único filho que tinha sido salvo de ser engolido por seu pai Cronos. Os daimones abafavam o choro da criança com uma dança frenética fazendo ruidos com suas lanças e escudos.

Os Curetes eram deuses das montanhas selvagens e inventores das artes rústicas do trabalho em metal, pastoreio, caça e apicultura. Foram também os primeiros guerreiros armados e os deuses da dança orgiástica da guerra executada pelos jovens de Creta e da Eubéia. Eram nascidos do esperma de Urano juntamente com Afrodite, as Erínias e os gigantes quando Urano foi castrado.

As Hekatérides eram cinco ninfas e estavam relacionadas às danças rústicas. A dança Hekateris envolvia o movimento das mãos e na dança Hekateros os dançarinos saltavam alto batendo os calcanhares contra as nádegas. As cinco irmãs e cinco irmãos eram conhecidos como os Dáctilos ou Daktyloi - Os dedos, porque cada um tinha 10 dedos e juntos somavam 100 dedos. Quando eles se casavam, uniam-se dedo-a-dedo, simbolizando uma união harmoniosa das mãos para construir.

Da união dos Curetes com suas irmãs, as Hekatérides, teriam nascido os Sátiros, as Oréades e as tribos dos Curetes, os primeiros Cretenses. As Oréades eram as ninfas protetoras das montanhas, das cavernas e das grutas. Elas não eram imortais mas tinham vida muito longa e não envelheciam. Com seu dom de curar, profetizar e nutrir, elas agiam sempre em grupo. Eco era uma das oréades que foi privada do dom da fala pela deusa Hera e, desde então, foi condenada a repetir os sons que são produzidos em montanhas e grutas.

Os 100 curetes mais jovens casaram-se com as Melíades que eram as ninfas nascidas do Freixo, uma árvore que simbolizava a durabilidade e a firmeza. Nascidas quando o esperma de Urano fecundou a terra, as Melíades alimentaram Zeus quando ele era criança fornecendo o mel e o leite. Melia, uma das melíades casou com seu irmão Ínaco - deus rio e foram os pais de Io, Foroneu, Egialeu ou Fegeu e Nilodice. Io foi uma das paixões de Zeus e, por isso, foi transformada em novilha. Melia também é citada como mãe de Amico, filho de Poseidon.

As conotações militares do freixo, deu uma suposta origem violenta e belicosa às Melíades e também por serem irmãs das Erínias. Entretanto elas tinham um doce aspecto, pois os freixos também segregavam uma seiva açucarada chamada pelos gregos de Méli ou Mel, considerados pelos gregos como manifestação da ambrosia dos deuses. A espécie de freixo mais comum nas montanhas da Grécia, Fraxinus ornus, é conhecida como "freixo do maná".

Outras Melíades mais conhecidas eram:
  • Hidas, a nutriz e visão
  • Adastréia, a inevitável
  • Idotéia, o saber
  • Melissa, a doce
  • Cinosura, a sagaz e proteção
  • Helice, a alegre
  • Amaltéia, a cura e alívio
  • Adamantéia, a indomável

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Os Daimones em grego significa divindades e eram a personificação dos gênios. A designação de Daimon originou com os gregos na antiguidade e ao longo da história surgiram diversas descrições para esses seres. O nome em latim é dæmon que originou o vocábulo em português demônio e eram considerados intermediários entre os deuses e os homens. Sócrates, que ao contrário de seus colegas sofistas não abriu uma escola e não cobrava por seus ensinamentos, atribuia o que dizia ao daemon, seu gênio pessoal.

O temperamento dos daimones estava relacionado a um elemento natural ou a uma vontade divina. Um mesmo daimon podia designar tanto o bem quanto o mal, conforme a circunstância que influenciasse. No plano teleológico, os gregos falavam de Eudaimons - "Eu" significando o bom e favorável e kakodaimons - "kakos" significando o mal e desfavorável. Por isso, a palavra grega que designa o fenômeno da felicidade é Eudaimonia, ser feliz para os gregos era viver sob a influência de um bom daimon.

O conceito original entre os gregos ainda os conectavam aos elementos da natureza, surgidos em seguida aos deuses primordiais. Assim surgiram os daimons do fogo, da água, do mar, do ar, da terra, das florestas etc. Podem estar conectados aos espíritos que regem ou protegem um lugar, uma cidade, fonte, estrada, etc. Também se relacionam às afetações humanas, do corpo e do espírito, entre eles, o sono, o amor, a alegria, a discórdia, o medo, a morte, a força, a velhice etc.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Eileithyia deusa do parto e da obstetrícia



Eileithyia, filha de Hera e Zeus, era a deusa do parto e da obstetrícia. Em tempos clássicos, havia santuários para ela nas cidades de Creta, Lato Eleutherna, uma caverna sagrada em Inatos e os romanos a chamavam Lucina. Juntamente com Artemis e Perséfone, as deusas eram representadas carregando tochas que significava trazer as crianças à luz e proteger as parturientes. Muitas vezes Eileithyia era convocada por sua mãe Hera para intervir nos partos das amantes de Zeus, mas Zeus sempre contava com sua ajuda de Eileithyia para proteger o nascimento de seus filhos bastardos.

