quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Hermes Trimegistus




Hermes Trismegistus ou Hermes - três vezes grande - é o nome dado pelos neoplatônicos, místicos e alquimistas que idolatravam o deus egípcio Thoth, identificado com o deus grego Hermes. Ambos eram os deuses da escrita e da magia. Como escriba e mensageiro dos deuses, no Egito Helenístico Hermes era tido como o autor de um conjunto de textos sagrados, ditos herméticos.

A Filosofia Hermética se baseia nos Princípios Herméticos incluídos no livro "O Kybalion" e parece destinada a plantar uma semente de verdade no coração dos sábios, que perpetuam e transmitem os seus ensinamentos. Em todas as civilizações sempre existiram ouvidos atentos a estes ensinamentos.

Como diz o próprio Kybalion: " Em qualquer lugar que se achem os vestígios do Mestre, os ouvidos daqueles que estiverem preparados para receber o seu ensinamento se abrirão completamente. Quando os ouvidos do discípulo estão preparados para ouvir, então vêm os lábios para enchê-los de sabedoria".

No antigo Egito foi estabelecida a maior das Lojas dos Místicos e pelas portas de seus Templos entraram os Neófitos que, mais tarde, como Hierofantes, Adeptos e Mestres, se espalharam por todas as partes da terra, levando consigo o precioso conhecimento que possuíam para ensiná-los àqueles que estivessem preparados para compreende-lo.

Em nossos dias o termo hermético significa secreto, fechado de tal maneira que nada escapa. Isso significa que os discípulos de Hermes sempre observavam o princípio do segredo nos seus preceitos. Os antigos instrutores pediam este segredo, mas nunca desejaram que os preceitos não fossem transmitidos.

Não instituíram uma religião, de forma que estes princípios pudessem ser aproveitados por todas as religiões e que não pertencessem a nenhum credo. De fato, os Princípios Herméticos são baseados nas Leis da Natureza e como tais pertencem somente à Ordem Divina.

As doutrinas sempre foram transmitidas a partir da palavra do Mestre para o ouvido de seus discípulos. E ainda que esteja escrita em toda parte, foi propositalmente velada com termos de alquimia e astrologia, de modo que só os que possuem a chave podem-na ler bem.


Textos herméticos

Os textos herméticos continham ensinamentos sobre artes, ciências, religião e filosofia, cujo propósito seria a deificação da humanidade através do conhecimento de Deus. É pouco provável que todos esses livros tenham sido escritos por uma única pessoa, mas representam o saber acumulado pelos egípcios ao longo do tempo, atribuído ao grande deus da sabedoria. 

O Corpus Hermeticum, datado provavelmente do século I ao século III, representou a fonte de inspiração do pensamento hermético e neoplatônico renascentista. Na época acreditava-se que o texto remontasse à antiguidade egípcia, anterior a Moisés e que nele estivesse contido também o prenúncio do cristianismo.

Segundo Clemente de Alexandria os 42 livros eram subdivididos em seis conjuntos. O primeiro tratava da educação dos sacerdotes. O segundo, dos rituais do templo. O terceiro, de geologia, geografia, botânica e agricultura. O quarto, de astronomia e astrologia, matemática e arquitetura. O quinto continha os hinos em louvor aos deuses e um guia de ação política para os reis. O sexto era um texto médico.




Paracelso

Foram esses textos herméticos que inspiraram Paracelso, um grande médico alemão, alquimista, físico, astrólogo e ocultista que viveu entre 1493/1541. Formado em medicina aos 17 anos e doutorado na Universidade de Ferrara, alguns zombavam de suas teorias. Apesar disso, ele sustentava uma aura de místico e até mesmo a obscura reputação de mago.

Segundo Paracelso o homem unia em si mesmo e em torno dele todos os componentes do mundo como minerais, plantas, animais e corpos celestes, podendo adquirir conhecimento da natureza de modo muito mais direto e de forma interna, do que a forma externa de consideração dos objetos pela mente racional. Seria necessário apenas uma atração simpática entre o interior representativo de um determinado objeto, na própria constituição do homem e o seu homólogo externo.

Dessa forma, a união com o objeto seria então o soberano meio de adquirir conhecimento íntimo e total, mas isso não seria alcançado pelo cérebro, a sede da mente racional. Então seria o seu corpo astral que ensinaria o homem. Por meio do seu corpo astral o homem comunicaria com a supraelementrariedade do mundo astral.

Astrum é o contexto que denota não só o corpo celestial, mas a virtude ou atividade essencial de qualquer objeto. Isto no entanto não é atingido num estado racional de pensamento, mas sim em sonhos e transes fortificados por força de vontade e imaginação. Portanto para Paracelso existiria um sistema de correspondências na filosofia e medicina natural.

