quinta-feira, 30 de junho de 2011

Talos e os pontos fracos



Talos ou Devasto era um gigante de bronze e existem várias versões sobre sua genealogia. Às vezes era considerado filho de Cres, rei de Creta ou de Hefesto. Dizem que teria sido forjado pelo próprio Hefesto com a ajuda dos cíclopes. Em outra versão, dizem ser ele o último representante vivo da geração de bronze, a terceira idade da humanidade.

Talos era um autômato de bronze encarregado da proteção da Ilha de Creta. Responsável por fazer obedecer às leis, ele carregava consigo as tábuas das leis. Dotado de grande mobilidade, chegava em poucos instantes em qualquer lugar. Todos os dias dava três voltas na ilha, impedindo a entrada de estrangeiros e a saída dos habitantes sem a permissão do rei. Quando Talos surpreendia algum estrangeiro, se aquecia como uma brasa e abraçava suas vítimas até queimá-las totalmente. Os intrusos eram presos pela energia metálica e queimados pelo contato com o corpo do gigante.

Talos parecia indestrutível mas tinha um ponto sensível, que era uma artéria que descia de sua nuca até o seu tornozelo, onde um prego de bronze mantinha fechada a artéria fechada. Quando Jasão e os argonautas desembarcaram na ilha, Medéia que estava ajudando Jasão e os argonautas, revelou o modo de vencer Talo. Pea, pai de Filoctetes, feriu Talos com uma flecha fatal e o invulnerável gigante caiu mortalmente ferido permitindo que os argonautas se salvassem.

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O mito de Talos simboliza os nossos pontos fracos, o gigante que mora dentro de nós. Todo mundo tem um gigante na sua vida com direito a nome e tudo. Isso é fato. Mas há uma outra verdade contida: cedo ou tarde você precisará enfrentá-lo. Gigantes existem, são grandes e sempre irão te afrontar.
Os gigantes são os nossos medos, nossas expectativas, nossas dúvidas, nossas vontades, nossos sonhos irreais, nossos projetos que sofrem de limitação financeira, enfermidade, solidão, cansaço etc.

Os gigantes sabem como manter você na prisão e sabem intimidar; fazendo surgir seus medos eles conseguem te derrotar. Os gigantes internos ganham a guerra sem lutar contigo, porém quando você encara seus medos de frente, você está enfrentando o gigante que mora em você.
Quando você não recua, quando você não tem medo de conseguir, você cria estratégias para lutar.

Muitas lutas cansam e desanimam, mas quando você não perde o foco e mantem a esperança de conseguir superar um problema, nada poderá superar você.
Todo gigante tem um ponto vulnerável, por isso ataque os pontos vulneráveis. Comece por partes, um dia de cada vez, confiante, sem pressa e com planejamento. Nada de se preocupar com o que você vê ou não vê. Não se esqueça: as aparências podem nos enganar. Enfrente, não recue, não perca o foco, mantenha a esperança, seja confiante e vença cada dificuldade em seu tempo.

Amazonas, as mulheres guerreiras



As Amazonas eram guerreiras, donas de armas, cavalos e com uma estrutura social própria. Foram imortalizadas na maioria das lendas por sua coragem de luta quando enfrentavam os homens que tentavam submetê-las. Independentes, viviam em ilhas ou perto do mar e frequentemente recebiam visitas de aventureiros. Algumas engravidavam deles mas somente ficavam com as filhas. Os filhos eram entregues ao pai.

Segundo uma lenda, as Amazonas eram filhas de Ares, deus da guerra, de quem teriam herdado a audácia e a coragem. O deus teria dado um cinturão para a rainha Hipólita como símbolo do poder sobre seu povo. O cinturão tem uma simbologia de transmitir força, poder e proteção, além do valor iniciático. A mais célebre luta das Amazonas aconteceu com o herói Hércules quando ele raptou a amazona Hipólita, provocando a guerra das Amazonas contra Atenas.

O país das Amazonas país era a Trácia, lugar de clima rude, rico em cavalos e percorrido por populações violentas e guerreiras. Segundo alguns, teriam fundado a cidade de Mitilene, na Ilha de Lesbos, terra da poeta Safo. Outros dizem que sua morada ficava em Éfeso, onde fundaram um templo dedicado à Ártemis, divindade virgem que percorria campos e florestas, considerada protetora das Amazonas.


As Amazonas mutilavam o seio direito para que manejassem melhor o arco e outras armas. Sacrificavam sua feminilidade para combater na luta pela independência e para fortalecer a deusa Ártemis de Éfeso. A arte normalmente representa Ártemis coberta com um manto cheio de seios, símbolos dos seios sacrificados a ela pelas Amazonas.