Por ser uma esposa muito ciumenta, Hera mantinha estrita vigilância sobre o marido. Para fugir da vigilância da esposa, Zeus se metamorfoseava em diferentes formas para seduzir outras mulheres, como fez para seduzir Alcmena, mãe de Hércules. Alcmena era a virtuosa esposa de Anfitrião e, para seduzí-la, Zeus assumiu a forma de seu marido enquanto este estava ausente de casa. Quando seu marido retornou descobriu o que tinha acontecido e ficou tão irado que construiu uma grande pira para queimar Alcmena viva. Mas Zeus mandou nuvens de chuva para apagar o fogo.

Eileithyia predisse que o primeiro neto do pai da Alcmena se tornaria o rei da Grécia. Alcmena e sua irmã Nicipe estavam grávidas, mas Hera pediu a Eileithyia que causasse o parto de Nicipe antes de 9 meses e nasceu Euristeus que se tornou rei da Grécia, reino que era reservado para Hércules filho de Alcmena. Mesmo assim, Hera passaria a perseguir Hércules por toda sua vida.

Quando Zeus engravidou Leto, ela foi perseguida por Hera impedindo que o parto se realizasse em qualquer lugar. Grávida de gêmeos, Leto chegou à Ilha de Delos onde nasceu primeiro Artemis que ajudou no parto de seu irmão Apolo, por isso Artemis era invocada para auxiliar no trabalho de parto das mulheres. Junto com Eileithyia, Artémis passou a ajudar as mulheres grávidas no parto sem dor.

Hera provocou a morte de Sêmele quando ela estava grávida de Dioniso. Enfurecida com a traição do marido disfarçou-se e convenceu Sêmele a pedir a Zeus que lhe mostrasse todo o seu esplendor. Zeus havia prometido a Sêmele jamais negar-lhe algo e ao satisfazê-la, Sêmele não suportou a visão de Zeus com um grande clarão e morreu fulminada.

Na tentativa de salvar a criança e seguindo as recomendações das deusas, Zeus ordenou a Hermes que a costurasse em sua coxa. Assim, quando terminou a gestação Dioniso nasceu vivo e perfeito. Contudo Hera continuou a perseguir a estranha criança de chifres e ordenou aos Titãs que a matassem. Mais uma vez Zeus interferiu, resgatou o coração da criança e o cozinhou junto com sementes de romã transformando numa poção mágica que deu a Perséfone, esposa do deus das trevas. Perséfone engravidou e novamente Dioniso nasceu. Por isso passou a ser chamado "o que nasceu duas vezes", deus da luz e do êxtase.

Se uma mulher morresse durante o parto, acreditava-se que ela havia sido atingida por uma flecha de Artemis, mas ainda assim, as roupas da mulher falecida eram oferecidas à deusa Artémis. As cavernas eram consagradas a Eileithyia, já que tinham uma associação inevitável com o canal de nascimento. Embora não possa ser provado, sem dúvida existia uma ligação a essa crença.

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Eileithyia era a deusa do parto e do nascimento, uma das experiências mais marcantes da vida da mulher e da criança. Muitas mulheres encaram o parto como símbolo de dor, devido à sua cultura ou outros conflitos, mas o modo como a mulher encara sua maternidade está diretamente influenciado pela sua infância em relação a sua própria mãe. Fatores negativos e traumas são intensificados no subconsciente, como sexualidade perturbada, relações conflituosas com o sexo masculino e outros traumas, se exteriorizando no momento de ser mãe.

Há mulheres que optam pelo parto natural com o mínimo uso de anestésicos, cooperando no processo de nascimento do seu filho. Em virtude de avanços técnicos, a parturiente experiencia um parto sem dor, mantendo-se consciente, participativa e, principalmente, presenciando o nascimento do filho. Elas se preparam para este momento através de treinamento da respiração, relaxamento de controle das contrações uterinas e buscam apoio psicológico.

Quando o parto transcorre sem complicações, se torna uma das experiências mais profundas e plenas de sua vida e o vínculo com o bebê se consolida mais facilmente. O parto natural estabelece uma continuidade da vida intra-uterina, pois escutando o batimento cardíaco e a voz da mãe, a criança reconhece que está em um ambiente de segurança e se acalma. O nascimento é sentido como uma transição natural do útero para os braços maternos.

Quando o parto é doloroso e traumático, a mãe pode se ressentir e culpar o filho pelo sofrimento a que está sendo submetida, podendo gerar emoções de hostilidade e rejeição à criança. Durante as contrações uterinas a criança está adormecida e não sente dor. Ela só desperta nos momentos finais quando se prenuncia a expulsão do útero preparando a criança para a capacidade de reagir aos estímulos ambientais, elevando o nível de excitabilidade neural e orientação espacial.

