quinta-feira, 21 de junho de 2012

Eos e Titonus, uma lição para o envelhecimento


Os titãs Téia e Hiperion tiveram três filhos, as mais lindas crianças do Olimpo: Selene - a Lua, Helius - o Sol e Eos - a Aurora. Conduzindo uma carruagem puxada por seus dois cavalos Claridade e Brilho, Eos saía de seu palácio e cruzava os céus anunciando à Terra que Helius - o Sol estava chegando para clarear um novo dia, por isso Eos era considerada a deusa do alvorecer, a que se renova todos os dias.

Bela e formosa, Eos atraia a atenção dos deuses. Ares - o deus da guerra e um dos amores de Afrodite - quis conquistá-la, por isso Afrodite resolveu castigar Eos plantando o amor em seu coração e deixando-a apaixonada para sempre. Assim, ela teve inúmeros casos de amor com muitos deuses e jovens mortais. Com Astreu, Eos foi mãe dos ventos Zéfiro, Bóreas, Nótus, Euro, de Eósphoro - a estrela d'alva e de todas as estrelas.

Por não ter seu amor correspondido por Orion, Eos sequestrou Céfalo, Clito, Ganimedes e Titonus para que fossem seus amantes. Apesar de toda a sua beleza, Eos não conseguiu conquistar o amor de Céfalo. Por fim, perdendo as esperanças, consentiu que ele retornasse para viver com sua esposa. Clito fugiu e Ganimedes deixou-a para ir viver no Olimpo.

Tomada de paixão pelo belo jovem Titonus, filho de Laomedon rei de Tróia, Eos foi com ele para a Etiópia. Eles tiveram dois filhos: Memnón que lutou junto aos troyanos e foi morto por Aquiles e Ematión que foi morto por Hércules. Sem os filhos, Eos pediu a Zeus a imortalidade para seu esposo mas esqueceu de pedir também pela juventude eterna.

Titonus foi envelhecendo, tornando-se feio e pequenino. E quando não conseguia mais se mover, a deusa transformou Titonus em um gafanhoto, o mais musical dos insetos, para que ela pudesse ter a alegria de ouvir para sempre a voz do amante. Desde então a cada amanhecer, a aurora chora lágrimas de orvalho pelo destino de seu amante, enquanto o gafanhoto canta repetidamente: morri... morri... morri... embora continue vivo.

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O mito de Eos e Titonus envolve várias reflexões, uma delas é sobre o envelhecimento, um processo contínuo que inicia-se a partir do nascimento. Cada dia vivido é um tempo de envelhecimento e o modo como agimos, nossos hábitos de vida e os cuidados que temos com nós mesmos são decisivos para uma velhice penosa ou para a etapa de maturidade que não extingue o tempo das descobertas e da alegria de desfrutar a existência.

Viver é envelhecer, a vida é para ser vivida e não para ser conservada. A transitoriedade faz parte da vida, como um rio que segue sua trajetória fluindo diante do seu destino. Lutar contra a velhice é lutar contra a realidade humana, o que acaba trazendo sofrimento. E o que dói não é a velhice, mas a ideia que temos do envelhecimento. O que torna esse processo um fardo para muitos é o medo das limitações impostas pelas perdas do organismo.

De fato, quanto mais vivemos, maiores são os desgastes físicos que impomos às nossas estruturas orgânicas. A pele perde gradualmente o frescor, a massa muscular diminui e a gordura corporal aumenta. Os sentidos antes aguçados passam a precisar de artefatos como óculos, aparelhos para perda auditiva etc. Querer ser eterno é querer o impossível, é desdenhar do transitório e querer a permanência esquecendo que nada é definitivo, tudo muda, tudo passa.

Com a passagem dos anos é natural que tenhamos muitas lembranças do passado, mas a grande sabedoria do envelhecimento é não se fixar no retrovisor e sentir nostalgia e nem sentir medo do futuro. Um dos maiores dramas da velhice é gerenciar as perdas que a vida traz ao longo dos anos: a aposentadoria afasta do trabalho e da função social, os filhos vão cuidar de suas próprias vidas, amigos e parentes falecem e a solidão é inevitável. Por isso é preciso encontrar uma maneira saudável de lidar com as ausências e amenizar a angústia.

A dor da solidão provoca envelhecimento rápido, causa doenças, maltrata as pessoas, principalmente quando a autoestima já está em baixa, porque a grande questão do sofrimento ao envelhecer está no processo da auto-estima. Vivendo numa sociedade narcisista, baseada em imagens idealizadas, embarcamos no mito da beleza e da juventude, como se a imagem fosse mais importante do que a vida que pulsa em nosso corpo através do nosso coração e do ar que respiramos. A autoestima não permite nenhuma exigência ou condição; é gostarmos de nós mesmos sem importar com as rugas que inexoravelmente irão surgir.

Para enfrentar esse sentimento sem grandes prejuízos, é importante investir numa vida social mais ativa, participar de grupos, realizar alguma atividade prazeirosa, manter o bom humor e pensamentos positivos. Problemas e doenças todos sempre terão ao longo da vida. O que podemos controlar é a maneira como aceitamos essas situações. Se as aceitamos com positividade, a vida fica mais leve. Lamentar só agravam os problemas.

A idade avançada não é motivo para sermos rabugentos, queixosos ou reclamar de tudo. Quem sorri espontaneamente tem melhor atitude diante da vida. Manter uma fisionomia pacífica é essencial para a boa convivência, afinal quem vive de cara feia afasta todos ao redor. A falta de senso de humor ou uma vida acompanhada de impaciência, raiva e atitudes hostís estão associados a um maior risco de desenvolver pressão alta, diabetes e doenças cardíacas.

Não existem pílulas mágicas capazes de evitar o envelhecimento mas existem fórmulas de bem viver. Além das receitas consagradas de movimentar-se, alimentar-se adequadamente e dormir bem, é necessário ativar o cérebro, administrar as emoções e sorrir mais. Não deixar o cérebro envelhecer é usar de potentes estímulos para os neurônios como as leituras, conversas, jogos e palavras cruzadas que evitam a demência.

Coisas, pessoas e animais envelhecem porém o mais importante é o prazer da existência, do pacto que se faz com a felicidade sem se importar com a trajetória do tempo. E o grande segredo é desenvolver os próprios talentos e potenciais. Dessa forma o tempo será sempre um aliado e não um inimigo. Somos testemunhas de um tempo e a deusa Eos, a aurora de cada dia, vem nos lembrar que cada manhã é tempo de celebração e de recomeço.

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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