segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ixion e seus desejos incontrolados



Íxion foi um dos três maiores vilões da mitologia grega, ao lado de Sísifo e Tântalo. Tanto a culpa de Tântalo quanto a justiça no castigo de Sísifo ainda são questionáveis, contudo, não há argumentos capazes de defender Íxion, que foi o primeiro homem a assassinar um de seus parentes sobre a terra.

Filho de Ares e Perimele, Ixion era o Rei dos Lápitas na Tessália. Apaixonado pela filha de Dioneu, Ixion prometeu dar seus cavalos em troca da mão de sua filha. Porém, após o casamento, Íxion se negou a cumprir sua promessa. Seu sogro reagiu e tomou à força os cavalos que lhe haviam sido prometidos, mesmo assim Ixion jurou vingar-se prometendo que iria submeter seu sogro ao sofrimento e à morte.

Fingindo querer reconciliar-se, Ixion convidou seu sogro para vir à sua casa. Quando Dioneu chegou, Ixion convidou-o a entrar numa sala que na verdade era uma fornalha camuflada. Em um instante, Ixion trancou a porta e acendeu o fogo. Enquanto Dioneu era incinerado, seus gritos de desespero levaram Íxion ao arrependimento, mas era tarde demais. Ao abrir a porta da câmara, Íxion se deparou com o corpo carbonizado de seu sogro.

Diante da Hybris, o comportamento desmedido do Rei dos Lápidas, ninguém ousou purificá-lo e o remorso levou Ixion à loucura. Perambulando pelo mundo como mendigo, um oráculo previu que a única maneira de recobrar a sanidade seria submetendo-se a uma purificação para a expiação do seu crime, porém ninguém conhecia o ritual próprio para aquele caso, pois nunca antes alguém havia assassinado um membro de sua própria família.

Ao ver o sofrimento de Íxion, Zeus apiedou-se dele, restituiu-lhe a sanidade e o convidou a partilhar do banquete dos Deuses. Após o banquete, embriagado pelo néctar, Íxion passou a assediar a esposa de Zeus, seu anfitrião. Percebendo as intenções de seu convidado, Zeus decidiu preparar uma armadilha e criou uma cópia de sua esposa a partir de uma nuvem, dando-lhe o nome de Néfele. Ao deixar a réplica sozinha, Ixion seduziu a nuvem.

Após ter seduzido Néfele acreditando ser a esposa de Zeus, Íxion despediu-se dos Deuses e voltou para a Terra. Da união de Ixion com Néfele, nasceu a raça dos Centauros: metade-homem, metade-cavalo. Todos os Centauros eram descendentes de Íxion, exceto Quíron e Folo. Logo depois, Ixion divulgou para os mortais que havia seduzido a esposa de Zeus. Para castigar tal afronta, Zeus lançou Ixion no Tártaro condenando-o a permanecer preso a uma roda em chamas por toda eternidade.

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O mito de Ixion retrata os desejos incontrolados, o orgulho desmedido e a reincidência dos erros. Ixion representa a pessoa que não conhece a si mesma, não percebe o poder de sua força e nem sua sombra. Não valoriza o que conquista, não ama os que a rodeiam, não é capaz de avaliar o que pode ganhar ou perder devido à sua postura e não aprende com os próprios erros.

Presa em seu orgulho, confiante de sua onipotência e narcisismo, a pessoa não consegue desenvolver as qualidades de respeito, gratidão e amor que precisam do amadurecimento consciente. Para essa pessoa, nunca é suficiente o que possui e vivencia a inveja destruidora que ocupa o lugar da gratidão. É uma pessoa que não ama, apenas deseja e disputa o amor de outras pessoas como prêmios.

A pessoa não consegue integrar à sua personalidade as qualidades da sensibilidade, intuição, receptividade e a disponibilidade que dão acesso a alma. Presa apenas à sua matéria, a pessoa busca o que possa lhe trazer glória e prazer, negocia com sentimentos, ignora amizade, respeito e afeto. Assim como Ixion, que negocia seu casamento e depois tenta seduzir a esposa de Zeus, a pessoa se perde em desejos sem finalidade, tornando-se incapaz de transformá-los.

Só lhe resta queimar em seus desejos por longos anos, que parece eterno a quem sofre, mas é o único modo de secar as emoções negativas que geraram um comportamento tão perigoso para si mesmo. Esse processo de queima vem da frustração dos desejos instintivos. O desejo frustrado é um aspecto que abre possibilidade para que ocorra um processo de desenvolvimento.

Na vida, existe o princípio do desejo e o princípio da realidade. Uma pessoa que cede em tudo imediatamente, a quem nunca nada foi negado, suporta mal a frustração. Quem nunca vê negado um desejo, certamente se perde numa fonte inesgotável de solicitações. No entanto, quando a pessoa não tem tudo que quer, abrem-se novas perspectivas, pois passa a valorizar o seu desejo à medida que espera, podendo melhor saborear o que for obtido.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Atreu e Tieste, uma trama sem perdão



Aérope era uma princesa cretense, neta de Minos. Seu pai tinha recebido um oráculo dizendo que morreria nas mãos de um de seus filhos, mas o manteve em segredo. Quando seu filho Altémenes descobriu as previsões, fugiu com sua irmã Apemósine, deixando as irmãs mais novas, Aérope e Clímene, que foram entregues pelo pai a um mercador para que fossem vendidas como escravas em um país estrangeiro.

O mercador foi para Argos e ali Aérope conheceu e se casou com Atreu, que tinha sido acolhido pelo Rei Euristeu junto com sua mãe e seu irmão gêmeo Tiestes quando eles foram expulsos do reino por Pélops. Atreu e Aérope tiveram dois filhos: Agamenon e Menelau. Quando Euristeu se ausentou durante uma guerra estipulou que Atreu e Tiestes governariam temporariamente, mas Euristeu morreu em combate e eles passaram a disputar o trono.

A previsão do oráculo dizia que o herdeiro de Micenas seria um filho de Pélops. Seria coroado aquele que possuisse um cordeiro de ouro, considerado um emblema monárquico. Nos rebanhos de Atreu tinha aparecido o prodigioso cordeiro que indicava que Atreu subiria ao trono. No entanto, Tiestes seduziu Aérope, a esposa de Atreu, convencendo-a a roubar o cordeiro de ouro e assim tornar-se o rei de Micenas. Quando Atreu descobriu, Tiestes foi exilado para outra cidade, onde casou-se com Laodamía, tendo três filhos.

Porém Atreu resolveu vingar-se de Tiestes por ter seduzido sua esposa. Lançou Aérope ao mar e convidou Tiestes para um banquete fingindo querer reconciliar-se com ele. Serviu como comida os três filhos de Tiestes, que não se deu conta do que comia até que, finalizado o banquete, Atreu lhe mostrou as cabeças dos meninos. Tiestes lançou uma maldição sobre Atreu e seus descendentes, que ficou conhecida como a Maldição da Casa de Atreu.

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O Mito de Atreu e Tiestes se relaciona à rivalidade, traição, ódio e vingança, um dos temas de reflexão filosófica mais antigos do mundo. Conhecê-lo é importante para a formação cultural e, com certeza, segundo os psiquiatras Freud ou Jung, um ponto de partida para a compreensão de parte da psique humana.

Em nossa cultura cristã somos constantemente pressionados a perdoar. São inúmeras as mensagens que surgem através dos jornais, revistas, artigos na internet e no senso comum, a nos estimular a tal atitude. Mesmo supondo que devemos perdoar, que de algum modo é benéfico, a grande questão é: Como perdoar se nos sentimos feridos? O que fazer para que consigamos perdoar?

Não basta que nos digam que perdoar será bom para nós mesmos, que quem perdoa se torna mais
feliz, que não devemos ficar engolindo veneno etc. Perdão é algo impossível de ordenar ao coração; para perdoar precisamos de algo que venha a compensar a nossa dor.

Uma das formas mais rápidas e eficazes para se perdoar é a vingança. Alguém que se vinga, logo se torna capaz de perdoar. Dizem que a vingança é um prato frio que se come lentamente, ou seja, você se vinga, tira o peso do ódio e talvez perdoe, mas no final restam apenas os mortos, as ruínas e as cinzas. Esse é o desfecho. Contudo, mesmo que a vingança traga a compensação capaz de gerar o perdão, pode gerar uma culpa. É uma forma destrutiva e beligerante para apaziguar o ódio que se sente por quem nos fez algum mal, mas que traz um mal maior ainda.

