sábado, 30 de abril de 2011

Eros e Psiquê, um amor acima das suspeitas



Psiquê era a mais nova de três filhas de um rei e era extremamente bela. Sua beleza atraia muitos admiradores que rendiam-lhe homenagens. Ofendida e enciumada, Afrodite enviou seu filho Eros para fazê-la apaixonar por alguém, assim todas as homenagens seriam apenas para ela. Porém, ao ver sua beleza, Eros apaixonou-se profundamente por Psiquê.

O pai de Psiquê foi consultar o oráculo de Delfos foi pois suas outras filhas haviam encontrado maridos e Psiquê
permanecia sozinha. Manipulado por Eros, o oráculo aconselhou que Psiquê deveria ser deixada numa solitária montanha onde seria desposada por um terrível monstro. A jovem aterrorizada foi levada ao pé do monte e abandonada por seu pesarosos parentes e amigos.

Conformada com seu destino, Psiquê foi tomada por um profundo sono e conduzida pela brisa gentil de Zéfiro a um
lindo vale. Quando acordou, caminhou por um jardim até chegar a magnífico castelo. Parecia que lá morava um deus, tal a perfeição em cada detalhe. Tomando coragem, entrou no deslumbrante palácio onde todos os seus desejos foram atendidos por ajudantes invisíveis.

À noite Psiquê foi conduzida a um quarto escuro onde pensava que encontraria seu terrível esposo. Quando sentiu que alguém entrava no quarto, Psiquê tremeu de medo mas logo uma voz acalmou-a e sentiu os carinhos de alguém. O amante misterioso embalou-a em seus braços. Quando Psiquê acordou, já havia amanhecido e seu misterioso amante havia desaparecido. Isso se repetiu por várias noites.

As irmãs de Psiquê queriam saber seu destino mas o amante misterioso alertou-a para não responder aos seus
chamados. Porém Psiquê sentindo-se solitária em seu castelo-prisão, implorou ao amante para deixá-la ver as irmãs. Finalmente ele atendeu ao pedido, mas impôs a condição de que não importasse o que falassem as irmãs, ela nunca deveria tentar conhecer sua identidade, caso isso ocorresse, ela nunca mais o veria novamente. Psiquê estava grávida e ela deveria guardar segredo para que seu filho fosse um deus, porém se ela revelasse a alguém, ele se tornaria um mortal.

Quando suas irmãs entraram no castelo e viram tanta abundância de beleza e maravilhas, foram tomadas de inveja.
Notando que o esposo de Psiquê nunca aparecia, perguntaram maliciosamente sobre sua identidade. Embora advertida por seu esposo, Psiquê viu a dúvida e a curiosidade tomarem conta de seu ser, aguçadas pelos comentários de suas irmãs.

Ao receber novamente suas irmãs, Psiquê contou-lhes que estava grávida e que sua criança seria de origem divina. Suas
irmãs ficaram ainda mais enciumadas com sua situação, pois além de todas aquelas riquezas, ela era a esposa de um lindo deus. Assim, elas convenceram Psiquê a descobrir a identidade do esposo, pois se ele estava escondendo seu rosto poderia ser um horrível monstro.

Assustada com o que havia dito suas irmãs, Psiquê levou uma lamparina para o quarto decidida a conhecer a
identidade do marido. Esquecendo os avisos do seu amante, enquanto Eros descansava à noite a seu lado, Psiquê aproximou a lamparina para ver o rosto do seu amante. Para sua surpresa, ela viu um jovem de extrema beleza e admirada não percebeu a inclinação da lamparina que deixou uma gota de óleo quente cair sobre o ombro de Eros.

Eros acordou assustado e voou pela janela do quarto dizendo: - "Tola Psiquê, é assim que retribui meu amor? Depois de
haver desobedecido as ordens de minha mãe e tornado-a minha esposa, tu me julgavas um monstro? Vá, volte para junto de suas irmãs, cujos conselhos preferiste ouvir. Não lhe imponho outro castigo, senão de deixá-la para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita." No mesmo instante o castelo, as belezas e os jardins desapareceram.

Inconsolável Psiquê passou a perambular pelos
bosques tentando encontrar Eros novamente. As irmãs fingiram pesar mas elas também pensavam em conquistar Eros. Mas o deus vento Zéfiro, assistindo aquele fingimento, as lançou em um despenhadeiro. Resolvida a reconquistar o amor de Eros, Psiquê chegou ao templo de Afrodite. Porém a deusa impôs que ela cumprisse muitas tarefas antes de se encontrar com Eros.

Primeiro ela deveria separar os milhares de grãos de trigo, cevada,
feijões e lentilhas que estavam misturados, um serviço que iria demorar toda vida para terminar. Psique ficou assustada diante de tanto trabalho, porém as formigas ajudaram psiquê e ela finalizou rápido a tarefa.

Na 2ª tarefa, Afrodite pediu lã dourada dos ferozes carneiros. Psiquê foi até as margens de um rio onde carneiros de lã dourada pastavam e
estava disposta a cruzar o rio, quando um junco ajudou-a e disse-lhe para esperar que os carneiros dormissem, assim não seria atacada por eles. Psiquê esperou, depois atravessou o rio e retirou a lã dourada.

Na 3ª tarefa, Afrodite pediu água que jorrava de uma fonte da montanha. Porém ali havia um dragão que guardava a fonte, mas ela foi ajudada por uma águia, que voou baixo próximo a fonte e encheu a jarra. Vendo que Psiquê conseguia completar as tarefas, Afrodite impôs que ela descesse ao mundo inferior e pedisse um pouco da beleza de Perséfone e guardasse em uma caixa.

Psiquê não sabia como entrar no mundo de Hades estando viva
e pensou em atirar-se de uma torre. Mas a torre murmurou instruções, ensinou-lhe como driblar os diversos perigos da jornada, como passar pelo cão Cérbero e deu-lhe uma moeda para pagar a Caronte pela travessia do rio Estige, advertindo-a: - "Quando Perséfone lhe der a caixa com sua beleza, não olhe dentro da caixa, pois a beleza dos deuses não cabe aos olhos mortais".

Seguindo as instruções, Psiquê conseguiu o precioso tesouro. Porém, tomada pela curiosidade, abriu a caixa para olhar.
Ao invés de beleza havia apenas um sono terrível que dela se apossou. Eros voou ao socorro de Psiquê e conseguiu colocar o sono novamente na caixa, salvando-a. Lembrando-lhe que a extrema curiosidade pode ser fatal, Eros conseguiu que Afrodite concordasse com o seu casamento com Psiquê. Em pouco tempo, Eros e Psiquê tiveram um filho, Voluptas, que se tornou o deus do prazer.

