segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Eileithyia deusa do parto e da obstetrícia



Eileithyia, filha de Hera e Zeus, era a deusa do parto e da obstetrícia. Em tempos clássicos, havia santuários para ela nas cidades de Creta, Lato Eleutherna, uma caverna sagrada em Inatos e os romanos a chamavam Lucina. Juntamente com Artemis e Perséfone, as deusas eram representadas carregando tochas que significava trazer as crianças à luz e proteger as parturientes. Muitas vezes Eileithyia era convocada por sua mãe Hera para intervir nos partos das amantes de Zeus, mas Zeus sempre contava com sua ajuda de Eileithyia para proteger o nascimento de seus filhos bastardos.

Por ser uma esposa muito ciumenta, Hera mantinha estrita vigilância sobre o marido. Para fugir da vigilância da esposa, Zeus se metamorfoseava em diferentes formas para seduzir outras mulheres, como fez para seduzir Alcmena, mãe de Hércules. Alcmena era a virtuosa esposa de Anfitrião e, para seduzí-la, Zeus assumiu a forma de seu marido enquanto este estava ausente de casa. Quando seu marido retornou descobriu o que tinha acontecido e ficou tão irado que construiu uma grande pira para queimar Alcmena viva. Mas Zeus mandou nuvens de chuva para apagar o fogo.

Eileithyia predisse que o primeiro neto do pai da Alcmena se tornaria o rei da Grécia. Alcmena e sua irmã Nicipe estavam grávidas, mas Hera pediu a Eileithyia que causasse o parto de Nicipe antes de 9 meses e nasceu Euristeus que se tornou rei da Grécia, reino que era reservado para Hércules filho de Alcmena. Mesmo assim, Hera passaria a perseguir Hércules por toda sua vida.

Quando Zeus engravidou Leto, ela foi perseguida por Hera impedindo que o parto se realizasse em qualquer lugar. Grávida de gêmeos, Leto chegou à Ilha de Delos onde nasceu primeiro Artemis que ajudou no parto de seu irmão Apolo, por isso Artemis era invocada para auxiliar no trabalho de parto das mulheres. Junto com Eileithyia, Artémis passou a ajudar as mulheres grávidas no parto sem dor.

Hera provocou a morte de Sêmele quando ela estava grávida de Dioniso. Enfurecida com a traição do marido disfarçou-se e convenceu Sêmele a pedir a Zeus que lhe mostrasse todo o seu esplendor. Zeus havia prometido a Sêmele jamais negar-lhe algo e ao satisfazê-la, Sêmele não suportou a visão de Zeus com um grande clarão e morreu fulminada.

Na tentativa de salvar a criança e seguindo as recomendações das deusas, Zeus ordenou a Hermes que a costurasse em sua coxa. Assim, quando terminou a gestação Dioniso nasceu vivo e perfeito. Contudo Hera continuou a perseguir a estranha criança de chifres e ordenou aos Titãs que a matassem. Mais uma vez Zeus interferiu, resgatou o coração da criança e o cozinhou junto com sementes de romã transformando numa poção mágica que deu a Perséfone, esposa do deus das trevas. Perséfone engravidou e novamente Dioniso nasceu. Por isso passou a ser chamado "o que nasceu duas vezes", deus da luz e do êxtase.

Se uma mulher morresse durante o parto, acreditava-se que ela havia sido atingida por uma flecha de Artemis, mas ainda assim, as roupas da mulher falecida eram oferecidas à deusa Artémis. As cavernas eram consagradas a Eileithyia, já que tinham uma associação inevitável com o canal de nascimento. Embora não possa ser provado, sem dúvida existia uma ligação a essa crença.

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Eileithyia era a deusa do parto e do nascimento, uma das experiências mais marcantes da vida da mulher e da criança. Muitas mulheres encaram o parto como símbolo de dor, devido à sua cultura ou outros conflitos, mas o modo como a mulher encara sua maternidade está diretamente influenciado pela sua infância em relação a sua própria mãe. Fatores negativos e traumas são intensificados no subconsciente, como sexualidade perturbada, relações conflituosas com o sexo masculino e outros traumas, se exteriorizando no momento de ser mãe.

Há mulheres que optam pelo parto natural com o mínimo uso de anestésicos, cooperando no processo de nascimento do seu filho. Em virtude de avanços técnicos, a parturiente experiencia um parto sem dor, mantendo-se consciente, participativa e, principalmente, presenciando o nascimento do filho. Elas se preparam para este momento através de treinamento da respiração, relaxamento de controle das contrações uterinas e buscam apoio psicológico.

Quando o parto transcorre sem complicações, se torna uma das experiências mais profundas e plenas de sua vida e o vínculo com o bebê se consolida mais facilmente. O parto natural estabelece uma continuidade da vida intra-uterina, pois escutando o batimento cardíaco e a voz da mãe, a criança reconhece que está em um ambiente de segurança e se acalma. O nascimento é sentido como uma transição natural do útero para os braços maternos.

Quando o parto é doloroso e traumático, a mãe pode se ressentir e culpar o filho pelo sofrimento a que está sendo submetida, podendo gerar emoções de hostilidade e rejeição à criança. Durante as contrações uterinas a criança está adormecida e não sente dor. Ela só desperta nos momentos finais quando se prenuncia a expulsão do útero preparando a criança para a capacidade de reagir aos estímulos ambientais, elevando o nível de excitabilidade neural e orientação espacial.

Um fator de grande interesse é em relação à duração do trabalho de parto. Enquanto algumas mulheres dão à luz em poucas horas, outras levam mais tempo, sentindo contrações muito dolorosas. Esta lentidão no parto poderia ser compreendida como a presença de desejos ambivalentes, tanto na parturiente quanto no feto. Assim, a parturiente poderia sentir uma profunda angústia diante da decisão de manter o filho dentro de seu útero ou de colocá-lo no mundo, renunciando a tê-lo só para si.