Mas também existe outra forma pacífica de compensação, basta fazer com que o outro se sinta culpado, reconheça seu erro e venha a pedir perdão. A compensação surge ao perceber que o outro também sofre, que se sente culpado e precisa do perdão para aliviar seu sentimento de culpa. Também é uma forma velada de vingança, pois a culpa destroi o amor próprio, cria repulsa e faz com que o outro sinta ódio de si mesmo. Quem não sente a culpa, quem não não se odeia por um erro cometido, não merece perdão. Quem não reconhece que errou e não tenta reparar o erro cometido compensando a quem prejudicou, não merece perdão.

Mas somos capazes de perdoar sob algumas condições específicas, ainda que quem nos prejudicou não mereça perdão. Perdoamos quando são coisas irrelevantes. Ou perdoamos quando o tempo nos faz esquecer da ofensa. Ou perdoamos quando o outro nos repõe exatamente o que nos tirou. Ou perdoamos quando percebemos que nosso algoz está sofrendo pelo mal que nos fez. Se não houver uma dessas condições, não há o perdão verdadeiro.

Mesmo que você diga que esqueceu e que não pensa mais na ofensa, no fundo do coração haverá sempre o desejo de que Deus, algo ou alguém venha a cobrar a injustiça a que você foi submetido. Você só perdoa quando há uma reparação, quando há uma resposta efetiva e sirva como uma compensação ou a esperança de que um dia ela aconteça...



Alcmeón, uma questão de confiança



Alcmeón era filho do adivinho Anfiarau e de Erifila. Quando Polinice estava em Argos procurando guerreiros para lutar contra seu irmão Etéocles para retomar Tebas, Anfiarau recusou-se a participar da expedição porque previa que encontraria a morte caso aceitasse. Polinice tentou convencê-lo, mas ele resistiu e não concordou. Usando de estratégia, Polinice presenteou Erifila com um colar dourado que tinha sido da deusa Atena, para que ela convencesse o marido a participar da guerra.

Anfiarau estava disputando o reino de Argos com Adrasto que era irmão de Erifila. Os deuses designaram Erifila para decidir e ela decidiu dar o reino para Adastro. Sentindo-se traído pela esposa, Anfiarau recomendou a seu filho Alcmeón: caso ele não voltasse da guerra, deveria matar Erifila. Durante a guerra " Os Sete Contra Tebas ", Anfiarau morreu quando a terra se abriu e engoliu o carro em que ele estava.

Quando Alcmeón consultou o oráculo, descobriu que sua mãe havia recebido o colar para trair a confiança de seu marido além de que tinha recebido de presente uma túnica para que ela convencesse o filho a participar da expedição dos Epigoni. Sentindo-se também traído por sua mãe, Alcmeón matou-a.

As Erínias passaram a perseguí-lo, pois os deuses não perdoavam aqueles que cometessem assassinato na família. Alcmeón fugiu indo para o reino do Rei Phegeus. Ao chegar ao reino ele se apaixonou e casou com Arsínoe, filha do rei. No entanto, as Erinias continuavam a perturbá-lo. Aconselhado pelo oráculo de Delfos, ele partiu para as terras junto ao Rio Aqueloo prometendo a Arsínoe que voltaria. Mas quando ele chegou ao Reino de Aqueloo, tornou-se amante e casou-se novamente com Calírroe, filha de Aqueloo e teve com ela dois filhos.

Algum tempo depois, Calírroe pediu para Alcmeon o colar e a túnica que tinham sido de sua mãe, mas Alcmeón já tinha presenteado a Arsíone. Alcmeón voltou para convencer a ingênua Arsíone a lhe dar o colar e a túnica, dizendo que deveria entregá-los ao oráculo de Delfos para se livrar das Erínias. Confiando nas palavras do marido, sem saber que ele havia se casado novamente, Arsíone atendeu ao pedido sempre acreditando que ele voltaria para ela. No entanto, o pai de Arsínoe era astuto e descobriu os feitos de Alcmeón. Assim, ordenou que ele fosse morto antes de sair do palácio. Quando Arsíone estava a despedir do seu marido pela janela, presenciou o assassinato de Alcmeón.

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O mito de Alcmeon está relacionado à traição da confiança. Confiar é o ato de não duvidar se algo é verdadeiro ou não, é considerar que algo é real dando-lhe crédito. Confiar é muitas vezes considerado um ato de amizade ou de amor entre as pessoas, que pode se basear apenas nas informações que lhe são dadas podendo seguir uma linha de pensamento longe da verdade. O grau de confiança entre duas pessoas é determinado pela capacidade que elas têm de prever o comportamento uma da outra e tem como base experiências passadas que comprovam um padrão esperado e valores compartilhados percebidos como compatíveis.

A confiança também é a expectativa que nasce de um comportamento estável, honesto e cooperativo. Quando isso ocorre, temos condições de prever o comportamento do outro em uma dada circunstância; confiança é previsibilidade do comportamento. Ao observar o comportamento de alguém, somos capazes de identificar os valores que determinam por que as pessoas se comportam de uma determinada maneira. Portanto, quando dizemos que confiamos em alguém, estamos declarando que temos os mesmos valores éticos, que o outro está orientado a atender e defender os nossos interesses como se fossem seus. É a confiança que depositamos nos políticos que votamos.

Quando confiamos não há necessidade de negociar regras e normas. O excesso de negociações é um indicador que falta a confiança, porque se temos que negociar é porque não há confiança. Mesmo quando duas pessoas possuem fortes vínculos afetivos, por exemplo o marido e mulher, existem situações em que eles precisam negociar mas não é uma questão de honestidade. Se um planeja ir ao cinema juntos e outro planeja um jantar para o casal, eles negociam para que estejam compatíveis. Porém se um deixa em confiança que o outro decida, se torna um relacionamento de perde/ganha.

A confiança é o fundamento de qualquer relacionamento e a integridade é a sua base. A confiança não pode ser adquirida, deve ser conquistada. Desenvolver a confiança é uma construção que se ergue aos poucos e é preciso tempo para seguir etapas. E assim como uma construção, é mais rápido e fácil derrubá-la do que erguê-la. Porém quando há uma forte estrutura, o que for construído sobre ela resistirá e permanecerá...


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Aloídas, da força bruta à sabedoria





Havia uma geração de Gigantes que não pertencia às divindades primordiais. Eram os Aloídas, filhos de uma aventura amorosa de Poseidon, deus dos mares e Ifimedia, esposa de Aloeu. Conta a lenda que Ifimedia apaixonou-se por Poseidon e passeando à beira do mar foi pegando pequenas porções de água das ondas em suas mãos e derramando-a em seu peito. Não resistindo aos encantos, Poseidon viveu com ela um romance do qual nasceram os filhos gêmeos Oto e Efialtes.

Os gêmeos eram chamados de Aloídas por terem sido adotados por Aloeu, marido de Ifimedia. Eles se distinguiam por
sua extrema beleza. Além de serem gigantes, eram fortes e agressivos. O fato é que tiveram um rápido crescimento. Aos nove anos os Aloídas já haviam alcançado a altura de dezessete metros e já se mostravam violentos seguindo seus impulsos por onde passavam.

Certo dia os Aloídas junto com outros gigantes resolveram se rebelar contra Zeus.
Pretendendo destronar Zeus, raptar a deusa Hera - a esposa de Zeus - e a deusa Ártemis, eles empilharam os Montes Ossa e Pelion. Assim eles conseguiram criar uma grande escada para escalar e invadir o Olimpo - a morada dos deuses.  Quando Ares, o deus da guerra tentou impedí-los, os intrépidos gigantes aprisionaram Ares em um pote de bronze. Ali o deixaram por treze meses, até ser libertado por Hermes - o mensageiro dos deuses.

Na rebelião, os gigantes ameaçaram atirar as montanhas ao mar na tentativa de secá-lo. Diante de tanta ousadia, Zeus fulminou os Aloídas com seus raios e os aprisionou para sempre nos infernos. Amarrados a uma coluna cercada por serpentes, foram submetidos ao suplício eterno e torturados perpetuamente por uma coruja que gritava sem parar...



