terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Cíclopes



Os ciclopes, que significam "olho redondo", eram gigantes imortais, alguns com um só olho no meio da testa. Eles aparecem em vários mitos da Grécia, porém com uma origem bastante controversa. Os ciclopes eram divididos em dois grupos de acordo com o tempo de existência: os ciclopes antigos ou da primeira geração e os ciclopes jovens - a nova geração. De acordo com sua origem, esses seres eram organizados em três diferentes espécies:
  • os contrutores que provêm do território da Lícia,
  • os urânios, filhos de Urano e Gaia,
  • os sicilianos filhos do deus dos mares Posídon.
Nova geração de Cíclopes

Os Cíclopes mais jovens ou da nova geração eram gigantes e tinham apenas um olho na testa. Porém, diferentemente das raças anteriores, eram pastores e viviam em uma ilha chamada Hypereia, conhecida entre os romanos como a Sicília. Diz-se que essa nova raça de ciclopes nasceu do sangue do deus Urano que espirrou sobre a Terra.

A terceira raça de Cíclopes eram denominados construtores, provenientes do território da Lícia. Esses posuíam grande poder físico e não eram violentos. A eles eram dados trabalhos muito pesados que nenhum humano conseguiria realizá-lo tão facilmente. Talvez tenha sido esses ciclopes que construiram as muralhas de Tirinto e Micenas.

Os Urânios

Os urânios, Arges, Brontes e Estéropes são considerados os ciclopes mais antigos descendentes de Urano e Gaia. Diz a lenda que, ao nascerem com enormes poderes, seu pai Urano, senhor dos céus, trancou-os no interior da Terra com seus irmãos os hecatônquiros, os gigantes de cinquenta cabeças e cem braços. Indignada por ter os filhos presos no Tártaro, Gaia os convenceu a apoiar a guerra travada pelos titãs. Filhos de Urano, os Titãs pretendiam tomar o trono do pai que governava os céus.

Os titãs venceram, porém os ciclopes foram enviados novamente para o abismo do Tártaro. Algumas vezes, os titãs Zeus, Posídon e Hades, libertava os ciclopes com a intenção de tê-los como aliados na guerra contra Cronos e os titãs. Os ciclopes, como bons ferreiros, forjavam armas mágicas e poderosas: Zeus recebeu raios e relâmpagos, Posídon recebeu um tridente capaz de provocar terríveis tempestades e Hades um capacete da invisibilidade.

Tempos depois, quando os ciclopes já eram considerados ministros e ferreiros permanentes de Zeus, o grande deus percebeu uma ameaça no médico Asclépio, filho do deus Apolo, que conseguia fazer ressuscitar os mortos. Para que isso não causasse qualquer impacto com a ordem do mundo, Zeus decidiu exterminá-lo. Ofendido com a ira de Zeus sobre seu filho Asclépio, Apolo decidiu matar os ciclopes que fabricavam os raios de Zeus. Há outras versões sobre o desaparecimento dos cíclopes.

Os sicilianos

Os sicilianos são retratados nos poemas homéricos como gigantescos e insolentes pastores fora da lei, que habitavam a parte sudoeste da Sicília. Não se importavam muito com a agricultura e todos os pomares cultivados eram invadidos por eles quando procuravam por comida. Algumas vezes se alimentavam de carne humana, por isso eram considerados como seres sem lei e sem moral. Morando em cavernas, cada um vivia com sua esposa e filhos que eram disciplinados de forma muito arbitrária.

Segundo Virgílio e Eurípedes, os cíclopes eram assistentes de Hefesto e trabalhavam com ele dentro dos vulcões no Monte Etna na Sicília, como também em outras ilhas próximas. Sendo ferreiros, eles trabalhavam para os deuses e heróis, forjando suas armas. O poder dos ciclopes era tão grande, que a Sicília e outros locais mais próximos conseguiam ouvir o som de suas marteladas enquanto trabalhavam na forja. Devido ao aumento da população de cíclopes, sua moradia teria sido remanejada para a parte sudeste da Sicília.

Foi exatamente um desses ciclopes, que Ulisses encontrou quando de sua viagem de regresso a seu lar em Ítaca. Quando Ulisses e seus homens desembarcam na terra dos Ciclopes no caminho de Troia até Ítaca, eles buscaram abrigo numa gruta. Polifemo que era antropófago, filho de Posídon e da ninfa Teosa, morava nessa gruta e não foi amistoso. Logo Polifemo devorou um dos homens. Arquitetando um plano, quando o gigante perguntou seu nome, Ulisses disse que se chamava Ninguém.

