quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Trofônio e Agamedes, a busca pela felicidade total



Trofônio, filho de Apolo e Epicasta, era um dos mais célebres arquitetos da Antiguidade. Junto com seu padrasto Agamedes, ergueu belíssimas construções tal como o quarto nupcial de Alcmena, mãe de Héracles, e o templo de Posídon na Arcádia. Sabendo disso, Apolo mandou chamar Trofônio e Agamedes e pediu que eles construissem um templo para ele. Os dois aceitaram o desafio e logo deram início ao projeto criando um templo digno de um deus, com arcadas, abóbadas e muitos arabescos. Depois de algum templo foram mostrar o projeto para Apolo que considerou uma obra magnifica. Imediatamente Trofônio e Agamedes deram início à obra trabalhando com grande dedicação.


Dentro do prazo previsto chamaram Apolo para ver a obra pronta. Apolo ficou maravilhado com a beleza da obra e contemplando a obra perguntou aos construtores qual o preço do serviço que haviam feito. Como eles não tivessem um cálculo do trabalho, Apolo lhes deu uma enorme sacola repleta de moedas de ouro, recomendando-lhes que gastassem tudo nos próximos sete dias realizando tudo o que desejassem; no oitavo dia eles receberiam o pagamento que seria o maior premio que ambos pudessem ambicionar.


Durante os sete dias seguintes, Trofônio e Agamedes fizeram todas as vontades: comeram de todas as iguarias disponíveis, encharcaram-se de vinho, viajaram, compraram roupas e várias coisas para suas casas, dançaram, cantaram e chamaram os melhores sábios para lhes ensinar tudo sobre o universo. No sétimo dia, eles buscaram as mais lindas mulheres e gastaram o restante do que tinham, até a última moeda.


No oitavo dia toda a cidade aguardava Trofônio e Agamedes no templo de Apolo para ver o prêmio maravilhoso que a divindade lhes prometera: o prêmio maior que um mortal poderia aspirar. Porém, como não aparecessem, correram até a casa deles. Ali encontraram os dois deitados, imóveis, dormindo o sono eterno e impertubável, com um sorriso nos lábios. Morreram de tanta felicidade por terem realizado tudo o que desejavam...


****************

O mito de Trofônio nos remete à satisfação de nossos desejos como símbolo de felicidade. Das clássicas proposições filosóficas aos atuais manuais de auto-ajuda, a verdade é que o ser humano ainda não conseguiu dar uma resposta definitiva e satisfatória sobre o que é felicidade e como conseguir ser feliz.

Seguindo o caminho das certezas, as religiões prometem felicidade eterna, tendo como condição a fé religiosa. E assim como a arte e a política, prometem mas não cumprem a aspiração de proporcionar felicidade realista ao ser humano, porque ele está a priori condenado à insatisfação, à angústia e deve se contentar apenas com os momentos de satisfação parcial ou realização ilusória.


Talvez, o ser humano esteja mais próximo da felicidade quando sonha ou elabora projetos de uma vida feliz. É um equívoco pensar que a felicidade está na saciedade - a satisfação total de todas as nossas pretensões. Igualmente equivocada é a ideia de que a felicidade seja bem-aventurança, - uma alegria permanente. Mais equivocado ainda é considerar que a felicidade possa ser a beatitude - uma alegria eterna. Com base em uma hipótese filosófica ou supostamente científica universal, é praticamente impossível conceber um ser humano plenamente feliz.


O ser humano sempre buscou como prioriedade, para si e para todos, a sobrevivência física e depois a realização de alguns projetos representados pelos sonhos, pela arte e os projetos utópicos. Entretanto, o desejo se realiza por meio do disfarce, só assim ele pode ser feliz, porque na dimensão concreta da realidade jamais o ser humano conquistará a felicidade total. A realidade do mundo, dos acontecimentos e dos fatos, sempre frustra a sensação de ser feliz.


Conforme Lacan, " O desejo é sempre o desejo de um outro desejo que vive de sua insatisfação". O desejo jamais é satisfeito porque tem origem e sustentação da falta essencial que habita o ser humano, daquilo que jamais será preenchido e, por isso mesmo o faz sofrer, mas também impulsiona para buscar realização ou satisfação parcial no mundo objetivo ou na sua própria subjetividade através de sonhos, artes, projetos utópicos, fé no absoluto, etc.

A princípio bastaria ter saúde, amor e dinheiro suficiente, o que já seria louvável, no entanto, nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que estejamos sem febre; queremos além de saúde, ser sarados, bonitos e irresistíveis. Não basta termos o dinheiro para pagar o aluguel, a comida e o cinema; queremos uma piscina olímpica, o carro do ano, uma temporada num spa cinco estrelas e ainda mais. Não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando; queremos um grande amor, estar visceralmente apaixonados, ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, jantar à luz de velas todos os dias, sexo selvagem e diário. Esquecemos de ser felizes de forma realista, queremos sempre mais e mais.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável: fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar que seja eterno. É importante buscar o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-nos desumanamente para alcançar a felicidade plena, até mesmo porque a felicidade total não existe. A felicidade é um sentimento tão simples, que podemos encontrá-la e nem perceber. A felicidade transmite paz e não sentimentos fortes que atormentam o coração. Porque a inquietude no coração pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não é felicidade.


O homem se sustenta na existência porque cultiva utopias. O ser humano nunca será totalmente feliz, porque sua felicidade reside exatamente na busca da felicidade. Isso é o que o mobiliza até o final de seus dias, certo de que foi apenas relativamente feliz e de que poderia ter sido muito mais, guardando em si um desejo absoluto de felicidade.

4 comentários:

  1. Nós, seres humanos, como dito, embasamos a felicidade na busca pela mesmas, escalamos montes para termos a sensação de que "vencemos" e não nos deixamos lançar um olhar para trás. Mal sabendo que a "real felicidade" esta em olhar para trás ( não no sentido de projetar a vida ao que já se aconteceu), mas no sentido de perceber que a jornada, o caminho nos fortaleceu, nos fez o que somos, nos proporcionou a "real felicidade", àquela que não nos damos conta, a que não queremos enxergar, mas que és a mais forte, a que vale à jornada.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Olá Lucia! Gostei do seu texto que encontrei ao acaso. E sou jornalista, de Brasília, e desde o ao passado estou viajando pelas Américas, fazendo um documentário audiovisual e escrevendo um livro sobre Felicidade. (Instagram:clarasantos6828). Estava escrevendo uma crônica sobre felicidade e foi como vim parar no seu Blog. Apenas queria deixar este registro, de que gostei do texto e do seu blog. "Vida longa e prosperidade" para tod@s nós!

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Agradeço os seus comentários, críticas e sugestões

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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