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O mito das Amazonas simbolizam as mulheres que ao longo do tempo lutam para derrubar preconceitos, não se rendendo à submissão e à violência masculina; que não aceitam o tradicional papel doméstico imposto à figura feminina e mais do que em todos os tempos, estão enganjadas contra a violência doméstica.

As mulheres do mundo atual não guerreiam com armas e, quando mutilam os seios, é por causa da luta contra o câncer, defendendo a própria vida. São as guerreiras que não se entregam e resistem, enfrentando o mal do século. Outras se mutilam por motivos estéticos, diminuindo ou aumentando os seios; um direito que elas descobriram para se sentir bem com seu próprio corpo.


As mulheres do mundo atual são encorajadas na superação de limites e estão empenhadas na luta por uma sociedade mais justa, onde homens e mulheres tenham papéis importantes na manutenção do planeta, como um lar de todos. Defendendo filhos e filhas, elas conquistam o direito de tornar o mundo melhor, mais humano e sensível.

Tideu e as oportunidades



O herói Tideu, filho do Rei Eneu, em sua juventude cometeu um assassinato e foi expatriado. Indo para a corte de Adrasto, o Rei de Argos, encontrou Polinices, filho de Édipo e Jokasta que pretendia reconquistar o reino de Tebas com ajuda do rei. O Rei Adastro tinha duas filhas: Tideu casou-se com Deipile e Polinices casou-se com Argeia.

Adastro
prometeu ajudar aos genros a reconquistar os tronos que lhes pertencia por direito e escolheu Tideu como um dos Sete chefes contra Tebas. Tideu demonstrou grande bravura vencendo 50 guerreiros numa emboscada. Durante a invasão de Tebas, Tideu matou Melanipo em um duelo mas também foi ferido.

A deusa Atena protegia Tideu
nas batalhas e ao vê-lo ferido resolve dar-lhe a imortalidade. Porém, num ato insano, Tideu decepou a cabeça de Melanipo apesar dele estar morto. Partindo a cabeça em duas partes, Tideu começou a devorar o cérebro de Melanipo. Vendo tamanha barbaridade, a deusa Atena desistiu de sua intenção e deixou Tideu morrer...

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O mito de Tideu simboliza as oportunidades que encontramos pela vida. Não pode haver maior engano do que aquele que por algum motivo se encontra com algo valioso e covardemente não o acolha. Grave se torna, quando finge não ver as oportunidades que lhe são oferecidas.

Agarrados aos condicionalismos da vida, dos preceitos do que é formalmente mais certo, evitamos assumir em tantas
ocasiões a realidade encontrada. A vida é curta demais, tão breve que não há tempo a perder quando é necessário mudar de rumo ou recomeçar uma nova vida. Tideu teve todas as oportunidades para recomeçar uma nova vida e tornar-se um grande homem. No entanto, Tideu perdeu suas chances devido sua falta de reflexão.

Por vezes, em breves segundos, encontramos o que numa vida toda nunca tivemos oportunidade de encontrar. Por vezes, em breves segundos, também perdemos o que pelo resto da vida nunca mais encontraremos, mas que ingenuamente deixamos passar...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Selene, o encanto dos enamorados



Os titãs Téia e Hiperion tiveram três filhos, as mais lindas crianças do Olimpo: Selene - a lua, Helius - o sol e Eos - a aurora. Outros deuses, invejando a beleza dos filhos de Téia, lançaram Helius nas águas negras do Eridano. Quando Selene mergulhou à proura do irmão, foi tragada pelas águas. Ao saber do trágico destino dos filhos, Téia os procurou por todo o mundo e cansada adormeceu.

Ao acordar Téia viu seus filhos no céu, iluminando tanto o sofrimento como a alegria dos mortais: Eos - a Aurora, abria
as portas para a chegada de Helius - o Sol - que acompanhava o dia. Selene - a deusa da lua - acompanhava a noite. A jovem tinha a pele tão branca quanto a neve e viajava em uma carruagem de prata puxada por dois cavalos. Com seu manto prateado, carrega uma tocha e tem uma meia lua em sua cabeça.

Selene nunca se havia interessado por homem algum. Sua imagem pálida e solitária atravessava os céus numa rotina de
pura melancolia. Certa noite ela foi acompanhada pelos olhos sonhadores do tímido Endimion, um belo pastor da Tessália que levava o rebanho para o alto da montanha para poder observá-la mais de perto. De tanto contemplá-la, ele conseguiu compreender o caprichoso ciclo lunar que era um mistério para todos.