Ulisses ofereceu vinho a Polifemo embebedando-o. Enquanto Polifemo dormia, Ulisses furou seu olho e escapou com seus amigos embaixo de peles de animais. Urrando de dor, Polifemo foi socorrido por outros cíclopes mas só conseguia gritar que “Ninguém queria matá-lo”. Por ser filho de Posídon, o deus dos mares, Ulisses foi perseguido por um longo tempo retardando seu retorno para sua casa.


Calisto, a constelação da Ursa Maior



Calisto era filha de Licaon, um fanático que foi transformado em lobo. Licaón tivera quase 50 filhos que eram tão cruéis quanto o próprio pai e se tornaram famosos por sua insolência e seus crimes. Tão logo ficou sabendo das barbaridades dos filhos de Licaón, Zeus se disfarçou de um velho mendigo e foi ao palácio dos Licaónidas para comprovar os rumores.

Os jovens príncipes tiveram a ousadia de assassinar o próprio irmão Níctimo e servir suas entranhas ao hóspede, misturadas com entranhas de animais. Zeus descobriu a crueldade e enfurecido converteu todos em lobos, exilando-os. Apenas Calisto, a bela ninfa filha de Licaón por quem Zeus se apaixonou, foi poupada.

Zeus e Calisto tiveram um filho, Arkas. Não suportando a traição, a ciumenta esposa de Zeus transformou Calisto numa enorme ursa e assim ela fugiu para a floresta. Às vezes Calisto vagava durante as noites ao redor de sua casa com a esperança de ver seu filho, mas ela agora não podia mais conviver no meio dos homens e seu espírito não admitia a possibilidade de conviver com as embrutecidas feras.

Hera tirou-lhe a voz e Calisto tentava lutar contra seu destino tentando despertar a piedade dos deuses, apesar disso, ela só conseguia rugir. Sua vida era repleta de medo dos caçadores que rodeavam sua antiga casa e ela temia as noites que passava sozinha. Temia as feras embora ela mesma fosse uma delas.

O tempo passou e seu filho Arcas cresceu transformando-se em um belo jovem. Certo dia, em uma de suas caminhadas pelo bosque, Calisto reconheceu seu filho Arkas, um homem caçador. Envolvida pela emoção Calisto quis abraçá-lo, mas foi tomada de pavor quando Arkas ergueu a lança para desferir-lhe um golpe certeiro. Ela quis falar com o filho mas de sua garganta saiu apenas um terrível rugido. Arkas esteve frente à sua mãe mas logicamente não a reconheceu.

Aterrorizado Arkas preparava uma flecha para acertar a Ursa mas Zeus compadeceu-se do amor de mãe filho separados e transformou-a na Constelação da Ursa maior. Para que estivessem sempre juntos, Arkas foi transformado na constelação da ursa menor, o guardião da ursa.

Indignada com a interferência e as honras concedidas a Calisto e Arkas, Hera empurrou os dois para perto do pólo norte onde as estrelas seriam sempre visíveis, mas mãe e filho nunca teriam descanso. Hera ainda pediu a Tétis que jamais permitisse que as duas constelações mergulhassem nas águas puras do oceano. Por essa a razão, as duas constelações movem-se sempre em circulos no céu ao contrário de outras que estão sempre junto à linha do horizonte.

Junto a elas colocou a constelação do Boieiro para que não as deixe afastar do pólo gelado. Arcturo, a brilhante estrela do Boieiro, ficou de guarda às ursas para que não se afastassem do gélido pólo. O vocábulo «Ártico» significa «norte» e Arcturo têm a mesma origem grega.

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A Ursa Maior e Ursa Menor, estando perto do pólo, são sempre visíveis nas noites de quase todo o hemisfério norte, por isso são chamadas constelações circumpolares. O asterismo das sete estrelas da Ursa Maior, sendo claramente reconhecível, é de uma grande ajuda para nos orientação no céu. Na cauda da Ursa Maior está a famosa estrela Polar.

Na antiguidade, as estrelas serviam de orientação para os gregos, para as caravanas que atravessavam os desertos e os marinheiros em alto mar. Os diversos padrões que formavam nos céus levou os antigos a nomearem as estrelas conforme as figuras que lhes pareciam: animais, cabeleiras, homens, mulheres etc. Às constelações, os gregos deram o nome de figuras mitológicas, sendo algumas delas parte do Zodíaco.