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O mito dos Aloídas está relacionado à descoberta da inteligência sobre os impulsos, da vitória da inteligência do homem sobre os seus instintos. É a força dos instintos que nos levam à ação e, embora haja uma diversidade de instintos, há alguns considerados básicos que podem se tornar dominantes e influir em nossa personalidade. São os instintos distorcidos na infância que produzem os comportamentos obssessivos.



Os aspectos físicos dos instintos foram reconhecidos como necessidades, o que permitiu uma nova visão sobre o comportamento do ser humano, que não busca apenas saciar suas necessidades físicas, mas deseja crescer e se desenvolver. As necessidades básicas, fisiológicas e de segurança, são mais primitivas e devem ser saciadas para evitar um estado indesejável, que são a fome, a sede e o medo.

As necessidades dos níveis mais altos são necessidades de crescimento, que buscam serem saciadas para se alcançar algo desejável, que são o afeto, a participação social, o reconhecimento de seus talentos, habilidades e autorealização. Ao mesmo tempo em que é desejável atingir os níveis mais altos, as necessidades básicas se mostram poderosas, pois somente quando estão saciadas, total ou parcialmente, torna-se possível perceber os níveis mais altos.

À medida que as necessidades sobem na hierarquia, tornam-se menos animalescas, mais distantes do instinto e mais humanas, mais próximas da razão. A razão é a capacidade da mente humana que permite chegar a conclusões a partir de suposições ou premissas. É, entre outros, um dos meios que os seres humanos usam para propor razões ou explicações para causas e efeitos.

A razão está particularmente associada à natureza humana, permitindo resolver problemas, encontrar coerência ou contradição, descartar ou formar novos conceitos de uma forma ordenada e geralmente orientada para objetivos. Isso inclui raciocinar, aprender, compreender, ponderar e julgar, por vezes usada como sinônimo de inteligência e sabedoria.

Como símbolo da sabedoria, a coruja tem muito a nos ensinar.  Ave noturna, ela não suporta a luz do sol. Seus olhos são adaptados para enxergar no escuro e localizar suas presas sob a fraca luminosidade do luar. Como as corujas se orientam pela reflexão (a luz solar sobre a lua) e não pela percepção direta (a luz solar), os gregos as associaram ao conhecimento, fruto da reflexão e da sabedoria.

A coruja era um animal de estimação da deusa Athena, a deusa da sabedoria, da estratégia, da justiça e da habilidade. Capaz de girar a cabeça quase que completamente e ver todos os lados, a coruja significa a capacidade de buscar diferentes pontos de vista para analisar todos os lados de uma questão. Compreender que há outros pontos de vista, é o início da sabedoria.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Trofônio e Agamedes, a busca pela felicidade total



Trofônio, filho de Apolo e Epicasta, era um dos mais célebres arquitetos da Antiguidade. Junto com seu padrasto Agamedes, ergueu belíssimas construções tal como o quarto nupcial de Alcmena, mãe de Héracles, e o templo de Posídon na Arcádia. Sabendo disso, Apolo mandou chamar Trofônio e Agamedes e pediu que eles construissem um templo para ele. Os dois aceitaram o desafio e logo deram início ao projeto criando um templo digno de um deus, com arcadas, abóbadas e muitos arabescos. Depois de algum templo foram mostrar o projeto para Apolo que considerou uma obra magnifica. Imediatamente Trofônio e Agamedes deram início à obra trabalhando com grande dedicação.


Dentro do prazo previsto chamaram Apolo para ver a obra pronta. Apolo ficou maravilhado com a beleza da obra e contemplando a obra perguntou aos construtores qual o preço do serviço que haviam feito. Como eles não tivessem um cálculo do trabalho, Apolo lhes deu uma enorme sacola repleta de moedas de ouro, recomendando-lhes que gastassem tudo nos próximos sete dias realizando tudo o que desejassem; no oitavo dia eles receberiam o pagamento que seria o maior premio que ambos pudessem ambicionar.


Durante os sete dias seguintes, Trofônio e Agamedes fizeram todas as vontades: comeram de todas as iguarias disponíveis, encharcaram-se de vinho, viajaram, compraram roupas e várias coisas para suas casas, dançaram, cantaram e chamaram os melhores sábios para lhes ensinar tudo sobre o universo. No sétimo dia, eles buscaram as mais lindas mulheres e gastaram o restante do que tinham, até a última moeda.


No oitavo dia toda a cidade aguardava Trofônio e Agamedes no templo de Apolo para ver o prêmio maravilhoso que a divindade lhes prometera: o prêmio maior que um mortal poderia aspirar. Porém, como não aparecessem, correram até a casa deles. Ali encontraram os dois deitados, imóveis, dormindo o sono eterno e impertubável, com um sorriso nos lábios. Morreram de tanta felicidade por terem realizado tudo o que desejavam...


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O mito de Trofônio nos remete à satisfação de nossos desejos como símbolo de felicidade. Das clássicas proposições filosóficas aos atuais manuais de auto-ajuda, a verdade é que o ser humano ainda não conseguiu dar uma resposta definitiva e satisfatória sobre o que é felicidade e como conseguir ser feliz.

Seguindo o caminho das certezas, as religiões prometem felicidade eterna, tendo como condição a fé religiosa. E assim como a arte e a política, prometem mas não cumprem a aspiração de proporcionar felicidade realista ao ser humano, porque ele está a priori condenado à insatisfação, à angústia e deve se contentar apenas com os momentos de satisfação parcial ou realização ilusória.


Talvez, o ser humano esteja mais próximo da felicidade quando sonha ou elabora projetos de uma vida feliz. É um equívoco pensar que a felicidade está na saciedade - a satisfação total de todas as nossas pretensões. Igualmente equivocada é a ideia de que a felicidade seja bem-aventurança, - uma alegria permanente. Mais equivocado ainda é considerar que a felicidade possa ser a beatitude - uma alegria eterna. Com base em uma hipótese filosófica ou supostamente científica universal, é praticamente impossível conceber um ser humano plenamente feliz.


O ser humano sempre buscou como prioriedade, para si e para todos, a sobrevivência física e depois a realização de alguns projetos representados pelos sonhos, pela arte e os projetos utópicos. Entretanto, o desejo se realiza por meio do disfarce, só assim ele pode ser feliz, porque na dimensão concreta da realidade jamais o ser humano conquistará a felicidade total. A realidade do mundo, dos acontecimentos e dos fatos, sempre frustra a sensação de ser feliz.


Conforme Lacan, " O desejo é sempre o desejo de um outro desejo que vive de sua insatisfação". O desejo jamais é satisfeito porque tem origem e sustentação da falta essencial que habita o ser humano, daquilo que jamais será preenchido e, por isso mesmo o faz sofrer, mas também impulsiona para buscar realização ou satisfação parcial no mundo objetivo ou na sua própria subjetividade através de sonhos, artes, projetos utópicos, fé no absoluto, etc.

A princípio bastaria ter saúde, amor e dinheiro suficiente, o que já seria louvável, no entanto, nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que estejamos sem febre; queremos além de saúde, ser sarados, bonitos e irresistíveis. Não basta termos o dinheiro para pagar o aluguel, a comida e o cinema; queremos uma piscina olímpica, o carro do ano, uma temporada num spa cinco estrelas e ainda mais. Não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando; queremos um grande amor, estar visceralmente apaixonados, ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, jantar à luz de velas todos os dias, sexo selvagem e diário. Esquecemos de ser felizes de forma realista, queremos sempre mais e mais.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável: fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar que seja eterno. É importante buscar o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-nos desumanamente para alcançar a felicidade plena, até mesmo porque a felicidade total não existe. A felicidade é um sentimento tão simples, que podemos encontrá-la e nem perceber. A felicidade transmite paz e não sentimentos fortes que atormentam o coração. Porque a inquietude no coração pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não é felicidade.