Paracelso faleceu aos 47 anos acreditando ter descoberto o Elixir da Vida ou Elixir da Imortalidade, uma panaceia universal buscada pelos alquimistas na esperança de curar todas as doenças e assim prolongar a vida indefinidamente. Isto demonstra as preocupações dos alquimistas, principalmente de Cagliostro, cuja vida tornou-se um grande mistério. ( Vide post sobre Cagliostro em meu blog Parlando d'Itália / Emilia romagna San Leo ou click aqui. )




Emanações de energia

Hoje sabemos que todos os corpos emanam energia, que se manifestam em maior ou menor intensidade. O Ser ativo, distribui calor, é participativo, solidário, ético e decisivo, manifestando-se em grande, maior e alta intensidade. Esse é o ser benevolente e altruísta, que pratica boas ações, ajuda ao próximo sem esperar recompensa, tem o pensamento voltado para a prática do bem e para trazer a paz entre os homens de boa vontade.

Em contrapartida, o Ser inativo é frio, egoísta, passivo, corruptor, indeciso e se manifesta em intensidade baixa, rasa e sofrível. Esse é um ser voltado para o mal, faz o mal, vive para o mal, pratica o mal, venera o mal, participa para o mal, tem o pensamento voltado para o mal, ludibriando a vontade alheia em proveito próprio. Sua intensidade rasa aproxima da intensidade zero, onde estão os doentes em fase terminal.

Evolução Espiritual

Segundo a Lei de Evolução Espiritual, tudo aquilo que emitimos invariavelmente retorna mais tarde nas mesmas proporções. Isso acontece porque o Universo opera sua evolução cósmica através de Leis. Dessa forma, quando a nossa personalidade-alma se alinha e harmoniza com as energias saudáveis e construtivas do Universo, também recebe de volta as emanações conhecidas como Dharma.

Então à medida que evoluímos a nossa consciência e buscamos trabalhar a sua expansão, entramos em harmonia com a nossa capacidade de dar ao próximo e ao mundo tudo aquilo que almejamos para nossa vida. Com isso atraímos a constante abundância do Universo. Este é fluxo natural, o caminho da energia universal do qual se origina todas as coisas.


Lei da Atração

Nada é estático! Nossa mente está em constante ressonância com a consciência cósmica universal. Nossa aura, nosso campo de energia humana reflete o que somos no íntimo, assim como nossa personalidade-alma e as energias com as quais estejamos em sintonia num dado momento.

Tudo no Universo é justo e perfeito. Portanto, quando emitimos sentimentos negativos de ódio, inveja, vingança ou vibramos pensamentos negativos dirigidos aos outros, mais adiante tudo retornará até nós nas mesmas proporções e até mesmo ampliado. Assim também são as ações coletivas, que por fim retornam ao povo como o Carma Coletivo.

Rever conceitos, valores, mudar condutas, atitudes e pensamentos ajudam no processo de evolução espiritual, mas também atrai para a nossa vida grandes bençãos, curas e milagres. Tudo isso está inserido nas Sete Principais Leis Herméticas, que se baseiam nos princípios incluídos no livro Caibalion e reúne os ensinamentos básicos da Lei que rege todas as coisas manifestadas.


Princípios Herméticos


O Caibalion ou Kybalion é um livro de 1908 sobre os Princípios Herméticos. Escrito por três indivíduos auto-intitulados de "Os Três Iniciados", segundo eles contêm a essência dos ensinamentos de Hermes Trismegisto tal como ensinado nas Escolas Herméticas do Antigo Egito e da Grécia. Muitas das ideias anteciparam conceitos modernos como a Lei da Atração.

Lei do Mentalismo: O Todo é Mente. O Universo é mental. A matéria é como os neurônios de uma grande mente, um universo consciente e que pensa. Todo o conhecimento flui e reflui de nossa mente, já que estamos ligados a uma mente divina que contém todo o conhecimento.

Lei da Correspondência: O que está em cima é como o que está embaixo. O que está embaixo é como o que está em cima. A perspectiva muda de acordo com o referencial. O que é verdadeiro no macrocosmo é também verdadeiro no microcosmo e vice-versa.

Lei da Vibração: Nada permanece inalterado ou parado. Tudo vibra. Tudo se move. No universo todo movimento é vibratório. Todas as coisas se movimentam e vibram com seu próprio regime de vibração. Nada está em repouso. Das galáxias às partículas sub-atômicas, tudo é movimento. Tudo oscila de acordo com as temperaturas e harmonia.

Lei da Polaridade: Tudo é duplo. Tudo tem dois polos. Tudo tem o seu oposto. Os opostos são apenas extremos da mesma coisa e se tocam. O igual e o desigual são a mesma coisa. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados. Tudo é idêntico em natureza. Claro e o escuro são manifestações da luz. Amor e ódio são apenas manifestações de uma mesma coisa, diferentes graus de um sentimento.

