quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Aquiles e as relações entre pais e filhos



Aquiles, o grande herói da mitologia, era filho de Tétis e Peleu. Quando Aquiles nasceu, seu pai confiou-o para ser criado e educado por Kiron. O centauro se encarregou da educação do jovem alimentando-o com mel de abelhas, medula de ursos e de javalis e vísceras de leões. Ao mesmo tempo, iniciou-o na vida rude em contato com a natureza, exercitou-o na caça, no adestramento dos cavalos, na medicina, na música e, principalmente, obrigou-o a praticar a virtude.

O jovem Aquiles tornou-se um adolescente belo, loiro e de olhos vivos. Intrépido, era simultaneamente capaz da maior ternura e da maior violência, por isso seu pai o enviou a um segundo preceptor, Fénix, um homem de grande sabedoria, que instruiu o príncipe nas artes da oratória e da guerra, juntamente com Pátroclo, filho de Menécio Rei de Locrida.

Quando Aquiles tinha nove anos de idade, Calcas - o adivinho - declarou que Tróia só poderia ser tomada com a ajuda de Aquiles, mas sua mãe pressentia que Aquiles morreria na guerra. Apavorada, Tétis vestiu seu filho como uma menina e o enviou para a corte do Rei Licomedes na ilha de Esquiro, para que ele fosse educado no Gineceu junto às filhas virgens do rei, disfarçado com o nome de Pirra - a loira ou ruiva.

Quando os gregos foram à corte de Peleu procurar por Aquiles, não o encontrando recorreram a Calcas que revelou-lhes a trama. Disfarçado de mercador, Odisseu foi ao palácio de Licomedes conseguindo entrar no Gineceu. Ele expôs, perante os olhos maravilhados das princesas, os mais ricos adornos. Entre os tecidos e as jóias estavam escondidos um escudo e uma lança. Odisseu fez soar a trombeda da guerra e imediatamente a pretensa Pirra correu para se armar. Assim Aquiles se revelou.

Aquiles retornou para junto de seus pais. Deidamia, uma das filhas de Licomedes, há muito tempo conhecia a verdadeira identidade de Aquiles. Ela mantinha um relacionamento oculto com ele e estava grávida, mas o nascimento da criança só ocorreu após a partida do herói. A criança recebeu o nome de Neoptólemo com o alcunha de Pirro. Tétis lamentou o insucesso do seu estratagema e fêz insistentes recomendações a seu filho, de que sua vida seria tanto mais longa quanto mais obscura ele a mantivesse, mas Aquiles optou pela glória tornando-se um dos mais belos herois da Guerra de Troia e um dos seus melhores guerreiros.

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Essa parte do mito de Aquiles retrata o relacionamento entre pais e filhos adolecentes. A família é a base da sociedade; é o lugar onde se desenvolvem as estruturas psíquicas e onde a criança forma a sua identidade e desenvolve o seu emocional. É na família que se determinam as funções, papéis e a hierarquia entre seus membros, sendo também o espaço social da confrontação de gerações e onde o masculino e o feminino definem suas diferenças e as relações de poder.

Cabe aos pais educar os filhos; a educação é a condição básica para o convívio social. Educar implica o uso de autoridade para estabelecer limites. Toda criança nasce egoísta e ela passa a respeitar o outro através da educação, da disciplina e, principalmente, pelo exemplo dos pais. As crianças se identificam com um dos pais e fazem o que esse adulto faz.

Quando os filhos são pequenos, os pais tem plenos poderes sobre os seus filhos e podem ainda decidir o que, quando e como as coisas podem ser feitas. Os pais tomam as decisões que julgam mais apropriadas e as crianças vivem confortavelmente essa relação de dependência desde que tenham suas necessidades básicas atendidas. Mas os filhos crescem e chegam à fase da adolescência, dando início a uma série de conflitos entre pais e filhos.

A maioria dos pais tem dificuldade em aceitar que seus filhos crescem e que passam a pensar por si mesmos. Admitir que eles estão crescendo muitas vezes significa que os pais estão envelhecendo. Muitos pais não aceitam perder o posto de heróis dos filhos, não suportam que os jovens possam ter um olhar crítico sobre eles. Crescendo, os filhos passam a enxergar os pais como pessoas, com qualidades e defeitos.

Alguns pais podem querer controlar de modo exagerado a vida dos filhos, não respeitam sua privacidade, perseguem seus passos tentando com isso evitar que eles cresçam e usam como justificativa os perigos do mundo. Na verdade, os pais tentam proteger os filhos e evitar sofrimentos futuros e se esquecem que a única forma de aprender a viver é vivendo. É isso que termina ocasionando os conflitos entre os pais e os filhos adolescentes.

O conflito entre gerações sempre existiu e os impulsos de rebeldia se formam quando os adolescentes formam seus valores, nada mais natural que jovens e adultos tenham uma visão diferente do mundo. Alguns conflitos são inevitáveis, mas muitos podem ser solucionados com um bom diálogo e respeito mútuo. A comunicação entre pais e filhos exige escuta ativa, livre expressão de sentimentos e busca ativa de entendimento mediante negociação e compromisso.

Desenvolver a habilidade de comunicação produz recompensas imediatas e a longo prazo. A comunicação tem grande impacto na saúde física e mental da família e influencia do modo como seus membros lidam com suas emoções. Isso pode afetar as atitudes, a auto-estima e a reação a situações estressantes. Se o prazer do relacionamento afetivo saudável for substituído por conflitos sem solução adequada, a família sem dúvida será infeliz.

Quando os pais apoiam seus filhos, dentro de regras razoáveis, eles promovem a segurança que os filhos precisam para seguir suas opções de vida. Quando os pais aceitam as resoluções conjuntas e conciliatórias, buscando criar soluções junto com os filhos, se estabelece o diálogo e a compreensão. Compete aos pais facilitar esse relacionamento com flexibilidade e espírito jovial. Educar com liberdade e ensinar aos filhos administrar a vida com responsabilidade é a melhor forma para desenvolver a confiança e consolidar a amizade entre pais e filhos.

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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