Um fator de grande interesse é em relação à duração do trabalho de parto. Enquanto algumas mulheres dão à luz em poucas horas, outras levam mais tempo, sentindo contrações muito dolorosas. Esta lentidão no parto poderia ser compreendida como a presença de desejos ambivalentes, tanto na parturiente quanto no feto. Assim, a parturiente poderia sentir uma profunda angústia diante da decisão de manter o filho dentro de seu útero ou de colocá-lo no mundo, renunciando a tê-lo só para si.

Também o feto, desejando permanecer na segurança e proteção do útero materno ao invés de enfrentar o mundo desconhecido e, portanto temido, pode causar lentidão no parto. Para o feto trata-se de uma decisão de vida ou de morte. Muitas vezes há necessidade da intervenção médica, para que o nascimento ocorra, principalmente quando se constata a existência de sofrimento fetal. Em alguns casos é necessário induzir o parto. Algumas mulheres podem perceber a indução como um alívio necessário para a mãe e o feto. Para outras, pode ser um modo violento de dinamizar o parto.

Mas existem algumas condições em que se faz necessário o parto cesáreo, que pode ser percebido de modo diferente por cada mulher. A grande dificuldade é que a mãe, neste momento, pode estar em extremos conflitos como o medo da anestesia e da cirurgia, e assim a mãe transmite ao feto um intenso desgaste emocional deixando a criança fragilizada e insegura. É importante que a mãe transmita ao filho, através da comunicação interna, sobre o que irá ocorrer.

Para o feto a cesariana representa uma forma de violência contra si. Se realizada sob anestesia geral, há uma quebra intrapsíquica entre a mãe e a criança, o que dificulta o fortalecimento do vínculo entre elas. Crianças que nascem de parto cesáreo podem nascer com hipotermia e tensão. O maior problema causado pela anestesia é que atravessando a barreira placentária produz graus variados de depressão fetal. Também se verifica que é mais frequente a sensação de indiferença materna diante do filho após a retomada da consciência. Na obstetrícia moderna, a cesariana é indicada e necessária, principalmente se há possibilidade de complicações para mãe e ou para a criança.

Há mulheres que insistem na cesariana programada por ter medo do parto natural. A passividade propiciada pela cesariana, em que a criança é retirada do útero sem a participação da mãe, tem paralelo com a dificuldade de assumir a função maternal, pelo temor de passar pelo trabalho de parto, como se precisasse ser poupada. A cesárea programada, ocorrendo antes do início de trabalho do parto, é percebida pelo feto como se tivesse sido arrancado de seu meio, sem que mãe filho tivessem manifestado o sinal biológico.

A humanização do parto visa assegurar que a experiência seja menos traumática, tanto para a mãe quanto para a criança, viabilizando o vínculo dos pais com a criança. A comunicação interna que a mãe estabelece com o feto no momento do parto é importante para que o filho sinta-se seguro. Atualmente sabe-se que, mediante uma série de sinais complexos, mãe e criança realizam um compromisso na finalização da gravidez. Neste contexto, o parto é vivenciado de modo diverso por cada mulher que é influenciado por sua história de vida, personalidade, o período da gravidez e a história do casal.

Bibliografia: Guia do Bebê / Psicologia da gestação

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Keres e os traumas emocionais



As Keres eram espíritos femininos originadas de Nix, a deusa da noite. Alguns atribui-lhes a paternidade de Erebus, outros defendem que elas foram geradas sem a união com outro deus. As Keres simbolizam o destino cruel, fatal e impossível de escapar e elas seriam aquelas que traziam a morte violenta aos mortais. Cada uma das Keres correspondia a um tipo específico de morte violenta, chamadas pelos romanos de Tênebras ou Trevas.

Confundidas com as Erínias, ou com as Harpias ou com as Moiras - o destino cego, as Keres eram verdadeiros monstros alados de cor negra, dentes pontiagudos e longas unhas que usavam para ferir ou despedaçar os cadáveres. As Keres eram irmãs de Thanatus - a personificação da morte, Moro - o escárnio e o quinhão que cada homem receberá em vida e o destino e Átropos - uma das Moiras. Juntos determinavam o fim da vida. Enquanto seus irmãos promoviam a morte tranquila, as Keres rondavam os campos de batalha, portanto tinham por missão trazer a morte cruel antes do tempo.

Quando o sanguinário deus Ares partia para grandes guerras, convocava as Keres para fazer parte de seu cortejo. À frente iam os filhos de Ares, Deimos - o espanto e Phobos - o terror. Após a batalha, as Keres devoravam os mortos e levavam as almas ao Hades. Presentes nos campos de batalha ou nos momentos de grande violência, como assassinatos, acidentes e devastações coletivas, aos que sobreviviam a elas, restava-lhes uma visão de sua horrível presença. A Ilíada afirma que cada ser humano possui uma Ker consigo, que personifica sua própria morte.