O homem se sustenta na existência porque cultiva utopias. O ser humano nunca será totalmente feliz, porque sua felicidade reside exatamente na busca da felicidade. Isso é o que o mobiliza até o final de seus dias, certo de que foi apenas relativamente feliz e de que poderia ter sido muito mais, guardando em si um desejo absoluto de felicidade.

sábado, 13 de agosto de 2011

Kairós, o deus das oportunidades




Kairós, o deus da oportunidade, era filho de Zeus - o deus dos deuses e de Tykhé, a divindade da fortuna e prosperidade. Descrito como um belo jovem calvo com um cacho de cabelos na testa, ele era um atleta e tinha uma agilidade incomparável. Resplandecente e com a flor da juventude, Kairós tinha duas asas nos ombros e nos joelhos. Se assemelhava a dioniso; tinha as bochechas vermelhas e a pele delicada.

Sempre sem roupas, ele corria rapidamente e só era possível alcançá-lo agarrando-o pelo topete, ou seja, encarando-o de frente. Depois que ele passava, era impossível perseguí-lo, pegá-lo ou trazê-lo de volta. Na entrada do estádio em Olímpia havia dois altares: um era consagrado a Hermes ,que simbolizava os jogos e o outro era consagrado a Kairós, que simbolizava a oportunidade.

Entre os romanos era chamado de Tempus, o breve momento em que as coisas são possíveis. Kairós tinha o poder do movimento rápido que podia passar despercebido aos olhos desatentos, tornando impossível recuperar a visão de sua passagem. Dada à sua natureza difícil, raramente proporcionava uma segunda chance. Na filosofia grega e romana é a experiência do momento certo e oportuno. Kairós era o tempo em potencial enquanto kronos era a duração de um movimento e uma criação.

Kronos, era descrito como o velho, o Senhor do tempo, das estações, da pressão das horas ordenadas pelo relógio e pelos dias, meses e anos determinados pelo calendário. Cruel e tirano, Kronos controlava o tempo desde o nascimento até a morte, aquele tempo comum, real, visível e rotineiro. O Tempo kronos era o ditador da quantidade de coisas realizadas durante o dia, o tempo burocrático, o tempo humano, o tempo que nunca é suficiente, o tempo que escraviza, preocupa e estressa. Kronos deu origem ao cronômetro e aos medidores do tempo, o tempo dos homens.

Kairós era descrito como um jovem que não se importava com o relógio, o calendário e o tempo cronológico. Kairós era o tempo que não podia ser cronometrado, o tempo que não pertencia a Kronos porque não previsível, apenas acontecia, por isso chamado de momento ou oportunidade. É o tempo divino que o vento traz, a vida conspira, decide acontecer sem tempo, sem hora marcada, se manifesta instante a instante e permanece eterno. Kairós marca os momentos que se tornam eternos, ainda que tenham sido breves. Os gregos acreditavam que com Kairós poderiam enfrentar o cruel tirano Kronos.

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Os gregos antigos tinham duas palavras para o tempo: Khronos e Kairós. Enquanto Khronos faz referência ao tempo cronológico, sequencial, o tempo que se mede, Kairós é o momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece, a experiência do momento oportuno.

Vivemos no contexto de Kronos, do tempo linear, o tempo que corre sempre para frente. Observamos a nossa idade avançar, o desenrolar de acontecimentos, mudanças, declínios e ascensões. Este é o tempo de Kronos, sempre implacável: algumas vezes cruel, outras vezes benigno, que dita o nosso tempo de vida. Estamos tão condicionados à necessidade de cumprir as expectativas do tempo imposto pelo relógio, que não nos permitimos ser naturais: tornamo-nos mecanizados pela força do tempo que exige de nós cada vez mais tempo.

Kronos nos torna menos humanos e nos torna mais máquinas, porque está sempre ao nosso encalço exigindo pontualidade, estabelecendo ritmos e metas. Máquinas enferrujam enquanto as pessoas envelhecem. Desde pequenos somos condicionados a Kronos para sermos aceitos, Kronos é severo e amedrontador que receamos ser devorados por ele. Pagamos um alto preço para cumprir as normas do tempo, deixamos de ser quem somos, repetimos trabalhos dias após dia até que aposentando, somos arremessados à depressão do nada fazer.

Em nossa vida estamos sempre lutando contra o tempo tentando distribui-lo entre as nossas diversas atividades diárias. A sensação de estar perdendo tempo com alguma coisa, seja no trabalho ou em um relacionamento, mostra a nossa preocupação com o tempo que escorre e nos deixa insatisfeitos. É o tempo que utilizamos para atender as expectativas externas e mesmo que queiramos otimizar o tempo, não garante a nossa felicidade. Porque para nos sentirmos felizes, é preciso mais do que usar o tempo com eficiência.

Kairós está relacionado à qualidade do tempo vivido, um tempo divino, presente nos momentos especiais e inesquecíveis, que não se perdem no tempo do calendário. Ele flui, vai e retorna, marcando os momentos emocionantes. Refere-se a um instante, ocasião ou momento, que deixa uma impressão forte e única por toda a vida. Por isso, Kairós refere-se a uma experiência atemporal na qual percebemos o momento oportuno em relação à determinada ação.

Quantos momentos Kairós deixamos de viver, por estarmos preocupados com o tempo Kronos: o primeiro sorriso de um filho, uma mão estendida no momento oportuno, o abraço confortante no momento de tristeza, um carinho que arranca a tristeza do coração em um momento de infelicidade. São muitos momentos Kairós, que apesar de breves, fazem a diferença. Quantos momentos Kairós são lembrados depois que alguém se foi e, independente do tempo Kronos que tenhamos vivido com essa pessoa, são os momentos Kairós que deixam as lembranças inesquecíveis.

São as recordações dos momentos Kairós que nos fazem sentir saudade. Quando estamos vivendo os momentos Kairós queremos que Kronos permaneça imóvel, porque queremos que o tempo pare para eternizar o momento. O momento passado é único mas pode ser revivido quando se fecha os olhos para senti-lo novamente. E por permitir sentir novamente, ele também se relaciona ao ressentimento, que é a face negativa de Kairós.

Trazendo o mito de Kairós para o nosso passado, certamente iremos constatar que muitas vezes o tempo das oportunidades se fêz presente e o deixamos escapar. Bons negócios, possibilidades de estudos e relacionamentos, chances de perdão e reconciliação, são algumas das aberturas que ocorreram, que poderiam ter atenuado a implacabilidade de Khronos. Este sempre segue o seu curso, não obstante nossas perdas ou ganhos.

Quando vivemos no tempo Kairós aumentam as oportunidades em nossa vida. Basta repensar como surgiram nossas melhores oportunidades: de certa forma, estávamos desprogramados das exigências do tempo cronológico. Para os gregos Kronos representava o tempo que faltava para a morte, um tempo que se consome a si mesmo. Por isso, seu oposto é Kairós: momentos afortunados que transcendem as limitações impostas pelo medo da morte.

Sempre que agimos sob o tempo kairós, as coisas costumam dar certo porque sabemos a hora certa de estar no lugar certo. Por exemplo, quando estamos quase desistindo de algo e resolvemos dar um tempo para a pressão, do nada surgem as pessoas certas que nos ajudam com soluções reais e práticas. Agir no tempo regido por Kairós é similar a um ato mágico. Kairos é o tempo oportuno, livre do peso de cargas passadas e sem ansiedade de anteceder o futuro. Ele se manifesta no presente, instante após instante.

Esse tempo mágico ou oportuno é um convite para nos despojarmos da razão exagerada, cronológica e voltarmos a brincar com o tempo e vivê-lo com leveza e intensidade. O espírito infantil é livre para aprender, criar e pode resgatar a busca da compreensão da totalidade humana. O arquétipo da eterna criança deve encontrar acolhida em nossos corações para que possamos prosseguir na travessia de nossas vidas, aprendendo sempre ou pelo menos tentando, como um eterno aprendiz.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Esopo, o contador de fábulas



Esopo foi um lendário autor grego que teria vivido na Antiguidade, ao qual se atribui a paternidade da fábula como gênero literário. As Fábulas de Esopo serviram como base para recriações de outros escritores ao longo dos séculos, como Fedro e La Fontaine. Na verdade, todos os dados referentes a Esopo são discutíveis e trata-se mais de um personagem lendário do que histórico. A única certeza é que as fábulas a ele atribuídas foram reunidas pela primeira vez por Demétrio de Falero, em 325 a.C..