De tanto ver o pastor Endimion a contemplá-la, Selene quis conhecê-lo, pois talvez ele fosse um homem diferente capaz de entender o ritmo de seus delicados movimentos pelo céu noturno. Abandonando seu curso, Selene encontrou Endimion adormecido ao relento no alto do monte. Seu sono era sereno e seu suave semblante tocou o coração de Selene que sentiu-se invadida por uma paixão que nunca antes experimentara.

Depois dessa noite, ela ficava
perturbada cada vez que avistava Endimion no alto do monte a apreciá-la. Certa noite, não resistindo aos encantos do amado Selene abandonou seu curso e foi encontrar-se com Endimion que dormia numa caverna. Beijando-lhe os olhos, infundiu-lhe um sono mágico. Tomada pela paixão, ela se esqueceu de que era a luz que iluminava a noite o que causou um eclipse total, deixando o mundo totalmente escuro.

Zeus, o deus dos
deuses, não tolerava qualquer distúrbio no cosmos e resolveu castigá-la. Porém Selene o sensibilizou quando revelou que estava apaixonada pelo mortal, que era sujeito ao envelhecimento e à morte. Para preservar a felicidade de Selene, Zeus fêz Endimion dormir eternamente para nunca envelhecer e não temer a morte. Endímion dorme até hoje e não pode ver a linda luz prateada enquanto Selene cruza os céus. Algumas vezes, Selene abandona os céus e vem juntar-se a ele nas noites escuras da Lua Nova e quando ela eclipsa.

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Selene representa todas as fases da Lua e seu nome deriva do grego "selas" que significa luz e claridade. Selene estava relacionada ao nascimento, crescimento, fertilidade e falecimento. Conhecida por sua grande importância na magia, era associada a Artemis ou Hécate, sendo também conhecida pelos romanos por Luna ou Lua e tradicionalmente celebrada no dia 7 de fevereiro.

O mito de Selene está relacionado ao encanto dos enamorados. Cheia de encanto e magia, inspiradora dos poetas, companheira dos solitários, confidente dos namorados, lá no alto, ela nos acompanha no nosso percurso pela vida. A Lua inspira os poetas a falar de amor, do amor romântico que não conhece o tempo e nem a hora. Esse é o desejo dos enamorados: cristalizar para sempre aquela intensa paixão dos primeiros encontros.

Infelizmente isso não foi possível, pois a Lua e o pastor estavam juntos mas continuavam sozinhos. Não puderam conhecer um ao outro, porque não se falavam e não se olhavam. Não riam juntos, não faziam projetos, nem ao menos discutiam um com o outro. Não compartilhavam segredos, alegrias ou tristezas e não podiam, a cada noite, contar um ao outro os vestígios do dia, aquelas coisas tão simples, sem as quais o amor não sobrevive...

domingo, 26 de junho de 2011

Térsites e a imprudência das palavras



Na Guerra de Troya participaram muitos heróis, descritos como valentes, fortes e corajosos. Tersites era um exemplo do anti-herói, o oposto do herói clássico cultuado pelos gregos: forte e bonito. Tersites era o mais feio dos guerreiros na Guerra de Troya, coxo e estúpido. Além disso, Térsites contava fatos verdadeiros mas alguns ele inventava. Apesar de saber contar grandes histórias, Térsites não dominava muito bem as palavras.

Quando contestou perante o exército a decisão de Agamenon em continuar a guerra, ele falou tolamente do rei. E mesmo que suas palavras traduzissem a verdade e a opinião comum, Tersites foi açoitado diante da multidão. Machucado pelos açoites e chorando, Tersites voltou ao seu lugar sem que ninguém o tenha defendido e ainda foi cercado de risos.


Mas quando Aquiles derrotou em combate e matou a rainha amazona Pentesiléia, ao ver sua tão rara beleza e lamentar sua morte, foi ridicularizado por Térsites que sugeriu que Aquiles estava apaixonado pela falecida. Perturbado com tamanha falta de sensibilidade e de respeito, Aquiles atacou Térsites com tão grande fúria, que o matou imediatamente...


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O mito de Tersites se relaciona ao medo do ridículo diante dos outros, mesmo que a intenção seja verdadeira ou que a pessoa seja submetida ao ostracismo na esfera social ou em sua carreira. Sentimentos de inferioridade quanto à inteligência ou quanto a aparência física, podem pressionar a adesão junto a um grupo popular ou seguir uma determinada linha de pensamento.