Também o feto, desejando permanecer na segurança e proteção do útero materno ao invés de enfrentar o mundo desconhecido e, portanto temido, pode causar lentidão no parto. Para o feto trata-se de uma decisão de vida ou de morte. Muitas vezes há necessidade da intervenção médica, para que o nascimento ocorra, principalmente quando se constata a existência de sofrimento fetal. Em alguns casos é necessário induzir o parto. Algumas mulheres podem perceber a indução como um alívio necessário para a mãe e o feto. Para outras, pode ser um modo violento de dinamizar o parto.

Mas existem algumas condições em que se faz necessário o parto cesáreo, que pode ser percebido de modo diferente por cada mulher. A grande dificuldade é que a mãe, neste momento, pode estar em extremos conflitos como o medo da anestesia e da cirurgia, e assim a mãe transmite ao feto um intenso desgaste emocional deixando a criança fragilizada e insegura. É importante que a mãe transmita ao filho, através da comunicação interna, sobre o que irá ocorrer.

Para o feto a cesariana representa uma forma de violência contra si. Se realizada sob anestesia geral, há uma quebra intrapsíquica entre a mãe e a criança, o que dificulta o fortalecimento do vínculo entre elas. Crianças que nascem de parto cesáreo podem nascer com hipotermia e tensão. O maior problema causado pela anestesia é que atravessando a barreira placentária produz graus variados de depressão fetal. Também se verifica que é mais frequente a sensação de indiferença materna diante do filho após a retomada da consciência. Na obstetrícia moderna, a cesariana é indicada e necessária, principalmente se há possibilidade de complicações para mãe e ou para a criança.

Há mulheres que insistem na cesariana programada por ter medo do parto natural. A passividade propiciada pela cesariana, em que a criança é retirada do útero sem a participação da mãe, tem paralelo com a dificuldade de assumir a função maternal, pelo temor de passar pelo trabalho de parto, como se precisasse ser poupada. A cesárea programada, ocorrendo antes do início de trabalho do parto, é percebida pelo feto como se tivesse sido arrancado de seu meio, sem que mãe filho tivessem manifestado o sinal biológico.

A humanização do parto visa assegurar que a experiência seja menos traumática, tanto para a mãe quanto para a criança, viabilizando o vínculo dos pais com a criança. A comunicação interna que a mãe estabelece com o feto no momento do parto é importante para que o filho sinta-se seguro. Atualmente sabe-se que, mediante uma série de sinais complexos, mãe e criança realizam um compromisso na finalização da gravidez. Neste contexto, o parto é vivenciado de modo diverso por cada mulher que é influenciado por sua história de vida, personalidade, o período da gravidez e a história do casal.

Bibliografia: Guia do Bebê / Psicologia da gestação

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Keres e os traumas emocionais



As Keres eram espíritos femininos originadas de Nix, a deusa da noite. Alguns atribui-lhes a paternidade de Erebus, outros defendem que elas foram geradas sem a união com outro deus. As Keres simbolizam o destino cruel, fatal e impossível de escapar e elas seriam aquelas que traziam a morte violenta aos mortais. Cada uma das Keres correspondia a um tipo específico de morte violenta, chamadas pelos romanos de Tênebras ou Trevas.

Confundidas com as Erínias, ou com as Harpias ou com as Moiras - o destino cego, as Keres eram verdadeiros monstros alados de cor negra, dentes pontiagudos e longas unhas que usavam para ferir ou despedaçar os cadáveres. As Keres eram irmãs de Thanatus - a personificação da morte, Moro - o escárnio e o quinhão que cada homem receberá em vida e o destino e Átropos - uma das Moiras. Juntos determinavam o fim da vida. Enquanto seus irmãos promoviam a morte tranquila, as Keres rondavam os campos de batalha, portanto tinham por missão trazer a morte cruel antes do tempo.

Quando o sanguinário deus Ares partia para grandes guerras, convocava as Keres para fazer parte de seu cortejo. À frente iam os filhos de Ares, Deimos - o espanto e Phobos - o terror. Após a batalha, as Keres devoravam os mortos e levavam as almas ao Hades. Presentes nos campos de batalha ou nos momentos de grande violência, como assassinatos, acidentes e devastações coletivas, aos que sobreviviam a elas, restava-lhes uma visão de sua horrível presença. A Ilíada afirma que cada ser humano possui uma Ker consigo, que personifica sua própria morte.

Elas seriam um dos maus espíritos liberados da caixa de Pandora. Ora tratadas como várias divindades e ora tratada apenas como uma única divindade que tinha um valor coletivo, entre as personificações destrutivas estão: Stygere, o ódio - Anaplekte, a morte rápida - Nosos, a doença - Ker, a destruição - Akhlys, a névoa da morte.

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O mito das Keres simbolizam o destino cruel e fatal e também os traumas emocionais causados por situações de eminente violência, tais como tentativa de assalto, sequestro, ataques de animais violentos ou peçonhentos, catástrofes naturais, agressão física, estupro ou acidentes. Pessoas que estiveram em situações de eminente violência podem desenvolver o transtorno do estresse pós-traumático que pode ser facilitado tanto pelo seu tipo de personalidade como a sua forma de lidar com dificuldades.

Toda ação produz uma reação em igual intensidade em sentido contrário. Esse choque de forças não é só uma teoria, mas uma verdade que surge nos momentos de fortes tensões emocionais. As pessoas podem ser afetadas em graus variados e o impacto é muito relativo, variando de pessoa para pessoa. Algumas pessoas podem ser totalmente afetadas pelo transtorno, que traz sofrimento e interfere em sua vida pessoal e profissional, provocando sintomas fisiológicos, emocionais e comportamentais.

Pessoas nessa situação, tentam afastar-se de quaisquer fatos, objetos, pessoas, locais e situações que possam trazer sensação de desconforto ao relembrar dos fatos. Os flashblacks, a sensação de estar novamente vivenciando o mesmo acontecimento, podem ocorrer através de pesadelos e sonhos aflitivos. Isso leva a um estado de constante tensão, gerando medo e terror obssessivo. A pessoa pode se assustar facilmente e estar sempre na expectativa de que a situação possa ocorrer novamente. Outras podem entrar numa sensação de vazio, perda de esperança no futuro e afastamento de atividades que considerava agradáveis no passado.