Esopo teria sido um escravo que foi libertado pelo seu dono que ficou encantado com suas fábulas. Ao que tudo indica, viajou pelo mundo antigo e conheceu o Egito, a Babilônia e o Oriente. Concretamente, não há indícios seguros de que tenha escrito qualquer coisa. Entretanto, foi-lhe atribuído um conjunto de pequenas histórias, de caráter moral e alegórico, cujos papéis principais eram desenvolvidos por animais.


Em Atenas no século 5 a.C. essas fábulas eram conhecidas e apreciadas. Suas fábulas sugeriam normas de conduta exemplificadas pela ação dos animais, mas também de homens, deuses e coisas inanimadas. Esopo partia da cultura popular para compor seus escritos. Os seus animais falavam, cometiam erros, eram sábios ou tolos, maus ou bons, exatamente como os homens. A intenção de Esopo em suas fábulas, era mostrar como os seres humanos podiam agir, para bem ou para mal. Assim como Homero, as fábulas de Esopo faziam parte da tradição oral dos gregos, por isso não foram escritas pelo seu suposto autor.

Mais de duzentos anos depois da suposta morte de Esopo, suas fábulas foram reunidas e escritas.
Uma das fábulas de Esopo falam do sol e do vento:

" Certo dia, o sol e o vento disputavam entre si quem era o mais forte capaz de fazer que os outros se curvassem ao seu poder. Ao avistarem um viajante que caminhava numa estrada resolveram usá-lo para a prova. Aquele que conseguisse obrigar o viajante a tirar o casaco seria o mais forte.


O Sol se escondeu entre as nuvens e o vento começou a soprar com toda a força. Quanto mais soprava, mais o homem ajustava o casaco ao corpo. Não conseguindo, o vento retirou-se. O sol saiu despontou entre as nuvens e brilhou com todo o seu esplendor sobre o homem, que logo sentiu calor e despiu o paletó.


Moral da história:
O amor constrói, a violência arruína!...


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Eros e Thanatus, pulsões de vida e morte



Eros, filho de Afrodite - a deusa do amor, era o cupido que atirava suas flechas do amor, deixando as pessoas apaixonadas. Ele carregava as flechas sempre consigo e numa tarde quente, cansado de brincar e sentindo muito calor, Eros abrigou-se em uma caverna fresca e escura. Querendo apenas descansar, Eros jogou-se displicentemente ao chão, tão descuidadamente que todas as suas flechas caíram.

Eros não sabia mas estava na caverna de Thanatus, o deus da Morte. Quando ele acordou percebeu que suas flechas do amor tinham se misturado com as flechas do deus da Morte, que também estavam espalhadas no solo da caverna. Eram tão parecidas que Eros não conseguia distinguí-las, mas sabendo quantas flechas tinha levado consigo, ajuntou a quantidade certa e partiu.

Naturalmente, Eros levou algumas flechas que pertenciam a Thanatus e deixou algumas das suas. E é assim que vemos, frequentemente, os corações dos velhos e dos moribundos atingidos pelas flechas do amor, e às vezes, vemos os corações dos jovens capturados pela Morte.

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O mito de Eros e Thanatus está relacionado a duas forças ou dois desejos conflitantes que movem as pessoas: Eros - a pulsão de vida, libido, sobrevivência, propagação, apetite, sede e sexo; Thanatus - a pulsão de morte, a negação e destruição. Eros e Thanatus podem criar uma infinidade de formas de vida e de morte. O conceito de tanatismo é baseado no predomínio do instinto de morte sobre o instinto de vida. Os múltiplos disfarces do instinto de morte e seu maquiavelismo devem ser estudados para enfrentá-los e sobrepujá-los pelo instinto de vida.

A felicidade perene é uma utopia; a felicidade é um sentimento periódico que acontece em vários momentos felizes, por exemplo: estar com quem se ama, reencontrar um amigo depois de um longo tempo ausente, ouvir as risadas dos filhos, ouvir uma declaração de amor, pagar todas as dívidas, terminar a construção de uma casa etc. Em todas essas situações não há agressividade destrutiva, logo a felicidade está no amor.

Ser feliz é amar, sentir-se útil, dedicar-se a algo que lhe dê prazer em realizar, por exemplo, dedicar-se às artes, à ciência, à humanidade etc. Porque toda dedicação é a capacidade plena de amar. Segundo o conceito de Bertrand Russell, “ a vida deve ser inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento”. Para tornarmo-nos infelizes, não precisamos de nada mais que nós mesmos.

Eros nos ensina a amar, a cultivar amizades autênticas, a apreciar as artes, as ciências e tudo de bom e belo que existe no mundo. Ele nos dá a energia necessária para sentir-nos motivados, cheios de entusiasmo e alegria, para conduzir a vida com sentido e contribuir com nossa parcela de talento para o progresso da humanidade.

Thanatus nos atrai para a morte. Ele extrai do nosso ser toda energia, toda vitalidade. Vivemos nossa existência sem propósito, sentimo-nos apáticos, carentes de motivação. Não achamos graça em nada, tudo é tristeza, insatisfação, constrangimento. Experimentamos uma existência sem cor, vendo os dias e as noites passarem, sentindo o final inevitável se aproximar.

Eros nos convida a festas para dançar, encontrar pessoas alegres, beber um bom vinho, saborear gostosas comidas e depois quem sabe, em companhia de alguém muito especial, passar o resto da noite, com muito amor, sensualidade e aconchego.

Thánatus nos induz à solidão e à tristeza; encobre a alegria de sair de casa, ir ao cinema, ao teatro, ao jogo de futebol. Para ele, nada disso faz sentido. Em sua ótica, é preferível permanecer impassível, remoendo ressentimentos ou preocupando-se com o futuro, suas vicissitudes ou com a provável chegada da morte a qualquer momento.

Eros estimula-nos a encontrar os amigos, a desfrutar seus talentos, a compartilhar a vida em toda sua plenitude. Ele incentiva-nos a buscar o prazer, a alegria, a felicidade. Proporciona-nos a inspiração para compor versos, escrever contos ou romances, cantar alegres melodias ou tocar algum instrumento musical.

Podemos nos render ao amor ou flertar com a morte, pois tanto Eros quanto Thanatus tentam nos atrair. Cabe a cada um decidir quem escolherá como sua prazeirosa companhia. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...

Iolaos e as escolhas sexuais



Iolaos foi um herói divino tebano, filho de Íficles e Automedusa. Era sobrinho e fiel companheiro de Hércules em suas aventuras e foi Iolaos que ajudou Hércules a vencer a Hidra de Lerna. Quando Hércules morreu, foi Iolaos quem preparou as cerimônias de sepultamento de Hércules e acendeu a pira.

Tido como um Eromenoi, termo que designava os amantes e ouvintes de jovens rapazes, Iolaos teve vários Erastes, que eram aqueles rapazes que dependiam de atenções de outros homens originando o termo Pederastia. Prezado por sua modéstia, esforço e coragem, Iolaos era visto constantemente abraçado com rapazes. Porém Hércules havia recomendado que ele se casasse com Mégara, ex-mulher de Hércules e filha de Creonte Rei de Tebas. Assim, Iolaos poderia herdar o trono de Tebas.

Iolaos liderou uma colônia grega na Sardenha e o Festival Atlético Ioleia era dedicado a ele, consistindo em eventos ginásticos e equestres realizados em Tebas. Atendendo ao desejo de seu tio, Iolaos se casou com Mégara e teve uma filha, Leipefilene. Sua filha casou-se com Phylas gerando a filha Thero e o filho Hipotes que fazia parte da força dória. A invasão dórica devastou a civilização micênica ocasionando a obscuridade da Grécia no fim da Idade do bronze. Alguns autores chamam a esse tempo da história grega de "Idade das trevas".

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O mito de Iolaos está relacionado às escolhas sexuais que são influenciadas em grande parte pelas informações, conceitos, preconceitos, mitos e verdades decodificados na infância. A escolha sexual passa por um processo físico, emocional e social que se baseia nos modelos de comportamentos percebidos na infância além das próprias características particulares. O tipo de pessoa que escolhemos está relacionado a esses modelos que recebemos durante nosso desenvolvimento, às pessoas que conhecemos e às histórias que acompanhamos.