Elas seriam um dos maus espíritos liberados da caixa de Pandora. Ora tratadas como várias divindades e ora tratada apenas como uma única divindade que tinha um valor coletivo, entre as personificações destrutivas estão: Stygere, o ódio - Anaplekte, a morte rápida - Nosos, a doença - Ker, a destruição - Akhlys, a névoa da morte.

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O mito das Keres simbolizam o destino cruel e fatal e também os traumas emocionais causados por situações de eminente violência, tais como tentativa de assalto, sequestro, ataques de animais violentos ou peçonhentos, catástrofes naturais, agressão física, estupro ou acidentes. Pessoas que estiveram em situações de eminente violência podem desenvolver o transtorno do estresse pós-traumático que pode ser facilitado tanto pelo seu tipo de personalidade como a sua forma de lidar com dificuldades.

Toda ação produz uma reação em igual intensidade em sentido contrário. Esse choque de forças não é só uma teoria, mas uma verdade que surge nos momentos de fortes tensões emocionais. As pessoas podem ser afetadas em graus variados e o impacto é muito relativo, variando de pessoa para pessoa. Algumas pessoas podem ser totalmente afetadas pelo transtorno, que traz sofrimento e interfere em sua vida pessoal e profissional, provocando sintomas fisiológicos, emocionais e comportamentais.

Pessoas nessa situação, tentam afastar-se de quaisquer fatos, objetos, pessoas, locais e situações que possam trazer sensação de desconforto ao relembrar dos fatos. Os flashblacks, a sensação de estar novamente vivenciando o mesmo acontecimento, podem ocorrer através de pesadelos e sonhos aflitivos. Isso leva a um estado de constante tensão, gerando medo e terror obssessivo. A pessoa pode se assustar facilmente e estar sempre na expectativa de que a situação possa ocorrer novamente. Outras podem entrar numa sensação de vazio, perda de esperança no futuro e afastamento de atividades que considerava agradáveis no passado.

Em geral, as pessoas podem desenvolver os sintomas meses depois do evento, demorando algum tempo para incorporá-los. O próprio caso dramático ocorrido pode trazer significativas aprendizagens para lidar com o estresse pós-traumático, já que não é possível simplesmente esquecê-lo. Toda pessoa que foi afetada por um evento traumático deve ser acompanhada, apoiada e encorajada a encarar os fatos. Enfrentando o medo, pouco a pouco conseguirá superá-lo, para que não viva sob o constante fantasma das Keres. Só assim poderá reconstruir-se em outro contexto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Aquiles e as relações entre pais e filhos



Aquiles, o grande herói da mitologia, era filho de Tétis e Peleu. Quando Aquiles nasceu, seu pai confiou-o para ser criado e educado por Kiron. O centauro se encarregou da educação do jovem alimentando-o com mel de abelhas, medula de ursos e de javalis e vísceras de leões. Ao mesmo tempo, iniciou-o na vida rude em contato com a natureza, exercitou-o na caça, no adestramento dos cavalos, na medicina, na música e, principalmente, obrigou-o a praticar a virtude.

O jovem Aquiles tornou-se um adolescente belo, loiro e de olhos vivos. Intrépido, era simultaneamente capaz da maior ternura e da maior violência, por isso seu pai o enviou a um segundo preceptor, Fénix, um homem de grande sabedoria, que instruiu o príncipe nas artes da oratória e da guerra, juntamente com Pátroclo, filho de Menécio Rei de Locrida.

Quando Aquiles tinha nove anos de idade, Calcas - o adivinho - declarou que Tróia só poderia ser tomada com a ajuda de Aquiles, mas sua mãe pressentia que Aquiles morreria na guerra. Apavorada, Tétis vestiu seu filho como uma menina e o enviou para a corte do Rei Licomedes na ilha de Esquiro, para que ele fosse educado no Gineceu junto às filhas virgens do rei, disfarçado com o nome de Pirra - a loira ou ruiva.

Quando os gregos foram à corte de Peleu procurar por Aquiles, não o encontrando recorreram a Calcas que revelou-lhes a trama. Disfarçado de mercador, Odisseu foi ao palácio de Licomedes conseguindo entrar no Gineceu. Ele expôs, perante os olhos maravilhados das princesas, os mais ricos adornos. Entre os tecidos e as jóias estavam escondidos um escudo e uma lança. Odisseu fez soar a trombeda da guerra e imediatamente a pretensa Pirra correu para se armar. Assim Aquiles se revelou.

