sábado, 22 de janeiro de 2011

Pandora, a deusa da ressureição



Os gregos acreditavam que no início do mundo as mulheres não existiam e que os homens levavam uma vida de abundância e despreocupação, passando incontáveis anos nessa bem-aventurança, sem conhecerem a dor, a doença, o ódio e a inveja, até que, um dia, adormeciam para nunca mais acordarem. O aparecimento de Pandora na Mitologia alterou esse Paraiso.

Prometeu "o que pensa antes" e Epimeteu "o que pensa depois" se tornaram os criadores da raça humana e dos animais. Epitemeu havia criado os animais, colocando neles as características da força, coragem, os dentes e as garras afiadas para lutar. Prometeu sabia que nas entranhas da terra dormiam algumas sementes dos céus. Pegando um pouco de terra em suas mãos, molhou-a obtendo a argila. Moldando-a obteve uma imagem semelhante aos deuses. Para dar vida à sua criação, Prometeu colocou no peito da imagem todas as boas e más características dos animais. Com o sopro divino, o homem adquiriu vida e os primeiros seres humanos passaram a caminhar sobre a terra, povoando-a.

Porém o homem saia das mãos de Prometeu, nú, vulnerável, indefeso, sem armas e sem conhecimento. Condenados desde o seu nascimento, os primeiros homens se nutriam de frutas e carne crua, e usavam folhagens para se protegerem do frio. Tinham como abrigo apenas grutas profundas e escuras, não sabendo usar a centelha divina com a qual haviam sido presenteados. Podiam ver, mas não percebiam a beleza do céu azul e nem das estrelas. Podiam comer, mas não saboreavam as frutas. Podiam escutar, mas não sonhavam com o barulho das cascatas e o som divino do canto dos pássaros.

Enquanto Zeus reinava junto com os outros deuses, exigia dos humanos honras e sacrifícios em troca de sua proteção. Prometeu intercedeu como defensor de suas criaturas e pediu aos deuses que não exigissem tanto delas. E para por à prova a clarividência de Zeus, sacrificou um enorme touro, dividindo-o em duas partes. Os deuses do Olimpo deveriam escolher uma das partes, e a outra parte seria dos homens. Os montes pareciam desiguais. Um dos montes tinha apenas ossos cobertos com o sebo do animal, parecendo ser maior. A outra parte era apenas de carnes cobertas com a pele de Touro. E assim Zeus escolheu o monte maior, mas ao descobrir que fora enganado por Prometeu, recusou-se a dar aos homens o último dos dons para que eles se mantivessem vivos: o fogo. Simbolicamente, Zeus privou o homem da luz na alma, da consciência.

Sentido pena das criaturas, Prometeu desceu à terra para ensinar os homens a domesticar os animais, fazer seus barcos e navegar, fazer remédios para curar suas feridas, além de ensiná-los a cantar e ver as estrelas. Deu-lhes o dom da profecia para o entendimento dos sonhos; mostrou-lhes o fundo da terra e suas riquezas minerais: o cobre, a prata e o ouro para fazer da vida algo mais confortável. Por fim, roubou uma centelha do fogo dos deuses e deu à humanidade.

Com o fogo Prometeu ensinou aos homens a arte de trabalhar os metais. Esta seria uma forma de reanimar a inteligência do homem, dando-lhes consciência, e de proporcionar melhores condições de vida para poderem se defender com armas eficazes contra as feras e cultivar a terra com instrumentos adequados. Logo que a primeira semente do fogo do Sol foi utilizada em fogueiras, a humanidade passou a conhecer a felicidade de viver melhor, de cozinhar, aquecer-se e receber luz.

O fogo era o símbolo do espírito criador que pertencia somente aos deuses. Porém com sua alegria imoderada, os homens julgaram-se iguais aos deuses, esquecendo seus deveres. Enfurecido, Zeus viu que o novo brilho que emanava da Terra era o do fogo. Pensou numa vingança sutil e enviou a bela jovem Pandora, dotada de todos os encantos.

De Afrodite, Pandora recebeu a beleza, o desejo indomável e os encantos que seriam fatais aos indefesos homens. Apolo deu-lhe a voz suave do canto e a música. As Graças a adornaram com a riqueza e Hermes deu-lhe o dom da persuasão, a graciosa fala e coração cheio de artimanhas, imprudência, ardis, mentira e astúcia. Por tudo isso ela recebeu o nome de Pandora "a que possui todos os dons". Por não ter nascido como uma deusa, Pandora era conhecida como uma semideusa.