Um significado literal da feia verdade, é aquela que todos querem dizer mas ninguém diz. É um forte apelo para que haja empatia e respeito ante às diferenças, enquanto incentiva que as pessoas sejam capazes de apreciar a verdade, seja ela qual for, seja de quem vier.

Térsites tem sido considerado um precursor para as suas posições contrárias à ordem estabelecida e também aquele incauto que não sabe escolher bem as palavras e nem o melhor momento para dizê-las. Muitas vezes, quando a palavra é de prata, o silêncio vale ouro...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Rômulo e Remo, os fundadores de Roma



Numa tarde de verão, um pastor ouviu as vozes de crianças. Indo ao local de onde vinha aquele som, deparou-se com duas crianças brincando com uma loba. Ao final do dia, vendo que a loba dormia, levou as crianças consigo pois ele não tinha filhos. Assim, Faustulo e Aca Larência criaram os gêmeos como filhos legítimos e deram-lhe os nomes de Rômulo e Remo.

Os gêmeos viviam felizes junto ao pastor e seu rebanho até que um vizinho roubou-lhes uma ovelha. Remo foi queixar-se
com o Rei Amúlio que ficou muito impressionado com a eloquência e porte guerreiro do jovem. Ao saber que ele tinha um irmão gêmeo, o soberano pressentiu que aquele era um dos filhos de Ares e sua sobrinha Réia Silvia dos quais ele havia usurpado o trono, por isso mandou encarcerar o jovem.

Rômulo, sendo orientado por Ares - deus da guerra e seu próprio pai, reuniu valentes guerreiros e iniciou uma luta
contra o Rei Amulio que foi morto. O fim do reinado do usurpador chegou ao fim. Rômulo libertou seu irmão Remo e sua mãe Réia Silvia das masmorras do palácio e restituiu o trono de Alba longa ao seu avô Numitor. Ao subir ao trono de Alba Longa, Numitor autorizou que os netos construissem uma cidade às margens do Rio Tibre.

Remo foi para o Monte Aventino e Rômulo para o Monte Palatino. Eles esperavam que os deuses lhes enviassem um sinal mostrando o lugar mais favorável. Quando Rômulo viu que 12 abutres sobrevoavam o Monte Palatino, ele entendeu que ali deveria ser a cidade. Imediatamente ele começou a preparar o terreno onde edificaria o reino, mas ao ver que seu irmão fazia o trabalho sozinho, Remo sentiu-se excluído.

Provocando o irmão, Remo criticava todas as iniciativas e obras realizadas até que certo dia num acesso de fúria Rômulo atacou o irmão
que caiu mortalmente ferido. Ao ver o sangue de Remo, Rômulo deu-se conta do que fizera. Pesaroso e corroído pelo remorso, Rômulo levou o corpo de Remo até o Monte Aventino onde lhe ofereceu as honras fúnebres.

Retornando à sua
edificação, Rômulo construiu a cidade com a marca de uma tragédia. Assim nasceu a cidade de Roma, soberana e onipotente ao mundo. Mas após erguer a sua cidade, Rômulo não sabia como povoá-la. Indo até o templo, os ventos sopraram-lhe que deveria abrir a cidade para refugiar todos os marginais da redondeza. Homens vindos de todas as partes começaram a chegar, trazendo suas tristes histórias e a marca dos crimes praticados.

Os desvalidos e criminosos se redimiram formando os
primeiros habitantes de Roma, mas a cidade não prosperava porque não havia mulheres e crianças. Nenhuma moça aparecia e nem queria se casar com os ex-condenados, por isso resolveram roubá-las das famílias. Rômulo preparou um grande banquete e convidou os sabinos, um povo que vivia próximo a Roma. Sem suspeitarem do rei romano, os sabinos aceitam o convite levando suas filhas e irmãs. No meio da festa, os romanos agarram as sabinas tomando-as à força. Sem poderem defendê-las, os sabinos fugiram diante da fúria dos romanos.

Os romanos tentavam conquistar as sabinas mas eram repelidos. Diante dos gritos das sabinas, os sabinos resolveram marchar
contra os romanos para recuperar as mulheres, no entanto, eles perderam a batalha. Mas Tito Tácio armou uma trama e conseguiu invadir o reino de Roma. Travou-se uma longa batalha até que cansadas da guerra, as mulheres sabinas decidiram por fim às batalhas.

Lideradas por Hersília, única jovem que casou-se com um romano e que fora morto na batalha, 600
sabinas se colocaram frente os homens pedindo que finalizassem a guerra. Comovidos com a súplica das mulheres, Rômulo e Tito Tácio abandonaram a luta se unindo numa cidade comum. Juntos eles passaram a reinar sobre a cidade apagando os antigos ódios.