Lei do Ritmo: Tudo tem fluxo e refluxo. Tudo tem suas marés. Tudo sobe e desce. O ritmo é a compensação. O princípio é manifestado pela criação e pela destruição. É o ritmo da ascensão e da queda, da conversão energia cinética para potencial e da potencial para cinética. Os opostos se movem em círculos.

Lei do Gênero: O Gênero está em tudo. Tudo tem seus princípios masculino e feminino. Nada é 100% masculino ou feminino, mas sim um balanceamento desses gêneros. O gênero se manifesta em todos os planos da criação, que os chineses chamam de Yin e Yang. Toda criação depende dos dois polos.

Lei de Causa e Efeito: Toda causa tem seu efeito. Todo o efeito tem sua causa. Existem muitos planos de causalidade, mas nenhum escapa à Lei. Nada acontece por acaso. O acaso não existe. Isso implica que somos responsáveis por tudo que nos acontece. Esse princípio, aceito desde a antiguidade por todas filosofias de pensamento, chama-se Karma.

Esses princípios muito usados por astrólogos, tarólogos, grafólogos, homeopatas, terapeutas florais e por todos aqueles que sabem que o ser o humano faz parte de um Todo, estando portanto submetido às leis Universais. É natural que o ser humano esteja em harmonia com esse Todo.

Sob os Princípios das Leis Herméticas, tudo se torna claro e transparente às mentes mais esclarecidas. A desarmonia sempre se manifesta através das doenças físicas ou mentais, acidentes, infortúnios e buscar a cura significa ter a chance de evoluir espiritualmente.




quinta-feira, 23 de maio de 2019

Tykhe, deusa da boa sorte




Nos antigos cultos gregos, Tykhe ou Tique era a divindade tutelar responsável pela sorte de uma cidade. Considerada como uma das deusas do destino, ela era uma das Oceanides, filha de Oceanus e Tétis. Sua equivalente na mitologia romana era a Fortuna - a boa sorte.

Às vezes representada segurando um leme, foi concebida como a divindade que guiava e conduzia os assuntos do mundo. Sempre com os olhos vendados, Tykhe não fazia qualquer distinção entre as pessoas. Assim a boa ou má sorte não dependia do merecimento, mas de quem procurava estar sempre ao seu lado.

Durante o período helenístico, cada cidade venerava sua própria versão de Tycke. Uma delas portava uma coroa em formato das muralhas que protegiam a cidade. Entre os muitos templos dedicados a ela, em Alexandria existia o Tykhaeon - Templo de Tykhe, que foi um dos mais magníficos de todo o mundo helenístico.

Era considerada como protetora, mas também como aquela que poderia punir a soberba de uma cidade, sendo relacionada com os reveses inexplicáveis que aconteciam. A eficácia de seu caprichoso poder alcançou respeitabilidade até mesmo nos círculos filosóficos da época, embora entre os poetas fosse insultada por sua ação nas mudanças imprevisíveis da fortuna...


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O mito de Tykhe nos remete à definição: o que é a sorte? Depende de quem a interpreta. Segundo o dicionário clássico: "sorte é uma força imprevisível e incontrolável, que modela eventos de forma favorável ou não". Já o autor Max Gunther a define como "um evento aparentemente fora de nosso controle, que influencia nossa vida". Nesse contexto, sorte seria um quase-sinônimo de destino. 

Todo mundo tem sorte e azar na vida, mas isso não acontece por acaso. Na verdade, sorte e destino é uma mistura de matemática, psicologia, atitude diante das coisas e principalmente, sabedoria para fazer escolhas melhores e atrair mais oportunidades na vida – em especial aquelas que são geradas por uma sequência de acasos e parecem cair do céu. 

Sorte pode depender do acaso, mas você pode influenciar esse acaso a seu favor: basta encontrar alguma lógica naquilo que parece aleatório. É mais fácil do que parece, mesmo porque o ser humano já vem fazendo isso há muito tempo. Isso pode ser visto na questão do clima. Num dia chove, no outro faz sol. Essa alternância não tinha nenhum sentido para os homens das cavernas. Aos poucos, nossos antepassados foram decifrando a lógica  do tempo.  

Sorte: questão de probabilidades...

A humanidade inventou o primeiro calendário e a partir daí percebeu que existiam anos, meses e estações, assim como as épocas em que a probabilidade de chover ou fazer sol era maior ou menor. Sabendo a melhor época do ano para plantar e colher, o homem se tornou capaz de produzir a própria comida. Calculando as probabilidades, o homem começou a explora-las e assim manter o controle da própria sorte. 

Claro, sempre acontecerão coisas que parecem aleatórias. Imagine que a sorte são bolinhas caindo do céu. Você não sabe quando elas vão cair nem de que lado, mas se construir um funil bem grande, a chance de pegar as bolinhas será maior. Como construir esse funil? Reunindo o máximo possível de informações sobre cada situação e calculando as probabilidades envolvidas.

Sorte é sim, 
uma questão de comportamento...