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O mito de Eros e Psiquê personifica o amor que pode ser lindo, mas jamais devemos querer conhecê-lo em sua
profundidade e realidade, pois o amor também pode ser cruel, assim como Afrodite que personifica o amor. Psiquê em grego significa alma, personificando a ânsia que precede um relacionamento, mas o amor surge somente quando a alma está pronta para amar.

Quando Eros se apaixona por Psiquê, personifica a atração que surge entre duas pessoas que aos poucos pode tornar-se amor.
Quando psiquê é levada ao castelo de sonhos e depois ao quarto escuro onde encontra seu noivo, sem poder vê-lo na claridade, personifica o estágio do estar apaixonado, de estar enamorado. Vemos nossa imagem refletida no outro e ele não está totalmente visível, o início de qualquer relacionamento é uma experiência fascinante.

Embora psiquê seja
feliz, tenha tudo o que queira, personifica que o relacionamento promissor, porém há desconfiança e dúvida. As dúvidas de psiquê foram levantadas pelas irmãs invejosas e a coloca com a sensação de há algo errado. Todos nós temos essas irmãs traiçoeiras que habitam no lado sombrio de nossa personalidade nos forçando a explorar mais a fundo e que exige mais honestidade com os outros. Personifica as nossas desconfianças e dúvidas em relação ao outro o que pode gerar traições.

Embora dolorosa, a traição quebra a cegueira da paixão mas significa ser mais autêntico
consigo mesmo. A traição de psiquê não ocorreu pela imprudência, mas pela necessidade de conhecer seu parceiro. Eros errou ao esconder sua real identidade de Psiquê e nenhum relacionamento, social, profissional, afetivo sobrevive quando há a ameaça: "não tente me conhecer verdadeiramente". A quebra da ordem dada pode trazer consequências, mas é a forma de se relacionar com a verdade de um relacionamento.

Psiquê é abandonada, seu marido desaparece assim como todo o castelo. Por meio da tragédia, descobrimos que a quietude e serenidade depois de uma crise em nossas vidas estão relacionadas a essa parte do mito. Os sonhos irreais e falsas expectativas do passado desaparecem para dar lugar a algo real. A nostalgia do passado pode voltar mas sempre haverá uma verdade. É o momento em que nos conscientizamos de que devemos fazer algo para alcançar um objetivo.

O confronto entre Psiquê e Afrodite, e as inúmeras tarefas a princípio impossíveis, retrata que todos os potenciais para
o futuro estão presentes, mas que dependem de dedicação e esforço para compreender a si e ao outro. Simbolicamente formigas, torres, juncos e águias podem nos ajudar, assim como ajudaram Psiquê, entrando em nossas vidas como amigos, parentes e terapeutas, porém a árdua tarefa sempre pertence a nós mesmos.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Quimera, um sonho impossível



Quimera é descrita como um monstro assustador, fruto da união entre Equidna - metade mulher, metade serpente - e o gigantesco Tífon. Também diziam que era filha da Hidra de Lerna e do Leão de Neméia. A figura mítica da Quimera sempre exerceu atração sobre a imaginação popular, a mais comum na arte cristã medieval que fez dela um símbolo do mal.

Habitualmente descrita com cabeça de leão, dorso de cabra e cauda de serpente, foi criada pelo rei de Cária para destruir o reino vizinho da Lícia. Com o fogo que vomitava incessantemente, o rei Iobates procurava um herói que vencesse a Quimera, em troca daria sua filha em casamento ao herói.

No reino chegou Belorofonte, mas o Rei Iobates recebeu um pedido do genro para matar seu hóspede Belorofonte. Contudo, devido à lei da hospitalidade, não o poderia matar. Assim incumbiu Belorofonte de cumprir algumas tarefas, pensando livrar-se dele. No entanto, Belorofonte montado em seu cavalo alado Pégasus, matou a Quimera num só golpe. Reconhecendo a bravura de Belorofonte, o rei Iobates não teve outra alternativa, senão conceder a mão de sua filha em casamento.

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Genericamente é denominada Quimera a todo monstro fantástico empregado na decoração arquitetônica. Na linguagem popular, o termo quimera alude a qualquer composição fantástica, absurda ou monstruosa, constituída de disparates e elementos incongruentes que não tem apoio na realidade. Significa um sonho impossível de acontecer e designa o que é fantástico, o que vive na imaginação, algo tão absurdo que chega a ser utópico.

O mito de Quimera, cuja ancestralidade remete a personagens animalescos, nos faz lembrar de que, apesar de ser
necessário sonhar e imaginar coisas melhores, algumas vezes somos consumidos por desejos que não passam de químeras e que podem consumir tempo e investimento infrutíferos, além de que podem se tornar maléficos ao longo do tempo.

Todo ser humano tem um sonho, uma ideia que visa transformar a si mesmo ou o mundo. No entanto, a imaginação precisa reconhecer os limites. Tudo é possível, desde que haja elementos suficientes apoiados na realidade para que se realize. Não sendo assim, será nada mais do que Químera...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Prócris e Céfalo, a infidelidade fatal



Prócris era casada com o Rei Céfalo da Tessália. Amavam-se com profunda ternura, porém sua felicidade terminou quando Eos, deusa da aurora de dedos cor-de-rosa, apaixonou-se por Céfalo e raptou-o para que vivesse ao seu lado. Apesar de toda a sua beleza, ela não conseguiu conquistar o amor de Céfalo. Por fim, perdendo as esperanças, consentiu que ele retornasse para viver com a esposa.

No entanto, sentindo-se abandonada pelo amante, Eos sugeriu que a sua esposa Prócris teria um amante e aconselhou a
Céfalo de se disfarçar em um rico mercador e tentar seduzir Prócris com ricos presentes, prometendo-lhes muitos outros presentes caso ela se entregasse a ele. Assim colocaria à prova a fidelidade da esposa e mostraria o quanto os homens são crédulos e ingênuos.

A princípio Céfalo relutou mas disfarçou-se e fez a corte a Prócris com tanto êxito que afinal ela lhe prometeu ser sua.
Nesse momento Céfalo arrancou furioso o disfarce revelando sua identidade, concordando com tudo que lhe havia dito Eos: todas as mulheres são infiéis e os homens são fáceis de enganar. Prócris ficou envergonhada e se exilou em outro país, abandonando Céfalo a seus tristes pensamentos.

Passado algum
tempo, Prócris conquistou os favores da deusa Ártemis, que lhe presenteou com uma lança que nunca falhava o alvo e um cão que nunca deixava de trazer a sua presa. De posse desses bens preciosos voltou com um disfarce à sua casa e Céfalo não a reconheceu. Vendo que o dardo nunca errava o alvo, voltando às mãos de quem o lançava e do cão que sempre trazia a caça a seu dono, Céfalo sentiu ardente desejo de possuí-los. Tentando obtê-los, ofereceu sua prata e seu ouro em troca, mas Prócris desprezou o pagamento; em troca exigiu que Céfalo jurasse que nunca amou sua esposa infiel, que a tinha esquecido e ficaria com ela.