Aquiles retornou para junto de seus pais. Deidamia, uma das filhas de Licomedes, há muito tempo conhecia a verdadeira identidade de Aquiles. Ela mantinha um relacionamento oculto com ele e estava grávida, mas o nascimento da criança só ocorreu após a partida do herói. A criança recebeu o nome de Neoptólemo com o alcunha de Pirro. Tétis lamentou o insucesso do seu estratagema e fêz insistentes recomendações a seu filho, de que sua vida seria tanto mais longa quanto mais obscura ele a mantivesse, mas Aquiles optou pela glória tornando-se um dos mais belos herois da Guerra de Troia e um dos seus melhores guerreiros.

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Essa parte do mito de Aquiles retrata o relacionamento entre pais e filhos adolecentes. A família é a base da sociedade; é o lugar onde se desenvolvem as estruturas psíquicas e onde a criança forma a sua identidade e desenvolve o seu emocional. É na família que se determinam as funções, papéis e a hierarquia entre seus membros, sendo também o espaço social da confrontação de gerações e onde o masculino e o feminino definem suas diferenças e as relações de poder.

Cabe aos pais educar os filhos; a educação é a condição básica para o convívio social. Educar implica o uso de autoridade para estabelecer limites. Toda criança nasce egoísta e ela passa a respeitar o outro através da educação, da disciplina e, principalmente, pelo exemplo dos pais. As crianças se identificam com um dos pais e fazem o que esse adulto faz.

Quando os filhos são pequenos, os pais tem plenos poderes sobre os seus filhos e podem ainda decidir o que, quando e como as coisas podem ser feitas. Os pais tomam as decisões que julgam mais apropriadas e as crianças vivem confortavelmente essa relação de dependência desde que tenham suas necessidades básicas atendidas. Mas os filhos crescem e chegam à fase da adolescência, dando início a uma série de conflitos entre pais e filhos.

A maioria dos pais tem dificuldade em aceitar que seus filhos crescem e que passam a pensar por si mesmos. Admitir que eles estão crescendo muitas vezes significa que os pais estão envelhecendo. Muitos pais não aceitam perder o posto de heróis dos filhos, não suportam que os jovens possam ter um olhar crítico sobre eles. Crescendo, os filhos passam a enxergar os pais como pessoas, com qualidades e defeitos.

Alguns pais podem querer controlar de modo exagerado a vida dos filhos, não respeitam sua privacidade, perseguem seus passos tentando com isso evitar que eles cresçam e usam como justificativa os perigos do mundo. Na verdade, os pais tentam proteger os filhos e evitar sofrimentos futuros e se esquecem que a única forma de aprender a viver é vivendo. É isso que termina ocasionando os conflitos entre os pais e os filhos adolescentes.

O conflito entre gerações sempre existiu e os impulsos de rebeldia se formam quando os adolescentes formam seus valores, nada mais natural que jovens e adultos tenham uma visão diferente do mundo. Alguns conflitos são inevitáveis, mas muitos podem ser solucionados com um bom diálogo e respeito mútuo. A comunicação entre pais e filhos exige escuta ativa, livre expressão de sentimentos e busca ativa de entendimento mediante negociação e compromisso.

Desenvolver a habilidade de comunicação produz recompensas imediatas e a longo prazo. A comunicação tem grande impacto na saúde física e mental da família e influencia do modo como seus membros lidam com suas emoções. Isso pode afetar as atitudes, a auto-estima e a reação a situações estressantes. Se o prazer do relacionamento afetivo saudável for substituído por conflitos sem solução adequada, a família sem dúvida será infeliz.

Quando os pais apoiam seus filhos, dentro de regras razoáveis, eles promovem a segurança que os filhos precisam para seguir suas opções de vida. Quando os pais aceitam as resoluções conjuntas e conciliatórias, buscando criar soluções junto com os filhos, se estabelece o diálogo e a compreensão. Compete aos pais facilitar esse relacionamento com flexibilidade e espírito jovial. Educar com liberdade e ensinar aos filhos administrar a vida com responsabilidade é a melhor forma para desenvolver a confiança e consolidar a amizade entre pais e filhos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Greias, o caminho do autoconhecimento




Cetus e Fórcis eram divindades marinhas originadas de Gaia. Apesar de Cetus significar monstro, nome dado pelos antigos gregos às baleias, Cetus era uma deusa extremamente bela e gerou belas filhas, porém perigosas e odiadas pelos deuses, como as Górgonas, a serpente Ladon, Equidna e as Gréias.

Também chamadas de Fórcidas, as Gréias tinham cabelos grisalhos desde o seu nascimento.  Eram as três irmãs mais velhas e guardiãs das Górgonas.  Ao pedirem aos deuses para ter uma vida eterna, elas esqueceram de pedir juventude eterna, portanto envelheciam sem morrer. Decrépitas, elas tinham somente um olho e um dente, que elas compartilhavam entre si. Nunca o dente e o olho estava ao mesmo tempo com uma só, ou seja, durante todo o tempo só uma delas falava, outra só uma tinha visão e a última apenas ouvia.

