quinta-feira, 21 de março de 2013

Apeles e a busca por justiça


Ao ser injustamente difamado por seu rival Antífilos, que o acusou de ser cúmplice de uma conspiração diante do crédulo rei do Egito, Apeles provou sua inocência e para expressar sua indignação ele pintou um quadro. Mais tarde Sandro Botticelli reproduziu a cena do julgamento em sua obra "A Calúnia de Apeles"/1494.

A pintura mostra um homem inocente arrastado diante do trono pelas personificações da Calúnia, da Malícia, da Fraude ou Dolos e da Inveja. Eles são seguidos de um lado pelo Remorso, uma anciã angustiada que veste roupas surradas, que vira-se para enfrentar a Verdade nua, bela e pudica, que aponta para o céu. 


A nudez da Verdade a relaciona ao jovem inocente, cujas mãos postas significam o apelo a um poder superior. Assim como o jovem inocente quase tão nu quanto ela, a Verdade não tem nada a esconder. Com seus gestos eloquentes e a expressão da única figura proeminente na pintura, ao apontar para o alto em direção ao céu mostra que uma Justiça mais elevada será dispensada ao acusado.



O Rancor, vestido de preto, conduz a Calúnia com a mão direita. A Calúnia empunha uma tocha acesa com a mão esquerda, símbolo das mentiras que ela espalhou, enquanto arrasta pelos cabelos sua vítima, o jovem seminu, pela mão direita. A Inocência do rapaz é representada pela sua nudez, que significa que ele nada tem a esconder. Ele cruza as mãos em vão, como que rogando a sua libertação a um poder superior. 



Por detrás da Calúnia, as figuras da Fraude ou Dolos e da Inveja estão cuidadosamente ocupadas em trançar, hipocritamente, os cabelos de sua amante, a Calúnia, com uma fita branca e espalha rosas sobre sua cabeça e ombros. Ao serem representadas com as formas enganosas de belas moças, elas estão fazendo um uso insidioso dos símbolos da pureza e da inocência para adornar as mentiras da Calúnia.


O rei está sentado num trono erguido em um salão aberto, decorado com relevos e esculturas. Ele está ladeado pelas personificações alegóricas da Ignorância e da Suspeita, que estão avidamente sussurrando rumores em suas orelhas de burro, que simbolizam a imprudência e a natureza tola do rei. Ele tem os olhos apertados, mostrando que é incapaz de ver o que está realmente acontecendo e estende a mão cansada para o Rancor em pé diante dele.

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Desde pequenos somos condicionados a procurar por justiça e, quando na vida somos injustiçados, sentimos raiva, ansiedade e frustração. Na verdade, procurar por justiça plena é como procurar a fonte da juventude eterna. A justiça plena não existe, nunca existiu e nunca existirá. O mundo não funciona dessa forma.

A natureza não é justa. Animais são predadores naturais de outros: os ratos comem os percevejos; as cobras comem os ratos; as galinhas comem as cobras; os coiotes comem as galinhas etc. Mesmo que pareça injusta, assim é a cadeia alimentar dos bichos. Furacões, inundações, terremotos, todos são injustos, porque atingem bons e maus.

É um conceito mitológico sentir-se feliz ou infeliz devido à justiça; é isentar-se da responsabilidade pela própria felicidade. A exigência da justiça é verdadeira, mas não podemos nos deixar envolver demais nela, pois assim estaremos sendo injustos em relação a nós mesmos. Apesar da injustiça, temos de nos manter em busca da verdade e defender a inocência. 

A injustiça é constante, mas podemos nos recusar a sermos reduzidos a um estado de imobilidade emocional por causa dela. Esforçar-se para eliminar a injustiça é um dever, mas ninguém jamais poderá se sentir psicologicamente derrotado por ela. Se você parar de plantar boas sementes de onde nunca nada se colhe, nunca se sentirá injustiçado. 


Plante sementes apenas onde haja possibilidade de germinar e de onde você possa colher bons frutos. E se quiseres combater a injustiça, comece por si mesmo. A injustiça se alimenta e ganha força onde há malícia, fraude, dolo, calúnia, inveja, mentira, ignorância, suspeita e imprudência.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Priapus, deus da fertilidade, boa sorte e poder


De acordo com a Mitologia Grega, Afrodite era a deusa do amor e da beleza. Ela apreciava a alegria, o prazer e o glamour, castigando a quem ousasse comparar-se à sua beleza. Casada com Hefesto, o deus dos ferreiros e metais era deformado, tinha os pés tortos, quadris deslocados e Afrodite nunca se satisfez sendo sua esposa.

Apesar de ser casada com Hefesto, Afrodite era sedutora e tinha vários amantes. Os filhos de Afrodite com seus amantes mostram seu domínio sobre as mais diversas faces do amor e da paixão humana. Um de seus filhos era Priapus, nascido de sua união com Dionísio. Priapus era um deus muito feio e tinha um enorme órgão genital, que se mantinha sempre ereto dando origem ao termo médico Priapismo.

Segundo a lenda, Hera, a vaidosa e vingativa esposa de Zeus nunca havia se conformado por Afrodite ter subornado Paris para indicá-la como a mais bela durante o concurso de beleza entre Hera, Atena e Afrodite. Por isso Príapus foi amaldiçoado por Hera enquanto ele ainda estava no ventre de sua mãe, tendo desejado que ele nascesse feio e com uma eterna ereção, porém seria impotente. 

