terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Medusa, um elo para o autoconhecimento

 

Durante um banquete, Polidectes - o rei de Sérifo - queria um presente de cada um de seus convidados e desafiou o herói Perseu a trazer-lhe a cabeça da Medusa. Ela tinha sido uma das três gorgonas sacerdotisas de Athena, que foi transformada em uma besta horrorosa com cabelos de serpentes e vivia numa caverna. Todos que miravam em seus olhos se tornavam petrificados. 
 
Sem saber por onde começar a procurar a Medusa, Perseu contou com a ajuda de Hermes - o deus da astúcia e inteligência - que mostrou-lhe o caminho das Gréias, três velhas irmãs que compartilhavam um olho e um dente entre si. Instruindo-lhe como fazer para que elas lhe mostrassem o caminho, Perseu conseguiu se apoderar do olho e do dente, recusando-se a devolvê-los até que as Gréias mostrassem como chegar até as Ninfas, que lhe dariam tudo o que necessitava para lidar com Medusa.
 
Encontrando as Ninfas, elas deram a Perseu uma capa de escuridão que permitiria pegar a Medusa de surpresa; botas aladas para facilitar sua fuga e uma bolsa especial para colocar a cabeça após tê-la decepado. Perseu partiu para cumprir sua missão e ao entrar no covil da besta viu-a através de seu escudo brilhante. Evitando olhar para ela, Perseu mostrou o escudo para a Medusa e ela apavorou com sua própria imagem. Nesse momento, Perseu cortou-lhe a cabeça e, acomodando a cabeça da Medusa em sua bolsa, retornou rapidamente a Sérifo auxiliado por suas botas aladas.
 
Do sangue da Medusa nasceram os gêmeos: Pegasus, com o corpo de um cavalo alado, e Chrysaor, que tinha com o corpo de um gigantesco javali alado e uma espada de ouro nas mãos.
 
Chrysaor cresceu, tornou-se rei na Península Ibérica e casou-se com Callirhoe, a filha de Oceanus e Tétis. Algum tempo depois nasceram seus monstruosos filhos: Gerião, o cão de três cabeças, e Equidna, um monstro com o corpo metade jovem mulher de lindas faces e na outra metade uma serpente de alma cruel.
 
Sua filha Equidna vivia nas profundezas da terra, distante dos deuses e dos homens. Em função de sua própria monstruosidade, uniu-se ao horrendo deus Tifão, tornando-se a mãe de outros monstros. Equidna e suas crias possuíam uma natureza terrível e adoravam devorar viajantes inocentes. Certo dia enquanto dormia, Equidna foi surpreendida por Argos Panoptes, um monstro de cem olhos, que a matou a pedido de Hera.
 
Seu monstruoso filho Gerião de três cabeças tornou-se proprietário de um grande rebanho de bois vermelhos que eram cobiçados por diversos reis. Um deles era o rei Euristeu que incumbiu Hércules de capturar o rebanho de Gerião. Durante sua jornada pelos mares, Hércules afastou com seus ombros duas grandes rochas dando origem ao Estreito de Gilbratar. Gerião e Hércules entraram em combate às margens do rio Ântemo, até que Hércules venceu seu adversário matando-o com uma flechada.
 
Athena domesticou o cavalo alado e, com um coice, Pegasus fez nascer a Fonte de Hipocrene que se acreditava ser a fonte de inspiração dos poetas. Quem de suas águas bebesse se tornaria um poeta. Quando Belorofonte foi incumbido de matar a monstruosa Quimera, ele partiu montando Pegasus. Viajando pelos ares, Belorofonte atingiu a Quimera e depois decidiu voar pelos céus. Ingloriamente Belorofonte caiu e Pegasus prosseguiu até ao Olimpo onde serviu a Zeus. Após a sua morte, Pegasus foi transformado numa constelação, um belo aglomerado de milhares de estrelas...
 
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Os antigos gregos, que inventaram a mitologia grega com suas estórias incríveis, possuiam muita criatividade e um profundo conhecimento da natureza humana. Desse mito podemos depreender o quanto é importante reconhecermos as nossas aptidões, habilidades e competências, mas também as nossas incapacidades, dificuldades e limitações.
 
A jornada de Perseu em busca da Medusa representa o enfrentamento dos nossos medos e temores, mas são as três Gréias que nos levam ao autoconhecimento. Como guardiãs do que se encontra mais oculto de nós, algumas vezes precisamos olhar para nós mesmos. Ora devemos ouvir o que dizemos para nós mesmos; ora devemos falar sobre o que mais tememos. São as Greias que poderão nos indicar o caminho para a autodescoberta.
 
A velhice das Gréias representa as crenças que adquirimos sobre nós mesmos desde a mais tenra idade e que influenciam em nosso presente. São as crenças que temos a respeito de nós mesmos que nos levam a criar afirmações do tipo: eu não consigo... eu não posso.. eu não... Essas são convicções que gravamos em nós desde a infância, porém muitas vezes não reconhecemos as nossas qualidades positivas, principalmente quando as coisas vão mal. É preciso existir uma grande força interior para assumirmos o controle da nossa mente. Hércules representa esse domínio.
 
Das três gorgonas, apenas Medusa ganhou destaque por demonstrar a vontade de evoluir. Considerada pelos gregos como uma das divindades primordiais, na evolução do mito nota-se como uma autoimagem distorcida pode gerar um grande sofrimento, por encontrar em si mesma apenas a monstruosidade do que não gostaria de ser. Perseu mostrou o espelho à Medusa para que ela visse sua monstruosa imagem, mas uma vez combatida ela libertou Pegasus, seu lado poesia.
 
"Conhece-te a ti mesmo", dizia a filosofia socrática há mais de 2.000 anos, fazendo uma referência ao auto-conhecimento, ao conhecimento do mundo e da verdade. Para o pensador grego, conhecer-se seria o ponto de partida para uma vida equilibrada e, por consequência, mais autêntica e feliz. A maioria das pessoas anseia por esse reconhecimento, já que muitas vezes não se sentem satisfeitas consigo mesmas.
 
A autoimagem que temos de nós mesmos vem desde a infância, através do feedback recebido dos adultos. À medida que amadurecemos, gradualmente perdemos essas informações a nosso respeito e as pessoas com as quais convivemos evitam chamar atenção para as nossas deficiências, nossa falta de educação ou conduta imprópria. Não há dúvida de que muitas vezes não abrimos espaço para isso e sentimos desagrado pelas advertências a respeito de nosso comportamento.
 
Podemos nos conhecer melhor através da visão de outras pessoas em quem confiamos, mas se não tivermos amigos verdadeiros que possam nos dar um feedback sincero, basta observarmos as pessoas que nos causam repulsa, antipatia ou cujo comportamento consideramos reprovável. O autoconhecimento não é tarefa fácil e grande parte da humanidade prefere se debruçar na janela para encontrar defeitos nos outros, esquecendo que enxergamos nos outros o que nos recusamos a ver em nós mesmos. Isso se chama "Projeção".
 
Quando criticamos gratuitamente o comportamento de outras pessoas, temos uma grande oportunidade de refletir porque nos sentirmos incomodados. É muito comum nos irritarmos com o jeito dos outros ou algumas coisas que os outros fazem, talvez porque nos falta coragem ou porque temos valores e crenças que nos impedem de fazer as mesmas coisas. Ou seja, atribuimos aos outros nossos sentimentos e desejos porque sentimos vergonha, medo ou porque nos ensinaram que seriam incorretos. Assim, tentamos nos proteger reprovando o que vemos nos outros.
 
A projeção é um mecanismo de defesa que usamos para atribuir a outras pessoas qualidades, motivações, pensamentos e sentimentos que reprimimos e não aceitamos em nós mesmos. É uma forma do Ego continuar a fingir que está no controle em todos os momentos, quando, na realidade, seria um meio de acessar suas próprias verdades. O que nos agrada e nos desagrada nos outros é um meio de conhecermos a nós mesmos através das pessoas, porque a projeção pode ser positiva ou negativa.
 
Embora não tenhamos consciência disso, também projetamos nas pessoas que admiramos e em nossos ídolos o que não somos ou o que gostaríamos de ser. Quanto mais conscientes formos de nossas projeções, mais estaremos nos aproximando do autoconhecimento. Crescer para além das projeções é uma forma de liberdade, pois à medida que nos compreendemos podemos aprender muito mais a respeito de nós mesmos... 
 
 

sábado, 23 de novembro de 2013

O fim do reino de Corinto



 

 

Eates ou Aetes tinha herdado de seu pai o reino de Corinto, mas decidiu deixar sua terra e reinar na Cólquida entregando o reino de Corinto para Creonte. Eates casou com a terrível Hécate, deusa da magia e da noite, que enviava aos humanos os terrores noturnos e aparições de fantasmas. Também era conhecida por aparecer nas noites de lua nova com sua horrível matilha de cachorros fantasmas para assustar os viajantes.
 
Da união entre Eates e Hécate nasceu Medéia, que aprendeu todos os segredos da bruxaria e de todos os sortilégios. Quando Jasão foi à Colquida buscar o velocino de ouro que era protegido por dragões, Medéia que era hábil nas artes mágicas ajudou Jasão a recuperar o velocino de ouro, dando-lhe um óleo que tornava invulnerável seu corpo ao fogo e ao ferro durante um dia. Ao fugir da Cólquida, Medéia esquartejou seu próprio irmão e jogou os pedaços no mar para atrasar a perseguição de seu pai que teve de parar para recolher os restos de seu filho.  
 
Medéia casou com Jasão e viveram em paz até que Creonte, o rei de Corinto, concebeu a ideia de casar sua filha Creusa com o herói dos argonautas. Jasão aceitou o enlace real e repudiou sua esposa Medéia, que foi banida do reino pelo próprio soberano. Implorando-lhe o prazo de um só dia, sob o pretexto de se despedir dos filhos, a feiticeira da Cólquida teve tempo suficiente para preparar a mortal represália.
 
