sábado, 9 de julho de 2011

Penélope, o amor que não se cansa de esperar



Penélope foi uma heroina mítica, cuja beleza não era maior que seu caráter e sua conduta. Filha de Icário, um príncipe espartano, Ulisses pediu-a em casamento conquistando-a entre muitos competidores que participaram dos jogos instituídos por seu pai. Porém depois do casamento, quando chegou o momento em que a jovem esposa deveria deixar a casa paterna, seu pai Icário não aceitando a idéia de separar-se da filha, tentou persuadi-la a permanecer ao seu lado e não acompanhar o marido a Itaca. Ulisses deixou que Penélope escolhesse e ela silenciosamente cobriu o rosto com um véu e seguiu o marido. Icário entendeu e mandou construir uma estátua do Pudor onde se havia separado da filha.

Ulisses e Penélope haviam se
casado e apenas um ano depois tiveram de separar-se em virtude da partida de Ulisses para a Guerra de Tróia. Enquanto Ulisses guerreava em outras terras e seu destino era desconhecido, o pai de Penélope sugeriu que sua filha se casasse novamente, mas por ser uma mulher apaixonada e fiel ao seu marido, recusou dizendo que o esperaria a volta de Ulisses.

Durante a longa ausência de Ulisses muitos duvidavam que ele ainda estivesse vivo ou que era improvável que algum dia
retornasse. Penélope foi importunada por inúmeros pretendentes, dos quais parecia não poder livrar-se senão escolhendo um deles para esposo. Contudo, Penélope lançou mão de todos os artifícios para ganhar tempo, ainda esperançosa do regresso de Ulisses.

Um de seus artifícios foi o de alegar que estava empenhada em tecer uma tela para o dossel funerário de Laertes, pai de seu marido, comprometendo-se em fazer sua escolha entre os pretendentes quando a obra estivesse pronta. Durante o dia, aos olhos de todos, Penélope trabalhava tecendo; à noite, secretamente desfazia o trabalho feito. E a famosa "Tela de Penélope" passou a ser uma expressão proverbial, para designar qualquer coisa que está sempre sendo feita mas que nunca termina.

Porém tendo sido descoberta em seu artíficio, ela propôs outra condição ao seu pai. Conhecendo a dureza do arco de
Ulisses, ela afirmou que se casaria com o homem que o conseguisse encordoar. Dentre todos os pretendentes, apenas um camponês humilde conseguiu realizar a proeza. Imediatamente este camponês revelou ser Ulisses, disfarçado após seu retorno. Penélope e Ulisses tiveram apenas um filho chamado Telêmaco.

********************

O mito de Penélope mostra uma das mais claras e populares imagens de feminilidade, da pessoa que espera pelo amor e enquanto espera, pacientemente, borda, tece, junta os fios e as cores. A referência à difícil trama dos tapetes, do desencontro dos fios e da combinação das cores, tanto nos reporta aos acontecimentos da própria existência, tecidos por uma dolorosa memória, como nos fala de criação, invenção e a possibilidade de conhecer outros caminhos.

A tela que Penélope tece tem o objetivo de protegê-la e aquecê-la. Destituida de afeto, ela tece para cuidar de si mesma em seus piores momentos de solidão e, ainda que espere por Ulisses por toda sua vida, não tece porque espera, ela tece a sua solidão, seu sentimento de abandono, de orfandade e rejeição. Enquanto espera, desfaz os pontos antigos, cria outros desenhos, novas matizes à espera de si mesma. A espera é uma contagem regressiva da esperança que Penélope coloca nos Laços e Nós de sua tapeçaria.

Os laços são os vínculos afetivos que nos unem aos outros. Com a convivência ou pela falta dela, os problemas surgem e os laços se transformam em Nós. O Nó não se forma entre o homem e a mulher, ele se forma entre o Eu e o Outro. Os Nós são os problemas existentes nos relacionamentos, os desafios de conviver com o outro. Nó é o nome que damos às crises e às dificuldades naturais das pessoas que convivem e das uniões amorosas: desencontros, brigas, medo de não ser amado, ciúmes, tédio, falta de liberdade, questões sexuais, infidelidade, problemas financeiros, divisão do trabalho doméstico, problemas de convivência com as famílias etc.


Os nós acontecem não por falta de amor, pelo menos não necessariamente. Os Nós acontecem mesmo onde exista amor; é da natureza humana a dificuldade para se relacionar. Os seres humanos não conseguem viver sozinhos e não sabem viver juntos. E nos relacionamentos só há três a fazer: evitar que os Nós aconteçam, desfazer os Nós ou pelo menos afrouxá-los até poder desatá-los.

Evitar que os Nós aconteçam é uma tarefa que depende do cuidado amoroso, aceitando o outro como ele é, usando de criatividade para fugir da rotina. Embora sejam recomendações fáceis, são difíceis de serem praticadas, porque temos de conviver ainda com a nossa raiva, nossa insegurança, nossa agressividade e tantos outros sentimentos que convivem dentro de nós mesmos, lado a lado com os nossos bons e nobres sentimentos.


Não basta apenas ter amor para desatar os Nós entre as pessoas. O amor não desata, pois sua tendência natural é atrair, unir e ligar. Quando há sofrimento, é preciso abandonar as fantasias e adquirir habilidades para comunicar-se bem com o outro, despertando-o para uma conversa amorosa, sem discursos, xingamentos e acusações.

Nos relacionamentos é mais importante saber ouvir do que falar, porque a conversa implica em ouvir também o que o outro tem a dizer. Saber ouvir pressupõe não apenas deduzir das palavras ditas, mas observar a postura, as emoções, o tom de voz e as expressões. Quando uma pessoa fala verdadeiramente o que sente, todo o seu corpo corresponde. Essa é a magia necessária à arte de desatar os Nós que serve, principalmente, para nos sentirmos escutados, considerados e amados.

Por mais saudáveis que sejam os laços, um dia podem chegar ao fim. Isso acontece quando um dos dois desiste de investir na relação. O fim dos laços não está verdade na separação ou na ausência, porque para muitos a ausência serve para fortalecer a ligação afetiva com o outro. O fim começa quando acabam as palavras, quando se instala a indiferença. É no silêncio que terminam os relacionamentos...

17 comentários:

  1. gostei é bem detalhado, e foi a única conzerteza que gostei mais.......

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. se escreve com certeza não concerteza!! Mais tudo bem errar é humano!!

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    3. Errar é humano: você usou MAIS e não MAS.

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  2. Maravilha de texto, sempre me encantou esta história e vejo que na vida a acontece....

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  3. Parabéns pela postagem! Conciso e muito bem escrito!

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  4. Gostei dessa o Penélope!!! Muito boa a história. Parabéns!

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  5. Gostei dessa o Penélope!!! Muito boa a história. Parabéns!

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  6. Cheguei aqui por causa da música "Penelope" de Serrat. Perfeita. Não conhecia a história do mito, ainda bem que não tem um final triste como o da música. :)

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  7. Cheguei aqui por causa da música "Penelope" de Serrat. Perfeita. Não conhecia a história do mito, ainda bem que não tem um final triste como o da música. :)

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Agradeço os seus comentários, críticas e sugestões

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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