A previsão fica melhor conforme você tem mais informações. Dessa forma você pode aumentar suas chances e arriscar. Mas o que significa arriscar, exatamente? No dia a dia, é ter a coragem de fazer algo aparentemente muito simples: se comportar como se você fosse uma pessoa de sorte. A sorte costuma sorrir para quem se comporta de maneira sortuda. Coisas boas acontecem para quem age com otimismo e está aberto às oportunidades. 

Sortudos se beneficiam de um ciclo virtuoso de sorte: eles se consideram sortudos e, a partir dessa crença, agem do jeito certo para aproveitar a sorte. O azarado se irrita na fila do supermercado, evita conversas com estranhos e, quando aceita trocar algumas palavras com alguém, frequentemente está preocupado com outra coisa – a ponto de não perceber que está diante do amor da sua vida ou de seu futuro empregador.

Depois de jogar fora uma oportunidade, o azarado evita passar debaixo de uma escada, uma superstição boba e vazia. Enquanto isso, o sortudo aproveita a fila para bater papo. Pesquisas comprovam que pessoas que se consideram sortudas, exibem em média 27% maior extroversão em testes de personalidade. Elas conseguem transformar encontros casuais em situações positivas. Porque sorte é, sim, uma questão de comportamento.  

Efeito borboleta

Ok, você aprendeu que é importante calcular as probabilidades das coisas – e que, para ter sorte, é fundamental se comportar como uma pessoa de sorte. Mas sempre existirão coisas totalmente incontroláveis, puramente dependentes do acaso. A ciência faz um grande esforço para dar ordem ao emaranhado de ações e reações da natureza, mas a tarefa não é simples. Se fosse, você não chegaria em casa ensopado depois de confiar na previsão furada feita pelo telejornal. 

Nem sempre os padrões identificados no passado podem ser aplicados no presente e, menos ainda, no futuro. Curiosamente, foi logo um meteorologista, o americano Edward Lorenz, o primeiro a perceber isso. Ele descobriu que alterações quase insignificantes poderiam mudar drasticamente o resultado final, o que chamou de Efeito Borboleta: porque algo muito pequeno, como o bater de asas de uma borboleta, poderia causar algo muito grande, como um tornado em outra parte do mundo. Esse conceito transformou o estudo do caos. 

Transforme o azar em sorte

Na vida, existem coisas que são realmente imprevisíveis e por isso impossíveis de influenciar. Nesses casos, nos resta apenas interpretar os acontecimentos de uma forma que favoreça a nossa sorte. Então, da próxima vez que você der de cara com um embarque encerrado, pegar uma fila, tropeçar na rua ou se deparar com algum contratempo que pareça azar, lembre-se: pode ser seu dia de sorte. 

O que interessa não é ganhar ou perder, mas o modo como encaramos os fatos. Às vezes um azar pode ser transformado em sorte. Supondo que você perdeu um voo, pode acontecer de você encontrar outra pessoa que também não conseguiu embarcar e daí surgir uma grande amizade ou um grande amor. Portanto, em qualquer caso, aja como uma pessoa de sorte. 

Busque o novo. 
Faça coisas diferentes. 

Com isso, sua chance de ter sorte se torna estatisticamente maior. Multiplique as chances. Só ganha na loteria quem joga. Participe mais de concursos e não dê bola para os números. Mesmo que um concurso seja muito concorrido, não desista. Não considere sua chance pequena. Seja otimista. Acredite. Se você não acredita que vai ganhar na loteria e nem vai encontrar sua cara-metade, provavelmente não vai encontrar mesmo.  


Aceite o acaso. 
Não tente ser racional o tempo todo

Aceite que a vida tem coisas aleatórias. Você terá azar de vez em quando, mas, quando isso acontecer, esteja preparado. Seja positivo. Não se lamente. Ficar pensando no pneu furado não fará com que um pneu novo apareça magicamente no lugar. Seja ativo. Pense a longo prazo. Talvez você seja demitido hoje, mas poderá encontrar um trabalho melhor amanhã – oportunidade que só notou porque estava desempregado. 

Analise objetivamente a situação 
e mude sua conduta a partir disso. 

Seja sociável. Quanto mais pessoas você conhecer, maior é a chance de que alguma delas traga boas notícias – como uma oferta de trabalho. Tenha calma. Se você vive correndo, jamais terá a sorte de notar aquela pessoa especial e nem nota de R$ 50 dando sopa na calçada. Medite. Meditar ajuda a tomar boas decisões, o que é essencial à sorte. Um estudo constatou que as pessoas sortudas meditam com mais frequência... 




quinta-feira, 10 de maio de 2018

Os perigos das paixões e dos desejos





Contam historiadores que há 3200 anos nasceu um Daemon no Monte Agdistis, que tinha atributos masculinos e femininos. Temendo a reação dos deuses do Olimpo, seus pais cortaram seu órgão masculino e enterraram num local onde depois nasceu uma amendoeira. Assim Cybele cresceu como uma menina. 