Enlouquecida pelo ódio, pela dor e pela ingratidão do esposo, resolveu vingar-se tragicamente matando os próprios filhos e enviando à noiva de Jasão um sinistro presente de núpcias. Tratava-se de um manto bordado e de uma coroa de ouro, impregnados de poções mágicas e fatais. O objetivo de Medeia era destruir não só a noiva, mas também todos que a tocassem. 
 
Muito vaidosa, Creusa recebeu os presentes sem hesitar e acrescentou um véu à coroa de ouro que em breve reluziria em sua fronte. Assim que a princesa se vestiu para o casamento e colocou a coroa, de imediato foi tomada por um fogo misterioso que começou a devorar-lhe. O rei Creonte correu em socorro à sua filha e também foi envolvido pelas chamas. Em pouco tempo, de todo o reino de Corinto só restou um monte de cinzas.
 
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Do mito de Eates ou Aetes pode-se depreender como as escolhas que fazemos em nossa vida podem transformar não só o nosso futuro, mas também repercutir no destino de todos que convivem conosco. Todos os personagens envolvidos no mito fizeram suas escolhas movidos pela emoção, sem pensar nas consequências de seus atos e acabaram sendo consumidos pela falta de razão.
 
Desde os tempos da Grécia antiga, dizia-se que o ser humano era superior a outros animais por sua habilidade de racionalizar. O antigo filósofo Platão dizia que o homem deveria suprimir sua sensibilidade e emoções, pois elas impediriam que se pudesse agir racionalmente. Séculos depois o filósofo moderno René Descartes confirmava esse pensamento lançando sua famosa frase: Penso, logo existo!
 
Enquanto seres racionais, também somos seres emocionais por natureza. Como podemos viver e agir entre a razão e a emoção?
 
A emoção é livre e aflora em todos nós. É a alegria momentânea que nos fazem sorrir e a emoção que nos fazem chorar. A paixão faz o nosso mundo mais alegre e colorido. Por uma paixão a gente se arrisca, se expõe e encontra forças para tudo suportar, exceto o medo de perdê-la. Um coração apaixonado vê no outro o espelho da própria alma, o par perfeito e ideal projetado no outro. Vê no outro tudo o que deseja ser e apaixona por si mesmo na figura de outra pessoa.
 
A paixão é irracional, faz tudo pelo outro, abre mão de si pelo outro e perde a noção de perigo. Vai além dos limites, mesmo sabendo que está sendo irresponsável. Depois que a paixão arrefece, o que parecia ser perfeito torna-se um defeito. O perfume passa ser enjoativo, as dezenas de telefonemas passam a incomodar e já se começa a refletir sobre a contenção de gastos com o ser amado. A paixão é cega, mas a razão traz-lhe a visão.
 
A razão é a capacidade da mente humana de chegar a conclusões a partir de suposições ou premissas, sendo um dos meios pelos quais os seres racionais propõem razões ou explicações para causa e efeito. É a razão que nos permite raciocinar, compreender, ponderar, resolver problemas, formar conceitos e encontrar coerência entre pensamento, palavras e atitudes. A razão exige reflexão do que se sente de forma racional.
 
Se deixamos a razão falar mais alto, estaremos suprimindo o melhor que temos em nós mesmos. Viver sem emoção torna a vida fria, sem o prazer das coisas bobas da vida, como sorrir, chorar, sonhar, sofrer e amar. Viver a vida sempre com a razão não é uma vida propriamente vivida, porém quando deixamos o coração coordenar de modo irracional, acabamos agindo pelo impulso que pode nos levar a atos impensados. Fazer loucuras por amor pode ter um alto preço. É a razão que pode frear os nossos impulsos e dizer: " Aja com cautela e meça as consequências de seus atos..."
 
O ponto em que hoje estamos, são reflexos de decisões tomadas lá num passado distante e as decisões de hoje irão pesar em nosso futuro. Quando a razão e a emoção andam juntas, uma complementa a outra. Algumas vezes é saudável tirar os pés do chão, sonhar e deixar o pensamento voar, mas é preciso saber como e quando deve pousar...
 
 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Themis e Zeus, o casamento que inseriu a ordem e equidade no mundo

 
 

Themis foi uma das titânides, filha de Urano e Gaia. Seu nome significava "aquela que é posta, colocada" e era representada empunhando uma balança onde equilibrava a razão e a emoção. Quando ainda era uma criança, sua mãe a entregou aos cuidados de Nyx, a Deusa da Noite e da Escuridão para protegê-la do enlouquecimento de seu pai. No entanto, Nyx se sentia cansada e pediu às Moiras que criassem Themis e sua filha Nêmesis. 
 
As Moiras eram as Deusas do Destino. Elas fiavam o fio do destino humano e cuidavam para que um destino fosse designado para cada um e que ninguém escapasse dele. Cloto era quem fiava, Láquesis determinava o comprimento do fio e Átropos cortava o fio da vida no momento determinado para a morte. Tanto os homens quanto os deuses temiam as Moiras e suas decisões deviam ser obedecidas.
 
Elas criaram Themis e Nêmesis ensinando-lhes tudo sobre a ordem cósmica e natural das coisas, como o ciclo da vida - nascer, crescer, morrer -, além da importância de zelar pelo equilíbrio. Por terem crescido juntas, as duas tinham muitas semelhanças: Themis - a Deusa da justiça e Nêmesis - a Deusa da retribuição e recompensa.
 
Nêmesis originalmente significava "distribuição da sorte", nem boa nem má, simplesmente na proporção devida a cada um segundo seu merecimento. Quando alguém sofria por uma atitude alheia, Nemêsis não permitia que o ofensor passasse impune. Nas tragédias gregas, Nêmesis apareceu principalmente como vingadora dos crimes e castigadora da arrogância. 
 
Alguns a chamavam de Adrastéia que significa "aquela de quem não há escapatória" ou "a inevitável". Como deusa da devida proporção e equilibrio, ela punia toda transgressão dos limites da moderação e restaurava a boa ordem das coisas, por isso era considerada a divindade do castigo. Ostentando uma espada que representa a justiça, trazia nas mãos uma ampulheta advertindo que a justiça poderia demorar, mas seria certeira. Por isso, muitas vezes é relacionada ao karma.
 
Themis era a deusa guardiã da consciência coletiva e personificava a lei, a ordem social, a lei espiritual e justiça divina. Era frequentemente invocada na corte quando se faziam os juramentos perante os magistrados, pois representava o ajuste das divergências para estabelecer a paz. Por isso Themis passou a ser considerada a Deusa da Justiça e protetora dos oprimidos, que os romanos chamavam de Deusa Justitia.
 
Ela tinha as qualidades de Gaia - a terra, ou seja, estabilidade, solidez, imobilidade e falava com os homens através dos oráculos. Estava ligada à voz da terra e exaltava as leis da natureza e as leis naturais que todos deviam obedecer, que antecedem as regras ditadas pela sociedade. Foi Themis quem orientou Deucalião e Pirra para formar uma nova humanidade depois do dilúvio e ajudou Hércules a salvar Prometeu, que tinha sido condenado a morrer acorrentado num rochedo após roubar o fogo dos deuses para oferecer aos homens.
 
Quando a esposa de Zeus estava grávida, Themis alertou-o que nasceria uma filha que seria uma ameaça ao seu poder. A esposa de Zeus tinha o dom de se transformar em qualquer coisa, por isso Zeus propôs uma brincadeira pedindo que Métis se transformasse em uma mosca. Aproveitando-se de uma distração, Zeus engoliu-a. Da cabeça de Zeus nasceu Athena.
 
As Moiras profetizaram que Zeus tinha muito a aprender com Themis. Algum tempo depois, Zeus e Themis casaram e foram os pais das Horas e de Astreia, a deusa protetora da humanidade e simbolizava a pureza e a inocência. Conta-se que Astreia deixou a Terra no fim da Idade do Ouro para não presenciar as aflições e sofrimentos da humanidade durante as idades do Bronze e do Ferro. No céu ela foi transformada na Constelação de Virgem.
 
As Horas eram muitas, sendo as mais conhecidas: Eirene, Eunômia e Dikê que personificavam a paz, a disciplina e a justiça. Como guardiãs do Olimpo, elas cuidavam da ambrosia, o alimento dos deuses, e organizavam a passagem das estrelas. Assim tornaram-se as deusas do ano, das estações climáticas e da divisão do dia em horas. Elas eram a extensão dos atributos de Themis e presidiam a ordem natural humana, da natureza e social.
 
Enquanto Zeus exercia o poder absoluto, um padrão arquetípico que governa a consciência coletiva, Themis desestabilizava o absolutismo e as certezas de Zeus, movimentando-se dentro de vários outros padrões arquétipicos. Ela era sua esposa e conselheira, temperando o poder com sabedoria. Respeitada por todos os deuses, ao presidir as reuniões políticas do Olimpo Themis manifestava o teor organizacional de sua dignidade e justiça.
 
Com seriedade moral obrigava os grandes e poderosos a ouvir, de modo consciencioso, as objeções e contribuições daqueles menos proeminentes. A deusa opunha-se à dominação de um sobre muitos e apoiava a unidade mais que a multiplicidade, a totalidade mais do que a fragmentação, a integração mais do que a repressão. Nessa atividade de contenção e vinculação, Themis revelava o princípio operado pela consciência feminina: a lei do amor.
 
Seu maior opositor era Ares - o deus da guerra - que tinha apetite por violência e sua sede de sangue não conhecia limites. Themis não era contra a guerra, mas defendia a ordem natural e ambiental, pois a guerra reduzia o tempo da vida e a população humana. Sua balança foi transformada na Constelação de Libra, que brilha céu para nos lembrar que a justiça é fundamental.