Em geral, as pessoas podem desenvolver os sintomas meses depois do evento, demorando algum tempo para incorporá-los. O próprio caso dramático ocorrido pode trazer significativas aprendizagens para lidar com o estresse pós-traumático, já que não é possível simplesmente esquecê-lo. Toda pessoa que foi afetada por um evento traumático deve ser acompanhada, apoiada e encorajada a encarar os fatos. Enfrentando o medo, pouco a pouco conseguirá superá-lo, para que não viva sob o constante fantasma das Keres. Só assim poderá reconstruir-se em outro contexto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Aquiles e as relações entre pais e filhos



Aquiles, o grande herói da mitologia, era filho de Tétis e Peleu. Quando Aquiles nasceu, seu pai confiou-o para ser criado e educado por Kiron. O centauro se encarregou da educação do jovem alimentando-o com mel de abelhas, medula de ursos e de javalis e vísceras de leões. Ao mesmo tempo, iniciou-o na vida rude em contato com a natureza, exercitou-o na caça, no adestramento dos cavalos, na medicina, na música e, principalmente, obrigou-o a praticar a virtude.

O jovem Aquiles tornou-se um adolescente belo, loiro e de olhos vivos. Intrépido, era simultaneamente capaz da maior ternura e da maior violência, por isso seu pai o enviou a um segundo preceptor, Fénix, um homem de grande sabedoria, que instruiu o príncipe nas artes da oratória e da guerra, juntamente com Pátroclo, filho de Menécio Rei de Locrida.

Quando Aquiles tinha nove anos de idade, Calcas - o adivinho - declarou que Tróia só poderia ser tomada com a ajuda de Aquiles, mas sua mãe pressentia que Aquiles morreria na guerra. Apavorada, Tétis vestiu seu filho como uma menina e o enviou para a corte do Rei Licomedes na ilha de Esquiro, para que ele fosse educado no Gineceu junto às filhas virgens do rei, disfarçado com o nome de Pirra - a loira ou ruiva.

Quando os gregos foram à corte de Peleu procurar por Aquiles, não o encontrando recorreram a Calcas que revelou-lhes a trama. Disfarçado de mercador, Odisseu foi ao palácio de Licomedes conseguindo entrar no Gineceu. Ele expôs, perante os olhos maravilhados das princesas, os mais ricos adornos. Entre os tecidos e as jóias estavam escondidos um escudo e uma lança. Odisseu fez soar a trombeda da guerra e imediatamente a pretensa Pirra correu para se armar. Assim Aquiles se revelou.

Aquiles retornou para junto de seus pais. Deidamia, uma das filhas de Licomedes, há muito tempo conhecia a verdadeira identidade de Aquiles. Ela mantinha um relacionamento oculto com ele e estava grávida, mas o nascimento da criança só ocorreu após a partida do herói. A criança recebeu o nome de Neoptólemo com o alcunha de Pirro. Tétis lamentou o insucesso do seu estratagema e fêz insistentes recomendações a seu filho, de que sua vida seria tanto mais longa quanto mais obscura ele a mantivesse, mas Aquiles optou pela glória tornando-se um dos mais belos herois da Guerra de Troia e um dos seus melhores guerreiros.

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Essa parte do mito de Aquiles retrata o relacionamento entre pais e filhos adolecentes. A família é a base da sociedade; é o lugar onde se desenvolvem as estruturas psíquicas e onde a criança forma a sua identidade e desenvolve o seu emocional. É na família que se determinam as funções, papéis e a hierarquia entre seus membros, sendo também o espaço social da confrontação de gerações e onde o masculino e o feminino definem suas diferenças e as relações de poder.

Cabe aos pais educar os filhos; a educação é a condição básica para o convívio social. Educar implica o uso de autoridade para estabelecer limites. Toda criança nasce egoísta e ela passa a respeitar o outro através da educação, da disciplina e, principalmente, pelo exemplo dos pais. As crianças se identificam com um dos pais e fazem o que esse adulto faz.

Quando os filhos são pequenos, os pais tem plenos poderes sobre os seus filhos e podem ainda decidir o que, quando e como as coisas podem ser feitas. Os pais tomam as decisões que julgam mais apropriadas e as crianças vivem confortavelmente essa relação de dependência desde que tenham suas necessidades básicas atendidas. Mas os filhos crescem e chegam à fase da adolescência, dando início a uma série de conflitos entre pais e filhos.

A maioria dos pais tem dificuldade em aceitar que seus filhos crescem e que passam a pensar por si mesmos. Admitir que eles estão crescendo muitas vezes significa que os pais estão envelhecendo. Muitos pais não aceitam perder o posto de heróis dos filhos, não suportam que os jovens possam ter um olhar crítico sobre eles. Crescendo, os filhos passam a enxergar os pais como pessoas, com qualidades e defeitos.

Alguns pais podem querer controlar de modo exagerado a vida dos filhos, não respeitam sua privacidade, perseguem seus passos tentando com isso evitar que eles cresçam e usam como justificativa os perigos do mundo. Na verdade, os pais tentam proteger os filhos e evitar sofrimentos futuros e se esquecem que a única forma de aprender a viver é vivendo. É isso que termina ocasionando os conflitos entre os pais e os filhos adolescentes.

O conflito entre gerações sempre existiu e os impulsos de rebeldia se formam quando os adolescentes formam seus valores, nada mais natural que jovens e adultos tenham uma visão diferente do mundo. Alguns conflitos são inevitáveis, mas muitos podem ser solucionados com um bom diálogo e respeito mútuo. A comunicação entre pais e filhos exige escuta ativa, livre expressão de sentimentos e busca ativa de entendimento mediante negociação e compromisso.