A amendoeira cresceu, floresceu e quando surgiu um fruto maduro, a ninfa Nana apanhou a fruta e a colocou sobre seus seios. Num passe de mágica o fruto desapareceu e ela engravidou. Depois de algum tempo nasceu um menino forte que recebeu o nome de Átis, mas ela o abandonou na montanha, onde foi criado por uma cabra e depois adotado por um casal de pastores. 

Átis cresceu, tornou-se um pastor de ovelhas e era muito admirado por sua extraordinária beleza. Por circunstâncias do destino, certo dia Átis e Cybele se encontraram e se tornaram amantes apaixonados. Os pais adotivos de Átis já tinham prometido que ele se casaria com a filha do Rei Midas, por isso providenciaram a cerimônia do enlace de Átis com a princesa. Porém no dia do casamento Cybele surgiu com seu poder transcendente fazendo Átis enlouquecer. 

Sem se dar conta de seus atos, Átis se automutilou. Depois de ter cortado seu órgão genital, Átis morreu aos pés de uma árvore. Com o fato consumado Cybele se arrependeu e em memória de Átis declarou que todos os sacerdotes deveriam ser castrados. Mas não querendo ver o corpo de Átis apodrecer, a deusa o fez renascer como um pinheiro verde em 25 de março, dia em que ocorria o festival de Hilaria. 

A data do festival coincidia com o equinócio, que marcava o fim do inverno e anunciava a chegada da primavera. Além de ser o primeiro dia do ano também era o mais longo, que indicava a temporada de renascimento, renovação e rebrota. Àtis passou a ser venerado como um deus da vegetação e dos frutos da terra que renascem na primavera. Seus sacerdotes, os gauleses ou Galli, se tornaram eunucos e jamais pensavam em sexo. 

Ao contrário das celebrações dedicadas para Átis, os cultos dedicados a Cybele eram feitos pelos Curetes ou Coribantes, incluindo muitas manifestações orgíacas. Representada com uma cornucópia nas mãos que representa a abundância, a fertilidade e riqueza, Cybele também ostentava uma coroa em forma de muralhas e um carro puxado por leões que simboliza seu poder ambivalente de proteger ou destruir.   


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A "Mãe Terra" aparece em muitas mitologias, sendo personificada como as deusas da fertilidade, da maternidade e da origem de todas as coisas vivas. Uma delas foi Cybele, adorada por gregos e romanos, que lhe prestavam muitas reverências para que tivessem o alimento gerado pela terra. 

Nos contos antigos a amêndoa figura como o princípio de todas as coisas, talvez porque sua delicada flor lilás é um dos primeiros arautos da primavera. Por não entenderem muito do processo de germinação, eles invocavam e pediam a proteção dos deuses no plantio e nas colheitas. 

Vários contos mitológicos e históricos relatam mulheres virgens que se tornaram mães virgens, mas na verdade são relíquias de uma era de ignorância quase infantil, em que as pessoas ainda não reconheciam o sexo como a verdadeira causa da prole. As mutilações narradas desde o início mostram a dificuldade para entender as questões sexuais e a dupla natureza contida nos seres vivos. 

Poetas e pensadores gregos tinham uma forma muito sofisticada para falar de amor e sexo. Além disso, os gregos se sentiam muito assustados com a ideia da paixão, pois sentiam que poderiam ser dominados por algo muito perigoso e até fatal. Prova disso são os mitos envolvendo grandes paixões, que sempre terminam em grandes tragédias. 

Os gregos sempre advertiam para os perigos das paixões e dos desejos. Quem já se apaixonou sabe do frio na barriga, o nervosismo, as mãos frias... O que poucos imaginam é que a paixão é construída no inconsciente muito antes de acontecer de fato. Cada pessoa tem a fantasia de que a sua metade está por aí. Há um preparo inconsciente de que um belo dia vai encontrar uma pessoa com características especiais, como a beleza, a sedução ou o sorriso, que batem nessa figura inconsciente. 

Freud fala que a paixão não é um encontro, mas o reencontro de uma figura que já estava pré-marcada dentro da pessoa. Ou seja, cada um de nós imagina uma pessoa que, de repente, aparece. É quando a paixão que se desejava aparece como uma figura real. Freud diz que a paixão é uma forma de loucura, porque você sente coisas, delira, imagina. 

A paixão é um estado maravilhoso no sentido fantástico, possivelmente um dos maiores prazeres do ser humano. Porém a paixão é cega; se nega a ver os defeitos do outro. Também impede o raciocínio.
Não se sabe de onde ela vem, mas certamente provoca em duas pessoas uma reação química. Química não tem a ver com beleza. Às vezes, um casal fica totalmente ligado sexualmente, mas não afetivamente. Mas embora seja intensa, não dura muito. 