Céfalo recusava a cometer o perjúrio, mas desejava tanto a lança e o cão de caça que acabou jurando.
Prócris retirou o disfarce e mostrou a Céfalo como era frágil a sedução em função de um desejo ou de um interesse. E sendo ambos culpados, ela propôs que eles esquecessem o passado, renovassem os votos de amor para viverem felizes sem desconfianças. Céfalo se sentiu feliz em ter novamente a esposa em seus braços. Prócris deu a Céfalo a lança e o cão para que pudesse caçar e passaram a viver em completa felicidade.

Certo dia fazia muito calor e Céfalo pediu: - Vem, brisa suave, vem afagar-me. Sabes quanto te amo! Tu tornas deliciosos
os bosques e minhas caminhadas solitárias!... Alguém, que por acaso ouviu as declarações de Céfalo, foi contar a Prócris que seu marido estava no bosque invocando carinhos em altas vozes e que poderia ser de alguma mulher com quem tinha encontros amorosos, enquanto Prócris supunha que estivesse a caçar. No mesmo instante renasceram as suspeitas e os ciúmes de Prócris.

No dia seguinte, quando seu marido pegou da lança e chamou o cão, Prócris o seguiu secretamente escondendo-se atrás das folhagens para não ser vista. Quando Céfalo ergueu os braços e pediu ao vento que o refrescasse, Prócris inclinou-se para melhor ouvir o que ele dizia. Ela queria saber o nome da sua rival.

No entanto, o ruído nas folhagens chamou a
atenção de Céfalo que, supondo tratar-se de um animal selvagem, arremessou sua lança infalível contra a folhagem de onde vinha o ruído. Com o coração transpassado, Prócris caiu com grito de agonia. Assim morreu a bela esposa de Céfalo, cujo fim foi motivado pela maledicência alheia e pela injustificada desconfiança. Em suas últimas palavras, Prócris suplicou que Céfalo nunca se casasse com a odiosa Brisa...

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O mito de Prócris e Céfalo se relaciona à fidelidade, a bela face do amor que não admite o fingimento, as máscaras e a
dissimulação, porque a infidelidade está na tentativa de enganar o outro. Nada é mais fatal para o amor do que a mentira que gera a desconfiança; a desconfiança que gera o ciúme; o ciúme que gera a briga e a briga que gera a separação.

Quando o amor se torna uma brincadeira de "esconde-esconde", é apenas uma brincadeira de amar, porque o amor
verdadeiro vence qualquer falsidade. A mentira tem pernas curtas, ela logo aparece e quando isto ocorre deixa o mentiroso desqualificado e indigno de confiança. Ser fiel ao outro é saber respeitar, defender e não trair seja por pensamentos ou palavras.

A infidelidade é um dos problemas mais difíceis de ser superado. Ninguém está preparado para enfrentar uma
frustração, por isso muita gente até finge que não vê a traição, para não ter que enfrentar o sofrimento. O problema é que isso vira fantasma guardado no armário, que deteriora a autoestima, a confiança e o relacionamento. Quem é traído passa pelo processo da desilusão, desconfiança, controle do outro, perda da capacidade de amar e sentimento de abandono e rejeição.

Muitas pessoas tendem a buscar a culpa em si mesmas, se indagando se fêz algo errado. Outras, pensam que a culpa é de
terceiros, dos parentes ou de forças invisíveis. Nas relações de emoções explosivas, os casais se agridem e quando se guarda rancor pelas ofensas do outro, uma raiva silenciosa vai querer vingança em algum momento. Em geral acontecem com pessoas inseguras que querem manter o controle sobre o outro.

O amor nunca chega pronto, o amor se constrói junto com a confiança. O amor tudo suporta, tudo crê, tudo espera; o amor não passa jamais. Quando o amor é grande, maior é a vontade de ajudar o outro crescer, um exercício constante que evita que o amor se torne vazio, monótono e sem sabor. E como a natureza tem horror ao vácuo, este vazio será preenchido pelos desentendimentos. As relações em que há acusações mútuas, são relações contaminadas em que ambos querem ter razão. E a razão muitas vezes leva ao fim do relacionamento.

Relações fadadas ao fracasso tem características marcantes: a solidão a dois, a
falta de diálogo, a indiferença, a desqualificação do outro, as brigas pelo controle do dinheiro que na verdade se torna uma questão de poder. E quando a possessividade e o ciúme são marcantes, um boicota os sonhos do outro, trai, frustra e agride. É o caminho rápido para o fim.

Píramo e Tisbe, a paixão que deu cor às amoras



O jovem Píramo e a linda princesa Tisbe eram apaixonados, porém seus pais não permitiam o casamento. Eles moravam em casas vizinhas, separadas apenas por uma parede. Através de um fresta, os apaixonados trocavam as juras de amor e assim decidiram fugir para viver juntos. Combinaram de encontrar-se à noite fora dos limites da cidade, perto de uma fonte onde tinha um pé de amoras brancas.

A bela jovem Tisbe chegou primeiro ao local e de repente viu surgir uma leoa, com a boca ensanguentada da última
presa que havia caçado, querendo se molhar na fonte. Tisbe correu e escondeu em uma gruta, deixando seu véu cair sobre a terra. A leoa vendo o véu, abocanhou-o e rasgou-o com os dentes ensanguentados.

Píramo se atrasou quando sua mãe, tentando impedí-lo de sair, o fêz atrasar para o encontro. Quando Píramo chegou e
não encontrou Tisbe, viu as pegadas do felino e o véu de sua amada em pedaços manchado de sangue. Desesperado e imaginando a sorte que Tisbe tivera devido ao seu atraso, Píramo decidiu morrer. Desembanhando sua espada, feriu o próprio coração.

Quando a princesa Tisbe retornou ao local se deparou com o amado morto, entendeu a situação e decidiu também morrer junto com ele. Segundo a mitologia, o sangue dos apaixonados derramado aos pés da amoreira, deu a cor vermelha às amoras.

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O mito de Píramo e Tisbe nos fala dos impedimentos e nos remete aos desencontros do amor, concorrendo para a perda da idealização do amor paixão. Ao se verem tragicamente separados, as parcas tecem o destino das relações amorosas e mostram as graves perversões morais que quase sempre tem como causa principal uma frustração de amor.

Alguém já disse que o amor é mais forte, capaz de remover montanhas. O amor tem uma força misteriosa; quando se ama uma pessoa genuinamente, dá-lhe ânimo e vida, despertando o mesmo para si. É como uma chama que acende outra chama; a doação de vida que faz a vida do outro reviver. Porque amar não é querer o outro construído, mas construir alguém querido.