Desenvolver a habilidade de comunicação produz recompensas imediatas e a longo prazo. A comunicação tem grande impacto na saúde física e mental da família e influencia do modo como seus membros lidam com suas emoções. Isso pode afetar as atitudes, a auto-estima e a reação a situações estressantes. Se o prazer do relacionamento afetivo saudável for substituído por conflitos sem solução adequada, a família sem dúvida será infeliz.

Quando os pais apoiam seus filhos, dentro de regras razoáveis, eles promovem a segurança que os filhos precisam para seguir suas opções de vida. Quando os pais aceitam as resoluções conjuntas e conciliatórias, buscando criar soluções junto com os filhos, se estabelece o diálogo e a compreensão. Compete aos pais facilitar esse relacionamento com flexibilidade e espírito jovial. Educar com liberdade e ensinar aos filhos administrar a vida com responsabilidade é a melhor forma para desenvolver a confiança e consolidar a amizade entre pais e filhos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Greias, o caminho do autoconhecimento




Cetus e Fórcis eram divindades marinhas originadas de Gaia. Apesar de Cetus significar monstro, nome dado pelos antigos gregos às baleias, Cetus era uma deusa extremamente bela e gerou belas filhas, porém perigosas e odiadas pelos deuses, como as Górgonas, a serpente Ladon, Equidna e as Gréias.

Também chamadas de Fórcidas, as Gréias tinham cabelos grisalhos desde o seu nascimento.  Eram as três irmãs mais velhas e guardiãs das Górgonas.  Ao pedirem aos deuses para ter uma vida eterna, elas esqueceram de pedir juventude eterna, portanto envelheciam sem morrer. Decrépitas, elas tinham somente um olho e um dente, que elas compartilhavam entre si. Nunca o dente e o olho estava ao mesmo tempo com uma só, ou seja, durante todo o tempo só uma delas falava, outra só uma tinha visão e a última apenas ouvia.

Enyo - o terror, Deino - o medo e Pefredo - o alerta, viviam no Extremo Ocidente, no país da noite onde jamais chegava o sol. Apesar das Gréias serem consideradas pacíficas, Enyo é possivelmente um hipocorístico feminino de Enyálios, deus das lutas armadas, muitas vezes associado ao grito de guerra. Trata-se, talvez, de divindade pré-helênica. Enyó seria "a que faz penetrar, a que fura". Também é considerada parte do cortejo sangrento de Ares. Em Roma foi identificada com a deusa da guerra Belona.

Somente as Gréias sabiam do caminho para chegar nas Gorgonas. Quando Perseu ofereceu-se a trazer a cabeça da Górgona Medusa, Hermes mostrou a Perseu o caminho das Gréias. Ele conseguiu apoderar-se do olho e do dente das Gréias, recusando-se a devolvê-los até que elas mostrassem o caminho que lhe permitiria chegar até as ninfas, que lhe dariam tudo o que necessitava para lidar com Medusa.


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Se o mito de Perseu e Medusa representa o enfrentamento dos nossos medos e temores, as Gréias representam o aprendizado necessário para o autoconhecimento. Como guardiãs do que se encontra mais oculto de nós, algumas vezes precisamos apenas olhar para nós mesmos, sem críticas e sem medo. Ora devemos ouvir, o que dizemos para nós mesmos. Ora devemos falar sobre o que mais tememos. São as Greias que poderão nos indicar o caminho para a autodescoberta.

Elas são grisalhas desde o nascimento e, pela sua velhice aparente, estão relacionadas às antigas crenças que carregamos desde a mais tenra idade e que influenciam em nosso presente. Existem vários mecanismos que desenvolvemos desde a nossa infância, como sermos ensinados a lutar contra aquilo que achamos incorreto e por isso criamos afirmações do tipo: eu não posso, eu não consigo, eu não... Acreditamos que podemos evitar o que consideramos incorreto com simples convicções e expressões que gravamos em nós mesmos. Infelizmente, o que é positivo não aflora em nós naturalmente.

Temos a opção de pensar apenas em coisas que nos façam felizes, reconhecendo os nossos talentos e habilidades. No entanto, muitas vezes esquecemo-nos desse aspecto e pensamos negativamente a nosso respeito quando as coisas vão mal. È difícil contornar a situação de modo a vencer este sentimento de derrota, o mais fácil é certamente entregarmo-nos à tristeza. A fórmula para vencer os nossos pensamentos negativos não está disponível em outras pessoas e em nenhum lugar. É preciso existir uma grande força interior para assumirmos o controle da nossa mente.

Tudo se torna mais fácil e divertido quando sentimos emoções positivas. Quando pensamos e agimos de forma diferente, o nosso pensamento torna-se criativo. Quando apreciamos e reconhecemos o melhor de cada situação ou experiência, nos tornamos melhores e naturalmente o mundo à nossa volta se torna melhor. Quando aprendemos a rir de experiências menos positivas, descobrimos que não precisamos estar mal diante de situações ruins. Ser otimista, é correr o risco de realizar sonhos, é acreditar na capacidade de gerir o nosso destino, pois a vida não é algo que podemos impor ou fazer barganha, mas que devemos construir.

Se conheces a ti mesmo, mas não conheces o teu inimigo,
por cada vitória sofrerás também uma derrota.

Se conheces o teu inimigo e conheces a ti mesmo,

não precisas temer o resultado de cem batalhas.

Se não conheces a ti mesmo nem conheces o teu inimigo,

perderás todas as batalhas.

(Sun Tzu, A Arte da Guerra)

sábado, 15 de outubro de 2011

Hécate, a deusa dos caminhos



Hécate, também chamada de Perséia, era filha dos titãs Astéria - a noite estrelada e Perses - o deus da luxúria e da destruição, mas foi criada por Perséfone - a rainha dos infernos, onde ela vivia. Antes Hécate morava no Olimpo, mas despertou a ira de sua mãe quando roubou-lhe um pote de carmim. Ela fugiu para a terra e tornando-se impura foi levada às trevas para ser purificada. Vivendo no Hades, ela passou a presidir as cerimônias e rituais de purificação e expiação. Hécate em grego significa "a distante".