A paixão não tem um tempo determinado. Na adolescência, costuma durar menos. Tudo é muito intenso, acontecem mudanças o tempo todo e o parceiro pode não acompanhar. Na fase adulta, há pessoas que são mais apaixonáveis, trocam de parceiro a cada seis meses e estão sempre apaixonados, só que não dura. 

Quem fica trocando de parceiros rápido, apaixona-se rápido, mas se frustra rápido também. É aí que a paixão pode se tornar perigosa e chegar a um ponto insuportável, principalmente quando não é correspondida. As pessoas que perdem uma paixão sofrem terrivelmente e há quem fique o resto da vida sonhando com essa paixão que não aconteceu. É um sofrimento absurdo. Não tem como não sofrer. Tem de passar por isso, atravessar a situação. 

O melhor de tudo vem depois que a paixão passa. Mantém a atração, a relação evolui e se transforma em amor. O amor é mais calmo, tranquilo, elaborado. Não precisa ser tão possessivo, mas podem existir áreas de paixão intensa. Há pessoas que mantêm uma relação durante toda a vida com o mesmo parceiro e, mesmo tendo o amor, continuam apaixonados por algum ponto específico, como o corpo, a personalidade, a cumplicidade a dois...





sábado, 10 de junho de 2017

A lenda do Abutre quebra-ossos




Ésquilo foi um dramaturgo da Grécia Antiga, não havendo fontes confiáveis sobre a sua vida. Dizem que ele nasceu por volta de 525 a.C. em Elêusis, pequena cidade a poucos quilômetros de Atenas. Pertencia a uma família rica e tinha boa posição social.

Reconhecido como o pai das tragédias gregas, conta-se que o dramaturgo criava suas peças teatrais inserindo muitos personagens, para poder criar conflitos entre eles. Aliás, as batalhas foram o tema principal de sua obra. Sua peça "Os Persas" continua sendo uma grande fonte de informação sobre a história grega.

Nas Guerras Persas, Ésquilo e seu irmão lutaram para defender Atenas do domínio persa de Dario I, na Batalha de Maratona. Embora o exército ateniense tenha conseguido dizimar os persas, o irmão de Ésquilo morreu durante o combate.

A guerra teve tanta importância para os gregos e para o próprio Ésquilo que, na ocasião de sua morte, em seu epitáfio havia uma homenagem por ter sido um grande guerreiro e não como um dramaturgo de sucesso.

Sobre sua morte reza a lenda que, ao visitar Gela na ilha de Sicília, teria encontrado um abutre-barbudo, que também era conhecido por quebra-ossos, porque tinha o hábito de jogar ossos em cima de ovos para quebrá-los. Ao confundir a careca de Ésquilo com um ovo, o abutre deixou cair um grande osso sobre sua cabeça, momento em que Ésquilo caiu morto...



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O abutre-barbudo - Gypaetus barbatus, também conhecido como quebra-ossos, é um animal das montanhas. Ele vive em diferentes picos da Espanha, Tibete, norte da África, Etiópia e oeste da China, já tendo registrada a presença dessa espécie vivendo a 7300 metros de altura no Everest, onde talvez devem aproveitar dos cadáveres dos alpinistas que não conseguem sobreviver.

Por incrível que pareça, o quebra-ossos tem esse nome por ser a única espécie a se alimentar quase exclusivamente de ossos. Eles aproveitam a medula óssea, fonte enorme de proteína que acaba não sendo aproveitada por outros animais.

Detalhe: são as únicas aves especializadas nesse tipo de alimento. Outro fato interessante sobre essa espécie é que possuem pelagem no pescoço, diferente dos outros abutres. Isso se deve ao fato de que, como se alimentam de ossos, não precisam enfiar a cabeça na carcaça.



domingo, 29 de janeiro de 2017

Penteu e as contradições humanas




Penteu foi um rei de Tebas, um semi-deus filho de Equion e Agave. Ele era descendente de Cadmo, o lendário fundador de Tebas que tinha sido amaldiçoado por ter matado o dragão consagrado ao deus Ares.

Cadmo e Harmonia eram pais de Ino, Sêmele, Autônoe, Polidoro e Agave. Embora Tebas tenha prosperado sob o reinado de Cadmo, o infortúnio sobrepujou todos os seus seus descendentes que tiveram a vida marcada por tragédias. Já idoso Cadmo entregou o trono de Tebas ao seu neto Penteu, mas que seria estremecido por tragédias.

Quando Sêmele estava grávida, sua família não acreditava que o filho era de Zeus, o deus dos deuses. Apaixonado pela bela Sêmele, Zeus fizera o juramento de jamais negar-lhe algo e acabou atendendo ao seu pedido de mostrar-se em seu esplendor. No mesmo instante ela foi fulminada pelos raios que dele emanava.

O filho de Sêmele foi salvo e costurado na coxa de Zeus,  onde completou seu desenvolvimento. Ao nascer Dioniso foi rejeitado pela família de Sêmele, tendo sido entregue para ser criado pelas ninfas. Ao se tornar adulto, Dioniso não era ainda totalmente divino.