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No imaginário popular, sempre quando se fala em Justiça surge a figura da mulher de olhos vendados carregando uma balança e a espada. De fato, essas imagens alegóricas representam a manifestação da Justiça.
  • A Balança simboliza a equidade, o equilíbrio, a ponderação e a igualdade das decisões aplicadas pela lei. O direito precisa ser pesado, senão torna-se força bruta e irracional.
  • A Espada simboliza a ordem, regra, força e coragem, aquilo que a razão dita e a coerção para alcançar tais determinações. Se não obriga a sua aplicação, o direito não tem qualquer validade.
  • Os olhos vendados da deusa simboliza a necessidade de nivelar o tratamento jurídico de todos por igual, sem nenhuma distinção. Tem o propósito da imparcialidade, da objetividade e da afirmação de que todos são iguais perante à lei. Isso não implica que a justiça é cega, pois aos olhos da justiça, nenhum pormenor que seja relevante deixa de ser considerado para a aplicação da lei, ou seja, o julgamento é avaliação de todos os ângulos de uma questão.
Cada símbolo completa o outro, para que a Justiça seja a mais justa possível:
  • A espada sem a balança torna o Direito brutal.
  • A balança sem a espada torna o Direito impotente perante os desvalores que insistem em ser perenes na história da humanidade.
  • Os olhos vendados objetivam evitar privilégios na aplicação da justiça. A balança é o instrumento capaz pesar o direito de cada um e a espada, a sua aplicabilidade.
A existência psicológica de Themis está no inconsciente coletivo. Sendo Themis a deusa da justiça, da lei, da ordem e protetora dos oprimidos, também determinou que o direito depende dos deveres a serem cumpridos por todos. Foi o casamento de Themis com Zeus que inseriu a ordem e equidade no mundo dos homens, mostrando que até mesmo quem emana as leis deve a elas estar submetido. Quando a justiça não age devidamente e não pune os culpados, acaba punindo os inocentes...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Kharybdis e Scilla, o tormento das escolhas e decisões



Odisseu ou Ulisses foi um dos grandes heróis da Guerra de Troia. Depois de derrotar os troianos, ele iniciou uma longa viagem de dez anos de volta para Itaca, que foi marcada por muitas aventuras e desventuras.

Odisseu e seus companheiros enfrentaram o cíclope Polifemo e só conseguiram fugir porque cravaram uma lança no único olho do gigante. Eles não sabiam que Polifemo era filho de Poseidon, por isso passaram a ser perseguidos pelo deus que criou inúmeros problemas para eles no percurso da viagem.

Depois de algum tempo navegando, eles chegaram à Ilha de Circe onde ficaram por um longo período. Quando resolveram partir, a feiticeira Circe ajudou-os a passar sãos e salvos pela costa da Ilha das Sereias, recomendando que tapassem os ouvidos com cera para não serem inebriados pelos cantos das sereias.

Depois de terem enfrentando estes e tantos outros perigos, Odisseu e seus companheiros pensavam que haviam superado todos os desafios da viagem, mas o pior estava por vir. Navegando por um estreito canal entre duas rochas, eles tiveram um encontro com dois enormes monstros marinhos: Scilla e Kharybdis.

Kharybdis habitava uma das rochas onde havia uma grande figueira. Filha de Poseidon, ela tinha sido uma bela ninfa do mar, porém certa vez tentou inundar a terra para expandir o reino subaquático de seu pai, deixando os demais deuses zangados. 

Quando Héracles passou por perto levando os bois de Gerião, ela roubou alguns dos animais para devorá-los. Ao tentar recuperar o gado, Kharybdis atacou Heracles e foi fulminada por Zeus com um raio. Lançada às profundezas do mar, ela foi transformada num monstro marinho. Três vezes por dia ela sorvia as águas do mar e depois tornava a cuspi-las, formando um redemoinho no mar.

Scilla, que habitava a outra rocha no lado oposto, também era filha de Poseidon. Ela tinha sido uma bela ninfa amada pelo pescador Glauco. Certo dia ele estava pescando quando descobriu que, ao colocar na relva os peixes que pescava, os peixes retornavam à vida. Curioso, ele resolveu entrar no rio e acabou sendo transformado num ser marinho, com cabelos verdes e a metade de seu corpo transformada numa cauda de peixe. Devido à sua aparência, Scilla rejeitou o seu amor. 

Glauco pediu ajuda à feiticeira Circe para retornar à sua antiga aparência, porém ela se apaixonou por ele. Sabendo que Glauco tinha sido rejeitado, Circe voltou-se contra a rival derramando uma poção venenosa na fonte em que a ninfa se banhava. Quando Scilla entrou na fonte, viu serpentes e outros monstros na água. Tentou fugir mas descobriu que os monstros eram partes de si mesma. Depois disso ela foi viver no estreito de Messina, aterrorizando os marinheiros.

Quando Odisseu e seus companheiros passavam pelo estreito com sua embarcação, foram atacados por Kharybdis que fez surgir um enorme redemoinho. Eles tentaram escapar remando com muito esforço, porém quando conseguiam se distanciar Scilla os atacava do outro lado. Com a embarcação destruída, muitos marinheiros cairam no mar e foram devorados por Scilla.

Odisseu e alguns de seus amigos conseguiram se agarrar aos pedaços da embarcação que se espalharam pelo mar. Porém Odisseu começou a ser sugado pelo turbilhão e, quando já estava bem perto da morte, conseguiu agarrar-se à figueira conseguindo se salvar. E assim Odisseu prosseguiu sua viagem para encontrar sua amada Penelope que o esperava em Itaca.

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Desse episódio da mitologia grega surgiu a expressão "Estar entre Scilla e Kharybdis", significando estar entre duas alternativas igualmente perigosas ou desagradáveis. E quem já não esteve numa situação assim?

A vida é feita de escolhas. Desde as mais simples às mais complexas, toda escolha é feita com base nos elementos que possuímos em cada momento. São os fatos que determinam as nossas decisões. E quanto mais informações conseguimos obter, mais poderemos analisar e decidir com propriedade, que ajuda a ancorar as nossas decisões. Isso torna o momento de decisão menos sofrido e complicado, porque podemos pesar os prós e contras e projetá-los no futuro.

Para decidir sempre temos de considerar as alternativas disponíveis e assim escolher a melhor entre todas e dispensar as demais. Ou seja, para escolher temos de renunciar de algo, porém há situações que não se processam assim. Em algum momento de nossa vida pode surgir a necessidade de escolhermos uma opção que não seja a pior ou que cause menos danos.

No livro "Escolha de Sofia" o escritor William Styron retratou o dilema, a angústia de julgar, escolher e decidir, sendo usado como expressão quando estamos indecisos diante de duas opções ou quando qualquer caminho que tomemos são igualmente ruins e nefastos.

O livro conta a dramática história de Sofia, que testemunhou os horrores do holocausto. Ao ser interrogada por um comandante alemão, ela foi submetida à mais cruel escolha de sua vida: devia entregar um dos filhos para morrer ou ambos seriam mortos. Torturada pela decisão e tomada em desespero pela pressão sofrida, Sofia optou por salvar seu filho e entregou sua filha para morte.

Talvez nunca tenhamos de tomar uma decisão tão dramática, mas com certeza em algum momento poderemos viver momentos difíceis, tendo de conviver com a dúvida de ter decidido certo. Porém não existem escolhas certas ou erradas, adequadas ou inadequadas; o que existe são escolhas e decisões que funcionam naquele momento.

Suportar a pressão para decidir sobre coisas que podem mudar nossa vida e a vida de outras pessoas, não é fácil. O que nos atormenta é que qualquer decisão implica em conviver com suas consequências. E não adianta fecharmos os olhos e recusar a enxergar o que temos pela frente. Quanto mais adiamos decisões, mais nos tornamos prisioneiros de nosso dilema e nunca descobriremos o que há mais adiante.

Disso podemos apreender que, podemos nos sentir apertados, constrangidos e encurralados pelas escolhas da vida, porém é melhor lutar pelo que seja verdadeiro e que pode trazer algum resultado, do que viver eternamente entre situações que nos aterrorizam e paralisam. Só optando por uma delas saberemos de seu real potencial de desdobramento. 

Quanto à escolha de Sofia, no momento de sua decisão ela analisou rapidamente que o filho teria mais condições de sobreviver à rude permanência no campo de concentração. Algum tempo depois ela foi designada para trabalhar na casa de um chefe da Gestapo. Era ele que decidia quem devia viver e quem devia morrer. A proximidade com o comandante lhe permitiu expor sua condição e suplicar a liberdade para si e seu filho... 

Leia mais sobre Escolha de Sofia em meu blog Viva la Vita mensagens ou click aqui

terça-feira, 23 de abril de 2013

Atlântica, o paraíso que se perdeu


Segundo a lenda teria existido há muito tempo um grande continente, chamado Atlântida ou Atlantis. Situava-se no meio do Oceano Atlântico, frente às Portas de Hércules. Essas portas erguiam-se no local onde hoje está o Estreito de Gibraltar, fechando por completo o Mar Mediterrânio.

Atlântida teria sido um paraíso, uma lendária ilha cuja primeira menção conhecida remonta a Platão em suas obras "Timeu ou a Natureza" e "Crítias ou a Atlântida". Na ilha havia grandes e pequenas cidades com exóticas paisagens, clima agradável e belas florestas ao lado de extensas e férteis planícies onde os fortes animais eram dóceis.

Os atlantes eram senhores de uma civilização muito avançada. Tinham palácios e templos cobertos de ouro e outros metais preciosos, que destacavam-se numa paisagem onde o campo e a cidade conviviam em harmonia. Jardins, fontes, ginásios, estádios, estradas, aquedutos e pontes eram mantidos à disposição de todos. Desta abundância nasceram e prosperaram as artes e as ciências com muitos artistas, músicos e grandes sábios.