Tinha características diferentes dos outros deuses mas Zeus atribuiu-lhe prestígio. Após a vitória dos deuses olímpicos contra os titãs, a titânomaquia, Zeus, Poseidon e Hades partilharam entre sí o universo. A Zeus coube o céu e a terra, a Poseidon coube os oceanos e Hades recebeu o mundo das trevas e dos mortos. Hécate manteve os seus domínios sobre a terra, os céus, os mares e sobre o submundo, continuando a ser honrada pelos deuses que a respeitavam e mantiveram seu poder sobre o mundo e o submundo.

Ela é representada ora com três corpos ora com um corpo e três cabeças, levando sobre a testa uma tiara com a crescente lunar, uma ou duas tochas nas mãos e serpentes enroladas em seu pescoço. Suas três faces simbolizam a virgem, a mãe e a velha senhora. Tendo o poder de olhar para três direções ao mesmo tempo, ela podia ver o destino, o passado que interferia no presente e que poderia prejudicar o futuro. As três faces passaram a simbolizar seu poder sobre o mundo subterrâneo, ajudando à deusa Perséfone a julgar os mortos.

Para os romanos era considerada Trívia - a deusa das encruzilhadas. Associada ao cipreste, Hécate se fazia acompanhar de seus cães, lobos e ovelhas negras. Por sua relação com os encantamentos, feitiços e a obscuridade, os magos e bruxas da antiga Grécia lhe faziam oferendas com cães e cordeiros negros no final de cada lua nova. Também combateu Hércules quando ele tentou enfrentar Cérbero, o cão guardião do inferno com três cabeças que sempre lhe acompanhava.

O tríplice poder de Hécate se estendia do inferno, à terra e ao mar. Ela rondava a terra nas noites da lua nova e no mar tinha seus casos de amor. Considerada uma divindade tripla: lunar, infernal e marinha, os marinheiros consideravam-na sua deusa titular e pediam-lhe que lhes assegurasse boas travessias. O próprio Zeus lhe deu o poder de conceder ou negar qualquer desejo aos mortais e aos imortais. Foi Hécate quem ajudou Deméter quando ela peregrinou pelo mundo em busca de sua filha Perséfone.

Quando Perséfone, a amada filha de Deméter foi raptada por Hades - o senhor do submundo - quando colhia flores, sua mãe perambulou em desespero por toda a Terra. Senhora dos cereais e alimento, a grande mãe Deméter mortificada pela tristeza, privou todos os seres de alimento. Nada nascia na terra e Hécate, sendo sábia e observando o que acontecia, contou a Deméter o que havia sucedido a Perséfone.

Zeus decidiu interferir e ordenou que Perséfone regressasse para junto de sua mãe, desde que não tivesse ingerido nenhum alimento nos infernos. Porém, antes de retornar, Perséfone comeu algumas sementes de romã, o fruto associado às travessias do espírito. Assim ele podia passar duas partes do ano na superficie junto da Mãe, era quando a terra florescia. Mas Perséfone devia retornar para junto de Hades uma parte, era quando a terra cessava de florescer.

Hécate espalhava sua benevolência para os homens, concedendo graças a quem as pedia. Dava prosperidade material, o dom da eloquência na política, a vitória nas batalhas e nos jogos. Proporcionava peixe abundante aos pescadores e fazia prosperar ou definhar o gado. Seus privilégios se estendiam a todos os campos e era invocada como a deusa que nutria a juventude, protetora das crianças, enfermeira e curandeira de jovens e mulheres.

Acreditava-se que ela aparecia nas noites de Lua Nova com sua horrível matilha diante dos viajantes que cruzavam as estradas. Ela era considerada a deusa da magia e da noite em suas vertentes mais terríveis e obscuras. Com seu poder de encantamento, também enviava os terrores noturnos e espectros para atormentar os mortais. Frequentava as encruzilhadas, os cemitérios e locais de crimes e orgias, tornando-se assim a senhora dos ritos e da magia negra. Senhora dos portões entre o mundo dos vivos e o mundo subterrâneo das sombras, Hécate é a condutora de almas e as Lâmpades, ninfas do Subterrâneo, são suas companheiras.

Com Eetes, Hécate gerou a feiticeira Circe - a deusa da noite que se tornou uma famosa feiticeira com imenso poder da alquimía. Segundo a lenda, a filha de Hécate elaborava venenos, poções mágicas e podia transformar os homens em animais. Vivendo em um palácio cheio de artifícios na Ilha Ea ou Eana, no litoral da Italia, Circe se tornou a deusa da Lua Nova ou Lua Negra, sendo relacionada à morte horrenda, à feitiçaria, maldições, vinganças, sonhos precognitivos, magia negra e aos encantamentos que ela preparava em seus grandes caldeirões.

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Descendente dos Titãs, Hécate não tem um mito próprio e foi uma das divindades mais ignoradas da mitologia grega, mencionada apenas em outros mitos, tal como o mito de Perséfone e Deméter. Hécate é deusa dos caminhos e seu poder de olhar para três direções ao mesmo tempo sugere que algo no passado pode interferir no presente e prejudicar planos futuros.

A deusa grega nos lembra da importância da mudança, ajudando-nos a libertar do passado, especialmente do que atrapalha nosso crescimento e evolução, para aceitar as mudanças e transições. Às vezes ela nos pede para deixar o que é familiar e seguro para viajarmos para os lugares assustadores da alma.
Novos começos, seja espiritual ou mundano, nem sempre são fáceis mas Hécate está lá para apoiar e mostrar o caminho.

Ela empresta sua clarividência para vermos o que está profundamente esquecido ou até mesmo escondido de nós mesmos, ajudando a encontrarmos e escolhermos um caminho na vida. Com suas tochas, ela nos guia e pode nos levar a ver as coisas de forma diferente, inclusive vermos a nós mesmos, ajudando-nos a encontrar uma maior compreensão de nós mesmos e dos outros.

