terça-feira, 5 de novembro de 2013

Themis e Zeus, o casamento que inseriu a ordem e equidade no mundo

 
 

Themis foi uma das titânides, filha de Urano e Gaia. Seu nome significava "aquela que é posta, colocada" e era representada empunhando uma balança onde equilibrava a razão e a emoção. Quando ainda era uma criança, sua mãe a entregou aos cuidados de Nyx, a Deusa da Noite e da Escuridão para protegê-la do enlouquecimento de seu pai. No entanto, Nyx se sentia cansada e pediu às Moiras que criassem Themis e sua filha Nêmesis. 
 
As Moiras eram as Deusas do Destino. Elas fiavam o fio do destino humano e cuidavam para que um destino fosse designado para cada um e que ninguém escapasse dele. Cloto era quem fiava, Láquesis determinava o comprimento do fio e Átropos cortava o fio da vida no momento determinado para a morte. Tanto os homens quanto os deuses temiam as Moiras e suas decisões deviam ser obedecidas.
 
Elas criaram Themis e Nêmesis ensinando-lhes tudo sobre a ordem cósmica e natural das coisas, como o ciclo da vida - nascer, crescer, morrer -, além da importância de zelar pelo equilíbrio. Por terem crescido juntas, as duas tinham muitas semelhanças: Themis - a Deusa da justiça e Nêmesis - a Deusa da retribuição e recompensa.
 
Nêmesis originalmente significava "distribuição da sorte", nem boa nem má, simplesmente na proporção devida a cada um segundo seu merecimento. Quando alguém sofria por uma atitude alheia, Nemêsis não permitia que o ofensor passasse impune. Nas tragédias gregas, Nêmesis apareceu principalmente como vingadora dos crimes e castigadora da arrogância. 
 
Alguns a chamavam de Adrastéia que significa "aquela de quem não há escapatória" ou "a inevitável". Como deusa da devida proporção e equilibrio, ela punia toda transgressão dos limites da moderação e restaurava a boa ordem das coisas, por isso era considerada a divindade do castigo. Ostentando uma espada que representa a justiça, trazia nas mãos uma ampulheta advertindo que a justiça poderia demorar, mas seria certeira. Por isso, muitas vezes é relacionada ao karma.
 
Themis era a deusa guardiã da consciência coletiva e personificava a lei, a ordem social, a lei espiritual e justiça divina. Era frequentemente invocada na corte quando se faziam os juramentos perante os magistrados, pois representava o ajuste das divergências para estabelecer a paz. Por isso Themis passou a ser considerada a Deusa da Justiça e protetora dos oprimidos, que os romanos chamavam de Deusa Justitia.
 
Ela tinha as qualidades de Gaia - a terra, ou seja, estabilidade, solidez, imobilidade e falava com os homens através dos oráculos. Estava ligada à voz da terra e exaltava as leis da natureza e as leis naturais que todos deviam obedecer, que antecedem as regras ditadas pela sociedade. Foi Themis quem orientou Deucalião e Pirra para formar uma nova humanidade depois do dilúvio e ajudou Hércules a salvar Prometeu, que tinha sido condenado a morrer acorrentado num rochedo após roubar o fogo dos deuses para oferecer aos homens.
 
Quando a esposa de Zeus estava grávida, Themis alertou-o que nasceria uma filha que seria uma ameaça ao seu poder. A esposa de Zeus tinha o dom de se transformar em qualquer coisa, por isso Zeus propôs uma brincadeira pedindo que Métis se transformasse em uma mosca. Aproveitando-se de uma distração, Zeus engoliu-a. Da cabeça de Zeus nasceu Athena.
 
As Moiras profetizaram que Zeus tinha muito a aprender com Themis. Algum tempo depois, Zeus e Themis casaram e foram os pais das Horas e de Astreia, a deusa protetora da humanidade e simbolizava a pureza e a inocência. Conta-se que Astreia deixou a Terra no fim da Idade do Ouro para não presenciar as aflições e sofrimentos da humanidade durante as idades do Bronze e do Ferro. No céu ela foi transformada na Constelação de Virgem.
 
As Horas eram muitas, sendo as mais conhecidas: Eirene, Eunômia e Dikê que personificavam a paz, a disciplina e a justiça. Como guardiãs do Olimpo, elas cuidavam da ambrosia, o alimento dos deuses, e organizavam a passagem das estrelas. Assim tornaram-se as deusas do ano, das estações climáticas e da divisão do dia em horas. Elas eram a extensão dos atributos de Themis e presidiam a ordem natural humana, da natureza e social.
 