Mas não viviam completamente tranquilos, pois não estavam sozinhos no mundo. Apesar de cultivarem a paz e a harmonia, nunca deixaram de praticar as artes da guerra já que vários povos movidos pela inveja cobiçavam sua riqueza e tentavam conquistar a ilha. As vitórias obtidas contra os invasores foram tão grandiosas, que logo despertou o orgulho e a ambição de passar ao contra-ataque.

Já não pensavam em apenas defenderem-se, mas em aumentar o território de Atlântida. Assim o poderoso exército Atlante preparou-se para a guerra. Aos poucos foram conquistando grande parte do mundo conhecido, dominando vários povos e várias ilhas em seu redor, como também uma grande parte da Europa Atlântica e parte do Norte de África. Os seus corações até então puros foram endurecendo como as suas armas.

Enquanto se perdia a inocência nascia o orgulho, a vaidade, o luxo desnecessário, a corrupção e o desrespeito com os deuses. Poseidon, o deus dos mares, convocou os outros deuses para julgar os atlantes e decidiu aplicar-lhes um castigo exemplar. Como consequência vieram terríveis desastres naturais.

As terras da Atlântida estremeceram violentamente. O dia fez-se noite e em seguida surgiu o fogo queimando as florestas e campos de cultivo. O mar inundou a terra de Atlântida com ondas gigantes, engolindo aldeias e cidades. Em pouco tempo, junto com seu excessivo orgulho, vaidade e desmedida ambição, a Atlântida desapareceu para sempre...
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Orgulho, vaidade, ostentação, soberba, arrogância, inveja e egoísmo são sete irmãos que convivem conosco. Eles agem como nossos amigos e são necessários para nutrir e fortalecer nosso amor próprio ou auto-estima. Porém se os deixamos crescer demais, eles se juntam podendo se tornar os nossos piores inimigos.

ORGULHO é um sentimento de satisfação pela realização de algo, um elevado sentimento de dignidade pessoal que pode ser empregado tanto de forma positiva ou negativa. Ter orgulho dos próprios feitos é ser justo consigo mesmo, reconhecendo suas próprias capacidades. É uma forma de elogiar a si mesmo prestando justa homenagem aos seus esforços. Quem nunca olhou para algo que tenha feito e dito: Nem acredito que fui eu que fiz!

Ter orgulho de si mesmo, admirar-se por um feito ou modo correto de ser é um sentimento positivo diante de conquistas que proporcionam alegria compartilhada com os outros. É uma manifestação de autoestima. Porém o orgulho em excesso pode se tornar negativo, levando a superestimar-se acreditando ser melhor, mais importante ou com grandes capacidades, embora não seja verdade. É aí que o orgulho se transforma na SOBERBA negativa.

SOBERBA é um sentimento positivo que nos faz esforçar para vencer no mundo competitivo. É a soberba que nos leva a superar limitações e sermos mais competentes. O termo provém do latim Superbia, ou seja, ser melhor, superior,  mais alto, mais destacado. Prêmios e troféus são dados aos soberbos, ou seja, aos melhores. Porém a soberba pode tornar-se destrutiva quando se manifesta no racismo, no elitismo, nos preconceitos ideológicos ou religiosos que só servem para deflagar graves conflitos e hostilidades.

Algumas vezes a soberba negativa pode-se se manifestar no excesso de humildade focada na inferioridade: se não pode se destacar sendo o melhor tenta se depreciar excessivamente diante dos outros para poder ouvir elogios e destaque de qualidades que não tem. O soberbo negativo tende a exibir-se a qualquer preço e desconhece a humildade para reconhecer a realização dos outros. Enamorado da própria existência, deseja despertar inveja e admiração nos outros para superar sua falta de autoestima. Quando é superado pelos outros, deixa-se dominar pela INVEJA depreciativa.

A INVEJA não é um sentimento ruim; ruim são as manifestações pejorativas e depreciativas que dela provém. Querer ter poder, riqueza e status igual ao dos outros não é negativo, é uma reação natural do ser humano. Se isso serve como fator de motivação para o esforço de obter as mesmas coisas, aí a inveja é positiva.

Inveja origina do latim Invidere que significa "não ver". Se há tristeza perante ao que o outro seja ou tem, se há o desejo de querer retirar algo dos outros, isso é cobiça. Cobiçar algo do próximo é sentir-se frustrado por não possuir atributos, qualidades e valor tanto quanto outros, sentindo-se incapaz de alcançá-la seja por incompetência, limitação física ou intelectual. A inveja se torna negativa quando a única intenção é alimentar a VAIDADE negativa. 

VAIDADE não é pecado, desde seja positiva. Pessoas vaidosas cuidam de si, de suas coisas e de outras pessoas. É a vaidade que evita que nos deixemos deteriorar. Porém a vaidade em excesso desperta a necessidade exagerada de cuidados, muitas vezes desrespeitando os próprios limites e submetendo-se a procedimentos e situações apenas para exibir-se. O vaidoso em excesso tem necessidade de se expor precisando receber aplausos de bajuladores, ainda que não sejam honestos. Com tantas bajulações, acaba tornando-se vítima da própria ARROGÂNCIA. 

A ARROGÂNCIA muitas vezes é confundida com a coragem de assumir as próprias opiniões. Ter personalidade é reconhecer os próprios méritos e ideias, desde que se disponha a ouvir a opinião e ideias dos outros. É comum aos arrogantes negativos recusar a aprender algo porque julga que sabe tudo e que suas ideias são melhores. E mesmo que não saiba, finge que sabe. A arrogância é na verdade um excesso de vaidade que impede de reconhecer a sabedoria dos demais. E, por concentrar em si mesmo, se deixa dominar pelo EGOÍSMO.

O EGOÍSMO tende a ser considerado pejorativo, mas na verdade ele é necessário para que cuidemos melhor de nós mesmos, que façamos as coisas primeiro para nós mesmos e assim podermos cuidar dos outros. O egoísmo utilizado de forma positiva chama-se autoestima; quem não ama primeiro a si mesmo não é capaz de amar verdadeiramente o outro.

O egoísta negativo concentra-se apenas em si mesmo. Recusa-se a compartilhar o que tem e ainda cobiça e deseja o que é dos outros. O egoísta negativo sofre com sua ganância, pois é um eterno insatisfeito que busca ter tudo, talvez para encobrir alguma deficiência que considera insuperável, podendo lhe faltar AUTOESTIMA.  

A AUTOESTIMA está relacionada à nossa capacidade de sentir a vida, tendo a percepção de que somos merecedores do que nos faz bem, nos alegra e nos dá conforto. É reconhecer e respeitar as nossas necessidades e desejos desfrutando dos resultados de nossos esforços. É ter autoconhecimento e autoconfiança, enfrentando os problemas e obstáculos que possam interferir em nossa felicidade.

A auto-estima é um sentimento positivo, mas se não temos consciência e domínio ela se tornará destrutiva. Tanto o excesso quanto a falta de autoestima são prejudiciais. O excesso de autoestima pode resultar no egoísmo negativo, na ganância de querer tudo somente para si não importando os outros, numa tentativa de superar a falta de autoestima.

A auto-estima fortalece, dá energia e motivação. Quanto mais elevamos a nossa auto-estima, mais queremos crescer, não necessariamente no sentido profissional ou financeiro, mas dentro daquilo que esperamos viver durante nossa vida. Quanto mais baixa nossa auto-estima, menos desejamos fazer e é provável que menos ou pouco possamos realizar. Isso está diretamente relacionado à AUTOSEGURANÇA. 

A INSEGURANÇA se manifesta na dificuldade para enfrentar os problemas da vida por não confiar na própria capacidade ou pelo medo de expor suas ideias, vontades e necessidades. Pessoas inseguras em geral tem baixa autoestima, não respeitam a si mesmas, se desvalorizam, não se sentem merecedoras de amor e respeito por parte dos outros e se não se acham merecedoras do direito à felicidade. 

Pessoas com autoestima saudável não se envergonham de suas deficiências, limitações e dificuldades. Não tem dificuldade em pedir perdão, pois sabem reconhecer seus erros e culpas. É mais provável encontrarmos simpatia e compaixão em pessoas com auto-estima elevada do que naquelas com baixa auto-estima, pois o nosso relacionamento com o mundo tende a espelhar e refletir o relacionamento que temos com nós mesmos.

A autoestima saudável produz sentimentos leves e gostosos, alegria, tolerância e paciência com os outros. Também nos dá a capacidade de utilizarmos a nossa inteligência para nos responsabilizarmos por nossos sentimentos; isso se chama Inteligência emocional. Não são os fatos ou as atitudes dos outros que nos incomodam; o que nos incomoda são os nossos sentimentos em relação a eles.

Quando aprendemos a ter inteligência emocional nossa atenção se volta apenas para o que seja importante. Não nos desgastamos com coisinhas pequenas. Não insistimos numa discussão. Reconhecemos os nossos erros e admitimos nossas falhas, porque consideramos que o mais importante é a harmonia, bem estar e paz. Não estragamos um dia com caprichos infantis e inúteis. 

Desistimos de tratar as coisas de forma radical e nos tornamos mais flexíveis, não para conceder privilégio aos outros mas sobretudo pelo bem que desejamos fazer a nós mesmos. Quando descobrimos que a vida é efêmera e pode acabar num segundo, nossos sentimentos ganham novos valores. Prestamos mais atenção em nós mesmos, percebemos e filtramos os nossos pensamentos. Podemos mudar a nossa vida mudando a qualidade de nossos pensamentos, mas para isso precisamos de HUMILDADE.  

HUMILDADE vem do latim Humus, que significa filhos da terra. Refere-se à qualidade de nos considerarmos iguais, nem superior e nem inferior aos outros. A humildade é uma virtude que dá o sentimento exato ao nosso bom senso, de utilizarmos de cordialidade, honestidade, respeito e simplicidade com as outras pessoas. Quem é humilde não se vangloria do que tem ou do que faz, mas também não pode ser confundida com modéstia que pode ser traduzida como uma depreciação de si mesmo ou falta de ambição.