No hemisfério norte, as mais conhecidas são as constelações boreais da Ursa Maior e da Ursa Menor, também chamadas de Grande Carro ou Carro de David e Pequeno Carro. Embora a constelação da Ursa Maior seja muito grande, são as suas brilhantes sete estrelas desenhando um quadrado e uma cauda no azul-escuro do céu noturno que a tornam tão útil e conhecida. Prologando cinco vezes as guardas da Ursa Maior, está a Estrela Polar na cauda da Ursa Menor, que há mais de 2000 anos nos indica o Norte.

A Ursa Maior é conhecida por vários nomes conforme as tradições dos povos que por ela se orientam. Assim, na França chamavam de Caçarola, na Inglaterra era O Arado ou a Biga do Rei Artur e na Europa Medieval, de Carruagem ou Carroça. Na Índia, era chamada de Os Sete Sábios. Na China era chamada de “Pei-To” e as suas sete estrelas representavam uma concha que oferecia comida nos tempos de fome.

Os egípcios a associavam à imortalidade, pois as suas estrelas visíveis todo o ano representavam a vida eterna. Na mitologia nórdica é O Carro ou Carruagem de Odin puxada por 3 cavalos. Para os índios Cherokee as estrelas representavam um grupo de caçadores que perseguiam um urso desde o princípio da Primavera até ao Outono. Os árabes viam nela uma caravana.

A Ursa Maior tem alguns objetos notáveis. Em boas condições de observação nota-se que a estrela no meio da cauda não é apenas uma estrela, mas sim duas. Os gregos e os árabes usavam essas duas estrelas como teste de visão. A estrela da cauda se divide em duas: as célebres Mizar e Alcor. Estas duas estrelas não estão fisicamente associadas. A sua proximidade é aparente para observadores sobre a Terra e são chamadas binárias visuais, mas um telescópio permite mostrar que Mizar é um sistema binário, composto por duas estrelas brancas gêmeas que se orbitam mutuamente.

Um outro objeto interessante da Ursa Maior é a galáxia M 81, facilmente visível com binóculos e que revela uma estrutura espiral com braços bem marcados. É um dos grandes espectáculos do céu, mesmo com telescópios modestos. Calisto foi também o nome dado a uma das luas de Júpiter, a terceira maior do nosso Sistema Solar, descoberta em 1610 por Galileu Galilei, mas assim nomeada por Johannes Kepler.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tros e Tântalos, a responsabilidade das decisões



Trós era um próspero rei das Frígia, hoje chamada Turquia. Muito rico, seu tesouro não era feito de moedas mas de muitos rebanhos de carneiros e manadas de gado. Ele orgulhava-se especialmente de seus 3.000 cavalos, os mais belos do mundo. Quando Dárdano, o avô de Trós, instalou-se naquelas terras, tinha formado sítios na extensa planície desde o Monte Ida até o litoral, que foi herdado por Erictônio de Dardânia e posteriormente por seu filhoTrós.

Para proteger seu reino dos ataques das tribos errantes, Trós resolveu construir uma povoação defendida por fortes muralhas no Monte Ida. Dos morros distantes, esse era o monte mais elevado no centro da planície e terminava em um penhasco rochoso. De suas espessas muralhas se podia ver toda a planície e contemplar até as ondas do mar. Ali Trós fundou a cidade de Tróia.

O Rei Tros tinha três filhos: Ganimedes, o mais novo, Assáraco e Ilo o mais velho que herdou o trono. Os três filhos do rei trabalhavam arando os campos e cuidando dos cavalos e a cada ano as safras se tornavam melhores e crescia os rebanhos, tornando Tros o soberano mais rico de todos os reinos.

Já velho, Trós dividiu seu reino em 3 partes e deu a seus 3 filhos. Desde a infância, o filho caçula Ganimedes era o mais belo menino. Por ser o mais afetuoso de todos, era muito querido em Tróia e sempre saía pelos campos para caçar ou galopar. Aos 16 anos, Ganimedes saiu para os campos e nunca mais voltou, embora o rei tenha mandado mensageiros para procurá-lo.

Certo dia chegou um homem contando que havia visto uma grande águia voar levando em suas garras um rapaz parecido com o príncipe. Na verdade Ganimedes tinha sido raptado por Zeus mas logo deduziram que Ganimedes tinha sido raptado um bando do reino de Tântalo. O Rei Trós mandou uma mensagem a Tântalo exigindo devolução de seu filho, que interpretou a mensagem como uma provocação.

Tântalo era um homem rancoroso e invejoso da prosperidade de Trós e, ao ler aquela mensagem, viu uma oportunidade de atacar o reino da Frigia. Quando as duas nações se defrontaram no campo de batalha, o resultado foi diverso daquele que o Rei Tântalo previra. O povo de Dardânia venceu e derrotou os guerreiros do Rei Tântalo que também foi ferido.