Um casal se aproxima pelo coração, mas cresce pelo amor que transcende os sentimentos e se enraíza na razão. Todo relacionamento humano só terá sentido se implicar no crescimento de ambos. A arrogância e a prepotência atravancam o caminho do amor e do crescimento mútuo. A chantagem emocional é a tentativa para conseguir algo que a força dos argumentos não consegue; o desespero é a linguagem dos fracos, que agem assim por falta de razões.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Côtis, a verdade que não merecia castigo




Ninguém gosta de receber más notícias, ser contrariado ou ter suas expectativas desfeitas, nem mesmo os deuses. Apolo, o deus dos oráculos, devia saber o quanto a verdade podia doer. Ele amava Corones, uma jovem princesa de Tessália, mas ela gostava de outro, um simples mortal com quem se encontrava às escondidas.

Desconfiado Apolo mandou o corvo, um de seus auxiliares alados, vigiar de perto a faceira princesinha. Pobre corvo. Quando veio relatar os encontros furtivos de Corones, Apolo ficou furioso e resolveu castigá-lo. Mandou mudar a cor de suas asas brancas como a neve, para a cor preta que os corvos tem até hoje.

Muitos reis e tiranos do passado agiram como Apolo, punindo o mensageiro por causa do teor da mensagem. Durante a campanha do comandante romano Lúculo contra alguns reinos da Ásia, quando sua legião entrou na Armênia os postos avançados mandaram avisar ao rei local que as forças romanas se aproximavam. O rei Tigranes ficou tão enfurecido que mandou decapitar o mensageiro, por isso ninguém ousou contar-lhe coisa alguma.

Enquanto os romanos apertavam o cerco, Tigranes continuava inerte sem ter a menor idéia do que estava acontecendo. Ele ouvia apenas a voz de seus bajuladores, que lhe diziam que Lúculo já devia estar voltando para Roma. Porém um amigo favorito do rei tomou coragem para anunciar-lhe que a derrota era iminente, como de fato aconteceu.

Outro foi Côtis, rei da Trácia, dissoluto e beberrão que decidiu que haveria de passar uma noite de amor com a deusa Atena, uma das deusas virgens do Olimpo. Para uma ocasião tão importante, preparou um banquete numa mesa luxuosíssima numa alcova ricamente decorada, dispondo uma cama com lençóis e travesseiros dignos da ilustre convidada.


Depois de tudo preparado, Côtis se pôs a beber vinho aguardando a chegada de Atena. Como o tempo passasse e a deusa não aparecia, mandou um guarda verificar se ela não tinha se perdido nos corredores do palácio. Quando o guarda retornou dizendo que não havia ninguém, o rei o matou.

Mais tempo se passou e Côtis mandou um segundo guarda. O guarda também disse que não havia ninguém e morreu também. Quando Côtis mandou o terceiro guarda, apavorado com o que acontecera com seus colegas ele voltou dizendo que a deusa estava chegando ao palácio, pois sofrera um pequeno atraso. Em seguida, fugiu.


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A maioria das pessoas não gosta de ouvir a verdade; elas preferem ouvir as palavras que não destruam seus sonhos e expectativas irreais. E quando alguém ousa ser sincero, dizendo-lhes tão somente a verdade, essas pessoas se afastam.

Muitas vezes, as pessoas não encaram a verdade porque pode ser muito cruel para elas e preferem viver a mentira, num mundo do faz-de-conta. Porém, mais cedo ou mais tarde, elas estarão de frente com o que, em vão, tentaram afastar.

Dessas estórias tiramos pelo menos duas lições:
  1. se fores o destinatário, nada que fizeres poderá alterar o conteúdo da mensagem.
  2. se fores o mensageiro, lembra-te do antigo provérbio árabe: quando fores dizer a verdade, deixa o teu cavalo pronto e fique com um pé no estribo. A verdade é um sempre um perigo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Édipo e o final da maldição



A maldição sobre a descendência de Layo não se encerrou na tragédia de Édipo. Após a morte do seu pai, Antígona retornou a Tebas, para juntar-se aos irmãos, Ismena, Etéocles e Polinice, únicos parentes que lhe restaram no mundo. Os irmãos Etéocles e Polinice estavam em uma acirrada disputa pelo trono e em um confronto, os dois irmãos envolveram-se em uma luta sangrenta e fatal. O resultado foi a morte de ambos.

Creonte, irmão de Jocasta, herdou o trono de Tebas. Etéocles era o sobrinho preferido de Creonte, por isso ele o enterrou com todas as honras, deixando o corpo de Polinice abandonado onde tombara morto, proibindo sob pena de morte, qualquer pessoa de enterrá-lo. Antígona não se conformou com a sorte de Polinice, tentou sob todos os argumentos, convencer o tio a deixar que o irmão fosse sepultado, pois sabia que sem os rituais fúnebres o malogrado príncipe seria condenado a vagar por cem anos pelas margens do rio dos mortos.

Diante da indiferença de Creonte, Antígona desobedeceu às suas ordens e enterrou Polinice com as próprias mãos. Como castigo, o soberano condenou-a a ser enterrada viva. Mesmo diante das súplicas de Ismena, a mais bondosa filha de Édipo foi cruelmente enterrada viva pelos arautos de Creonte. Ismena, a última sobrevivente dos filhos de Édipo e Jocasta, seria morta mais tarde pelo guerreiro Tideu. Ao atingir a terceira geração, estava concretizada a maldição lançada por Pélops sobre os Labdácidas.

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A mitologia grega é constituída por uma vasta e rica galeria de personagens, dividida em deuses, semideuses e heróis. O mito de Édipo é o mais humano de todos, uma síntese da visão grega antiga diante da miséria e tragédia humana. Retratado como viril e inteligente, seu mito foge dos heróis tradicionais, como Aquiles, que têm a força guerreira como essência da virilidade e das aventuras épicas.

Édipo tem a inteligência como aliada que o faz justo, decifrador dos enigmas humanos e dos deuses, tornando-o, através da sabedoria, líder e vencedor do seu povo. Mas justamente o maior enigma que rege a sua própria vida, será o ponto de busca de Édipo. Preso ao emaranhado das suas verdades e nos atos que praticou, o destino decidiria a sua tragédia. Ele não foi induzido ao erro para que se concretizasse a maldição lançada sobre seu pai Layo; ele se colocou nas mãos do destino.

Édipo é sinônimo da maior tragédia do teatro grego, ponto fundamental da sua essência. É o maior personagem humano criado pela genialidade imaginativa da cultura da Grécia antiga. Uma das características das religiões politeístas é de que o homem nasce e vive já com a determinação do destino, entidade maior e soberana aos deuses. Os monoteístas afirmam que é o homem quem, através do livre arbítrio, determina o seu destino.