Hécate nos ensina a sermos justos e tolerantes com aqueles que são diferentes e com aqueles que tem menos sorte, mas ela não é demasiadamente vulnerável, pois Hecate dispensa justiça cega e de forma igual. Apesar de seu nome significar "a distante", Hécate está presente nos momentos de necessidade. Quando liberamos o passado e o que nos é familiar, Hécate nos ajuda a encontrar um novo caminho através de novos começos, apesar da confusão das ideias, da flutuação dos nossos humores e às incertezas quando enfrentamos as inevitáveis mudanças de vida.

A poderosa deusa possuia todos aspectos e qualidades femininos, tendo sob seu controle as forças secretas da natureza. Considerada a patrona das sacerdotisas, deusa das feiticeiras e senhora das encruzilhadas, Hécate transita pelos três reinos, a todos conhece mas nenhum domina. Os três reinos são posses de figuras masculinas, mas ela está além da posse ou do ego, ela é a sábia, a anciã. A senhora do visível e do invisível, aguarda na encruzilhada e observa: o passado, o presente e o futuro. Ela não se precipita, aguarda o tempo que for preciso até uma direção ser tomada. Ela não escolhe a direção, nós escolhemos. Ela oferece apenas a sua sabedoria e profunda visão, acima das ilusões.

Os gregos sempre viam Hécate como uma jovem donzela. Acompanhada frequentemente em suas viagens por uma coruja, símbolo da sabedoria, a ela se atribuia a invenção da magia e da feitiçaria, tendo sido incorporada à família das deusas feiticeiras. Dizia-se que Medéia seria a sacerdotisa de Hécate. Ela praticava a bruxaria para manipular com destreza ervas mágicas, venenos e ainda para poder deter o curso dos rios e comprovar as trajetórias da lua e das estrelas.

Como deusa dos encantamentos, acreditava-se que Hécate vagava à noite pela Terra, sempre acompanhada por seu espíritos e fantasmas. Suas lendas contam que ela passava pela Terra ao pôr do Sol, para recolher os mortos daquele dia. Como feiticeira, não podia ser vista e sua presença era anunciada apenas pelos latidos dos cães. Na verdade, as imagens horrendas e chocantes são projeções dos medos inconscientes masculinos perante os poderes da deusa, protetora da independência feminina, defensora contra a violência e opressão das mulheres, regente dos seus rituais de proteção, transformação e afirmação.

Em função dessas memórias de repressão e dos medos impregnados no inconsciente coletivo, o contato com a deusa escura pode ser atemorizador por acessar a programação negativa que associa escuridão com mal, perigo, morte. Para resgatar as qualidades regeneradoras, fortalecedoras e curadoras de Hécate precisamos reconhecer que as imagens distorcidas não são reais nem verdadeiras. Elas foram incutidas pela proibição de mergulhar no nosso inconsciente, descobrir e usar nosso verdadeiro poder.

Para receber seus dons visionários, criativos ou proféticos, precisamos mergulhar nas profundezas do nosso mundo interior, encarar o reflexo da deusa escura dentro de nós, honrando seu poder e lhe entregando a guarda do nosso inconsciente. Ao reconhecermos e integrarmos sua presença em nós, ela irá nos guiar. Porém, devemos sacrificar ou deixar morrer o velho, encarar e superar medos e limitações. Somente assim poderemos flutuar sobre as escuras e revoltas águas dos nossos conflitos e lembranças dolorosas e emergir para o novo.

A conexão com Hécate representa um valioso meio para acessar a intuição e o conhecimento, aceitar a passagem inexorável do tempo e transmutar nossos medos perante o envelhecimento e a morte. Hécate nos ensina que o caminho que leva à visão sagrada e que inspira a renovação passa pela escuridão, o desapego e transmutação. Ela detém a chave que abre a porta dos mistérios e do lado oculto da psique. Sua tocha ilumina tanto as riquezas, quanto os terrores do inconsciente, que precisam ser reconhecidos e transmutados. Ela nos conduz pela escuridão e nos revela o caminho da renovação.

As Moiras teciam, mediam e cortavam o fio da vida dos mortais, mas Hécate podia intervir nos fios do destino. Muitas vezes foi representada com uma foice ou punhal para cortar as ligações com o mundo dos vivos. O cipreste está associado à imortalidade, intemporalidade e eterna juventude. Sendo a morte encarada como passagem transformadora e não o fim assustador e definitivo, essa significação tem origem na própria terra que dá vida, dá a morte e transforma os frutos em novas sementes que irão renascer.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Aporia, o daimon da dificuldade



Aporia era um daimon da dificuldade, a perplexidade e da impotência. Ela estava intimamente associada com Amekhania, o desamparo. Seu homólogo era Poros, o discernimento.

Certo dia, enquanto Hércules caminhava por uma passagem estreita ele encontrou Aporia que tentava obstruir seu caminho. Como era pequena, Hércules tentou esmagá-la com seus grandes pés mas cada vez que que tentava esmagá-la, Aporia dobrava seu tamanho.

Aporia expandiu a tal ponto que bloqueou a estreita estrada. Hércules não conhecia Aporia e ficou espantado com aquele fato. Pedindo ajuda, Athena veio em seu socorro dizendo-lhe:

- Hércules, não fique tão surpreso. Essa coisa que trouxe a sua confusão é Aporia - a dificuldade. Se você deixá-la sozinha, ela naturalmente diminuirá seu tamanho. Ultrapasse-a e siga seu caminho, não se detenha diante dela. Mas se você decidir combatê-la, então ela se tornará sempre maior, pois sua finalidade é impedir que você prossiga!

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O mito de Aporia é um simbolismo da superação das dificuldades. Vencer uma dificuldade sempre nos dá uma alegria secreta de ter superado um limite, porém para superá-la temos de conhecê-la. Muitas pessoas sofrem por se verem diante de obstáculos que consideram intransponíveis apenas por não conhecerem onde iniciam suas dificuldades.

Sentindo-se impotente diante da vida, seja por uma clara razão ou não, a
pessoa tende a regredir na vida, entra em depressão e tem seu sistema imunológico fragilizado. São momentos difíceis, muitas vezes decisivos na vida da pessoa, que ela precisa de algo que traga um alívio. Muitas vezes, nessa busca desesperada de alívio, tende a procurar uma solução imediata que possa aliviar sua dor.

