segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Lâmia, o Bicho Papão de nossa infância


Segundo a mitologia grega, Lâmia era uma bela rainha da Líbia e amante de Zeus com quem teve vários filhos. Quando Hera - a esposa de Zeus - descobriu o envolvimento de Lâmia com seu marido, transformou-a em um ser monstruoso, metade serpente - metade mulher, condenando-a a jamais cerrar os olhos ou dormir.

Enfurecida pelo ciúme, Hera escondeu os filhos de Lâmia numa caverna. Quando Lâmia foi esconder-se, por estar faminta devorou seus próprios filhos. Sem poder cerrar os olhos ela vivia atormentada por dizimar sua prole. Em algumas versões Hera teria assassinado os filhos de Lâmia, por isso Lâmia teria se transformado em monstro devido aos desespero de ver seus filhos mortos.

Compadecido pelo trágico destino de sua amante, Zeus concedeu-lhe o poder de retirar os olhos temporariamente e o dom da profecia, sendo o único momento em que do seu tormento esquecia. Com sua vida amaldiçoada, Lâmia teria passado a vagar pelo mundo devorando os filhos de outras mães.

Descrita em várias culturas como uma criatura de natureza selvagem e maligna, com garras, rosto e busto femininos e o corpo coberto de escamas, conta-se que ela exibia seus belos seios atraindo jovens, viajantes e homens casados para seu covíl para poder sugar-lhe o sangue e devorá-los. O objetivo de Lamia era provocar sofrimento em outras mulheres, pois assim conseguia de alguma forma diminuir seu próprio sofrimento.

Era relacionada também aos espíritos femininos que moravam nos rios e fontes, onde costumavam pentear suas longas cabeleiras para atrair amantes. Neste aspecto, as Lâmias constituem um antecedente dos súcubos da Idade Média e das modernas vampiresas que se apaixonam por mortais tendo filhos com eles mas não podiam se casar.

O povo da região pediu ao oráculo orientação como acabar com as depredações de Lâmia. O oráculo recomendou que um jovem deveria ser sacrificado para que o povo tivesse paz. O belo jovem Alkyoneus foi escolhido, mas o herói Eurybaros determinou-se a substitui-lo.

Tomando seu lugar, quando Lâmia se aproximou ele a jogou nos rochedos onde uma fonte surgiu. No local nasceu a cidade de Síbari, que era outro nome dado a Lâmia. No entanto, o terror espalhado por Lâmia sobreviveu ao tempo e em várias culturas do mundo.
******************

A mitologia grega é rica em mitos femininos facilmente associados a monstros e bruxas, tal como Lâmia, Medéia, Circe, Hécate e outras que descritas como criaturas de poderes especiais capazes de provocar transformações além de realizar terríveis e sórdidas vinganças, o que gerava muito medo. 

Por vezes, Lâmia era associada a Lilith, vista como deusa na mitologia hebraica e sendo difundida como um monstro que devorava as crianças pequenas. Em grego moderno, a expressão "Varrida por Lâmia" refere-se a negligência e se diz que "a criança foi estrangulada por Lâmia" para a morte súbita de uma criança no leito.

Na Roma antiga contam sobre as Strix, que vem de Strega que significa bruxas, mulheres que em certas noites se transformavam em corujas e procuravam crianças para sugar-lhes o sangue. Na Idade Média os adultos usavam o nome de Lâmia para amedrontar os filhos e conseguir deles um bom comportamento. Daí surgiu o tal "Bicho-papão", expressão que sobrevive até os nossos dias.

Durante nossa infância ouvimos muitos contos envolvendo bruxas, monstros e outros seres terríveis que nos metem medo. E assim crescemos com a cultura do medo, que mais tarde pode se manifestar em várias áreas de nossa vida na forma de um constante estado de apreensão e insegurança, sendo bem diferente do medo saudável.

O medo saudável é natural e necessário diante dos perigos reais, porque nos levam a ser cautelosos e nos proteger diante de qualquer ameaça, ou quando nos sentimos impotentes perante alguém ou alguma situação, por exemplo numa guerra, em meio a conflitos ou ter medo de água quando não sabemos nadar. Nesses casos estamos sendo racionais avaliando os eventuais riscos, embora não devamos deixar que se transforme em uma paranoia sem limites, pois aí se transforma em medo irracional.

Muitas pessoas deixam de viver plenamente devido as vozes da mente que sempre advertem sobre um risco imaginário. Isso faz com que percam o foco e nunca cheguem a lugar algum, porque o medo sempre as convence a não seguir adiante e, às vezes, pode até fazê-las voltar atrás. Essas vozes internas sempre buscam nos convencer que as coisas não vão dar certo, isso porque crescemos com os adultos repetindo que as coisas são difíceis. E quando nos tornamos adultos, essas mensagens guardadas no inconsciente continuam a criar fantasmas em nosso caminho, até que nos conscientizamos delas.

É preciso sobretudo saber distinguir o real do imaginário. Estamos sujeitos a desistir de algo pelo medo de não dar certo, de errar, de perder, de não ser amado, de ser rejeitado, de não superar dificuldades, de não ser aprovado, de ser criticado, de ser demitido etc. A lista de medos é enorme incluindo aqueles que parecem inimagináveis, por exemplo, medo de palhaço, medo de imagens, medo de desordem, medo de abrir portas etc.

Outras vezes a ansiedade provocada pelo medo pode nos fazer agir por impulso e de forma precipitada. Em ambos os casos o resultado pode ser danoso, porque o desespero nos leva a movimentos imprudentes e a insegurança nos faz parar. Pela influência do medo podemos preferir nos acomodar no que já conhecemos, mantendo a zona de conforto por não acreditarmos sermos capazes de enfrentar ou mudar o que estamos vivendo. 

Assim como o mito, é preciso coragem para confrontar com os nossos medos e descobrir aspectos que ignoramos ou desprezamos. A transição do medo para a autoconfiança surge a partir do momento em que decidimos nos libertar dos medos que nos aprisionam. Tal como outros sentimentos, quanto mais negamos o medo, mais forte ele se torna. É preciso saber que: ou controlamos o nossos medos ou eles nos controlarão. 


Um comentário:

Agradeço os seus comentários, críticas e sugestões

Related Posts with Thumbnails

Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

Seguidores

Minha lista de blogs

Postagens populares