O mito de Édipo alinha as contradições pois ele herdou a maldição lançada sobre as gerações da sua família. A vitória sobre a esfinge, a vontade de triunfar sobre a maldição dos deuses, o assassinato do pai, o casamento com a própria mãe e a necessidade inquietante de descobrir as verdades da alma humana, fazem de Édipo o mais vulnerável dos homens diante do espelho, assim como é a humanidade diante das suas próprias verdades.

Édipo é a chave entre a verdade e a mentira. Ao descobrir quem é, não suporta a imagem do mundo e de si mesmo, e arranca os próprios olhos. Édipo, dentro da sua tragédia, é a mais perfeita concepção humana da criação mitológica, a visão que foge do herói e dos deuses, esboçando o retrato universal da psicologia da mente do homem e da sua eterna luta contra os deuses criados para justificar a solidão da alma. No auge do poder e da sua felicidade, Édipo é confrontado com as verdades dos seus atos. Fato a fato, desvenda-se a mais cruel das verdades.

O mito representa a luta do homem contra o cego destino que o aguarda. Édipo é inocente perante o destino, mas carrega a culpa por seus atos e suas escolhas. Édipo se viu diante de muitas escolhas que poderiam ter determinado outro destino, talvez livre de tantos infortúnios para si e para outros. Ele tinha indícios suficientes para evitar tão dramáticas consequências. O que Édipo poderia ter feito?
  • Nunca matar, assim evitaria de assasinar acidentalmente o pai.
  • Nunca casar-se com uma mulher mais velha do que ele, pois evitaria de casar-se com sua mãe.
  • Nunca achar-se tão sábio e contentar-se em saber que pouco sabe diante da soberba sabedoria que rege o universo.
Porém Édipo julgou com sua racionalidade, sem considerar os elementos subjetivos que tinha em mãos. Quando projetamos nossos problemas nos outros, estamos dando aos outros o poder de decidir o nosso destino. Quando assumimos a responsabilidade por nossos atos e atitudes, na verdade estamos tomando as rédeas do nosso destino.

A vida nos traz inquietações e nos faz buscar respostas, mesmo que para isso precisemos tomar novos rumos e enfrentar novos desafios. Assim como Édipo, cada ser humano tem a liberdade de ir em busca da sua felicidade, porém o mais importante é ter dentro de si o equilibrio interior e estar em harmonia consigo mesmo, pois só dentro de si é que encontrará sustentação para viver.

Édipo e o expurgo de seus pecados



Um dia Tebas foi assolada por uma terrível peste. Nos campos as plantas secavam, os vegetais morriam levando à fome a todos. Preocupado com a tragédia que se abatera sobre o seu reino, Édipo decidiu consultar o oráculo. Mais uma vez, o oráculo foi implacável: “A peste só findará quando o assassinato de Layo for vingado.”

Édipo iniciou uma contundente
investigação para descobrir o assassino de Layo e consultou Tirésias, o velho adivinho cego. Capaz de ver na escuridão dos próprios olhos, o passado e o futuro, Tirésias revelou a Édipo que ele era o assassino de Layo. Pensando tratar-se de uma conspiração para tirá-lo do poder, Édipo expulsou Tirésias do seu reino, mas ainda persistia em busca da verdade.

Ao contar a previsão para Jocasta ela o tranquilizou e lhe contou que o Oráculo havia previsto que Layo seria morto
pelo próprio filho, porém o filho que tivera havia sido morto no Monte Cinteron. Além disso, Layo havia sido morto numa disputa numa encruzilhada.

Angustiado, Édipo juntava as coincidências quando chegou um mensageiro de
Corinto anunciando a morte do Rei Pólibo, que ele ainda julgava ser seu pai. Édipo se sentia triste porém aliviado de que a profecia falhara, quando dissera que seu pai morreria pelas suas mãos. Mas antes que respirasse seu alivio, o mensageiro fêz a revelação de que ele não era filho de Pólibo, e que havia sido recolhido por um pastor no Monte Cinteron.

Ao ouvir a revelação do mensageiro de Corinto, Édipo e Jocasta entenderam a verdade. O homem a quem Jocasta amara e com quem concebera quatro filhos, era ele, o herdeiro maldito. Desesperada, a rainha fugiu para os seus aposentos, e tomada pela indignidade de ter sido a amante do próprio filho, a bela Jocasta enforcou-se. Finalmente Édipo decifrou o seu próprio enigma; era filho de Layo, a quem matara e de Jocasta, a quem desposara.

Desesperado diante da revelação, Édipo correu para os aposentos da rainha esperando o perdão pelo erro do destino,
mas encontrou a rainha sem vida. Diante do espelho das suas verdades, Édipo decidiu não mais ver o mundo. Em um ato de desespero, justiça e de punição, ele arrancou os próprios olhos, mergulhando para sempre no mundo da escuridão.

Banido, cego, mendigo e esquálido, Édipo partiu pelas estradas da Grécia a expiar a sua culpa e maldição. Na sua caminhada, Édipo foi sempre conduzido pela filha Antígona, que jamais abandonou o pai. Depois de permanecer andarilho por várias terras, Édipo chegou na Ática. Ali refugiou-se onde finalmente sentiu um alívio para a sua culpa, descansando na felicidade dos justos.

Velho e mendigo, Édipo havia perdido tudo o que pode perder um homem, a
juventude, a mãe e esposa, o trono, a riqueza e a visão. Restara-lhe o amor incondicional da filha Antígona. Após ver Édipo errar e a viver o castigo que impusera para si mesmo, Apolo, o deus que sempre profetizara a sua miséria através das armadilhas do Destino, compadeceu de seu sofrimento. O deus da luz confortou-o nos últimos anos de vida, atraindo a benção do Olimpo para o lugar que lhe serviria de sepultura.

Já velho e cansado, Édipo caminhou até a beira
de um precipício, ali se sentou em uma pedra, vestindo-se com uma mortalha. Ouviu-se um grande estrondo no céu. A terra abriu-se suavemente, recebendo o corpo sofrido e expurgado de Édipo. O local da tumba do mais famoso rei de Tebas jamais foi revelado. Sabe-se apenas que está na Ática, e por isto, aquele solo é abençoado pelos deuses do Olimpo.

Édipo e seus destino - parte 2



Édipo cresceu feliz em Corinto e foi criado como legítimo filho dos rei Pólibo e sua esposa Mérope. Era admirado por todos, mas nunca lhe fora revelada a verdadeira origem. Porém na juventude, tornou-se inseguro e foi consultar o oráculo. Édipo jamais se fechava para as suas verdades e o oráculo foi cruel em suas palavras, dizendo ao jovem: “Hás de matar o teu pai e desposar a tua própria mãe.”

Diante da cruel profecia, desesperado abandonou Corinto fugindo pelas estradas gregas. Decidira jamais retornar para que não cumprisse a profecia de matar Pólibo e desposar Mérope. Seria eternamente errante, exilando-se de Corinto. Mas os deuses já tinham decidido que se cumpriria a profecia.