Podemos aprender muitas coisas em nossas vidas, a sermos gentis e elegantes na sociedade e da mesma forma precisamos aprender a lidar com a nossa sexualidade. O ser humano naturalmente busca envolvimentos afetivos e amorosos para atender às suas necessidades de amor, prazer e carinho que se baseiam em suas fantasias, crenças, medos, insatisfações, certezas e entendimentos do mundo. São as fantasias e desejos que irão influenciar as formas que usaremos para obter prazer e as possibilidades de realizá-los.

A complexidade do ser humano é formada pela razão e pela emoção. O desejo é livre mas a execução deles depende da razão. Desejar é expressar a parte humana que existe em cada pessoa, mas executar o desejo é expressão da capacidade de entender o mundo e viver socialmente. Faz parte do desenvolvimento pessoal ter respeito pelos próprios valores, ter espontaneidade na expressão dos próprios desejos e de suas pontencialidades criativas, superando as próprias limitações.

Atender aos desejos é expressar a individualidade mas os preconceitos persistem e dão origem ao desrespeito e à agressividade, inibindo o direito de escolher ser e fazer o que se deseja, sem respeito por aqueles que sentem, pensam e percebem o mundo de maneira diferente. A sexualidade deve ser olhada e aceita como algo natural que faz parte do desenvolvimento do ser humano e de sua evolução. Faz parte das descobertas, das experiências pessoais e principalmente da expressão da vida. Para vivenciar a própria sexualidade sem culpas ou sofrimentos é necessário ter respeito por si mesmo e enfrentar seus medos. E isso pode ser conquistado através da consciência de quem se é, da noção das suas possibilidades e da responsabilidade por suas escolhas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Tétis e a proteção aos filhos



Tétis - a do pé prateado, era a nereida mais formosa de todas as cinquenta filhas de Nereu - o deus marinho e Doris. Tétis foi criada por Hera, a deusa esposa de Zeus, que tinha grande gratidão por Tétis ter acolhido seu filho Hefesto quando ela o jogou no mar por ele ter deficiências físicas. Amada por Zeus, o soberano dos deuses, Tétis resistia às suas tentativas de sedução pela fidelidade que dedicava a Hera.

Apaixonado por Tétis, Zeus foi consultar o
oráculo para descobrir uma forma de seduzi-la, porém o oráculo revelou que no destino de Tétis estava determinado que ela teria um filho que seria o maior de todos os deuses. Preocupado com essa possibilidade, Zeus pediu ajuda à Afrodite - a deusa do amor - que fêz Peleu apaixonar-se perdidamente por Tétis.

Peleu, que foi educado por Kiron, era Rei da Ftia uma região da Tessália, porém já estava fraco e velho. A intenção de Afrodite ao despertar a paixão arrebatadora em Peleu era de que Tétis casando-se com um homem em plena decadência, talvez enfraquecesse o filho e casando-a com um mortal o filho também seria um simples mortal, submetido às Parcas - deusas do destino, que determinavam o tempo de vida e morte a todos os mortais.

Peleu
tentou conquistar Tétis de todas as formas até que ela aceitou seu pedido de casamento. Peleu e Tétis casaram-se no alto do Monte Pélion em magnífica cerimônia. Os deuses honraram-na com sua divina presença e pela última vez estiveram reunidos com os simples mortais. As próprias musas entoaram o epitalâmio - canto nupcial - e conforme a tradição, cada um dos deuses deu um presente. Poseídon presenteou os noivos com dois cavalos imortais, Bálio e Xanto, que eram capazes também de falar.

Porém, Éris - a deusa da discórdia - não foi
convidada para a festa. Sentindo-se rejeitada, Éris vingou-se lançando um pomo de ouro entre as deusas Hera, Afrodite e Atena com a mensagem: "Para a mais bela das deusas". Disputando quem seria a mais bela, coube a Páris escolher e ele escolheu Afrodite por ela ter-lhe prometido o amor de Helena, uma bela mulher que era esposa do lendário Rei Menelau. Desencadeou-se uma disputa por Helena que foi raptada por Páris dando origem à Guerra de Tróia.

Tétis e Peleu tiveram sete filhos, porém os filhos nasciam simples mortais como o próprio pai. Em vão Tétis
tentava transformar os filhos em deuses passando-os pelo fogo sagrado e todos morriam queimados. Quando nasceu o último filho, Peleu evitou que ele tivesse o mesmo destino dos anteriores, tomou-o das mãos de Tétis e deu-lhe o nome de Aquiles. Ele se tornaria o grande herói da Guerra de Tróia, anos mais tarde. Mas Tétis não havia desistido de tornar seu filho um deus imortal.

Ocultando-se de Peleu, Tétis levou o filho recém
nascido ao Rio Estige em cujas águas residia o dom da imortalidade. Segurando o filho pelos calcanhares, ela o mergulhou nas águas tornando-o invulnerável às moléstias e às feridas, exceto seus calcanhares que não foram tocados pela água. Aquiles cresceu e quando estava em combate na Guerra de Tróia, foi mortalmente ferido por uma flecha no calcanhar, dando origem à expressão "Calcanhar de Aquiles" que faz referência às fragilidades existentes em todos nós. Embora Aquiles tenha conquistado grande glória e se tornado um grande heroi, Tétis não conseguiu enganar as Parcas, nem transformar o que era humano na mesma matéria da qual são feitos os deuses.

**************

O Mito de Tétis e seu filho simbolizam os pais que, inconscientemente, desejam que seus filhos se tornem divinos, como
deuses. Os pais desejam que os filhos vivam eternamente, que nada de mal lhes aconteça e anseiam que eles sejam melhores que outras crianças, que sejam lindos, talentosos, bilhantes, únicos e especiais. Porém é humanamente impossível que estejam livres das limitações e das dificuldades impostas pela vida.

Um filho jamais conseguirá estar à altura das expectativas dos pais e estará sempre vulnerável aos males do mundo e de sua índole, apesar de todos os esforços que os pais possam empreender para protegê-lo.
Muitos pais tem a esperança de que o filho possa redimir de algum modo os seus sonhos que não foram realizados ou que possam corrigir um erro do passado. Pais que não tiveram uma boa infância, tentam conceder aos filhos tudo o que lhes faltou, se esforçam e fazem verdadeiros sacrifícios para que o filho estude, se não tiveram oportunidade de estudar. Há ainda aqueles pais que desejam que seu filho siga a sua mesma profissão, que tenham o mesmo sucesso, retirando do filho a oportunidade de escolher seu próprio destino.

A concessão aos filhos do que lhes foi negado em sua infância é uma esperança de que os filhos possam dar sentido às
suas vidas, em vez de permitir que os filhos vivam suas suas próprias vidas. E quando os filhos tropeçam na vida, como é comum acontecer a todos os seres humanos ou quando demonstram ingratidão pelos esforços que lhes são dedicados, os pais se sentem frustrados e decepcionados. Essa é a mensagem de Tétis e Aquiles, quando se permite que o filho escolha seu próprio caminho, quando se esforça pelo filho sem esperar reconhecimento, não há frustração de expectativas.

O casamento de Peleu e Tétis retrata um casamento em desequilíbrio onde Tétis julgava-se superior desejando que o filho fosse um deus como ela e rejeita a ideia de que o filho possa ser como o seu pai, um simples humano mortal. É comum esse dilema, pois secretamente a mãe deseja que o filho seja como ela e o pai deseja que seja como ele, esquecendo que uma criança é o resultado da união deles. Isso se torna mais real dentro dos casamentos infelizes. Um pai pode esforçar-se inconscientemente para afastar a filha da mãe por temer que alguém possa interferir nos laços entre pai e filha e vice-versa.

Esses dilemas são meramente humanos e os mitos retratam os seres humanos, somos todos deuses de nossa própria história.
Quando os pais conseguem ter a consciência de não alimentar expectativas quanto aos seus filhos e os amam mesmo quando não correspondem às suas expectativas, na verdade estão incentivando para que eles possam seguir confiantes em seu próprio caminho. É uma forma de permitir que o filho tenha suas experiências e aprenda a superar suas limitações com coragem. São os comportamentos inconsciente dos pais que podem causar grandes danos a um filho.