A ambição excessiva prejudica, mas dentro dos limites éticos e morais ela se torna positiva. Pessoas positivamente ambiciosas buscam conhecimento e autoconhecimento,
são motivadas, persistentes e mantem uma autoestima elevada que se manifesta o egoísmo saudável, desejando obter o melhor para si, para os outros e para o mundo.  Elas agem com integridade e sabem que, para atingir seus objetivos, não precisam roubar, mentir e nem passar por cima de outros. 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Apeles e a busca por justiça


Ao ser injustamente difamado por seu rival Antífilos, que o acusou de ser cúmplice de uma conspiração diante do crédulo rei do Egito, Apeles provou sua inocência e para expressar sua indignação ele pintou um quadro. Mais tarde Sandro Botticelli reproduziu a cena do julgamento em sua obra "A Calúnia de Apeles"/1494.

A pintura mostra um homem inocente arrastado diante do trono pelas personificações da Calúnia, da Malícia, da Fraude ou Dolos e da Inveja. Eles são seguidos de um lado pelo Remorso, uma anciã angustiada que veste roupas surradas, que vira-se para enfrentar a Verdade nua, bela e pudica, que aponta para o céu. 


A nudez da Verdade a relaciona ao jovem inocente, cujas mãos postas significam o apelo a um poder superior. Assim como o jovem inocente quase tão nu quanto ela, a Verdade não tem nada a esconder. Com seus gestos eloquentes e a expressão da única figura proeminente na pintura, ao apontar para o alto em direção ao céu mostra que uma Justiça mais elevada será dispensada ao acusado.



O Rancor, vestido de preto, conduz a Calúnia com a mão direita. A Calúnia empunha uma tocha acesa com a mão esquerda, símbolo das mentiras que ela espalhou, enquanto arrasta pelos cabelos sua vítima, o jovem seminu, pela mão direita. A Inocência do rapaz é representada pela sua nudez, que significa que ele nada tem a esconder. Ele cruza as mãos em vão, como que rogando a sua libertação a um poder superior. 



Por detrás da Calúnia, as figuras da Fraude ou Dolos e da Inveja estão cuidadosamente ocupadas em trançar, hipocritamente, os cabelos de sua amante, a Calúnia, com uma fita branca e espalha rosas sobre sua cabeça e ombros. Ao serem representadas com as formas enganosas de belas moças, elas estão fazendo um uso insidioso dos símbolos da pureza e da inocência para adornar as mentiras da Calúnia.


O rei está sentado num trono erguido em um salão aberto, decorado com relevos e esculturas. Ele está ladeado pelas personificações alegóricas da Ignorância e da Suspeita, que estão avidamente sussurrando rumores em suas orelhas de burro, que simbolizam a imprudência e a natureza tola do rei. Ele tem os olhos apertados, mostrando que é incapaz de ver o que está realmente acontecendo e estende a mão cansada para o Rancor em pé diante dele.

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Desde pequenos somos condicionados a procurar por justiça e, quando na vida somos injustiçados, sentimos raiva, ansiedade e frustração. Na verdade, procurar por justiça plena é como procurar a fonte da juventude eterna. A justiça plena não existe, nunca existiu e nunca existirá. O mundo não funciona dessa forma.

A natureza não é justa. Animais são predadores naturais de outros: os ratos comem os percevejos; as cobras comem os ratos; as galinhas comem as cobras; os coiotes comem as galinhas etc. Mesmo que pareça injusta, assim é a cadeia alimentar dos bichos. Furacões, inundações, terremotos, todos são injustos, porque atingem bons e maus.

É um conceito mitológico sentir-se feliz ou infeliz devido à justiça; é isentar-se da responsabilidade pela própria felicidade. A exigência da justiça é verdadeira, mas não podemos nos deixar envolver demais nela, pois assim estaremos sendo injustos em relação a nós mesmos. Apesar da injustiça, temos de nos manter em busca da verdade e defender a inocência. 

A injustiça é constante, mas podemos nos recusar a sermos reduzidos a um estado de imobilidade emocional por causa dela. Esforçar-se para eliminar a injustiça é um dever, mas ninguém jamais poderá se sentir psicologicamente derrotado por ela. Se você parar de plantar boas sementes de onde nunca nada se colhe, nunca se sentirá injustiçado. 


Plante sementes apenas onde haja possibilidade de germinar e de onde você possa colher bons frutos. E se quiseres combater a injustiça, comece por si mesmo. A injustiça se alimenta e ganha força onde há malícia, fraude, dolo, calúnia, inveja, mentira, ignorância, suspeita e imprudência.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Priapus, deus da fertilidade, boa sorte e poder


De acordo com a Mitologia Grega, Afrodite era a deusa do amor e da beleza. Ela apreciava a alegria, o prazer e o glamour, castigando a quem ousasse comparar-se à sua beleza. Casada com Hefesto, o deus dos ferreiros e metais era deformado, tinha os pés tortos, quadris deslocados e Afrodite nunca se satisfez sendo sua esposa.

Apesar de ser casada com Hefesto, Afrodite era sedutora e tinha vários amantes. Os filhos de Afrodite com seus amantes mostram seu domínio sobre as mais diversas faces do amor e da paixão humana. Um de seus filhos era Priapus, nascido de sua união com Dionísio. Priapus era um deus muito feio e tinha um enorme órgão genital, que se mantinha sempre ereto dando origem ao termo médico Priapismo.

Segundo a lenda, Hera, a vaidosa e vingativa esposa de Zeus nunca havia se conformado por Afrodite ter subornado Paris para indicá-la como a mais bela durante o concurso de beleza entre Hera, Atena e Afrodite. Por isso Príapus foi amaldiçoado por Hera enquanto ele ainda estava no ventre de sua mãe, tendo desejado que ele nascesse feio e com uma eterna ereção, porém seria impotente. 

Os deuses recusaram a presença de Priapus no Monte Olimpo e o jogaram na terra. Sozinho, ele acabou sendo encontrado pelos sátiros. Príapus juntou-se a Pan e a outros sátiros passando a ser cultuado como o deus da fertilidade, dos jardins, das plantas frutíferas e do crescimento, embora ele se mantivesse eternamente frustrado por sua impotência.

Conta-se que Priapus tentou unir-se com a ninfa Lotis, mas foi frustrado pelo zurrar de um jumento que levou-o a perder a ereção. O episódio fez com ele passase a odiar os jumentos exigindo que eles fossem destruídos em sua honra. No entanto, Priapus vingou-se fazendo com que o emblema sua natureza lasciva permanecesse nos jumentos. 




O mito de Priapus serve para conhecermos um pouco mais a respeito das representações através dos tempos. Na antiguidade tardia, o culto a Priapus era bem mais do que um sofisticado culto de pornografia. Para os camponeses gregos ele era visto como uma divindade guardiã dos pastos de cabras, ovelhas e dos enxames de abelhas. Foi considerado também como um deus que propiciava boa sorte e tinha o poder de evitar o mau-olhado, por isso sua imagem era adorada nos jardins e nas casas, sendo-lhe oferecido frutas, flores, peixes e legumes.

Estatuetas de Priapus eram comuns na antiga Grécia como também na Roma antiga, colocadas em pomares, portas, encruzilhadas e frequentemente adornadas com cartazes contendo epigramas, que ameaçavam os transgressores dos limites por ele protegidos. Ele foi representado de várias maneiras, geralmente como uma figura de gnomo deformado com um enorme falo ereto. Acredita-se que o uso de gnomo de jardim tenha surgido da figura de Príapus.

Como o deus protetor dos marinheiros e pescadores, a figura de Priapus servia como demarcação de áreas consideradas como passagem perigosa. Representado em sua forma ereta, o falo estava presente em quase todos os aspectos da vida diária, reafirmando o estado macho-dominante de coisas que sua presença manifesta. O falo também está associado à posse e demarcação territorial, por isso em muitas culturas é a divindade de navegação.

Quando os romanos conquistaram os territórios dos gregos, eles adotaram os seus deuses mas deram-lhes nomes latinos. Assim Priapus passou a ser o deus Fascinum mantendo o mesmo poder de afugentar o mau olhado e propiciar a conquista, coragem e autoridade. Atribuiam-lhe também o poder de fazer brotar as árvores e de tornar as mulheres férteis. Mesmo depois da queda de Roma, Príapus continuou a ser invocado como um símbolo de saúde, fertilidade, prosperidade e poder. De Fascinum provém os termos fascinante e facismo.

Priapus foi uma figura popular na arte erótica romana e na literatura latina, sendo um tema do humor obsceno de versos chamado Priapeia. Ele era muito popular em Pompeia e uma das imagens mais famosas tem em seu falo um saco de dinheiro. As intenções de seu culto eram dirigidas mais para a luxúria do que o amor. A crença ideal dos pompeianos era: Goza enquanto podes. A vida é muito curta. Goza a vida enquanto a tens! 

Para o povo de Pompéia nada ultrapassava o prazer sexual, por isso toda a cidade revelava uma atmosfera de sexualidade. O povo de Pompéia considerava as relações sexuais como uma atividade biológica natural e salutar. Eles eram exímios na arte sexual, porém sem vulgaridade nem tabu a respeito da sexualidade humana.   

 
Tanto gregos quanto romanos eram povos muitos supersticiosos. Eles consideram os dias auspiciosos como Fas e os dias inauspiciosos como Nefas. Para eles tudo dependia dos dias fastos ou nefastos. Por isso, o povo na sua comunicação diária fazia o sinal de cruzar os dedos ou sobrepor os dedo médio sobre o dedo indicador, que simbolizava o ato sexual, para afugentar o mau olhado. Este simbolismo era protetivo e não sexual, e ainda hoje se usa mesmo gesto de cruzar os dedos também para afastar a inveja, afugentar o mau olhado ou a má sorte. 





