domingo, 2 de outubro de 2011

Salmoneu, uma vítima da mitomania



Salmoneu, neto de Deucalião, era um rei da Élida. Ele era um simples mortal mas, rivalizando-se com os deuses, tinha ido para a Élida onde Zeus recebia um culto especial, fundando a cidade de Salmonia. Casado com Alcidice, tinha uma filha chamada Tiro. Porém ao apaixonar-se por Sidera, Salmoneu expulsou Alcidice do reino e enviou sua filha Tiro para ser criada com seu irmão Creteu. A princesa Tiro se apaixonou por Enipeu, um deus do rio, mas Posidon querendo enganá-la assumiu a forma de Enipeu e a seduziu.

Tempos depois nasceram os gêmeos, Pélias e Neleu. Creteu, que era Rei de Iolco, propôs casar-se com Tiro, e teve com ela os filhos Esão, Amythaon e Feres. Quando Pélias e Neleu cresceram, descobriram que Sidera teria maltratado sua mãe Tiro quando ela ainda era apenas uma criança. Pélias e Neleu armaram uma emboscada e mataram Sidera.

Tentando se igualar a Zeus, Salmoneu mandou construir uma estrada revestida de bronze na qual passava com um carro de bronze, com rodas de cobre e de ferro, arrastando correntes e lançando tochas acesas atrás de si e se dizia igual a Zeus, o deus do trovão e dos relâmpagos. Na Tessália, existia algumas práticas mágicas destinadas a pôr fim às secas, que incluia uma carroça de bronze posta a rodar para obrigar o céu a derramar as chuvas.

Triunfante, Salmoneu reclamava que deviam lhe atribuir honras divinas. Obrigando que lhe oferecessem sacrifícios, passou a exigir que construíssem um templo em sua homenagem. Percorrendo a cidade com seu carro de bronze, puxado por quatro cavalos e agitando tochas de fogo, Salmoneu havia perdido completamente a razão. Vendo tamanha afronta, Zeus enviou grandes raios que destruiram a cidade de Salmonia e por fim, enviou um derradeiro raio fulminando Salmoneu.

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O mito de Salmoneu está relacionado à megalomania, um transtorno psicológico que produz numa pessoa ilusões de grandeza, de poder e superioridade. É uma característica pela obsessão em realizar grandes feitos e atos grandiosos. Além disso, a pessoa pode estar sujeita a episódios de extrema alegria, euforia e um humor excessivamente elevado.

Este tipo peculiar de pessoa possui autoconfiança em estado bruto e pode até se tornar eficiente se souber direcionar melhor a confiança que tem em si mesma. Presunçosa, a pessoa que sofre de megalomania costuma falar freneticamente de si mesma, se gaba e se valoriza demais. Acha-se a melhor das melhores, acredita que possa se safar de qualquer dificuldade, usa de frases feitas além da falsa modéstia.

Muitos desses seres de egos inflamadíssimos, estão sempre por aí. Em suas vaidosas cabeças, se acham o depósito de toda inteligência e sagacidade. São péssimos perdedores e não aceitam “nãos” como resposta. Logicamente, esses personagens precisam driblar a própria arrogância, a falta de humildade, o desinteresse pelas idéias dos outros, o orgulho excessivo, a vaidade e a soberba, senão não precisariam de mostrar-se mais do que é.

Pode até mesmo acreditar que é, que tem e que pode fazer absolutamente tudo que quiser, sem levar em conta nenhum dado de realidade, isso porque, como está doente, modifica totalmente a realidade para se adequar às suas loucuras de grandeza. Na megalomania, a pessoa não reconhece os impedimentos e limitações e se vê de forma onipotente.


Pessoas que sofrem de distúrbio bipolar são muito comuns nos dias atuais e a mania de grandeza pode levar também ao desenvolvimento da mitomania, caracterizada por produzir uma versão fantasiosa e irreal de si mesma e da realidade, na qual acredita. É uma situação diferente da mentira, na qual consciente e deliberadamente tenta enganar os outros. Na mitomania, além de enganar o outro, a pessoa tenta enganar a si mesma.

Vivemos numa sociedade capitalista que valoriza demais a imagem. De certo modo, todos que participam desse sistema acabam sempre se confrontando com esta questão do "parecer ser". Todos sofrem essas pressões mas a diferença é que algumas pessoas não conseguem ver a realidade e não reconhecem que nem tudo o que desejamos podemos ter ou ser. Algumas pessoas são mais ricas, mais bonitas, mais bem-sucedidas e outras não são. É necessário reconhecer e saber lidar com essas diferenças. Negá-las através da megalomania ou da mitomania se torna desastroso.

A sociedade consumista leva as pessoas a buscarem desesperadamente o "ter" para serem valorizadas, respeitadas e reconhecidas. Isso aumenta os distúrbios psicológicos, pois as pessoas acabam perdendo o foco real das suas vidas e podem adoecer. A sensação de que ainda não conseguiram fazer o bastante, nada parece ser suficiente, por isso trabalham cada vez mais, lutam muito e nunca sentem que atingiram seu objetivo. Quem age assim nunca se sente vitorioso, são pessoas que competem consigo mesmas, se tornam exaustas e infelizes.

Normalmente, este tipo de pessoa nunca aceita a realidade como ela é e muito menos sabe lidar com as frustrações da vida. E o pior é que podem tentar mudar a realidade para que se torne do jeito que lhe interessa, a qualquer preço. Esse distúrbio de identidade que distancia da realidade, expõe a pessoa a riscos que podem ser prejudiciais à sua vida social, profissional e afetiva. E assim como Salmoneu, a pessoa destrói a si, a todos que com ela convive e a sociedade da qual faz parte.

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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