Tempos depois Tito Tácio entrou em conflito
com os Laurentinos e foi morto. Rômulo lhe ofereceu todas as honras fúnebres mas não quis vingar sua morte. Rômulo decidiu que Roma deveria viver em paz. Rômulo, o 1º rei de Roma, viveu solitário sem mulher e sem filhos. Certo dia, uma grande tempestade se abateu sobre a cidade, derrubando casas, inundando os campos e ruindo os palácios. Durante a tempestade, Rômulo desapareceu e nunca mais foi encontrado. A lenda de Rômulo deu à Roma uma origem nobre e imortal.

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O mito de Rômulo e Remo representa a fundação da cidade de Roma. A lenda de Rômulo serviu para dar a Roma uma origem nobre e imortal, enquanto confronta a supremacia da cultura grega sobre a romana. Alguns relatos do mito são de fatos verdadeiros, como a presença dos sabinos ao lado dos latinos, na povoação primitiva de Roma. Mas a lenda de Rômulo identifica-o como descendente dos troianos, oriundos da cidade da Ásia Menor, Tróia, destruída pelos gregos após uma sangrenta guerra que se estendeu por dez anos.

O mito também nos remete a um episódio entremeado de ódio e remorso. A palavra remorso tem origem latina; remorsus do verbo remordere, que significa tornar a morder que está relacionado a dilacerar, atacar, ferir, torturar e atormentar. A própria etimologia da palavra nos mostra como é doloroso esse sentimento e da angústia que acompanha aquele que o sente. É a consciência de ter agido mal, geralmente acompanhado do arrependimento, culpa e lamentação.

O remorso é um sentimento sobre os acontecimentos e atitudes do passado. É a sensação do que não deveria ter sido feito ou dito. É ponto de sintonia entre o devedor e o credor. Pode ser também um sinalizador da preocupação ou de que deveríamos nos preocupar com algo importante, servindo como aprendizado para que possamos refletir ou fazer melhores escolhas no futuro.

Quando o remorso se torna uma sensação de fracasso ou desapontamento, esse sentimento traz muito sofrimento que pode afetar a nossa vida de forma negativa. Podemos sentirmos impedidos de viver o presente ou nos sentirmos impotentes para usar os nossos recursos internos, impedindo de realizarmos as mudanças positivas em nossa vida. Quando o remorso ultrapassa esses limites, ele deixa de ser produtivo e útil. O remorso pode se tornar uma doença física que se reflete nas dores que se sente no corpo. É o remorso a massacrar o corpo sem que percebamos.

sábado, 18 de junho de 2011

Cérberus, o guarda do reino de Hades



Cerberus tinha como significado "o demônio do poço". Ele era um monstruoso cão de múltiplas cabeças que guardava a entrada do Hades, o reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem mas jamais saírem, despedaçando os mortais que por lá se aventurassem.

Existem inúmeras descrições de Cerberus, todas
elas monstruosas. Cerberus deriva da palavra Kroboros, que significa comedor de carne, isto porque Cerberus comia as pessoas. Filho igualmente de dois seres monstruosos, Tífon e Equídna, era irmão de outros monstros. Da sua união com Quimera, nasceram o Leão de Neméia e a Esfinge.

Como o guardião das portas do Tártaro, não impedia a entrada no reino de Hades mas impedia a saída. Como
castigo, Cerberus comia o corpo dos condenados. Quando Piritoo tentou seduzir Perséfone a esposa de Hades, ele foi entregue ao cão. Os únicos que conseguiram passar por Cerberus e sair ilesos do submundo foram Héracles, Orfeu, Enéias e Psiquê.

Quando chegava um novo visitante, Cerberus se mostrava uma criatura adorável. Porém quando o visitante quisesse
sair, Cerberus tornava-se um cão temido e feroz. Para acalmar a sua fúria, os mortos que residiam no submundo jogavam-lhe um bolo de farinha e mel que os seus entes queridos deixavam em seus túmulos.

Os gregos acreditavam que a morada dos mortos era o reino de Hades. Localizado nos subterrâneos, era rodeado pelos
rios do esquecimento. Os mortos atravessavam o rio transportados na barca de Caronte que cobrava uma moeda pela travessia. Os mortos conservavam a forma humana mas não tinham corpo e não se podia tocá-los. O acesso ao reino se dava por uma porta de diamantes junto a qual Cérberus montava guarda.