Tendo descoberto a videira e seu uso, foi enlouquecido por Hera e vagou por algum tempo até ser curado por Cíbele, a deusa-mãe da Frígia. Depois disso, disseminou seu culto pelo mundo e estava sempre acompanhado pelas Bacantes, um cortejo de seguidoras que bebiam vinho e, em êxtase místico, dançavam freneticamente.

Dioniso estabeleceu o seu culto e enlouquecia a todos que se opunham ao culto que lhe era oferecido. Após viajar por toda a Ásia e outras terras estrangeiras, Dioniso chegou em Tebas disfarçado em forasteiro. Ali reinava seu primo Penteu que havia proibido o culto a Dioniso.

Reunindo as Bacantes, devotas de Dioniso, todas as mulheres de Tebas foram levadas ao delírio no Monte Citéron.  Embora não estivessem enfeitiçados, o velho Cadmo e o adivinho Tirésias apaixonaram-se pelos rituais das bacantes. Entretanto não podiam assistir os rituais devido à ordem do Rei Penteu, que mandou seus guardas prenderem todos os que participassem do culto dionisíaco.

Os guardas do palácio saíram às ruas e retornaram com o próprio Dioniso, disfarçado como um sacerdote de seu próprio culto. Penteu o interrogou com grande interesse nos ritos, mas Dioniso não se revelou e foi encarcerado. Sendo um deus, rapidamente conseguiu se libertar e destruiu o palácio de Penteu com um grande terremoto seguido por um incêndio.

Um pastor chegou com a notícia de que as Bacantes estavam no Monte Citéron realizando feitos incríveis, tal como colocar serpentes em seus próprios cabelos para reverenciar o deus Dioniso, amamentar gazelas e lobos selvagens, fazer o mel e vinho brotar do solo. Quando tentaram captura-las, elas avançaram sobre um rebanho de vacas rasgando-as em pedaços com suas próprias mãos.

Penteu se mostrou curioso e quis ver as mulheres em êxtase. Dioniso se dispôs a atender seu desejo, porém o convenceu a vestir-se como uma Mênade para observar os rituais. Assim que se aproximou do local onde estavam as Bacantes, Penteu começou a ver tudo em duplicidade. Quando quis escalar uma árvore para poder ver melhor, Dioniso usou seu poder divino e colocou o rei nos galhos mais altos.

Assim que chegou ao topo da árvore, Dioniso gritou às suas devotas e mostrou-lhes Penteu no topo da árvore. Ensandecidas e crendo tratar-se de um leão, as bacantes arrancaram Penteu da árvore e rasgaram seu corpo em pedaços.

Agave, que era mãe de Penteu, estava junto das bacantes. Ainda em estado de êxtase, retornou à sua casa carregando a cabeça de seu filho Penteu. Acreditando tratar-se da cabeça de um leão da montanha que havia caçado, ela exibiu o crânio para seu pai. Diante da expressão de horror de Cadmo que reconheceu a face de seu neto, lentamente Agave percebeu a tragédia consumada e enlouqueceu.


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Do mito de Penteu podemos depreender as consequências das paixões, da ilusão desordenada, do delírio do poder, da irracionalidade, do desvario, da perturbação e das loucuras, demonstrando a necessidade de auto-controle, moderação e sabedoria para evitar dois extremos: a tirania da ordem excessiva e o frenesi das paixões.

De fato, a paixão nos estimula a viver cada instante com intensidade, nos motiva a realizar façanhas inimagináveis em busca de objetivos aparentemente inatingíveis, tornando possível o que antes parecia impossível.

Apaixonados por um estudo, por um trabalho, por uma causa ou por uma pessoa, somos capazes de buscar em nosso íntimo a maior das forças para superar qualquer obstáculo. No entanto, se nos entregarmos irracionalmente ao frenesi da paixão, nos tornamos cegos para todas as outras questões, o que pode nos levar além do que é moralmente e eticamente aceitável.

Se uma das funções do mito é possibilitar que estejamos em contato com os nossos próprios aspectos que nos causa temor, também nos mobiliza para nos reconhecermos em nossos atos. A vida humana não tem a melhor das eficácias, não é regular, nem linear e muito menos coerente.

Somos responsáveis por nossas paixões e pelos rumos de nossa vida. Se nos deixarmos ser governados pela desrazão, podemos pagar um alto preço. No entanto, a razão excessiva impõe limites e restrige a nossa criatividade. Essas são contradições com as quais precisamos saber conviver e encontrar equilíbrio. 

Abas e a convivência familiar




Abas era um conquistador de sucesso. Segundo a lenda, teria fundado a cidade de Abas na região central da atual Grécia, que abrigava um dos Oráculos de Apolo. Era filho da última das Danaides, Hipermnestra e Linceu. Com sua esposa Aglaia, ele foi pai de 4 filhos: Lyrcus, os gêmeos Acrisius e de Proetus ou Preto, e a filha Idomene. Assim ele fundou uma linhagem e os reis de Argos passaram a ser chamados de Abantidas.