Errante pelas estradas, Édipo chegou à encruzilhada de Megas onde convergiam os caminhos de Dáulis e Tebas. Indeciso, não sabia por onde seguir, até que na estrada surgiu inesperadamente a comitiva de Layo comandada por seu arrogante servo Polifontes, exigindo que o forasteiro se retirasse para que o seu amo Layo pudesse passar. Diante das palavras rudes do servo, Édipo não se moveu mantendo-se impassível.

Irritado, o servo Polifontes investiu contra o jovem que, ao defender-se, desferiu um golpe mortal no agressor. Transtornado, Layo se atirou em luta contra o forasteiro. Édipo voltou-se para Layo fitando-o profundamente. Pai e filho não se reconheceram e atracados numa violenta luta, Layo tombou sob a espada de Édipo. Ao cair, banhado em sangue, olhou para o seu agressor acometido de uma estranha ternura, quando a morte o tomou. Apesar de ter cometido os crimes numa luta em defesa pessoal, Édipo sentiu-se estranho diante daqueles mortos.

Prosseguiu o seu caminho errante rumo a Tebas, onde os deuses reservavam para ele o total cumprimento da maldição que o acompanhava. Édipo chegou a Tebas e encontrou a cidade tomada pelo pânico, pois além da morte do rei, a Esfinge, um monstro metade mulher metade leão com cauda de dragão e asas de ave de rapina, lançava um terrível enigma a todos que passavam pela estrada sob a ameaça de devorar quem não soubesse a solução:

- “Qual o animal que tem quatro pés de manhã, dois ao meio dia e três no entardecer?” Ninguém sabia a resposta, e como punição, ela devorava o viajante, fazendo a população refém do medo e do terror. Ao encontrar a Esfinge, Édipo aceitou-lhe o desafio. Ao ouvir o enigma, ele respondeu prontamente: “O homem: na infância arrasta-se sobre os pés e as mãos; na idade adulta, mantém-se sobre os dois pés; e na velhice precisa usar um bastão para andar.”

Diante da inteligência de Édipo, a Esfinge afligiu-se e propôs lançar-lhe um novo enigma: - “São duas irmãs, uma gera a outra, e a segunda é gerada pela primeira. Quem são elas?” Édipo respondeu sem hesitar: “A luz e a escuridão. A luz do dia clareia aberta no céu, gera a escuridão da noite, que, por sua vez, precede a luz do dia”. O jovem respondera a todos os enigmas da Esfinge. Com sabedoria, desvenda-lhe as artimanhas e sortilégios, e ela do alto do rochedo se atirou nas pedras.

A rainha Jocasta havia prometido casar-se com o homem que vencesse a Esfinge e Édipo foi aclamado pelo povo como o seu rei. Frente a frente, mãe e filho não se reconheceram, mas em seus sentimentos confusos, considerados como fruto da paixão, Édipo e Jocasta se tornaram marido e mulher. Por muitos anos Édipo viveu feliz ao lado de Jocasta, gerando com ela os filhos: Ismena, Antígona, Etéocles e Polinice. Tornou-se um soberano sábio e amado pela população tebana.



Édipo e sua herança maldita Parte 1



A maldição que se abateu sobre Édipo teve início com seu pai Layo, filho de Lábdaco, sábio rei tebano que deu origem aos Labdácidas. Quando Lábdaco faleceu, Layo ainda era muito jovem para governar Tebas. Lico, o fiel conselheiro do rei, assumiu a regência do trono que seria restituído a Layo quando ele completasse a idade para governar. No entanto, os sobrinhos de Lico, Anfião e Zeto, tomaram-lhe o trono.

Temendo por sua vida, Layo fugiu para a Élida sendo acolhido pelo Rei Pélops. Porém Layo se apaixonou por Crisipo,
filho mais jovem e preferido do rei, e o raptou. Isso atraiu a fúria de Pelops. Ao fugir Crisipo se precipitou em um poço. Tomado de dor e ódio, Pélops lançou uma maldição sobre Layo que iria se abater sobre todas as suas gerações descendentes.

Layo reassumiu o trono de Tebas, casou-se com a bela Jocasta e se esqueceu da maldição que lhe fora
lançada. O reino de Layo se tornou um dos mais prósperos da Grécia quando Jocasta anunciou a chegada do herdeiro. Feliz com a gravidez, Layo se debruçou sobre o ventre da mulher e repentinamente sentiu uma tristeza desconhecida e um estranho desespero.

Tomado pelo presságio, Layo decidiu consultar o Oráculo sobre o herdeiro que revelou uma terrível
profecia: “ O filho matará o próprio pai e se tornará o soberano casando-se com a mãe; isto será a ruína de Tebas". Transtornado com tão trágica revelação, Layo revelou a profecia à sua esposa. Quando a criança nasceu, Jocasta viu o filho ser arrancado de seus braços pela força das profecias. Layo em silêncio, tomou a criança e partiu.

Longe do
palácio, Layo seguiu ao lado de um escravo para o monte Citeron com a determinação de eliminar o filho. No meio do bosque, olhando para aquela inocência infantil, não teve coragem de matá-lo. Porém, determinado, perfurou os pés do recém-nascido, amarrou-os com uma corrente e pendurou numa árvore. Ali o deixou entregue ao seu próprio destino.

Mas o Destino já decidira que a criança não morreria e que as palavras do Oráculo se cumpririam. Um pastor caminhava
pelo bosque e ouviu o choro do pequeno. Compadecido, tomou-o e o levou para Corinto, entregando-o ao Rei Pólibo e sua esposa Mérope, que jamais poderia conceber um filho. Tomados de felicidade, deram-lhe o nome de Édipo, cujo nome significa "o de pés inchados".


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Teseu em suas desventuras



Egeu era Rei de Atenas e não tinha descendentes, mas tinha 50 sobrinhos, os palântidas, filhos de seu irmão Palas que esperavam pacientemente sua morte para dividir a Ática entre si. Egeu foi consultar um oráculo que o aconselhou: "Não desate a boca do odre antes de atingir o ponto mais alto da cidade de Atenas". Não conseguindo decifrar o oráculo, resolveu voltar para seu reino.

No caminho para Atenas fez uma parada em Trezena onde reinava Piteu, filho de Pélops, conhecido como um grande
sábio e dotado de poderes divinatórios. Egeu contou a profecia ao amigo, afirmando que nada entendera, mas Piteu de imediato compreendeu seu significado. Piteu tinha uma bela filha, Etra e, depois de embebedar Egeu com vinho, fez a moça se unir a Egeu.