Na América estender apenas o dedo médio é considerado um gesto ofensivo, mas no seu significado original servia para se proteger do mau olhado. O manguito feito com a mão sobre o braço flexionado também é considerado um gesto ofensivo, mas esse já foi um gesto de proteção contra maus agouros. 

 



Depois que a Igreja Católica foi aceita no Império Romano no século 4 começaram os tabus e o puritanismo a respeito da sexualidade humana. No entanto em nossa vivência diária há vários símbolos fálicos que sobreviveram o tempo. Os romanos exprimiam a sua escolha pelo destino dos gladiadores no Coliseu de Roma, fazendo o gesto com o polegar virado para cima ou para baixo como um gesto fálico. E ainda hoje usamos o mesmo gesto para expressar Ok ou não Ok. 


Povos de nacionalidades latinas cruzam os dedos de uma maneira diferente. Os italianos, espanhóis e portugueses fazem uma figa, colocando o polegar entre os dedos indicador e médio. Para estes povos a figa é um gesto forte para afugentar melhor o mau olhado porque representa o intercurso sexual mais íntimo. A figa, que é um símbolo fálico, também é usada como amuleto ou talismã de sorte.  



terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Dactilus, os criadores dos Jogos Olímpicos

 
Segundo a Mitologia Grega, nas encostas do Monte Ida, a montanha mais alta de Creta, moravam Hekaterus - o deus das mãos e sua esposa Ankhiale -  deusa do calor do fogo, irmã de Prometeu que roubou o fogo para dar à humanidade. Hekaterus e Ankhiale representavam o poder das mãos para utilizar o fogo e eram os pais das 5 Hekaterides e dos 5 Dáctilus - os Dedos: Héracles de Ida (dedo polegar), Paeonaeus ou Aeonius (dedo indicador), Epimedes (dedo médio), Jasius (dedo anelar) e Idas ( dedo mindinho).
 
Os Dactilus casaram com suas irmãs dando origem aos Curetes, Cabiros e Coribantes. Eles eram os antigos ferreiros que inventaram a arte de trabalhar os metais dando-lhes formas usando o fogo. Assim criaram a bigorna, o martelo, a espada e outras ferramentas. Também eram considerados curandeiros e feiticeiros. 
 
Dos Dactilus originaram todos os nomes das ciências e artes que tem como referência aos dedos, tal como a Dactilogia que é a arte de conversar por meio de sinais feitos com os dedos usada entre os surdos-mudos. Cientificamente os nossos dedos das mãos são chamados de Quirodactilos e Pododactilos os dedos dos pés. Em alguns mitos dizem que dos Dactilus vieram o ensino da metalurgia, matemática e alfabeto para os seres humanos.

Quando Zeus ainda era uma criança, Reia deixou-o aos cuidados dos dáctilos. Para que ninguém ouvisse os choros da criança e descobrisse o seu paradeiro, eles faziam barulho com suas lanças e escudos. E assim Zeus cresceu protegido da fúria de Cronos. Héracles de Ida, o mais velho dos Dáctilos, derrotou seus irmãos numa corrida e foi coroado com um ramo de oliveira, dando origem aos Jogos Olímpicos que passaram a ser dedicados a Zeus.
 
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Na antiguidade, os Jogos Olímpicos faziam parte de um festival religioso e atlético da Grécia Antiga, realizado a cada 4 anos no Templo de Olímpia em honra de Zeus. Situado na região ocidental do Peloponeso, o núcleo de Olímpia era o Áltis, um bosque sagrado. No centro do bosque ficava o templo em estilo dórico que tinha em seu interior uma colossal estátua de Zeus, que era considerada uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.
 
Os gregos realizavam competições desde 2500 a.C., mas tradicionalmente considera-se o ano de 776 a.C. como a primeira edição dos Jogos Olímpicos. Os atletas e os treinadores chegavam a Élide com um mês de antecedência para poderem treinar sob supervisão dos juízes. Durante este período os atletas que não eram considerados aptos ou que não atendessem os critérios eram excluídos. Mas se algum juíz não fosse imparcial, era condenado a açoites em local público. Se fosse condenado por suborno, tinha seus bens sequestrados.
 
Muitos atletas pertenciam às classes mais favorecidas e iniciavam o treinamento ainda criança. Eles vinham de todas as partes do mundo grego, sendo vedado aos estrangeiros, mulheres e escravos a participação nos jogos e até mesmo assistir as competições. O campeão de vitórias entre os deuses foi Apolo, que venceu Hermes na corrida e Ares no pungilismo. Por este motivo, a flauta é tocada quando os competidores do pentatlo estão na prova de salto, pois a flauta é sagrada a Apolo.
 
O pentatlo dos antigos Gregos era diferente do pentatlo moderno e consistia no arremeso do disco, do dardo, o salto em comprimento, a corrida de estádio semelhante aos 200 metros e a luta, que nasceu no Próximo Oriente tendo sido adaptada pelos Gregos e nomeado o deus Hermes como seu protetor.  
 
Na Grécia antiga, a prática do pugilato só permitia o uso dos punhos, por isso os competidores envolviam os dedos com tiras couro. Não existia distinção de tempo e nem categoria, apenas provas diferenciadas para homens adultos e rapazes. Na luta grega era necessário derrubar o adversário três vezes para ser vencedor. Os atletas se lambuzavam com azeite e a prova não tinha um tempo limite. Era permitido quebrar os dedos do adversário, mas não era permitido morder, atacar os olhos ou a região genital.
 
O pancrácio era uma combinação da luta e do pugilato, resultando numa prova muito violenta em que os atletas podiam até mesmo morrer. A vitória ocorria quando um dos atletas já não conseguia continuar a lutar ou quando dava sinal de desistência. As competições de corridas consistiam em corridas no estádio, corrida com armas em que os atletas levavam seu capacete e escudo e corridas com as bigas ou quadrigas em volta do hipódromo. As corridas com cavalos não premiava o atleta, mas sim ao dono do cavalo.
 
Os Jogos Olímpicos eram precedidos da cerimônia de juramento dos atletas e dos juízes perante a estátua de Zeus Korkios, o Zeus dos Juramentos, e diante da chama olímpica. Nos dias seguintes ocorriam consultas aos oráculos, palestras de filósofos, recitais de poesia, corridas, lutas, pentaclo, pugilato e pancrácio. Aos vencedores eram oferecidos hinos, festas e banquetes, que eram patrocinados com as carnes do sacrifício de 100 bois oferecidos ao Altar de Zeus.
 
Além da religiosidade, os gregos buscavam através dos Jogos Olímpicos a paz e a harmonia entre as cidades que compunham a civilização grega. O lema olímpico era "Citius, altius, fortius" ou "mais rápido, mais alto e mais forte". Mas no ano de 392 d.C. os Jogos Olímpicos e qualquer manifestação religiosa do politeísmo grego foram proibidos pelo imperador romano Teodósio I, depois que ele se converteu ao cristianismo.
 
Em 1896 os Jogos Olímpicos foram retomados em Atenas e criado o símbolo da olimpíada com os 5 aros que representam os 5 continentes, tendo como lema a universalidade do espírito olímpico, ética e união através do esporte. Os Jogos Paraolímpicos tiveram início depois da Segunda Guerra Mundial, tendo por objetivo incluir as pessoas que tinham sofrido alguma deficiência física ou mental.
 
Na 1ª Olimpíada da Era Moderna participaram atletas de 13 países, disputando provas de atletismo, esgrima, luta livre, ginástica, halterofilismo, ciclismo, natação e tênis. Os vencedores das provas foram premiados com medalhas de ouro e, conforme a tradição dos Dactilus, com um ramo de oliveira. Dos Jogos Olímpicos podemos tirar uma lição de vida: o mais importante não é vencer, mas participar e usar talentos e habilidades para o bem. 
 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Aiakos, a disposição para recomeçar



Aiakos ou Aeacus era o filho de Zeus e Aegina, que foi levada por Zeus à ilha deserta de Enone depois chamada de Aegina. Sendo um dos filhos preferidos de Zeus, o deus dos deuses tentou fazê-lo imortal, porém as Parcas - que representam o destino - impediram. Aiakos cresceu e fez da ilha um próspero reino, tornando-se famoso por seu senso de justiça e compaixão.  Devido às suas qualidades, ele era convocado em toda a antiga Grécia para presidir os julgamentos.

Porém quando Hera - a esposa de Zeus - descobriu a infidelidade, enviou uma terrível seca e uma praga que dizimou tudo na ilha. A devastação da ilha começou sob um sol escaldante que deixava homens e animais em agonia. Os solos tornaram-se inférteis, os poços e mananciais secaram e a pouca água que restava foi envenada por milhões de serpentes. A ilha foi se transformando num deserto desolador, até que Aiakos suplicou ajuda a seu pai, o rei dos deuses.

Imediatamente ouviu-se um trovão e Zeus fez chover na ilha fazendo cessar o calor e trazendo água pura aos riachos e fontes. Porém era tarde demais, pois toda população e animais tinham perecido. Apesar disso Aiakos se propôs a recomeçar e reconstruir seu reino. Semeou e cuidou das plantações que floresceram formando grandes árvores.

Sentado debaixo de um frondoso carvalho, Aiakos viu uma multidão de formigas ocupadas com seu trabalho subindo o tronco carregando grãos. Sozinho na ilha, Aiakos desejou intensamente ter uma população na ilha tanto quanto aquelas inúmeras formigas. De repente a árvore agitou-se e com um ruído farfalhante atirou ao chão a multidão de formigas que, para a surpresa do rei, começaram a aumentar de tamanho, ficaram eretas e finalmente tomaram a forma humana.