Os deuses recusaram a presença de Priapus no Monte Olimpo e o jogaram na terra. Sozinho, ele acabou sendo encontrado pelos sátiros. Príapus juntou-se a Pan e a outros sátiros passando a ser cultuado como o deus da fertilidade, dos jardins, das plantas frutíferas e do crescimento, embora ele se mantivesse eternamente frustrado por sua impotência.

Conta-se que Priapus tentou unir-se com a ninfa Lotis, mas foi frustrado pelo zurrar de um jumento que levou-o a perder a ereção. O episódio fez com ele passase a odiar os jumentos exigindo que eles fossem destruídos em sua honra. No entanto, Priapus vingou-se fazendo com que o emblema sua natureza lasciva permanecesse nos jumentos. 




O mito de Priapus serve para conhecermos um pouco mais a respeito das representações através dos tempos. Na antiguidade tardia, o culto a Priapus era bem mais do que um sofisticado culto de pornografia. Para os camponeses gregos ele era visto como uma divindade guardiã dos pastos de cabras, ovelhas e dos enxames de abelhas. Foi considerado também como um deus que propiciava boa sorte e tinha o poder de evitar o mau-olhado, por isso sua imagem era adorada nos jardins e nas casas, sendo-lhe oferecido frutas, flores, peixes e legumes.

Estatuetas de Priapus eram comuns na antiga Grécia como também na Roma antiga, colocadas em pomares, portas, encruzilhadas e frequentemente adornadas com cartazes contendo epigramas, que ameaçavam os transgressores dos limites por ele protegidos. Ele foi representado de várias maneiras, geralmente como uma figura de gnomo deformado com um enorme falo ereto. Acredita-se que o uso de gnomo de jardim tenha surgido da figura de Príapus.

Como o deus protetor dos marinheiros e pescadores, a figura de Priapus servia como demarcação de áreas consideradas como passagem perigosa. Representado em sua forma ereta, o falo estava presente em quase todos os aspectos da vida diária, reafirmando o estado macho-dominante de coisas que sua presença manifesta. O falo também está associado à posse e demarcação territorial, por isso em muitas culturas é a divindade de navegação.

Quando os romanos conquistaram os territórios dos gregos, eles adotaram os seus deuses mas deram-lhes nomes latinos. Assim Priapus passou a ser o deus Fascinum mantendo o mesmo poder de afugentar o mau olhado e propiciar a conquista, coragem e autoridade. Atribuiam-lhe também o poder de fazer brotar as árvores e de tornar as mulheres férteis. Mesmo depois da queda de Roma, Príapus continuou a ser invocado como um símbolo de saúde, fertilidade, prosperidade e poder. De Fascinum provém os termos fascinante e facismo.

Priapus foi uma figura popular na arte erótica romana e na literatura latina, sendo um tema do humor obsceno de versos chamado Priapeia. Ele era muito popular em Pompeia e uma das imagens mais famosas tem em seu falo um saco de dinheiro. As intenções de seu culto eram dirigidas mais para a luxúria do que o amor. A crença ideal dos pompeianos era: Goza enquanto podes. A vida é muito curta. Goza a vida enquanto a tens! 

Para o povo de Pompéia nada ultrapassava o prazer sexual, por isso toda a cidade revelava uma atmosfera de sexualidade. O povo de Pompéia considerava as relações sexuais como uma atividade biológica natural e salutar. Eles eram exímios na arte sexual, porém sem vulgaridade nem tabu a respeito da sexualidade humana.   

 
Tanto gregos quanto romanos eram povos muitos supersticiosos. Eles consideram os dias auspiciosos como Fas e os dias inauspiciosos como Nefas. Para eles tudo dependia dos dias fastos ou nefastos. Por isso, o povo na sua comunicação diária fazia o sinal de cruzar os dedos ou sobrepor os dedo médio sobre o dedo indicador, que simbolizava o ato sexual, para afugentar o mau olhado. Este simbolismo era protetivo e não sexual, e ainda hoje se usa mesmo gesto de cruzar os dedos também para afastar a inveja, afugentar o mau olhado ou a má sorte. 





Na América estender apenas o dedo médio é considerado um gesto ofensivo, mas no seu significado original servia para se proteger do mau olhado. O manguito feito com a mão sobre o braço flexionado também é considerado um gesto ofensivo, mas esse já foi um gesto de proteção contra maus agouros. 

 



Depois que a Igreja Católica foi aceita no Império Romano no século 4 começaram os tabus e o puritanismo a respeito da sexualidade humana. No entanto em nossa vivência diária há vários símbolos fálicos que sobreviveram o tempo. Os romanos exprimiam a sua escolha pelo destino dos gladiadores no Coliseu de Roma, fazendo o gesto com o polegar virado para cima ou para baixo como um gesto fálico. E ainda hoje usamos o mesmo gesto para expressar Ok ou não Ok. 


Povos de nacionalidades latinas cruzam os dedos de uma maneira diferente. Os italianos, espanhóis e portugueses fazem uma figa, colocando o polegar entre os dedos indicador e médio. Para estes povos a figa é um gesto forte para afugentar melhor o mau olhado porque representa o intercurso sexual mais íntimo. A figa, que é um símbolo fálico, também é usada como amuleto ou talismã de sorte.  



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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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