Enquanto Zeus exercia o poder absoluto, um padrão arquetípico que governa a consciência coletiva, Themis desestabilizava o absolutismo e as certezas de Zeus, movimentando-se dentro de vários outros padrões arquétipicos. Ela era sua esposa e conselheira, temperando o poder com sabedoria. Respeitada por todos os deuses, ao presidir as reuniões políticas do Olimpo Themis manifestava o teor organizacional de sua dignidade e justiça.
 
Com seriedade moral obrigava os grandes e poderosos a ouvir, de modo consciencioso, as objeções e contribuições daqueles menos proeminentes. A deusa opunha-se à dominação de um sobre muitos e apoiava a unidade mais que a multiplicidade, a totalidade mais do que a fragmentação, a integração mais do que a repressão. Nessa atividade de contenção e vinculação, Themis revelava o princípio operado pela consciência feminina: a lei do amor.
 
Seu maior opositor era Ares - o deus da guerra - que tinha apetite por violência e sua sede de sangue não conhecia limites. Themis não era contra a guerra, mas defendia a ordem natural e ambiental, pois a guerra reduzia o tempo da vida e a população humana. Sua balança foi transformada na Constelação de Libra, que brilha céu para nos lembrar que a justiça é fundamental.

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No imaginário popular, sempre quando se fala em Justiça surge a figura da mulher de olhos vendados carregando uma balança e a espada. De fato, essas imagens alegóricas representam a manifestação da Justiça.
  • A Balança simboliza a equidade, o equilíbrio, a ponderação e a igualdade das decisões aplicadas pela lei. O direito precisa ser pesado, senão torna-se força bruta e irracional.
  • A Espada simboliza a ordem, regra, força e coragem, aquilo que a razão dita e a coerção para alcançar tais determinações. Se não obriga a sua aplicação, o direito não tem qualquer validade.
  • Os olhos vendados da deusa simboliza a necessidade de nivelar o tratamento jurídico de todos por igual, sem nenhuma distinção. Tem o propósito da imparcialidade, da objetividade e da afirmação de que todos são iguais perante à lei. Isso não implica que a justiça é cega, pois aos olhos da justiça, nenhum pormenor que seja relevante deixa de ser considerado para a aplicação da lei, ou seja, o julgamento é avaliação de todos os ângulos de uma questão.
Cada símbolo completa o outro, para que a Justiça seja a mais justa possível:
  • A espada sem a balança torna o Direito brutal.
  • A balança sem a espada torna o Direito impotente perante os desvalores que insistem em ser perenes na história da humanidade.
  • Os olhos vendados objetivam evitar privilégios na aplicação da justiça. A balança é o instrumento capaz pesar o direito de cada um e a espada, a sua aplicabilidade.
A existência psicológica de Themis está no inconsciente coletivo. Sendo Themis a deusa da justiça, da lei, da ordem e protetora dos oprimidos, também determinou que o direito depende dos deveres a serem cumpridos por todos. Foi o casamento de Themis com Zeus que inseriu a ordem e equidade no mundo dos homens, mostrando que até mesmo quem emana as leis deve a elas estar submetido. Quando a justiça não age devidamente e não pune os culpados, acaba punindo os inocentes...

7 comentários:

  1. Uma bela análise da justiça pelo simbolismo da mitologia. Vivemos tempos em que a deusa com os olhos fechados realmente remetem a uma justiça, parcial, e o poder econômico e prestígio acabam pesando na balança da deus. Falando de Brasil hoje vemos que por mais que as leis passem pelo processo de evolução histórica, não conseguem dar uma resposta justa a muitos injustiçados. Pelo fator cultural, por preciosismo, vaidade, peso econômico e excesso de subjetivismo interpretativo justiça brasileira é lenta e morosa. No quesito punição precisamos definir um rumo de justiça em que a espada não decepe a vitimas duplamente, ou seja, por serem vitimas do infrator e da própria justiça.

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  2. Parabéns.
    É através de trabalhos como este que temos a certeza que a sociedade ainda não está completamente alienada.
    Obrigado!

    Leonardo Barros

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  3. Parabéns.
    É através de trabalhos como este que temos a certeza que a sociedade ainda não está completamente alienada.
    Obrigado!

    Leonardo Barros

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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