terça-feira, 1 de maio de 2012

Polícrates, o sabotador do próprio sucesso


Polícrates, um tirano de Samos, parecia ser o homem mais feliz do mundo. Governava uma riquíssima ilha que havia tomado de seus irmãos, matou um e baniu o outro. Assim Polícrates tornou-se o único governante dos tesouros e escravos que a cada dia chegavam no porto. Era tão rico e poderoso que pretendia tornar-se o Senhor de toda a Jônia.

Firme e de aspectos cruéis, Polícrates fazia mudanças e fixava metas arbitrárias no reino sem consultar a ninguém. Obrigava seus súditos a trabalharem longas horas e vivia apenas em função de seus propósitos políticos. Fossem viáveis ou não, os servos que não as cumprissem metas eram severamente punidos com amputação de partes do corpo.

Na plenitude de suas vitórias, Polícrates ofereceu-se como aliado do grande faraó do Egito, que a princípio acolheu sua aliança mas logo depois, percebendo o modo de vida de Polícrates, enviou-lhe uma mensagem: "Quem é muito feliz tem muito a temer. Ninguém chega no alto sem fazer inimigos e até os deuses sentem inveja de quem é bem sucedido. Aceite um conselho: pegue o seu mais rico tesouro e ofereça aos deuses para que eles não venham a tratar-lhe mal".

Ao receber a mensagem, Polícrates refletiu e resolveu seguir o conselho do faraó. Pegou um valioso anel de esmeraldas que ele jamais pensou perder e lançou-o ao fundo do mar esperando receber a graça dos deuses. Mas antes mesmo de chegar em casa começou a lamentar a perda da jóia tão preciosa e censurou-se por ter sido precipitado.

Após uma semana um pescador trouxe um enorme peixe ao palácio para agradar ao rei. Quando os criados abriram o peixe encontraram o anel. Polícrates ficou radiante e interpretou como um sinal de sorte para sempre. Logo escreveu ao faraó relatando sobre o que tinha acontecido e para sua surpresa o faraó rompeu a aliança que tinham estabelecido, advertindo-o que poderia atrair a calamidade sobre si.

Em em seu orgulho, Polícrates recusava-se a aceitar qualquer advertência; ao contrário ele continava buscando riqueza, poder e sucesso que ele interpretava como invencibilidade. Certo dia ele recebeu um convite do Rei da Persia para estabelecerem uma aliança em troca de um grande tesouro. Ganancioso, Polícrates não resistiu à oportunidade e mandou um criado examinar os tesouros que o rei oferecia. Várias arcas com ouro e jóias foram mostradas ao servo, mas na verdade eram arcas com pedras no fundo cobertas com jóias. 

Relatando o que aparentemente tinha visto, Polícrates ficou deslumbrado e resolveu ir à Pérsia. Os oráculos mostravam-se contrários à viagem. A filha de Polícrates havia sonhado que ele era erguido no ar, lavado por Zeus e ungido pelo sol. Ignorando as advertências, Polícrates interpretou que era um presságio de honraria e grandeza mas tão logo chegou na Pérsia foi imediatamente erguido em um local de sacríficios, onde foi morto e permaneceu queimando ao sol...

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Polícrates representa aquelas pessoas que não reconhecem e ultrapassam limites até que são obrigados a parar devido aos seus próprios atos. Na vida moderna podemos compará-lo aos homens de negócios e líderes políticos ou qualquer pessoa que embora possa alcançar uma meta, sentem-se inquietos para uma meta maior esquecendo-se que há certas leis da própria da vida que determina os nossos limites; esquecem que não são deuses onipotentes, apenas humanos. 

Nada é tão capaz de gerar arrogância quanto a riqueza e o sucesso, mas a maior falha não está na cobiça e nem na ambição; está na incapacidade de ter respeito pela própria vida e pelos outros. E, mesmo que a pessoa seja bem intencionada, há de ter cuidado para não identificar o próprio valor com o que se tem. Ter não significa ser. Quando conseguimos fazer essa separação nos tornamos livres, porque mesmo diante da perda de algo de valor material, não perdemos a nós mesmos.

Polícrates fêz a oferenda não por respeito ao poder dos deuses, mas pelo medo que tinha deles. Dar um presente ou doar alguma coisa deve ser feito com alegria e espontaneidade, caso contrário a oferta não tem sentido. Doação se faz com o coração. Quando se dá ou se doa, deve ser algo que tenha valor para si mesmo e não algo que está sendo descartado no lixo. E uma vez doado, esqueça o foi feito. Quem dá algo de bom coração, será bem recompensado; o inverso também é verdadeiro.

Os deuses rejeitaram a oferta de Polícrates fazendo o anel retornar no corpo do peixe. E se comprendermos os deuses, psicologicamente eles refletem os instintos e os profundos padrões inconscientes. Quando nos recusamos a honrar esse "Eu" profundo que há em nós estaremos arquitetando, inconscientemente, a nossa própria queda. A arrogância de Polícrates era uma falsa ilusão de onipotência. Os seus exageros destruíram a sua sensibilidade para julgar corretamente as situações ou para perceber a verdade que outros queriam transmitir-lhe.

Quando acreditamos que estamos acima das leis e dos outros, que podemos tomar decisões sem refletir em suas consequências, é inevitável que não percebamos os amigos que perdemos e quantos inimigos estarão se juntando para se opor aos nossos objetivos. Quando alienamos demais outras pessoas, elas começam a tramar ou desejar a nossa queda. Sem aprender as lições que a vida nos propõe, podemos reclamar do nosso destino sem perceber que nós mesmos estamos traçando o nosso futuro.

Dizem que o poder corrompe. Isso pode ser em parte verdade, porque aqueles que alcançam e usam o poder para praticar o bem jamais serão corrompidos. Porém aqueles que se deixam intoxicar pelo sabor do poder, deixando de dar ouvidos aos outros e à voz da própria razão, podem cometer graves erros. O mito de Polícrates é uma mensagem clara para aqueles que buscam sua realização no mundo mas não conquistam e nem dominam a si mesmos.

Os gregos usavam a palavra hybris ou húbris para nomear o orgulho exagerado e a incapacidade de reconhecer limites. Para eles, a hybris provocava inevitavelmente a ira dos deuses, mas o castigo era sempre arquitetado inadvertidamente pela própria pessoa. Esse mito ilustra a Hybris - o comportamento desmedido - que combinada à ganância, leva inevitavelmente à queda.

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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