Etra ficou grávida porém, antes de conhecer o filho, Egeu teve de voltar a Atenas pois a situação estava instável devido à ambição dos sobrinhos. Por esse motivo, Egeu pediu a Etra que, se ela desse à luz um menino, só revelasse ao filho quem era seu pai quando ele tivesse forças para pegar a espada e as sandálias que estava deixando escondido sob uma enorme pedra. Depois disso, o filho deveria ir em segredo até Atenas portando a espada de seu pai e calçando suas sandálias, pois os ambiciosos palântidas eram capazes de matá-lo, mas Egeu o reconheceria.

Nasceu um menino que foi chamado de Teseu que cresceu vigoroso e forte como um herói. Aos dezesseis anos seu vigor
físico era tão impressionante que Etra decidiu contar-lhe quem era o pai e o que se esperava dele. Teseu ergueu a enorme pedra, recuperou a espada e as sandálias do pai e dirigiu-se para Atenas. Quando Teseu chegou em Atenas já era conhecido pelos seus feitos, mas o Rei Egeu não sabia que ele era seu filho.

Medéia já estava instalada no palácio real depois que foi expulsa por Jasão do seu reino. Ela sabia da identidade do
herói, mas não contou a Egeu e tentou convencê-lo a matar o forasteiro que poderia ser uma ameaça ao seu reinado. Colocando veneno no vinho, ofereceu ao visitante ilustre. Teseu tirou a espada para seu conforto à mesa, Egeu o reconheceu e evitou sua morte derramando o vinho. Medéia foi expulsa do reino.

Ao tomar conhecimento que seus primos, os cinquenta Palântidas, queriam tirar o trono de seu pai, Teseu se preveniu
contra eles. Os primos se dividiram para fazer uma emboscada, mas Teseu foi avisado pelo arauto chamado Leos e eliminou todos eles e seus aliados. Androgeu, filho do Rei Minos de Creta, era um dos aliados dos Palântidas e também foi morto no conflito.

Depois do conflito, Teseu se exilou por um ano em Trezena mas o Rei Minos rumou para Atenas com sua poderosa
esquadra e derrotou Egeu subjugando os atenienses. A cada 9 anos, 7 rapazes e 7 moças eram enviados para Creta onde eram colocados no labirinto do Minotauro. Porém, quando Teseu retornou a Creta se juntou ao grupo de jovens. Na partida usou velas pretas para navegar e seu pai entregou-lhe um jogo de velas brancas, para usar caso saísse vitorioso na missão.

Ariadne, a linda filha do poderoso Minos apaixonou-se por Teseu e prometeu ajudá-lo a sair do labirinto usando um
novelo de lã. Ariadne ficou à entrada do labirinto e Teseu foi desenrolando os fios enquanto penetrava pelos corredores. Teseu avançou e matou o monstro, retornando ao ponto de partida seguindo o fio que Ariadne segurava. Teseu casou-se com Ariadne tendo ela recebido um presente de Dioniso; um diadema de ouro cinzelado.

No caminho de volta para a
ilha de Naxos Teseu abandonou a jovem Ariadne. Encontrada inconsolável, Dioniso casou-se com ela e tiveram 4 filhos: Toas, Estáfilo, Enópion e Pepareto. Ao se aproximar de Atenas, Teseu esqueceu de trocar as velas negras pelas velas brancas. Quando seu pai avistou o navio pensou que ele havia morrido e atirou-se do penhasco, precipitando-se no mar, que então passou a se chamar Mar Egeu.

Teseu subiu ao trono, mas tornou-se infortunado. Organizou um governo em bases democráticas, reunindo os
habitantes da Ática, fazendo leis sábias e úteis para o povo, mas mais uma vez se ausentou em busca das aventuras que tanto apreciava. Depois de uma luta contra as Amazonas, Teseu teve uma apaixonada ligação com a Amazona Antíope e com ela teve o filho Hipólito. Antíope foi morta durante um ataque a Atenas.

Logo depois, Teseu casou-se com Fedra, a irmã de Ariadne, porém
Fedra se interessou pelo enteado, tendo feito de tudo para realizar a paixão arrebatadora. No entanto, Hipólito a repudiava. Diante da recusa, Fedra se enforcou deixando uma carta relatando a Teseu que havia sido seduzida por seu filho Hipólito. Teseu convencido do relato da esposa morta, expulsou Hipólito de seu reino, lançando sobre ele uma maldição.

Quando Hipólito dirigia sua carruagem pela estrada costeira, do mar veio uma onda gigantesca trazendo um touro-marinho que assustou os cavalos e que fêz lançar Hipólito sobre os rochedos que veio a cair morto. Quando Teseu recebeu o corpo destroçado do rapaz, toda a verdade lhe foi revelada. A partir disso a sorte de Teseu o abandonou.

Em uma de suas aventuras resolveu raptar Helena ainda uma criança e logo em seguida ir ao Hades raptar Perséfone, porque as duas eram de descendência divina. Teseu queria Helena como esposa e Perséfone se casaria com seu amigo Pirítoo. No entanto, os irmãos de Helena conseguiram resgatá-la e Pirítoo ficou preso na cadeira do esquecimento no Hades.

Quando Teseu retornou para Atenas, encontrou a cidade transtornada. Cansado de tanta luta,
sem ter um filho que herdaria o trono, resolveu morar na Ilha de Ciros. Licomedes, o que age como lobo, Rei da ilha de Ciros, sentindo-se ameaçado, resolveu matar o herói, jogando-o de um penhasco.

Mesmo depois de sua morte, a alma de Teseu ajudou aos atenienses na luta contra os persas. Dizem que os
atenienses arrependidos, foram a Ciro buscar suas cinzas e ergueram-lhe um magnífico templo. O episódio de Teseu e do Minotauro pode indicar uma revolução que libertou os atenienses. Escavações realizadas na ilha de Creta, no início do século, revelaram a existência de um grande palácio provido de imensos corredores que lembravam um labirinto.

Também afirmam que existem elementos que comprovam que os reis
de creta usavam, em certas festas e cerimônias religiosas, máscaras representando cabeças de touros. Historiadores relatam que Atenas durante muito tempo esteve dominada pelos reis de Creta, que lhe exigiam pesados tributos. Teseu, o grande herói ateniense, seu nome significa "o homem forte por excelência". Embora não haja registros históricos que provem, Teseu pode ter existido, conforme alguns historiadores que supõem que ele governou Atenas entre 1234 a.C. e 1204.

******************

Teseu é o herói que representa o masculino em permanente conflito com o mundo matriarcal, profundamente consciente do perigo e do apelo do feminino. Ele consome a vida lutando para não ser engolido por esse feminino, que em sua visão é devorador. Toda vez que as qualidades masculinas de iniciativa, assertividade, força e dinamismo estão em conflito com as qualidades femininas de receptividade, intuição, sensibilidade etc., há a sensação de privação de liberdade, dificuldade de exercer o poder pessoal, seja para os homens ou para as mulheres.