Embora alertado por Prometeu "o que pensa antes", para não receber nenhum presente dos deuses, seu irmão se apaixonou pela jovem e a levou para junto dos homens. Epimeteu recebeu Pandora como uma dádiva divina, tornando-se o primeiro marido da história. Hermes, o mensageiro dos deuses, lhe trouxe uma caixa como presente de casamento. Dentro da caixa estavam todos os males que o mundo ainda desconhecia: o Medo, o Sofrimento, o Trabalho e Esforço para sobreviver, o Frio, a Fome, as Doenças, a Míseria, a Violência e todos os demais sofrimentos, e Hermes lhe recomendou não abrir a caixa.

Zeus esperava que a curiosidade de Pandora vencesse aquela recomendação de Hermes, e eles foram felizes por muito tempo, até que Epimeteu atraído pelo barulho que vinha de dentro da caixa e vencido pela curiosidade, pediu a Pandora para abrir a caixa. Imediatamente libertou todos os males que afligiriam aos homens e modificaria o destino da humanidade. Pandora caiu fulminada. Assim, essa narração mítica explica a origem do males, trazidos com a perspicácia e astúcia “daquela que possui todos os dons”.

Hades, o deus com interesse nas ambições de Pandora, procurou as Moiras, dominadoras do tempo, e lhes pediu para que voltassem o tempo. Sem permissão de Zeus, elas nada puderam fazer. Hades convenceu o irmão a ressuscitar Pandora e lhe dar a divindade que ela sempre desejara. Foi assim que Pandora tornou-se a deusa da ressurreição. Para um espírito ressuscitar Pandora entrega-lhe uma tarefa; se o espírito cumprir a devida tarefa, ele é ressuscitado. No entanto, Pandora só tem tarefas impossíveis, e por isso nenhum espírito ressuscitará.

Com Pandora iniciou-se a degradação da humanidade. Para explicá-la, o poeta Hesíodo introduziu o mito das Cinco Idades, em que as raças sucedem-se em decadência progressiva.
  • Na Era do Ouro o homem não precisava fazer nenhum esforço para sobreviver. Tudo permanecia intocado pois não havia necessidade de fortificações, armas ou barcos. Uma era de inocência e felicidade onde a verdade prevalecia e não havia nenhum juiz para ameaçar ou punir.
  • Na Era de Prata, Zeus encurtou a Primavera e assolou a Terra com o calor e frio criando as estações. As casas se tornaram necessárias, a terra deveria ser tratada para produzir frutos e a juventude eterna não existiria mais.
  • A Era do Bronze deu início aos conflitos.
  • Na Era dos Herois, Astréia foi a última Deusa a deixar a humanidade. Ela era a Deusa da Inocência e da Pureza que depois de deixar a Terra foi colocada entre as estrelas na Constelação de Virgem – a Virgem Temis ( Justiça ) era a mãe de Astréia ou Dike. Ela é representada segurando uma balança onde ela pesa as reclamações dos lados oponentes.
  • Na Era do Ferro as discórdias aumentaram. O crime, a ambição e a violência reinaram expulsando a modéstia, a verdade e a honra.

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A expressão Caixa de Pandora é usada em sentido figurado quando se diz que alguma coisa, sob uma aparente inocência ou beleza, é na verdade uma fonte de calamidades. Abrir a Caixa de Pandora significa que uma pequena e bem intencionada ação pode liberar uma avalanche de repercussões negativas. A Esperança contida na caixa, dependendo da perspectiva em que olharmos, também pode conter uma conotação negativa, pois a esperança pode minar as nossas ações nos fazendo aceitar coisas que deveríamos confrontar. E ainda nos previne contra a fé cega que não tem nenhuma ação positiva.

A imagem de Pandora e a esperança são símbolos de uma parte do ser humano que apesar das frustrações, desapontamentos e perdas, ainda tem forças para se agarrar ao sentido da vida e ao futuro, para superar a infelicidade do passado. Além dos planos para o futuro, Pandora representa a espera, pois a esperança é sempre uma tênue luz que brilha para nos guiar, mesmo que não dissipe a escuridão que nos aflige. É o desafio de viver ainda que tenhamos de confrontar com desafios maiores que a própria resistência, tal como aqueles que estiveram nos campos de concentração da Alemanha e da Polônia, que sentiram a força da esperança significando a diferença entre a vida e a morte.

A esperança é algo profundo e misterioso pois transcende a qualquer coisa, a qualquer catástrofe. Entretanto ela não surge de uma vontade, não é um ato deliberado. Ela aparece encerrada na Caixa de Pandora junto de todos os males, e quando conseguimos perceber seu brilho, então a reação às dificuldades são totalmente alteradas. É a fé em meio às atribulações que nos faz ressurgir, assim como Pandora que se tornou a deusa da ressureição.

Do Paraíso inicial, a humanidade decaiu até a idade do ferro, reino da maldade e da injustiça. O ato de Pandora provocou a perda do paraíso, mas dentro da caixa estava também a Esperança, a única que serviria para confortar os seres humanos; a única forma do ser humano não sucumbir às dores e aos sofrimentos da vida.

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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