Alguns buscam o apoio da família, outros dos amigos, outros no trabalho, na religião, nas distrações e nas drogas, porém as causas sutís das dificuldades permanecem e voltarão a se intensificar cada vez de forma mais acentuada. Não identificando e não tomando nenhuma providência para saná-las, provocarão desgastes emocionais que terão reflexos diretamente no corpo físico, além de afetar os seus relacionamentos profissionais, pessoais e afetivos.

Ao utilizar paliativos, a pessoa consegue apenas alívio temporário. Apenas quando a pessoa reconhece que os paliativos não são suficientes, que antigos padrões não funcionam e que falta de consciência lhe deixa refém e dependente de outras pessoas, é que possibilitará a busca de antigas questões do passado que atuam no presente sob novas formas. Em alguns casos, é preciso ajuda profissional que possa facilitar essa descoberta. O autoconhecimento permite que a pessoa possa interpretar a si mesma e perceber que Aporia não é tão grande quanto parece.

domingo, 2 de outubro de 2011

Salmoneu, uma vítima da mitomania



Salmoneu, neto de Deucalião, era um rei da Élida. Ele era um simples mortal mas, rivalizando-se com os deuses, tinha ido para a Élida onde Zeus recebia um culto especial, fundando a cidade de Salmonia. Casado com Alcidice, tinha uma filha chamada Tiro. Porém ao apaixonar-se por Sidera, Salmoneu expulsou Alcidice do reino e enviou sua filha Tiro para ser criada com seu irmão Creteu. A princesa Tiro se apaixonou por Enipeu, um deus do rio, mas Posidon querendo enganá-la assumiu a forma de Enipeu e a seduziu.

Tempos depois nasceram os gêmeos, Pélias e Neleu. Creteu, que era Rei de Iolco, propôs casar-se com Tiro, e teve com ela os filhos Esão, Amythaon e Feres. Quando Pélias e Neleu cresceram, descobriram que Sidera teria maltratado sua mãe Tiro quando ela ainda era apenas uma criança. Pélias e Neleu armaram uma emboscada e mataram Sidera.

Tentando se igualar a Zeus, Salmoneu mandou construir uma estrada revestida de bronze na qual passava com um carro de bronze, com rodas de cobre e de ferro, arrastando correntes e lançando tochas acesas atrás de si e se dizia igual a Zeus, o deus do trovão e dos relâmpagos. Na Tessália, existia algumas práticas mágicas destinadas a pôr fim às secas, que incluia uma carroça de bronze posta a rodar para obrigar o céu a derramar as chuvas.

Triunfante, Salmoneu reclamava que deviam lhe atribuir honras divinas. Obrigando que lhe oferecessem sacrifícios, passou a exigir que construíssem um templo em sua homenagem. Percorrendo a cidade com seu carro de bronze, puxado por quatro cavalos e agitando tochas de fogo, Salmoneu havia perdido completamente a razão. Vendo tamanha afronta, Zeus enviou grandes raios que destruiram a cidade de Salmonia e por fim, enviou um derradeiro raio fulminando Salmoneu.

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O mito de Salmoneu está relacionado à megalomania, um transtorno psicológico que produz numa pessoa ilusões de grandeza, de poder e superioridade. É uma característica pela obsessão em realizar grandes feitos e atos grandiosos. Além disso, a pessoa pode estar sujeita a episódios de extrema alegria, euforia e um humor excessivamente elevado.

Este tipo peculiar de pessoa possui autoconfiança em estado bruto e pode até se tornar eficiente se souber direcionar melhor a confiança que tem em si mesma. Presunçosa, a pessoa que sofre de megalomania costuma falar freneticamente de si mesma, se gaba e se valoriza demais. Acha-se a melhor das melhores, acredita que possa se safar de qualquer dificuldade, usa de frases feitas além da falsa modéstia.

Muitos desses seres de egos inflamadíssimos, estão sempre por aí. Em suas vaidosas cabeças, se acham o depósito de toda inteligência e sagacidade. São péssimos perdedores e não aceitam “nãos” como resposta. Logicamente, esses personagens precisam driblar a própria arrogância, a falta de humildade, o desinteresse pelas idéias dos outros, o orgulho excessivo, a vaidade e a soberba, senão não precisariam de mostrar-se mais do que é.

Pode até mesmo acreditar que é, que tem e que pode fazer absolutamente tudo que quiser, sem levar em conta nenhum dado de realidade, isso porque, como está doente, modifica totalmente a realidade para se adequar às suas loucuras de grandeza. Na megalomania, a pessoa não reconhece os impedimentos e limitações e se vê de forma onipotente.


Pessoas que sofrem de distúrbio bipolar são muito comuns nos dias atuais e a mania de grandeza pode levar também ao desenvolvimento da mitomania, caracterizada por produzir uma versão fantasiosa e irreal de si mesma e da realidade, na qual acredita. É uma situação diferente da mentira, na qual consciente e deliberadamente tenta enganar os outros. Na mitomania, além de enganar o outro, a pessoa tenta enganar a si mesma.

Vivemos numa sociedade capitalista que valoriza demais a imagem. De certo modo, todos que participam desse sistema acabam sempre se confrontando com esta questão do "parecer ser". Todos sofrem essas pressões mas a diferença é que algumas pessoas não conseguem ver a realidade e não reconhecem que nem tudo o que desejamos podemos ter ou ser. Algumas pessoas são mais ricas, mais bonitas, mais bem-sucedidas e outras não são. É necessário reconhecer e saber lidar com essas diferenças. Negá-las através da megalomania ou da mitomania se torna desastroso.