Ávidas para buscar seu alimento e perseverantes na conquista de sua sobrevivência, os homens formigas ou Mirmidones saudaram Aiakos como seu rei. Enchendo o coração do monarca de esperanças, um novo reino começava a ser reconstruído tornando-se novamente próspero. 

Aiakos casou-se com Endeis e foi o pai de Peleu e Telamom, que durante uma competição fingiram ter matado acidentalmente seu meio-irmão Phocus. Por ser justo, Aiakos expulsou seus filhos do reino exilando-os. Depois de sua morte, Aiakos foi designado o juiz das sombras no Érebo junto com os cretenses Minos e Radamantis.

Os Mirmidones ou Mirmidões foram os lendários guerreiros que acompanharam Aquiles à Guerra de Tróia. Embora fossem destemidos e corajosos, sua origem não estava numa raça belicosa e sanguinária, mas na espécie pacífica e laboriosa das formigas, que em grego significa myrmex. 


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O mito de Aiakos serve para refletirmos sobre os tempos de crises que fazem parte da vida. A vida não costuma ser linear. Há tempos de abundância e mordomias, mas podem surgir percalços arruinando tudo o que se construiu ao longo do tempo. De repente, da vida boa cercada de conforto podemos nos ver atolados em dívidas sem saber o que fazer.

Perder um padrão de vida é uma experiência dramática, pois significa deixar de usufruir de muitas coisas que faziam parte do nosso estilo de vida, como ter carros, viagens, divertimentos e lazer. No entanto, depois da experiência traumática não adianta lastimar. Recomeçar depois de um fracasso exige criatividade e aprendizado com os erros. 

A grande questão é como nos sentimos e reagimos diante das incertezas da vida. Há pessoas que lidam mal com as incertezas e tendem a fracassar. Entre esses há os excessivamente cautelosos e medrosos que tem medo de arriscar em novos caminhos como também há aqueles que se arriscam demais. Alguns consideram de vital importância manter as aparências mesmo com o mundo desmoronando ao seu redor, algo que só acaba agravando os problemas.

Ninguém deve se envergonhar de seus tempos de crises, pois isso acontece com muita gente e ninguém está imune aos fracassos. Contar com o apoio de amigos e familiares pode ajudar a superar as dificuldades, desde que estejamos dispostos a reagir positivamente. Existem pessoas que conseguem resolver com sucesso suas incertezas convivendo com elas sem medo, ainda que enfrentem dúvidas. São pessoas que não se deixam paralisar, mesmo sentindo angústia, insegurança, medos e a falta de tranquilidade.

Para certas pessoas importante não é solucionar o problema, mas antes de tudo aprender a controlar o medo e a ansiedade para seguir seu caminho em equilíbrio, o que lhes permite explorar melhor as possibilidades e oportunidades. Elas não se inibem em fazer perguntas, questionam a si mesmas e a quem possa colaborar com elas. Assim como Aiakos que viu na colônia de formigas um exército, pequenas coisas podem se transformar num negócio de sucesso. Basta ter criatividade e disposição para recomeçar... 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Horas, as deusas da ordem natural das coisas



As Horas eram originalmente deusas do ano, das estações climáticas e da ordem natural da natureza. Mais tarde passaram a personificar também a ordem humana e social. Associadas com as Moiras que eram suas meias-irmãs, cuidaram de Hera na sua infância e foram suas servas, ajudaram no aperfeiçoamento de Pandora e assistiram o nascimento de Hermes e Dioniso.
 
Elas eram as guardiãs das portas do Olimpo, organizando a passagem das estrelas e participavam do cortejo de Afrodite e dos demais deuses e deusas relacionados ao trabalho agrícola e à passagem das estações como Perséfone. Serviam e eram encarregadas de guardar a ambrosia que era o alimento dos deuses e oferecê-lo aos humanos que viessem a merecer a imortalidade e a divinização. Muito tempo depois, as Horas passaram a personificar a divisão do dia.
 
Filhas de Zeus e Têmis, as mais velhas e mais conhecidas eram Eirene, Eunômia e Dikê. Posteriormente surgiram as demais Horas: Auxo, Acme, Anatole, Disis, Dicéia, Euporia, Gimnásia, Talo e Carpo. Na versão arcaica ateniense, as Horas cultuadas pelos camponeses eram representadas como jovens rodeadas de flores coloridas, vegetação e outros símbolos de fertilidade. Originalmente representavam apenas três estações do ano: primavera, verão e outono e na versão mais conhecida das eras helenística e romana, as Horas eram:
  • Diké ou Dice era a deusa dos julgamentos e da justiça humana, vingadora das violações da lei que na mão direita sustentava uma espada e  na mão esquerda sustentava uma balança de pratos que representava a igualdade de direitos. Representava a organização das coisas para harmonizar a sociedade e as relações dos indivíduos. Na mitologia grega era representada com os olhos abertos simbolizando a busca pela verdade. Chamada de Iustitia pelos romanos, passou a ter os olhos vendados simbolizando a imparcialidade nos julgamentos. 
  • Eunomia era a deusa da disciplina ou equidade, das leis e da legislação. Representava o resultado do esforço contínuo do indivíduo para melhorar suas habilidades e aperfeiçoamento. Era deusa auxiliar de artistas e da maioria dos mortais que chegaram a desenvolver habilidades excepcionais devido à disciplina e persistência.
  • Eirene ou Irene personificava  a paz, descrita na arte como uma bela jovem que portava uma cornucópia, um centro e uma tocha, chamada pelos romanos de Pax. Estaria ligada a compreensão da ordem natural sem se opor à ordem natural dos eventos. Esta seria a verdadeira paz para os gregos da época, uma harmonia e consequente conforto ante os eventos cotidianos.
  • Dicéia era a deusa menor da justiça e dos acordos
  • Gimnásia era a deusa da ginástica e dos esportes.
  • Euporia era a deusa da abundância.
  • Disis era a deusa da finalização do dia, o por do sol.
  • Acme era a deusa do apogeu.
  • Anatole era a deusa da alvorada e do nascer do sol.
  • Talo ou Thallo que significa broto, era a deusa dos brotos e dos botões de flores, protetora da juventude.
  • Auxo ou Auxésia que significa crescer, era a deusa do florescimento. 
  • Carpo ou Karpo que significa fruto, era a deusa do amadurecimento, encarregada do outono e da colheita. Era filha de Clóris ou Flora - a deusa da primavera e Zéfiro, o vento da primavera. 
       
      
    Frequentemente associadas às Graças, as deusas Horas foram representadas por muitos artistas como dançarinas de eterna juventude a quem se prestavam inúmeros cultos. Na mitologia romana tornaram-se alegóricas representando as estações.
     
    Por personificarem as horas do dia e da noite, eram consideradas como filhas de Cronos - o Senhor do Tempo e companheiras do Sol e da Lua. E foi assim que as 12 Horas passaram a personificar as doze horas do dia a partir do nascer do sol,  tendo como deusas tutelares: 
    • Auge: a primeira luz
    • Anatole ou Anatólia: o nascer do sol ou alvorada
    • Música ou Mousika: a hora matinal de estudo da música
    • Ginástica, Gymnastika ou Gymnasia: a hora matinal do exercício físico
    • Ninfa ou Nymphe: a hora matinal do banho   
    • Mesêmbria: o meio-dia
    • Esponda ou Sponde: hora das libações após a refeição
    • Elete: a rezadora ou a primeira hora de trabalho da tarde
    • Acte ou Akte: a segunda das horas de trabalho da tarde
    • Hésperis ou Hespérides: a tarde ou entardecer
    • Dísis ou Dysis:  o pôr-do-sol
    • Arctos ou Arktos: a constelação da noite, a Ursa Maior.
     
    *****************
    O que fazemos com as nossas horas disponíveis? Diariamente temos 24 horas, mas parece que o tempo escorre pelas nossas mãos. Estamos vivendo na era da velocidade e, indignados, corremos querendo ultrapassar o tempo. Se pudéssemos criaríamos mais horas para o nosso dia e, como não é possível, passamos o dia lutando com o tempo. Nessa pressa foram criados produtos químicos para acelerar  a germinação e a maturação, mas consequentemente aceleram a finalização.
     
    A velocidade se tornou um novo paradigma, um padrão de comportamento para quem quer obter sucesso, estar integrado, fazer parte do sistema, concorrer no mercado e ser aceito e aplaudido. No entanto, podemos ser simplesmente sugados pelo sistema e acabarmos sendo consumidos velozmente, sem nos darmos conta de que podemos fazer mais, porém administrando o tempo com lucidez e planejamento.
     
    É preciso tempo para tudo: para nascer, para germinar, para dar frutos, para morrer; essa é a ordem natural das coisas.  Ser veloz não é a mesma coisa que ter pressa. Fazer as coisas rapidamente não é o mesmo que terminar no menor tempo. Sair na frente não garante chegar em primeiro lugar. Há uma certa dose de relatividade. Quando fazemos as coisas com calma, colocamos mais atenção ao momento presente e erramos menos. Quando abandonamos o "Fast Food" estamos optando pelo "Slow Food", e não se trata de comida, se trata de estilo de vida.
     
    A maioria das pessoas no mundo estão sempre apressadas vivendo no estilo "Fast Food", um jeito urbano de comer rapidamente um sanduíche encostado de pé no balcão em substituição ao almoço. E assim esquecem os prazeres do "Slow Food", de sentar-se à mesa, comer e beber devagar, dando-se o tempo para saborear a comida, transformando a refeição em um momento de encontro e comunhão com a paz e com o prazer, sem pressa e com muita qualidade e satisfação, essa é a idéia. Trata-se do contraponto ao espírito do Fast food e o que ele representa como estilo de vida moderno.
     