Sem alternativa, Tântalo mandou chamar seu filho Pélops para que partissem para outras terras. Levando seu pai, Pélops conduziu seu povo até o litoral. Sem mapas nem fronteiras, Pélops se aventurou no mar em barcos lentos porque tinham de esperar o vento soprar ou remar. Assim velejou até chegar ao sul da grande península grega que foi chamada de Peloponeso, nome que permanece até os dias atuais.

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O mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares, já que uma narrativa tem o propósito de levar à reflexão do comportamento humano. Os mitos estão perto do inconsciente coletivo e por isso são infinitos na sua revelação. Aquilo que os seres humanos têm em comum revela-se no mito.

Segundo Campbell, são histórias da nossa vida, da nossa busca da verdade, da busca do sentido de estarmos vivos. Os mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana, daquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente.

A idéia do determinismo expressa que algo ou alguém tem o controle de nossas vidas e que estamos impossibilitados de mudar o nosso destino. Sartre recusava a ideia do determinismo, demonstrando que o ser humano é livre quando escolhe as próprias ações, quando controla a própria vida e sabe que tem a possibilidade e o poder de mudá-la. A liberdade é algo condicionado por questões concretas, entretanto, ao tentarmos resolver os problemas e realizar os próprios projetos, temos escolhas.

A forma como fazemos as nossas escolhas é que determina a realização do que projetamos. Muitas vezes, por forças das circunstâncias, podemos eliminar algumas situações e ao mesmo tempo criamos outras. Assim, somos agentes ativos de nossa história e da história da humanidade.

Não podemos responsabilizar nem aos outros e nem aos deuses por nossos erros e acertos; podemos sim, sermos responsáveis pela nossa vida, por nossas escolhas, pelos caminhos que optamos seguir. Quando escolhemos algo, significa que teremos de abrir mão de outras. Essa é a responsabilidade da liberdade, e as duas são inseparáveis...

sábado, 10 de dezembro de 2011

Métis, a deusa da prudência



Metis era a deusa da prudência, das habilidades e dos ofícios e pertenceu à geração dos Titãs. Como deusa primordial, era filha de Oceannus e Tétis. Ela tinha o poder de se autotransformar e seu nome significava a qualidade da sabedoria combinada com a astúcia. Esta qualidade altamente admirável, foi considerada como uma das características notáveis do caráter ateniense.

Ela foi a primeira esposa de Zeus, que temia ser destronado devido a uma profecia que dizia que um de seus filhos se tornaria o deus dos deuses. Propondo uma brincadeira, Zeus sugeriu a Métis transformar-se em uma mosca. Sem perceber as intenções de Zeus, ela voou e pousou em suas mãos. Imediatamente, ele a aprisionou e a engoliu.

Zeus não sabia que Métis estava grávida e depois de algum tempo sua cabeça passou a crescer a cada dia. Não suportando as dores, Zeus pediu a seu filho Hefesto que o libertasse. Hefesto usou um machado para abrir a cabeça de Zeus, de onde saltou Athena, adulta e armada com sua lança, a deusa estrategista da guerra e da sabedoria.

A inclinação guerreira de Atena foi reconhecida a partir de seu nascimento e ela era diferente de seu irmão Ares, o deus da guerra. Athena cultivava seus altos princípios e ponderação sobre a necessidade de lutar para preservar e manter a verdade. Ela era estrategista e equilibrava a força bruta de Ares com sua lógica, diplomacia e sagacidade. Filha da prudência, oferecia armas aos herois mas recomendava que deveriam ser usadas com inteligência, maestria e planejamento.

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Classicamente, prudência é considerada uma virtude e, de fato, é uma das quatro virtudes cardinais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. A prudência é a principal virtude visto que se utiliza da razão para discernir em todas as circunstâncias o verdadeiro bem e a escolher os justos meios para atingir objetivos. Ela nos conduz às outras virtudes, indicando-nos as regras e as medidas certas, por isso, é considerada a mãe de todas as virtudes.

A justiça está relacionada ao propósito firme e constante de dar aos outros o que lhe é de direito ou que lhe é devido. A fortaleza ou força, assegura a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem. A temperança ou moderação assegura o domínio da vontade sobre os instintos, modera a atração pelos prazeres e proporciona o equilíbrio, sendo portanto uma prudência aplicada.

Prudência vem do latim prudentia, que significa previsão e sagacidade, frequentemente associada à ação com sabedoria, introspecção e conhecimento. Neste caso, é a virtude de julgar entre ações maliciosas e virtuosas, não só num sentido geral mas com referência a ações apropriadas em um dado tempo e lugar. É a prudência que nos recomenda não executar qualquer ação antes de refletir, por isso regula as outras virtudes.