A sociedade consumista leva as pessoas a buscarem desesperadamente o "ter" para serem valorizadas, respeitadas e reconhecidas. Isso aumenta os distúrbios psicológicos, pois as pessoas acabam perdendo o foco real das suas vidas e podem adoecer. A sensação de que ainda não conseguiram fazer o bastante, nada parece ser suficiente, por isso trabalham cada vez mais, lutam muito e nunca sentem que atingiram seu objetivo. Quem age assim nunca se sente vitorioso, são pessoas que competem consigo mesmas, se tornam exaustas e infelizes.

Normalmente, este tipo de pessoa nunca aceita a realidade como ela é e muito menos sabe lidar com as frustrações da vida. E o pior é que podem tentar mudar a realidade para que se torne do jeito que lhe interessa, a qualquer preço. Esse distúrbio de identidade que distancia da realidade, expõe a pessoa a riscos que podem ser prejudiciais à sua vida social, profissional e afetiva. E assim como Salmoneu, a pessoa destrói a si, a todos que com ela convive e a sociedade da qual faz parte.

Momus, o rei da maledicência



Momus era um daimon filho de Nix, que tornou-se a personificação do sarcasmo, do delírio, do ridículo, do deboche, da paródia, do desprezo, da censura, da culpa e da crítica cortante. Ele morava no Olimpo junto aos deuses mas com suas críticas perversas, com seus deboches e censuras, foi minando a simpatia dos deuses. Censurando a todos os deuses, expunha os defeitos que encontrava em cada um deles, interpretando a atitude de todos a seu modo e ainda fazia intrigas e fofocas.

Certa vez, Momus foi escolhido para julgar dentre os deuses, qual deles entre Zeus, Posidon e Atena poderia criar algo realmente bom. Zeus criou o melhor dos animais - o homem, Atena criou a casa para as pessoas morarem e Posidon criou um touro. Por ter o hábito de criticar, Momus criticou o touro porque não tinha olhos embaixo dos chifres para mirar seus alvos, criticou o homem por não ter uma janela no coração que permitisse aos outros verem o que tinha no coração e criticou a casa porque ela não tinha rodas em sua base não permitindo deslocá-la para outros lugares. Isso aborreceu os deuses.

Hefesto e Afrodite eram os seus principais alvos, já que a esposa de Hefesto tinha casos extra conjugais. Hefesto, que tinha uma deficiência nas pernas, recebia inúmeros adjetivos. Com isso, Afrodite despertou nele uma fome insaciável o que o fez comer tanto que se tornou excessivamente obeso.

Porém, sempre rindo dos outros, Zeus o expulsou do Olimpo, lançando-lhe a maldição de sorrir para sempre. E assim, ele passou a perambular pela terra, se tornando reverenciado apenas pelos loucos e acompanhando a trupe de Dioniso, embalados pelos sons dos tamborins dos coribantes. Usando um gorro com guizos e segurando uma boneca ou um cetro terminado em uma cabeça grotesca na mão, Momus passou a ser o símbolo da insanidade.


Ainda antes da era cristã, gregos e romanos incorporaram essa figura mitológica a algumas de suas comemorações, principalmente as que envolviam sexo e bebida. Na Grécia, registros históricos relatam que os primeiros reis Momos desfilavam em festas de orgia por volta dos séculos 5 ou 4 a.C. Geralmente, o escolhido era alguém gordinho e extrovertido.

Nas bacanais romanas, os participantes selecionavam um Rei Momo entre os soldados mais belos do exército. Esse monarca era o governante de um período de liberdade total e desfrutava de todas as regalias durante a festa, como comidas, bebidas e mulheres. Terminada a festança, ele era levado ao altar do deus Saturno para ser sacrificado. Depois de morto, era velado e enterrado com todas as honrarias de um chefe de estado. Se “rei morto, rei posto”, a cada ano era eleito um novo rei Momus.

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O mito de Momus destaca a maledicência, um dos flagelos da humanidade. Mais terrível que a agressão física, fere a dignidade humana, destroi a reputação e existência alheia pelo boato. Mais insidiosa que uma epidemia, se alastra nas bocas que nada de útil tem a dizer. Arma perigosa ao alcance de qualquer pessoa e em qualquer idade, é muito fácil usá-la: basta ter um pouco de maldade no coração, que o tribunal corrupto onde o maledicente coloca o réu ausente.

A maledicência acusa, julga e condena os outros, sem conceder direito de defesa ou contestação, porque o boato açoita sem misericórdia. É tão devastadora e, no entanto, não exige compromisso para quem a emprega. Jamais encontraremos o autor de um boato maldoso, de uma fofoca comprometedora, pois o maledicente sempre a vende pelo mesmo preço que comprou. Gratuita, ninguém está livre da fofoca, nem mesmo aqueles que se destacam na vida social por sua realização e capacidade profissional. Estes, ao contrário, são os mais visados. Nada é mais gratificante para o maledicente do que querer mostrar alguma deficiência dos bem sucedidos.

A origem da maledicência está no atraso moral da criatura humana. Intelectualmente, a humanidade já atingiu descobertas científicas notáveis, mas moralmente, a humanidade continua agressiva e inconsequente como um homem da caverna. Se não usam a clava, usam a lingua para ferir, atendendo aos seus propósitos de auto-afirmação, revide, justificação ou pelo simples prazer de atirar pedras em vidraças alheias.

Não se dá conta aquele que se compraz em criticar a vida alheia, que a maledicência é um ato de autofagia, condição do animal que come o próprio corpo. O maledicente pratica a autofagia moral. A má palavra, o comentário desairoso contra alguém gera no autor um clima de desajuste íntimo, em que ele perde força psíquica e se autodestrói moralmente, envenenando-se com a própria maldade. Por isso, pessoas que se comprazem nesse tipo de comportamento são sempre inquietas e infelizes.

O maldizente fatalmente será vítima da maledicência, pois sua tendência é criar ambiente propício à disseminação de seu veneno. A vida também cuida de situá-lo numa posição em que esteja sujeito a críticas e comentários, até que aprenda a respeitar o próximo. A ninguém compete o direito de julgar o outro, porque antes disso é necessário remover o que impede de enxergar a si mesmo, porque tendemos a identificar com muita facilidade nos outros, o que existe em abundância em nós mesmos.

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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