Todos os pais devem ter sempre a noção da realidade e nunca acalentar expectativas irrealistas a respeito dos filhos. Eles não são e jamais serão deuses, são apenas humanos. Nenhum filho jamais conseguirá glorificar ou redimir a vida de seus pais. A união de Tétis e Peleu é a união de uma deusa e de um simples mortal, algo que está na origem de todo ser humano. Quando os pais se lembram de que seus filhos são apenas humanos, se tornam capazes de compreender os talentos e as fraquezas de seus filhos, tornando-se pais mais sensatos e generosos.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Unicórnio, a doce e cruel ingenuidade



O Unicórnio é um ser fantástico descrito pela primeira vez pelo médico grego Ctésias, há mais de dois mil anos. De acordo com Ctésias, o unicórnio seria nativo de terras indianas, um animal forte, veloz e que apresentava um temperamento hostíl. Alguns emitiam ruídos graves. Segundo relatos, o unicórnio com pêlos brancos tinha o tamanho de um jumento com um único chifre espiralado no meio da testa. Em algumas espécies esse chifre era branco na base, preto no meio e vermelho-vivo na ponta.

Seu nome se origina de duas palavras: Unus que significa Um e Cornus que significa Chifre. Símbolo da pureza,
esperanca, amor, majestade, poder, honestidade, liberdade e de todos os bons sentimentos do ser humano, esse ser selvagem e indomesticável somente se curvava às virgens inocentes e puras; deitava-se sobre o colo dela e adormecia, deixando-o indefeso aos caçadores. Eles habitavam os jardins sem lugar específico e se escondiam onde não havia perigo.

Citado na mitologia grega, romana e oriental, também foi mencionado na Biblia nos Salmos 22:21, 29:6 e 92:10. Notável
por sua anatomia e habilidade, a verdadeira força do Unicórnio estava em seu chifre e a crença popular lhe atribuia poderes magicos de cura. Na época medieval, o chifre pulverizado era usado para curar picadas ou mordidas venenosas, ataques de vermes, perda de memória e muitas outras moléstias. Tão arraigada era a crença no poder mágico do Unicórnio, que o chifre pulverizado continuou a ser utilizado por farmacêuticos ate o século 17.

Dizia-se que o chifre cobria-se de suor quando colocado junto de alimentos envenenados, sendo usado para detectar
veneno nas cerimônias das côrtes europeias ate 1789. Também segundo reza a lenda, possuia incríveis poderes mágicos e um cálice feito do chifre propiciava proteção a quem bebesse nele. O chifre era um talismã de poder soberano, mas sua força e virtude só podiam ser ativadas através de outro unicórnio.

No chifre residia a história total do Unicórnio e também era recipiente de seus pensamentos. Em horas de perigo ou de
concentracão prolongada, o chifre podia exalar certo brilho ou um esplendor suave, porém sua luz diminuia até se extinguir quando nas mãos de outros. Para a proteção do unicórnio não podemos ver o seu chifre, por isso ele pode ser confundido com um simples cavalo.

Como símbolo extraordinário de excelência, diz a lenda que o primeiro Unicórnio chegou na Terra embrulhado em uma
nuvem. Desceu com suavidade dos céus aos campos infantis da Terra. Dotado de um chifre de luz em espiral, com seu chifre penetrou uma pedra e fêz brotar a fonte da vida. A Terra comecou a ser fecundada e grandes arvores floresceram; abaixo em suas sombras foram povoadas com bestas selvagens.

Tudo isso era intencão de Deus e o Unicórnio, o
instrumento de seu querer. Deste modo se formou o Jardim do Unicórnio chamado de Shamagim, que quer dizer Lugar onde há água. E Deus lhe deu uma mensagem: " Unicórnio, você será entre todas minhas criacões a que, em memória permanente da Luz, será seu guia e guardião mas você nunca devolverá a Luz até o final do Tempo".

**********************

Considerado um equino fabuloso e benéfico, o unicórnio é associado às virgens e a todos os inocentes, ingênuos e puro
em seus sentimentos, por isso, o mito relata que a única pessoa capaz de domar um unicórnio era uma donzela pura. Através da sua intemperança e incapacidade de se dominar, diante das donzelas, o Unicórnio esquece a sua ferocidade e selvajaria. Ele põe à parte a desconfiança, aproxima-se da donzela e adormece em seu colo. Assim se torna vulnerável aos caçadores.

O mito nos remete à inocência e à ingenuidade. A compreensão da vida nos dias atuais torna-se mais complicada para
todos aqueles que veem com ingenuidade e inocência tudo a seu redor. A ingenuidade é uma inocência franca. A pessoa ingênua traz consigo um traço quase infantil, pois é na infância que a criança demonstra sua ingenuidade a ponto de não temer o perigo, afinal, não consegue mensurá-lo com sua inocência.

A ingenuidade é uma atribuição do espírito que dificulta a percepção de acontecimentos maldosos e maledicentes. Todas as criaturas ingênuas são pessoas boas que olham o mundo e as demais pessoas sem maldade, assim como uma criança. Com isso sofrem mais, pois se decepcionam com facilidade, recebem fortes golpes da vida que é dura e rigorosa, além de que pessoas sem princípios se aproveitam delas.

É pela boa índole da criatura que a ingenuidade se propaga, provém do espírito bom que não consegue enxergar a
maldade que existe por toda parte. Tais criaturas se voltam às boas ações e às gentilezas que dispensam a todos de igual forma, o que muito as dignificam. Porém, sem prudência, precaução e cautela, ignorando a existência das crueldades que existem no mundo e nas pessoas, podem ser duramente surpreendidas.

Diariamente somos inundados por inúmeras promessas de curas milagrosas, métodos de leitura ultra-rápidos, dietas
infalíveis, riqueza sem esforço, "trago seu amor de volta em 3 dias" etc. A maioria aparece trasvestida com alguma roupagem científica, linguagem rebuscada, aparente comprovação, depoimentos de pseudos-renomados pesquisadores etc. São casos típicos que, utilizados com má fé, são destinados a usurpar o dinheiro de pessoas que ingenuamente acreditam em evidências casuais e rumores.

Mas nem sempre o usurpador é o único culpado. A ingenuidade perversa é atraente para as pessoas pelo temor e pela cobiça. Elas temem que não superarão suas feridas, temem um mau resultado e então procuram encontrar um quebrador de maldições para evitar um destino ruim. Elas ambicionam o sucesso e a riqueza sem esforço. Temendo não serem capazes de produzir algo ou superar seu estado de infelicidade, elas desejam que alguém solucione seus problemas sem que elas tenham de se esforçar para isso.

A criatura puramente ingênua precisa de buscar orientação para conhecer as maldades da vida. Assim como a criança que precisa dos pais para a alertarem do perigo, a pessoa ingênua necessita buscar uma visão mais prática deste mundo, ora experimentando a doçura que tem em ver o mundo azul, florido e cheio de amor, ora tendo um ceticismo, capaz de levá-la a colocar os pés no chão. Na verdade, a busca da harmonia entre esses dois lados é constante. É preciso ter os pés no chão para não se deslumbrar com a vida mas também a doçura para não se tornar amarga.

Nos relacionamentos, é essencial formar uma parceria sem domínio, onde as partes envolvidas em situações diferentes podem auxiliar-se mutuamente. Caminhar junto em direção à meta consciente do esclarecimento espiritual, onde os opostos descobrem que são absolutamente complementares. Um pode aprender a olhar um pouco com os olhos do outro e, assim, forma-se um equilíbrio onde nem a ingenuidade total nem a maldade imperam, mas sim, o bom senso e o equilíbrio.

O mito nos mostra que não devemos nos deixar levar pelas falsas belezas da vida e tampouco pelas agruras que ela nos oferece. Sejamos práticos quando necessário e doce quando for possível. Seguir o caminho da verdade é saber reagir com indiferença às ingratidões, sem esquecer que quem faz o bem ou faz o mal, a si mesmo estará fazendo. O ânimo que traz o esclarecimento espiritual nutre a nossa alma, e mostra que não perder totalmente a ingenuidade, é não perder a confiança de que um dia a humanidade evolua.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Escopas e a sabedoria de receber críticas



Escopas era um poderoso rei da Tessália que não admitia e ninguém era audaz para contestar seu poder. Riquezas chegavam às suas mãos e reinos vizinhos quase sempre vinham lhe trazer honrarias em presentes. Ainda assim, Escopas não se sentia completo, suficiente e absolutamente feliz. "O que lhe falta ainda?" - perguntavam-lhe, mas ele não sabia responder.