Enyo - o terror, Deino - o medo e Pefredo - o alerta, viviam no Extremo Ocidente, no país da noite onde jamais chegava o sol. Apesar das Gréias serem consideradas pacíficas, Enyo é possivelmente um hipocorístico feminino de Enyálios, deus das lutas armadas, muitas vezes associado ao grito de guerra. Trata-se, talvez, de divindade pré-helênica. Enyó seria "a que faz penetrar, a que fura". Também é considerada parte do cortejo sangrento de Ares. Em Roma foi identificada com a deusa da guerra Belona.

Somente as Gréias sabiam do caminho para chegar nas Gorgonas. Quando Perseu ofereceu-se a trazer a cabeça da Górgona Medusa, Hermes mostrou a Perseu o caminho das Gréias. Ele conseguiu apoderar-se do olho e do dente das Gréias, recusando-se a devolvê-los até que elas mostrassem o caminho que lhe permitiria chegar até as ninfas, que lhe dariam tudo o que necessitava para lidar com Medusa.


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Se o mito de Perseu e Medusa representa o enfrentamento dos nossos medos e temores, as Gréias representam o aprendizado necessário para o autoconhecimento. Como guardiãs do que se encontra mais oculto de nós, algumas vezes precisamos apenas olhar para nós mesmos, sem críticas e sem medo. Ora devemos ouvir, o que dizemos para nós mesmos. Ora devemos falar sobre o que mais tememos. São as Greias que poderão nos indicar o caminho para a autodescoberta.

Elas são grisalhas desde o nascimento e, pela sua velhice aparente, estão relacionadas às antigas crenças que carregamos desde a mais tenra idade e que influenciam em nosso presente. Existem vários mecanismos que desenvolvemos desde a nossa infância, como sermos ensinados a lutar contra aquilo que achamos incorreto e por isso criamos afirmações do tipo: eu não posso, eu não consigo, eu não... Acreditamos que podemos evitar o que consideramos incorreto com simples convicções e expressões que gravamos em nós mesmos. Infelizmente, o que é positivo não aflora em nós naturalmente.

Temos a opção de pensar apenas em coisas que nos façam felizes, reconhecendo os nossos talentos e habilidades. No entanto, muitas vezes esquecemo-nos desse aspecto e pensamos negativamente a nosso respeito quando as coisas vão mal. È difícil contornar a situação de modo a vencer este sentimento de derrota, o mais fácil é certamente entregarmo-nos à tristeza. A fórmula para vencer os nossos pensamentos negativos não está disponível em outras pessoas e em nenhum lugar. É preciso existir uma grande força interior para assumirmos o controle da nossa mente.

Tudo se torna mais fácil e divertido quando sentimos emoções positivas. Quando pensamos e agimos de forma diferente, o nosso pensamento torna-se criativo. Quando apreciamos e reconhecemos o melhor de cada situação ou experiência, nos tornamos melhores e naturalmente o mundo à nossa volta se torna melhor. Quando aprendemos a rir de experiências menos positivas, descobrimos que não precisamos estar mal diante de situações ruins. Ser otimista, é correr o risco de realizar sonhos, é acreditar na capacidade de gerir o nosso destino, pois a vida não é algo que podemos impor ou fazer barganha, mas que devemos construir.

Se conheces a ti mesmo, mas não conheces o teu inimigo,
por cada vitória sofrerás também uma derrota.

Se conheces o teu inimigo e conheces a ti mesmo,

não precisas temer o resultado de cem batalhas.

Se não conheces a ti mesmo nem conheces o teu inimigo,

perderás todas as batalhas.

(Sun Tzu, A Arte da Guerra)

sábado, 15 de outubro de 2011

Hécate, a deusa dos caminhos



Hécate, também chamada de Perséia, era filha dos titãs Astéria - a noite estrelada e Perses - o deus da luxúria e da destruição, mas foi criada por Perséfone - a rainha dos infernos, onde ela vivia. Antes Hécate morava no Olimpo, mas despertou a ira de sua mãe quando roubou-lhe um pote de carmim. Ela fugiu para a terra e tornando-se impura foi levada às trevas para ser purificada. Vivendo no Hades, ela passou a presidir as cerimônias e rituais de purificação e expiação. Hécate em grego significa "a distante".

Tinha características diferentes dos outros deuses mas Zeus atribuiu-lhe prestígio. Após a vitória dos deuses olímpicos contra os titãs, a titânomaquia, Zeus, Poseidon e Hades partilharam entre sí o universo. A Zeus coube o céu e a terra, a Poseidon coube os oceanos e Hades recebeu o mundo das trevas e dos mortos. Hécate manteve os seus domínios sobre a terra, os céus, os mares e sobre o submundo, continuando a ser honrada pelos deuses que a respeitavam e mantiveram seu poder sobre o mundo e o submundo.