A prudência é gerada e desenvolvida pela experiência e pelo tempo que resulta da memória dos casos repetidos. Consideraria, assim, que os velhos estariam mais preparados do que os jovens para agir prudentemente, embora a prudência não lhes seja exclusiva. Todo o processo da razão procede do intelecto e a prudência é, justamente, a aplicação da razão reta aos atos, que deriva do que se aprende através da realidade de si e dos outros.

Ser prudente é estar atento à realidade e agir de acordo com o que é real. É estar aberto a aprender e apreender de suas próprias experiências. É ter a capacidade de prever os resultados de seus atos. Prudência corresponde à retidão no modo de viver, na obediência das regras e leis estabelecidas para a vida em sociedade, virtude essencial na arte de governar e liderar.

Prudente é quem não gasta mais do que lhe sugere a prudência; é evitar ser movido pelo impulso e pela precipitação. É quem se afasta da desmedida aspiração evitando a avareza e, embora a prudência deva ser aplicada a qualquer julgamento, o que distingue uma pessoa prudente é o discernimento para não causar danos e ofensas.

Distinguir atos corajosos dos atos descuidados, negligentes ou covardes, é um ato de prudência. Convencionalmente, prudência é o exercício do julgamento sadio em negócios práticos. Modernamente, prudência tornou-se sinônimo de cautela. Neste sentido, a prudência nomeia uma relutância de tomar riscos, que permanece como uma virtude ao evitar riscos desnecessários. Cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém, mas quando a cautela se torna excessiva, pode tornar-se um vício de covardia.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Eros, filho da penúria e da esperteza



Porus - o esperto, era uma personificação da riqueza, filho de Métis - a deusa da Prudência e irmão de Athena - a deusa a estratégia. Na festa em honra ao nascimento de Afrodite, os deuses fizeram um grande banquete e Penia, a penúria e deficiência, foi mendigar as sobras da festa.

Encontrando Porus nos jardins embriagado pelo néctar dos deuses, pela carência em que se encontrava de tudo o que em Porus tinha abundância, Penia uniu-se a ele. Assim ela concebeu Eros, que se tornou seguidor de Afrodite porque foi gerado durante sua festa e também porque era por natureza amante da beleza.

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Devido à união da pobreza e riqueza, o amor tem o caráter de estar sempre ávido de algo, ao mesmo tempo em que sente-se pleno. Por ser filho de Porus - a riqueza e Penia - a penúria e pobreza, Eros está muito longe de ser belo como todos pensam. Eros, na realidade, é rude, sujo, anda descalço, não tem lar, dorme no chão frio e duro junto aos umbrais das portas ou nas ruas, sem leito nem conforto. É a natureza de sua mãe. Por influência da natureza que recebeu do pai, Eros dirige a atenção para tudo que é belo e gracioso: é bravo, audaz, constante e grande caçador. Está sempre a deliberar e planejar suas ações, a desejar e adquirir conhecimentos.

Sua vida é a do grande feiticeiro, mago e sofista. Não vive e propriamente não é mortal e nem mortal. Ora floresce e vive, ora morre e renasce graças aos dons recebidos pela herança paterna. Rapidamente passam pelas suas mãos os proveitos que lhe trazem a sua esperteza, assim, nunca se encontra em completo estado de miséria nem tampouco na opulência.

Oscila entre a sabedoria e a tolice. Como os deuses, não deseja ser sábio. Como os tolos, tem o defeito da tolice. Considera-se perfeito, enquanto na realidade não seja nem justo nem inteligente. O mito do nascimento de Eros é usado por Platão para ilustrar a característica fundamental do amor: a insuficiência. E quem não se considera incompleto e insuficiente, não deseja aquilo cuja falta não pode notar. Ama-se quando se deseja algo que não se tem e por isso o amor pode ser considerado filósofo. De fato, assim como o amor não tem a beleza mas a deseja, o filósofo aspira a sabedoria porque não a possui. Portanto, o amor é essencialmente uma necessidade não satisfeita, a percepção da falta de alguma coisa essencial para a própria completude.

O pleno gozo, oriundo da mãe, é interditado pelo pai. A partir daí, cada homem vive uma busca constante por sanar sua incompletude. Cada mulher é uma tentativa, sempre fracassada, de saciar seu desejo primordial. Dessa dialética entre carência e astúcia move-se o desejo, agitando Eros infinitamente. Filho da penúria e da esperteza, o amor é medicante mas cheio de artimanhas...

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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