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Cérberus simboliza o terror da morte, da ideia do inferno mas principalmente simboliza ainda o enfrentamento do pior dos infernos, aquele que habita no interior de cada ser humano. A idéia mais comum de inferno é sobre um local no interior da Terra, onde as almas são condenadas a viver eternamente, em verdadeiro suplício como consequência dos erros cometidos durante a vida terrena.

Argumenta-se que o inferno é um local imerso em lavas e fogo que queimam
aqueles que ali chegam, assim como queima na alma o inferno interior. A maioria dos seres humanos passa a vida debatendo-se entre estes dois símbolos: o inferno e o paraíso. Logicamente todos anseiam pelo paraíso após a morte; muitos estão convictos de que é um lugar perfeito onde a dor e o sofrimento não existem. No entanto, esses dois lugares coexistem em nós a todo tempo.

Se o inferno é um estado onde não existe a
luz e o paraíso é onde a luz brilha intensamente, eles se referem ao nosso próprio interior. Quanto mais nos identificamos com a negatividade e os sentimentos negativos que brotam em nós, como a mágoa, o ódio, o desejo de vingança, mais fortemente experimentaremos o inferno. O sentimento de vitima também é um componente essencial do inferno interior, pois nos paralisa num estado de permanente lamentação em que responsabilizamos o mundo e os outros como causa de nossa infelicidade.

Cérberus era o cão que impedia a saída do reino de Hades. Da mesma forma, encontramos dificuldades para sairmos do nosso
inferno interior. Assim como os únicos que conseguiram sair ilesos do reino utilizaram o amor puro e verdadeiro, só o amor, o perdão e a compaixão pode nos libertar do nosso inferno interior.

Quando estamos conectados com a bondade, a generosidade e o bem, a luz interior é capaz de transmutar qualquer
situação ou acontecimento em oportunidade de crescimento interior. E assim criamos o paraíso em nossa vida, ao invés de esperar por ele como uma promessa que só poderemos alcançar após a morte...

sábado, 11 de junho de 2011

Zéfiro, o vento das brisas suaves



Zéfiro, o vento Oeste, era irmão de Bóreas e habitava na Trácia. A lenda descreve-o como um vento primitivamente violento, que destruía tudo com o seu sopro indomável: arrasava plantações, provocava naufrágios, causava grandes danos aos homens mas uma grande paixão o fêz mudar.

A súbita paixão de Zéfiro por Clóris - chamada de Flora pelos romanos - transformaou o caráter mitológico do vento
dando-lhe uma versão benéfica. Clóris era a rainha da primavera e era quem espalhava a beleza das flores ao mundo, dando-lhes as cores e o perfume. O contraste com Zéfiro, o vento que destruia a beleza das flores, fêz com que Cloris o rejeitasse.

Mas o amor de Zéfiro era sincero, pleno e construtivo. Para conquistar Clóris, ele transformou a sua
personalidade tempestuosa e destrutiva, tornando-se um vento suave que soprava lentamente para não danificar a beleza criada por sua amada. Representado na forma de um jovem com asas que anunciava a primavera e o renascer das plantas, Zéfiro e Clóris tiveram um filho, Carpo - o fruto.

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O mito de Zéfiro e Clóris reflete o equilíbrio da natureza. O vento suave não destrói as flores e leva o seu pólen, fazendo com que fecunde e renasça em outra vegetação. Zéfiro passa a ser o vento dos namorados. Foi Zéfiro quem conduziu Psiquê ao palácio de Eros, o encontro entre o Amor e Alma. E também foi Zéfiro quem fêz emergir Afrodite, a deusa do amor e da beleza. das espumas do mar soprando-a e conduzindo-a suavemente até a ilha de Chipre.

Zéfiro é o vento do Ocidente, aquele que ameniza o clima grego, vivificando a natureza. Na estrada entre Atenas e
Elêusis, era venerado como uma entidade fecundadora. É representado com uma fisionomia serena e terna, trazendo asas, muitas vezes em forma de asas de borboletas e coroas coloridas nas mãos. Em Roma, Zéfiro era venerado ao lado de sua mulher Flora. As festas Florais celebravam a primavera em Roma.

O mito mostra a transformação que o amor pode causar nas pessoas. O amor é a força que faz mover os corações dos seres apaixonados. O amor humaniza, torna as pessoas mais sensíveis, mais graciosas, mais bonitas por dentro e por fora. Só quem ama pode ver e sentir as benéficas transformações que acontecem em todo o seu ser. Talvez Zéfiro tenha compreendido que o pior destino era viver e morrer sozinho, sem amar e sem ser amado. O poder do amor e da sua vontade o transformaram.