Ela é representada ora com três corpos ora com um corpo e três cabeças, levando sobre a testa uma tiara com a crescente lunar, uma ou duas tochas nas mãos e serpentes enroladas em seu pescoço. Suas três faces simbolizam a virgem, a mãe e a velha senhora. Tendo o poder de olhar para três direções ao mesmo tempo, ela podia ver o destino, o passado que interferia no presente e que poderia prejudicar o futuro. As três faces passaram a simbolizar seu poder sobre o mundo subterrâneo, ajudando à deusa Perséfone a julgar os mortos.

Para os romanos era considerada Trívia - a deusa das encruzilhadas. Associada ao cipreste, Hécate se fazia acompanhar de seus cães, lobos e ovelhas negras. Por sua relação com os encantamentos, feitiços e a obscuridade, os magos e bruxas da antiga Grécia lhe faziam oferendas com cães e cordeiros negros no final de cada lua nova. Também combateu Hércules quando ele tentou enfrentar Cérbero, o cão guardião do inferno com três cabeças que sempre lhe acompanhava.

O tríplice poder de Hécate se estendia do inferno, à terra e ao mar. Ela rondava a terra nas noites da lua nova e no mar tinha seus casos de amor. Considerada uma divindade tripla: lunar, infernal e marinha, os marinheiros consideravam-na sua deusa titular e pediam-lhe que lhes assegurasse boas travessias. O próprio Zeus lhe deu o poder de conceder ou negar qualquer desejo aos mortais e aos imortais. Foi Hécate quem ajudou Deméter quando ela peregrinou pelo mundo em busca de sua filha Perséfone.

Quando Perséfone, a amada filha de Deméter foi raptada por Hades - o senhor do submundo - quando colhia flores, sua mãe perambulou em desespero por toda a Terra. Senhora dos cereais e alimento, a grande mãe Deméter mortificada pela tristeza, privou todos os seres de alimento. Nada nascia na terra e Hécate, sendo sábia e observando o que acontecia, contou a Deméter o que havia sucedido a Perséfone.

Zeus decidiu interferir e ordenou que Perséfone regressasse para junto de sua mãe, desde que não tivesse ingerido nenhum alimento nos infernos. Porém, antes de retornar, Perséfone comeu algumas sementes de romã, o fruto associado às travessias do espírito. Assim ele podia passar duas partes do ano na superficie junto da Mãe, era quando a terra florescia. Mas Perséfone devia retornar para junto de Hades uma parte, era quando a terra cessava de florescer.

Hécate espalhava sua benevolência para os homens, concedendo graças a quem as pedia. Dava prosperidade material, o dom da eloquência na política, a vitória nas batalhas e nos jogos. Proporcionava peixe abundante aos pescadores e fazia prosperar ou definhar o gado. Seus privilégios se estendiam a todos os campos e era invocada como a deusa que nutria a juventude, protetora das crianças, enfermeira e curandeira de jovens e mulheres.

Acreditava-se que ela aparecia nas noites de Lua Nova com sua horrível matilha diante dos viajantes que cruzavam as estradas. Ela era considerada a deusa da magia e da noite em suas vertentes mais terríveis e obscuras. Com seu poder de encantamento, também enviava os terrores noturnos e espectros para atormentar os mortais. Frequentava as encruzilhadas, os cemitérios e locais de crimes e orgias, tornando-se assim a senhora dos ritos e da magia negra. Senhora dos portões entre o mundo dos vivos e o mundo subterrâneo das sombras, Hécate é a condutora de almas e as Lâmpades, ninfas do Subterrâneo, são suas companheiras.

Com Eetes, Hécate gerou a feiticeira Circe - a deusa da noite que se tornou uma famosa feiticeira com imenso poder da alquimía. Segundo a lenda, a filha de Hécate elaborava venenos, poções mágicas e podia transformar os homens em animais. Vivendo em um palácio cheio de artifícios na Ilha Ea ou Eana, no litoral da Italia, Circe se tornou a deusa da Lua Nova ou Lua Negra, sendo relacionada à morte horrenda, à feitiçaria, maldições, vinganças, sonhos precognitivos, magia negra e aos encantamentos que ela preparava em seus grandes caldeirões.

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Descendente dos Titãs, Hécate não tem um mito próprio e foi uma das divindades mais ignoradas da mitologia grega, mencionada apenas em outros mitos, tal como o mito de Perséfone e Deméter. Hécate é deusa dos caminhos e seu poder de olhar para três direções ao mesmo tempo sugere que algo no passado pode interferir no presente e prejudicar planos futuros.

A deusa grega nos lembra da importância da mudança, ajudando-nos a libertar do passado, especialmente do que atrapalha nosso crescimento e evolução, para aceitar as mudanças e transições. Às vezes ela nos pede para deixar o que é familiar e seguro para viajarmos para os lugares assustadores da alma.
Novos começos, seja espiritual ou mundano, nem sempre são fáceis mas Hécate está lá para apoiar e mostrar o caminho.