No período mais antigo, o sagrado era vivenciado de uma maneira muito forte como o feminino. As deusas do Olimpo: Hera, Deméter, Atena, Ártemis, Afrodite, Persefone e outras, representam cada uma um aspecto dessa força. Quando são consideradas isoladamente, essa força se torna mais branda e não representa riscos. Porém a feminilidade em sua totalidade é demasiadamente assustadora.

O abandono de Ariadne por Teseu na ilha de Naxos simboliza a predisposição para a depressão, para a tristeza, a falta
de energia para reagir, quando se passa por uma situação de abandono ou término de um relacionamento. Mas ao mesmo tempo, é a dissolução das expectativas que se tinha e que podem nos direcionar para um novo relacionamento. Ariadne é a figura feminina que tem iniciativa e por isso é entregue às suas próprias possibilidades.

O mito mostra a necessidade de superar a dependência psíquica do papel feminino submisso que muitas mulheres
assumem, sem que isso corresponda à sua verdadeira personalidade. Só depois da dor da separação é que ela assume um relacionamento onde cada um tenha sua própria alma, que surge na imagem de Dioniso.

Ele já havia aparecido na vida
de Ariadne muito antes quando lhe deu a coroa luminosa, mas ela não estava pronta para uma relação tão intensa. Algumas vezes se é conduzido a uma relação com alguém como fuga de uma reivindicação interna que é, de certo modo, excessiva para nós. Dioniso é um deus que não explora mulheres, ao contrário é visto como deus das mulheres. Em seus rituais suas servidoras eram do sexo feminino, as mênades; é ainda deus da loucura e do arrebatamento e do erotismo visionário.

É comum chamar Dioniso de "o semelhante à mulher", por ser extremamente habilidoso em levar os homens a constatar sua feminilidade. Seu pai Zeus, o carregou na coxa até seu segundo nascimento, para proteger Dioniso da fúria de Hera e Dionísio foi educado como menina.

A história psicológica de Ariadne é complexa. Sua mãe Pasífae copula com um touro de onde nasce seu meio irmão
Minotauro; sua irmã Fedra, casa-se mais tarde com Teseu, herói pelo qual Ariadne foi apaixonada mas vivencia uma tragédia. Estas experiências levam Ariadne a fazer uma integração psíquica com todos os componentes de sua personalidade, sentimentos e fantasias negativas representadas pelo Minotauro, tornando-se uma heroína íntegra e por isso sendo capaz de atrair uma figura como Dioniso.

Dioniso tem uma irracionalidade que serve de veículo de contato com a sombra da natureza humana, apresenta-se de forma alegre e generosa e ao mesmo tempo repulsiva e tenebrosa, é aclamado como doador de inumeráveis dons e temido como devorador e esquartejador de homens.

Ao mesmo tempo que é conhecido como o deus do frenesi e do
êxtase, é capaz de proporcionar sossego e quietude. É um deus da comédia e da tragédia, um produto de opostos complexos e a união dos opostos. É símbolo da criatividade, das soluções geradas pela junção de partes diferentes da psique que se integram e iluminam a vida com novos pensamentos, novas percepções e novas oportunidades.

Dioniso representa os traumas de parto, os traumas infantis, todos os medos que nos paralisam na tenra idade; sua
infância é muito sofrida e até assustadora. Ele enlouquece os homens e os liberta desta loucura, simbolizando o movimento psíquico entre as crises e conflitos, para depois restabelecer o equilíbrio com algo de novo, uma nova consciência, um renascimento psíquico. Dioniso faz a conexão entre corpo e alma, levando o corpo sentir tanto as fortes emoções, como a intimidade sutil de sentimentos delicados.

Dioníso é um deus da umidade, da quebra de fronteiras, aquele que aceita a depressão, vivencia a
alegria e experimenta a sexualidade como um sacramento. A união de Ariadne e Dioniso, representa a transposição da dor da perda, a capacidade de enxergar algo além, de decodificar o que pode simbolizar o sofrimento e conquistar o poder transformador que há em cada um de nós.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Tereu e o poder da comunicação



Tereu foi um rei da Trácia filho de Ares. Por ter ajudado o Rei Pandion II de Atenas numa guerra contra Tebas, ele lhe concedeu a mão de sua filha Procne em casamento. Procne viveu feliz durante algum tempo e teve o filho Itys. Porém, por ser muito ligada à sua irmã Filomena, sentia muita falta dela.

Tereu foi a Atenas pedir ao sogro que Filomena pudesse acompanhá-lo para fazer companhia a Procne. O pai consentiu, mas no caminho de volta Tereu cobiçou Filomela, a seduziu e aprisionou-a, além de cortar-lhe a língua para que não pudesse contar o que ele havia feito. De volta à Trácia, disse à sua mulher que a irmã havia falecido na viagem. Procne sofreu muito com a notícia.

Todavia, Filomela em seu cativeiro teceu um tapete contendo a história de seu infortúnio e
mandou-o secretamente à irmã. Ao saber do acontecido, Procne nada fez de imediato; esperou a festa de Dionísio - época na qual as mulheres podiam sair livremente para onde quiserem sem serem seguidas pelos homens - e libertou sua irmã.

As duas irmãs tramaram uma
vingança: mataram Itys e o serviram assado a Tereu. Quando descobriu que havia comido seu próprio filho, Tereu tentou matar as duas irmãs mas os deuses do Olimpo interviram e transformaram todos em pássaros. Tereu se transformou em Poupa e Procne em rouxinol, cujo lindo canto é de tristeza pela perda do filho. Filomela foi transformada em andorinha, pois não tinha língua para cantar...

******************

O mito de Tereu representa o nosso poder de expressão e comunicação. Quando perdemos nossa língua, nós nos perdemos. Um dos casos, é quando vamos a um país estrangeiro e não entendemos o idioma local. Sentimo-nos perdidos sem o poder de expressar o que queremos ou sequer conversar sobre as coisas mais simples.


Outra realidade é quando se tenta abafar a voz dos que querem falar e se expressar. Mesmo que os mecanismos restritivos sejam radicais, assim como Tereu que cortou a lingua de sua cunhada, não foi capaz de impedir que ela criasse um mecanismo criativo de comunicação.

Também quando nos sentimos impedidos de falar o que passa no fundo de nossa alma; vamos tecendo uma história particular, sem compartilhá-la com os outros. Assim estamos perdidos em nossa própria história, criada apenas em nossa imaginação. E de tanto viver dentro dela, acreditamos que ela é real, que espelha a realidade.


E finalmente quando criamos coragem de compartilhar a nossa vida e nossos pensamentos, embora outros possam nos advertir que estamos vivendo dentro de uma ficção, não aceitamos, de tão acostumados que estamos a viver de ilusão.
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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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