O amor tem o poder de mudar os pensamentos e atitudes porque traz uma outra visão do mundo. As pessoas
apaixonadas conseguem ver o mundo mais colorido e alegre. Até os dias cinzentos desaparecem. O bom humor se faz presente e o otimismo se torna mais forte. todos os problemas parecem menores e tudo se torna mais leve.

A real
mudança acontece internamente. O amor tem força extraordinária; não há ninguém imune à sua ação. Quando ele se manifesta, salva vidas, alimenta outras e tem o poder de transformar pessoas tidas como más em renovadas criaturas.

O amor sempre esteve presente em toda a história da humanidade como propulsor de grandes transformações, deixando verdadeiras lições de vida que foram passadas de geração em geração no decorrer de toda a nossa existência. Ensinamentos que nos trouxeram sabedoria e conquistas, sobretudo nas relações, possibilitando a proximidade entre os povos e a valorização do ser humano.

O amor puro e verdadeiro não admite a corrupção, a mentira, a banalização da vida, nem a venda ou troca de
interesses. Para amar deve-se buscar o oposto, mostrar que a essência do viver pulsa, que há esperança. O amor é a chave para a felicidade com a simplicidade, a caridade e a compaixão que podem refletir uma vida plena e a tão sonhada paz de espírito.

Estamos acostumados a viver em um mundo em que as pessoas agem na expectativa de reciprocidade. E a ação traz uma reação. Infelizmente, não se encontra sabor em relações desinteressadas. Quando uma pessoa se abre para o amor verdadeiro, ela passa a enxergar o outro como um irmão. Não vê diferenças. Os preconceitos se quebram e o que prevalece é a vontade de compreender aquela realidade e poder oferecer a si como ferramenta para melhorar o que nela for preciso. E o mais importante: sem esperar nada em troca, não precisa de reciprocidade.

Quando se exercita o amor, aprende-se a viver com mais tolerância, bondade. perdão e humildade. É possível até
mesmo vencer os próprios limites e fazer disso uma lição de vida para outros, como diz o hino da caridade:

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom de profetizar
e conheça todos os mistérios e toda a ciência;
ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes,
se não tiver amor, nada serei.

E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres

e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado,

se não tiver amor, nada disso me aproveitará.


O amor é paciente, é benigno;
o amor não arde em ciúmes,
não se ufana, não se ensoberbece,
não se conduz inconvenientemente,
não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal;
não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Bóreas, o vento do norte



Bóreas, que significa vento do norte ou devorador, era na mitologia grega o deus do vento frio do norte que trazia o inverno. Bóreas era muito forte e tinha um violento caráter. Com frequência era representado como um idoso alado com cabelo e barbas longas vestindo uma túnica de nuvens. Para os romanos era o deus Aquilo. Os gregos achavam que seu lar estava em Tracia e descrevem uma terra ao norte chamada Hiperbórea que significa "para além de Bóreas". Nessa terra, as pessoas viviam em completa felicidade até idades extraordinariamente longas.

Boreas, Zéfiro, Euro e Noto eram filhos de Astreo e de Eos. Bóreas se apaixonou por Oritía, uma princesa ateniense. Apesar de tentar conquistá-la, Oritía não deu-lhe atenção. Voltando ao seu temperamento violento, Bóreas a raptou enquanto ela dançava nas margens do rio. Bóreas levou-a numa nuvem de vento até a Tracia e teve com ela dois filhos: Zetes e Calais, e duas filhas, Quíone e Cleopatra. Desde então, os atenienses viam a Bóreas como um parente político. Quando Atenas foi ameaçada pelos persas, os atenienses clamaram por Bóreas que lançou ventos fortes fazendo afundar 400 barcos persas. Por isso, os atenienses construiram um altar dedicado a Boreas junto ao Rio Iliso.

A ninfa Pítis apreciava ver Pã tocando sua flauta apesar do seu aspecto grotesco. Sempre tocando a flauta de sete tubos em locais solitários, por não conseguir conquistar nenhuma moça, Pã sentou-se à beira de um rochedo. Pitis seguiu-o e quando dele se aproximou, Pã resolveu revelar seu amor. Ele não sabia que Pítis era amada por Bóreas, o terrível vento do norte, que naquele instante soprava com grande violência.

Quando viu sua amante perto do estranho deus, Bóreas foi acometido de um acesso furioso de ciúme. Não se contendo, soprou com tal impetuosidade que a ninfa Pitis caiu no precipício despedaçando-se sobre as pedras. Consternado, Pã transformou o corpo de Pitis em um pinheiro. Pítis significa em grego, pinheiro. A árvore foi consagrada a Pã, que passou a andar com a cabeça coroada de pinheiros e Bóreas perdeu para sempre seu grande amor.