Ela empresta sua clarividência para vermos o que está profundamente esquecido ou até mesmo escondido de nós mesmos, ajudando a encontrarmos e escolhermos um caminho na vida. Com suas tochas, ela nos guia e pode nos levar a ver as coisas de forma diferente, inclusive vermos a nós mesmos, ajudando-nos a encontrar uma maior compreensão de nós mesmos e dos outros.

Hécate nos ensina a sermos justos e tolerantes com aqueles que são diferentes e com aqueles que tem menos sorte, mas ela não é demasiadamente vulnerável, pois Hecate dispensa justiça cega e de forma igual. Apesar de seu nome significar "a distante", Hécate está presente nos momentos de necessidade. Quando liberamos o passado e o que nos é familiar, Hécate nos ajuda a encontrar um novo caminho através de novos começos, apesar da confusão das ideias, da flutuação dos nossos humores e às incertezas quando enfrentamos as inevitáveis mudanças de vida.

A poderosa deusa possuia todos aspectos e qualidades femininos, tendo sob seu controle as forças secretas da natureza. Considerada a patrona das sacerdotisas, deusa das feiticeiras e senhora das encruzilhadas, Hécate transita pelos três reinos, a todos conhece mas nenhum domina. Os três reinos são posses de figuras masculinas, mas ela está além da posse ou do ego, ela é a sábia, a anciã. A senhora do visível e do invisível, aguarda na encruzilhada e observa: o passado, o presente e o futuro. Ela não se precipita, aguarda o tempo que for preciso até uma direção ser tomada. Ela não escolhe a direção, nós escolhemos. Ela oferece apenas a sua sabedoria e profunda visão, acima das ilusões.

Os gregos sempre viam Hécate como uma jovem donzela. Acompanhada frequentemente em suas viagens por uma coruja, símbolo da sabedoria, a ela se atribuia a invenção da magia e da feitiçaria, tendo sido incorporada à família das deusas feiticeiras. Dizia-se que Medéia seria a sacerdotisa de Hécate. Ela praticava a bruxaria para manipular com destreza ervas mágicas, venenos e ainda para poder deter o curso dos rios e comprovar as trajetórias da lua e das estrelas.

Como deusa dos encantamentos, acreditava-se que Hécate vagava à noite pela Terra, sempre acompanhada por seu espíritos e fantasmas. Suas lendas contam que ela passava pela Terra ao pôr do Sol, para recolher os mortos daquele dia. Como feiticeira, não podia ser vista e sua presença era anunciada apenas pelos latidos dos cães. Na verdade, as imagens horrendas e chocantes são projeções dos medos inconscientes masculinos perante os poderes da deusa, protetora da independência feminina, defensora contra a violência e opressão das mulheres, regente dos seus rituais de proteção, transformação e afirmação.

Em função dessas memórias de repressão e dos medos impregnados no inconsciente coletivo, o contato com a deusa escura pode ser atemorizador por acessar a programação negativa que associa escuridão com mal, perigo, morte. Para resgatar as qualidades regeneradoras, fortalecedoras e curadoras de Hécate precisamos reconhecer que as imagens distorcidas não são reais nem verdadeiras. Elas foram incutidas pela proibição de mergulhar no nosso inconsciente, descobrir e usar nosso verdadeiro poder.

Para receber seus dons visionários, criativos ou proféticos, precisamos mergulhar nas profundezas do nosso mundo interior, encarar o reflexo da deusa escura dentro de nós, honrando seu poder e lhe entregando a guarda do nosso inconsciente. Ao reconhecermos e integrarmos sua presença em nós, ela irá nos guiar. Porém, devemos sacrificar ou deixar morrer o velho, encarar e superar medos e limitações. Somente assim poderemos flutuar sobre as escuras e revoltas águas dos nossos conflitos e lembranças dolorosas e emergir para o novo.

A conexão com Hécate representa um valioso meio para acessar a intuição e o conhecimento, aceitar a passagem inexorável do tempo e transmutar nossos medos perante o envelhecimento e a morte. Hécate nos ensina que o caminho que leva à visão sagrada e que inspira a renovação passa pela escuridão, o desapego e transmutação. Ela detém a chave que abre a porta dos mistérios e do lado oculto da psique. Sua tocha ilumina tanto as riquezas, quanto os terrores do inconsciente, que precisam ser reconhecidos e transmutados. Ela nos conduz pela escuridão e nos revela o caminho da renovação.

As Moiras teciam, mediam e cortavam o fio da vida dos mortais, mas Hécate podia intervir nos fios do destino. Muitas vezes foi representada com uma foice ou punhal para cortar as ligações com o mundo dos vivos. O cipreste está associado à imortalidade, intemporalidade e eterna juventude. Sendo a morte encarada como passagem transformadora e não o fim assustador e definitivo, essa significação tem origem na própria terra que dá vida, dá a morte e transforma os frutos em novas sementes que irão renascer.
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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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