    A idéia de respeitar o tempo de comer, valorizando a arte da culinária, o convívio familiar e melhorar a saúde, amplia sua ação para muito além da borda da mesa de jantar. Tem tudo para virar filosofia de vida, pois comer não é mais do que uma das múltiplas atividades a que o homem se submete em sua rotina diária, entre tantas outras. O Slow Food pode servir de base para um movimento maior, inicialmente chamado Slow Europe. Sua idéia é questionar a pressa do mundo, a angústia das pessoas, a loucura generalizada na sociedade imposta pela globalização, pela competitividade crescente e pela velocidade da informação proporcionada pela Internet.
     
    Quando o engenheiro americano Frederick Taylor criou no início do século 20 as bases da administração moderna, procurava otimizar o trabalho dos operários em uma fábrica. Para isso estabeleceu uma relação matemática entre a produção que eles conseguiam e o volume de recursos utilizados na produção. E Taylor considerou o tempo como o mais importante entre todos os recursos.
     
    A partir de então se estabeleceu a cultura do século que se iniciava: fazer mais em menos tempo. Porém fazer as coisas em menos tempo não significa fazer mais rápido, significa fazer com mais qualidade. A má interpretação de sua idéia acabou por criar um caos comportamental que se refletiu em pessoas apressadas, neuróticas e infelizes. "Pense antes de fazer, planeje seu trabalho, organize-se e só então faça", dizia ele.
     
    Correr como baratas tontas diante da necessidade de fazer mais com menos, é bem diferente do que planejar, preparar, aprimorar a técnica e só então fazer, rápido mas sem pressa, saboreando cada momento como único, que de fato é. Não se pode lutar contra as horas do dia. Elas são poderosas e sempre ganham a batalha. A idéia não é de luta mas de aliança, porque se gastamos mais tempo para fazer bem feito, economizamos o tempo que gastaríamos refazendo ou corrigindo defeitos e erros.
     
    Ter uma atitude sem pressa significa colocar mais atenção no que se faz, dedicando tempo para os valores que a rapidez do mundo moderno relega a um plano secundário: a família, os amigos, o lazer, a cultura, o tempo livre para simplesmente viver. É uma volta à valorização da casa, do bairro, da cidade, dos ambientes conhecidos, presentes, palpáveis, em oposição ao mundo globalizado, distante, anônimo, abstrato, frio.
     
    O acesso aos valores essenciais à felicidade do ser humano, como a convivência, a fé, a esperança, a serenidade, os prazeres do cotidiano, torna-se mais fácil através de uma atitude sem pressa. Isso resulta em pessoas menos estressadas e neuróticas, mais leves, mais felizes e, por isso mesmo, mais produtivas. A sabedoria popular cunhou ditados para falar da importância de se reduzir a velocidade: "devagar se vai ao longe"; "o apressado come cru" são alguns deles.
     
    Quer um bom resultado, com segurança e rápido? Então faça devagar, não se afobe, pense antes de agir, faça uma coisa de cada vez. Lembre-se: velocidade é diferente de pressa. Ser veloz é adequar-se às condições. O veloz chega antes, o apressado se cansa pelo caminho. O carro não pode ir mais rápido do que as condições que a estrada permite. A boca não pode falar com a velocidade do pensamento.
     
    Chronos é o deus do tempo medido, do cronômetro, do relógio, do calendário, das ações repetitivas mas é Kairós quem governa o tempo vivido, aproveitado, saboreado, sentido, bem utilizado. Administrar o tempo é identificar como estamos usando as 24 horas de cada dia, detectando onde estamos perdendo tempo, as tarefas desnecessárias e improdutivas que estamos realizando. Esse processo possibilita auto-descoberta, além de que pode nos tornar mais produtivos e livres para fazer coisas que nos satisfaçam.
     
    Muitas pessoas reclamam que nunca há tempo suficiente para fazer tudo que seja necessário e que gostariam de fazer, no entanto, elas tem mais tempo do que imaginam ter. Na verdade, elas estão sendo dominadas pelo tempo, quando o correto seria o contrário. Tempo perdido é tempo irrecuperável, e mesmo que se tenha agilidade, muitas vezes a vontade de recuperar o tempo compromete a qualidade do que se faz.
     
    É o perfil de nosso comportamento diante do tempo que nos dirá, o que e como devemos mudar. Muitas vezes a pessoa começa uma tarefa, retoma outra sem concluir a primeira e depois outra sem concluir nenhuma. No final do dia, constata que está exausta, trabalhou o dia inteiro e não vê nenhum resultado. Outras vezes ela se propôs a fazer tantas coisas, se ocupou de coisas de menor importância, e quando percebe, algo importante deixou de ser feito, e aí reclama que as horas passam rápido demais...

    domingo, 20 de janeiro de 2013

    Nike, a deusa do triunfo e da glória


    Nike, chamada pelos romanos de Victoria, personificava o triunfo e a glória. Deusa alada, Nike podia correr e voar em grande velocidade, além de outras qualidades extraordinárias que lhe eram atribuídas. Representada carregando uma palma e uma coroa de louros, era considerada como fonte de boa sorte e todos os deuses, atletas e guerreiros desejavam ter Nike ao lado.

    Ela estava sempre ao lado de Athena, a deusa da sabedoria, da estratégia e das habilidades, dando a certeza de que a deusa obteria a vitória nas batalhas travadas. Os atenienses tinham especial devoção por Nike e ergueram templos em sua homenagem para assinalar as suas vitórias militares. Muitos desses cultos eram conjugados com outros dedicados à própria Athena.

    Nike voava sobre os campos de batalha para premiar os vencedores com a fama e a glória, mas nem sempre era justa e nem sempre premiava o mais brilhante. Nike premiava com os louros da vitória quem soubesse usar da melhor estratégia. Filha de Palante e da oceânide Estige ou Styx, sua mãe era a deusa dos inquebráveis juramentos solenes e portanto invocada em qualquer situação que envolvesse ganhos, sucesso, vitória e poder. Isso porque para vencer, é necessário fazer um juramento consigo mesmo para alcançar um objetivo. 

    Quando Zeus, a divindade dominante do panteão grego, estava organizando a guerra contra os titãs, Styx e seus filhos Nike, Bia, Kratus e Zelus foram seus aliados. Aos deuses, guerreiros e herois, Bia dava a força, Kratus o poder e Nike coroava a vitória. Porém qualquer um que fosse vencedor também deveria saber lidar com Zelus - o ciúme, algo que sempre ronda quem tem sucesso.

    No ano de 490 a.C. quando os soldados atenienses partiram para a planície de Maratona ou Marathonas  para combater os persas, suas mulheres ficaram apreensivas pois os inimigos haviam jurado que, depois da batalha, marchariam sobre Atenas, destruiriam a cidade, violariam suas mulheres e sacrificariam seus filhos.

    Diante dessa ameaça, os gregos combinaram com suas esposas que, se não recebessem a notícia da vitória em 24 horas, todos deviam suicidar. Os gregos ganharam a batalha, mas a luta iria demorar ainda mais tempo e eles temiam que elas executassem o plano. Por isso enviaram Filípides, que era o melhor atleta de Atenas, para dar a notícia. Ainda hoje Filipides é homenageado pelo corredor que carrega a tocha para acender a pira que antece os jogos olímpicos.

    O mensageiro percorreu cerca de 42 km que separavam Maratona de Atenas, uma razão para a distância da atual prova olímpica da maratona. O grande corredor só parou quando chegou à Acrópole, o lugar mais alto e importante da cidade grega. Do alto ele gritou: Nike! Nike! Nike! e caiu morto pelo esforço.  


    ************

    Retratada e homenageada nas medalhas dos Jogos Olímpicos nos tempos atuais, Nike é testemunha das lutas e competições que se travam nos ginásios esportivos mas também de nossa luta diária para superar dificuldades e conquistar os nossos objetivos. Ela voa baixo, beija a testa dos vencedores que lhe sorriem e não se sensibiliza com os gritos dolorosos dos fracassados.  

    Nem sempre é justa, nem sempre premia o melhor e mais brilhante, mas castiga os pretensiosos que ousam cantar a vitória antes de travar a batalha. O que lhe seduz é a estratégia, o foco, a disciplina e o controle emocional. 


    Para construir uma carreira ou ter sucesso em qualquer empreendimento precisamos manter o foco e estarmos convictos do que nos motiva, pois é a motivação que nos leva a tentar melhorar a cada dia. Para isso é preciso determinação e disciplina, mas sobretudo gostar do que fazemos.
     
    E, por mais que confiemos em nossas capacidades, temos de reconhecer as nossas limitações. Temos habilidades especiais mas não somos bons em tudo. Não adianta querermos nos meter onde sejam necessárias competências que não temos, ao invés disso devemos priorizar os nossos pontos fortes e trabalhar as nossas melhores aptidões. Pontos fortes bem desenvolvidos superam pontos fracos. 


    No entanto, a vida é como uma Olímpiada, não basta desenvolvermos apenas competências. Precisamos também desenvolver o controle emocional, aprendendo a lidar com as pressões e frustrações. Resiliência é a palavra-chave, recuperar-se rapidamente dos baques que a vida dá e tirar lições positivas das derrotas que são fundamentais para outras oportunidades. Leia mais sobre resiliência em meu blog Viva la Vita ou click aqui
     
    Para colher os louros da vitória, sejam nos esportes, nas empresas e nos objetivos pessoais é preciso saber interagir e ter respeito com os outros, saber como e quando atuar, tendo disposição para incorporar novos métodos e se aprimorar. Isso ajuda a
    desenvolver a habilidade de se relacionar com os outros e saber trabalhar em equipe.
     
    Nossa vida não é feita apenas de um objetivo, sempre haverá novos desafios a vencer. Ser vitorioso uma vez não garante que teremos sucesso sempre. Quando atingimos um determinado patamar é preciso continuar aprimorando para nos manter no topo e não subestimar a capacidade de nossos concorrentes e adversários. Achar que estaremos livres de qualquer adversidade, é o primeiro passo para a queda.

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    Quem sou

    Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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