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O mito de Bóreas está relacionado aos temperamentos fortes. O temperamento forte pode ser um ponto positivo, como os dos grandes aventureiros, artistas, empreendedores, revolucionários que mudaram o mundo com suas excepcionais descobertas. Também pode ser um ponto negativo, como os dos boêmios, malandros, abusadores de drogas, jogadores e viciados em adrenalina. Quantas pessoas prejudicam a si mesmas e aos outros, quando tomam decisões ou atitudes devido ao seu temperamento e depois se arrependem por não terem refletido antes.

A tendência para agir impulsivamente e sem consideração com as consequências, pode se transformar num Transtorno de Personalidade Explosivo e Agressivo. Geralmente, quando uma pessoa chega ao transtorno, sente uma enorme incapacidade de manter qualquer tarefa ou situação que não lhe ofereça uma recompensa imediata. Com seu humor, instável e caprichoso, tende a exigir que suas vontades sejam imediatamente satisfeitas.

E por não conseguir manipular todas as pessoas usando de ameaças e ofensas, está sempre em conflito com os outros, especialmente quando seus atos são criticados. Suas explosões de ira e violência, a tornam incapaz de controlar os resultados inconsequentes, o que lhe retira oportunidades e pessoas de sua vida. Essa foi uma lição que Bóreas aprendeu de uma forma dolorosa.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Aedos, os antigos poetas



Antes da invenção do alfabeto, os antigos gregos acreditavam que as Musas davam aos poetas o dom de desencantar as palavras: eram os Aedos. Eles compunham canções ao som da lira e conseguiam transmitir os segredos das palavras através da poesia. Os poemas eram compostos e cantados pelos Aedos e quando as canções passaram a ser escritas, os Aedos desapareceram.

O Aedo não era vidente mas inspirado pelas Musas. Capaz de alcançar a verdade, ele rompia a limitação do tempo, pois
sua palavra resgatava as verdades do passado e as tornava presentes na sua narrativa que cumpria a função de perpetuar os mitos. Diferente do vidente, que tudo sabia sobre passado, presente e futuro, o poeta usava a recordação sob orientação da deusa Mnemósine (a Memória), mãe das Musas.

A Memória resgatava acontecimentos esquecidos e os
revelava às Musas, que transmitiam aos Aedos habilitados a revelar os saberes entre os mortais. Mnemosine - a deusa de memória - era filha de Géia e Urano. Tendo se unido a Zeus gerou nove filhas: as Musas. Calíope era a Musa da Eloquência, Clio ou Kleio a Musa da História, Erato a Musa da Poesia romântica, Euterpe a Musa da Música, Melpômene a Musa da tragédia e alegria, Polimnia a Musa da poesia lírica, Terpsícore a Musa da dança, Talia a Musa da comédia e Urânia a Musa da astronomia.

Afirmavam os poetas que tudo que eles diziam era apenas repetição do que as Musas lhes haviam dito e davam a elas
todo o crédito. Invocavam sua Musa e esperavam que ela viessem atendê-los na sua inspiração. Quando as Musas cantavam tudo se imobilizava: o céu, as estrelas, o mar e os rios. Podiam assumir a forma de pássaros e se achavam muito próximas das ninfas das fontes, exatamente como sua mãe Mnemósina que era associada a nascentes, tanto no Mundo Subterrâneo quanto no Mundo Superior.

Criticados por muitos mas reconhecidos por outros, os Aedos foram considerados educadores pois o efeito de suas
histórias podiam influenciar na formação dos jovens. Platão dizia que o canto inspirado do poeta produzia os encantos que moviam os mortais. A construção da história sobre a origem dos deuses, dizia-se ter sido inspirada pelas divindades a Homero, o mais célebre dos Aedos.

O poeta cantava perante uma assembleia de aristocratas reunidos num banquete, desfilando uma vasta coleção de
temas conhecidos, por exemplo, a guerra de Tróia. Ele próprio escolhia um episódio mas muitas vezes era o público que pedia um tema favorito. E assim o poeta fazia um curto canto de prelúdio à epopeia principal. Os Hinos homéricos constituem uma coleção desses poemas.

Os Aedos cantavam um repertório composto de lendas e tradições populares ao som de liras ou cítaras.
Assim como um artista escultor que dá forma a um bloco de pedra, o escritor dá forma às palavras transformando-as em sonetos, poemas, música e poesia.

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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