Certo dia Escopas escutou a música e os poemas de Simônides, o príncipe dos poetas de toda a Grécia. Escopas compreendeu tudo e alegremente mandou chamar o poeta. Ao vê-lo, o rei ordenou que ele fizesse um poema celebrando em versos inesquecíveis as suas gloriosas façanhas, que fosse tão extraordinário que haveria de ser cantado e repetido pelas gerações através dos tempos.

Simônides entendeu que para exaltar o rei em versos teria de fazer uma peregrinação desde os feitos gloriosos dos seus ancestrais, fazendo comparações que elevariam o mérito do homenageado ao erguer as suas virtudes.
Tentando elaborar os primeiros versos da imensa epopéia, Simônides não encontrava algo do qual o rei poderia vangloriar-se, apenas crimes e barbaridades marcavam o rei e também seus antepassados.

Ambição, inveja, ciúmes, assassinatos, estupros e ações crueis eram os temas encontrados, mas nenhum feito justo, humano e glorioso, por menor que fosse, havia para ser narrado. Mas o talento superior do poeta conseguiu transformar com beleza aquelas atrocidades selvagens.
No dia da primeira audição de seu poema, reuniram-se o rei e toda sua corte. E assim começou Simônides:

- " Escopas, poderoso rei da Tessália, temido e amado pelos súditos e pelos reis de toda a Grécia, aqui está o produto do meu suado labor, que não tem outro fim senão o de contar em versos perfeitos a trama sublime que as Moiras divinas teceram para compor o tapete glorioso de vossa vida ".

Dando início à sua maravilhosa epopéia, todos os circunstantes bebiam suas palavras como quem sorve um saboroso vinho até que o poeta entrou numa vereda do seu poema. Em uma longa divagação, Simônides exaltava as virtudes guerreiras e honradas dos irmãos Castor e Pólux, mas que na verdade pouco tinham a ver com as do homenageado.
As excessivas divagações atingiram a vaidade do rei que não se sentiu feliz com as comparações. Sentado à mesa do banquete entre seus cortesões e aduladores, Escopas resmungava insatisfeito com o relato das proezas dos filhos gêmeos de Leda e Zeus sem nenhuma menção aos seus feitos.

Entregue à longa recitação, Simônides continuava a exaltar os feitos dos gêmeos até que finalmente encerrou sua brilhante epopéia. Aplausos entusiásticos evocaram por todo o salão, mas se tornara evidente a todos que o poeta havia glorificado e exaltado Castor e Polux porque não encontrara o que exaltar em Escopas, um modo sutíl que o poeta encontrou para mostrar isso ao rei.


Chegada a hora do rei pagar a quantia prometida, reverentemente do trono o rei abriu um baú de riquezas, mas para supresa de Simônides o rei entregou-lhe apenas metade ficando com a outra metade, dizendo que pagaria apenas a metade já que o poeta havia exaltado tanto os gêmeos, caberia a eles pagar o restante. Humilhado com as gargalhadas de deboche que se seguiram, Simônides retornou ao seu lugar mas um lacaio anunciou que havia dois homens fora do palácio procurando por Simônides.

Simônides saiu para os jardins mas não encontrou ninguém à sua espera, senão um saco cheio de moedas. Porém quando retornava para o palácio escutou um terrível ruído e diante de seus olhos viu a cúpula do palácio ruir sobre o salão de banquetes. Sepultados sob pilhas de escombros jaziam os corpos de todos os convidados que há pouco o haviam ridicularizado. Entre eles, estava o rei com seu corpo dilacerado em meios aos destroços, com seu baú vazio e entre seus dentes havia uma moeda: o óbulo dos mortos. Posteriormente Simônides não teve dúvida de que Castor e Polux teriam vindo pagar a sua parte.

**************

O mito de Escopas nos remete à sabedoria de criticar e de receber críticas. Todos nós somos programados para defender nosso ego a qualquer custo e é natural surgir o desejo de reagir defensivamente quando ouvimos uma crítica, embora possamos conter-nos apenas ouvindo. É preciso aprender a ouvir uma crítica, mas isso é uma habilidade que se adquire com o treino e compreensão.

Qualquer crítica deve ter um tempo de processamento, para refletir se existe verdade no que nos é dito e se existe algo que possamos aprender com a crítica.
Temos o livre arbítrio para escolher o que fazer com as informações recebidas. Muitas vezes é importante escutar, perguntar e compreender como os outros formam opinião a nosso respeito ou nossas atitudes. Para isso é preciso acalmar as defesas, tranquilizar-nos e reafirmar a segurança que temos em nós mesmos.

As palavras dos outros não tem nenhum poder sobre nós, são apenas palavras. Uma crítica não precisa ser necessariamente rebatida, a menos que concordemos com ela e estejamos tentando negá-la. Afastar-nos das reações emocionais que nos levam a rebater ou negar as críticas, é o melhor meio de enfrentá-las. É preciso um tempo para pensarmos no assunto.


Sempre podemos aprender com uma crítica, em vários níveis. Todas as pessoas cometem erros e nós também. Perceber que algo poderia ter sido feito melhor, nos torna mais competentes. Se alguém aponta um erro que cometemos sem perceber, a atitude mais coerente seria agradecermos pela oportunidade de melhorar. Não há motivos para reagirmos ou nos sentirmos ofendidos. Agir com maturidade e serenidade, é uma decisão que nos torna melhores e confiantes.


Se uma crítica não se aplica a nós ou não há verdade no que está sendo dito, a atitude mais coerente é desconsiderar. Também não há motivos para nos ofendermos com o que não se aplica a nós. Muitas vezes as pessoas podem enxergar em nós algo que na verdade pertence a ela mesma ou tentar jogar sobre nós algo que sente em relação a outra pessoa. É a entrega da mensagem no endereço errado e, nesse caso, devemos apenar devolver a encomenda, não há necessidade de se alterar ou agredir a pessoa.

Uma reação exagerada a uma crítica que se julga infundada, pode ser um sinal de que não é tão infundada assim. É preciso pensarmos: se algo nos incomoda é porque concordamos. Qual seria nossa reação se alguém falasse que somos irresponsáveis porque não evitamos um temporal que inundou a cidade. Provavelmente iríamos considerar como uma anedota e seguiríamos tranquilamente nosso dia. Da mesma forma deve ser encarada uma crítica que não nos diz respeito, podemos apenas rir da insensatez de quem a pronuncia.


Mas há o outro lado da moeda. Quando pensamos em dizer algo a alguém, devemos prestar atenção às nossas papilas. Se sentimos um gosto amargo na boca, é sinal de que ainda não estamos prontos para exteriorizar uma crítica, porque criticar não é envenenar o mundo. Quando estamos tomados pela emoção, a crítica se torna nociva.

Uma crítica construtiva deve ter o ensejo generoso de ajudar alguém, trazendo à consciência algo que o outro não percebe. Porém quando há o desejo secreto de fazer os outros se sentirem mal ou de expo-los ao ridículo, a crítica se torna envolta no prazer de mostrar superioridade apontando o erro alheio. É a crítica maldosa que destrói.

A crítica saudável é aquela que brota da sabedoria pacífica da mente e vem envolta na suavidade do coração. Por isso, antes de dizer algo para alguém, devemos observar de onde vem as palavras. Quando as palavras estão envoltas em paixões e emoções, elas são insensatas e precisam se acalmar antes de serem ditas.

A crítica construtiva é calma, pacífica e amorosa, fundamentada em argumentos racionais, isenta do fogo das emoções e brotam do desejo genuíno de ajudar e fazer um bem pelo outro. Toda crítica deve ter uma forma apropriada de ser colocada e no momento mais apropriado, preferencialmente longe dos ouvidos alheios. As palavras são como folhas ao vento; uma vez soltas é impossível retê-las...



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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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