Abas legou seu reino para os filhos gêmeos Acrisius e Proetus, ordenando-lhes que deveriam governar alternadamente.
Porém os gêmeos já brigavam ainda quando dividiam o ventre de sua mãe. Mais uma vez se repetiria a mesma saga que envolveu seu avô Danaus e Egipto.

Egipto expulsou Danaus do seu reino com suas 50 filhas. Mas quando Danaus e as suas filhas, as Danaides, descobriram a fonte de água pura, Egipto propôs a Danaus casar suas 50 filhas com os seus 50 filhos.


Danaus concordou mas aconselhou as filhas a matarem seus esposos na noite de núpcias. Porém Hipermnestra poupou a vida de Linceu porque o amava. Desta união nasceu Abas. No entanto, Egipto matou Danaus e Linceu foi coroado rei de Argos.

As 49 Danaides foram condenadas a encher com água um tonel sem fundos. Quando Abas informou ao seu pai da morte de seu avô Danaus, ele foi recompensado com o escudo de seu avô que era sagrado para Hera. Abas foi considerado grande guerreiro e mesmo depois de sua morte, os inimigos de sua família real fugiam perante o seu escudo.

Acrísius reinou em Argos e Proetus em Tirinto, ficando a Argólida dividida em dois reinos. Acrisius teve uma filha, Dânae, e devido à previsão do oráculo de que seu neto o mataria, ele prendeu a filha numa torre. Dânae teve um filho de Zeus, quando ele se transformou numa chuva de ouro. Assim nasceu Perseu, o descendente mais famoso de Abas. 




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O mito de Abas está relacionado à difícil convivência nas famílias e o ódio que nasce nas relações familiares. Os conflitos familiares remontam à antiguidade e sobrevive ainda nos tempos atuais. Independente da classe social, sejam ricos ou pobres, é frequente as pessoas se queixarem dos relacionamentos familiares conturbados. Mas por que as relações familiares costumam ser tão complicadas?

É óbvio que existem várias explicações teóricas para
esses conflitos, no entanto, para entender as disfunções familiares e a constante desarmonia em família, é preciso que se entenda sobre a convivência social. Enquanto alguns membros se dão muito bem, outros vivem em pé-de-guerra, num verdadeiro barril de pólvora.

O grupo familiar é mais do que um resultado genético (DNA) da união dos pais. A família consanguínea reúne membros
que estão ligados pelos laços de sangue e obviamente pode existir ou não existir afinidades, como valores morais, valores, religiosos, crenças, pensamentos e sentimentos. Existem aqueles que se integram ao núcleo familiar, identificando-se com os outros e criando laços afetivos. No entanto, existem aqueles que se sentem estranhos no ninho e não conseguem desenvolver afeição pela família.

Fala-se muito em crise de desintegração da família. Há quem atribua isto ao grande número de separações e divórcios. Outros querem responsabilizar os meios de comunicação, pela divulgação sem censura de uma certa liberalização das relações sexuais etc, etc. De fato, estamos vivendo um processo histórico importante de transformação, onde a quebra da ideologia patriarcal impulsionada pela revolução feminista são os elementos determinantes. Mas não se pode falar em desagregação.

É irrefutável a premissa de que a família é, foi e será sempre a célula básica da sociedade. É a partir daí que torna-se
possível estabelecer todas as outras relações sociais. Quem não consegue estabelecer uma relação social sadia com os seus familiares, tampouco com terceiros fora no núcleo é que não conseguirá. É na família que se aprende a negociar, fazer acordos, buscar entendimento e saber compartilhar.

As mudanças são mesmo difíceis. Admiti-las significa repensar modelos, paradigmas e abrir mão de determinados poderes instituídos. Devemos nos acautelar e desconfiar sempre daqueles resistentes às mudanças, que se posicionam como os guardiões de uma moralidade. Segundo a psicanálise, quanto mais moralizador mais pervertido é o sujeito...




segunda-feira, 11 de maio de 2015

Proteus, dons proféticos e reveladores do destino



Proteus era um deus marinho, um dos 3.000 filhos dos titãs Tétis e Oceano. Nascido em Palene, uma pequena cidade da Macedônia, ele teve dois filhos gigantes e cruéis: Tmolos e Telégono. Não conseguindo transmitir o sentimento de humanidade para seus filhos, Proteus pediu ajuda a Netuno.
O deus do mar aconselhou Proteus a abandonar sua cidade e ir com ele cuidar do grande rebanho de peixes e focas nas costas do Egito. Depois de algum tempo Netuno quis recompensá-lo por seu trabalho e concedeu-lhe o conhecimento do presente, do passado e do futuro.
Proteus passou a ser reverenciado por seus dons proféticos e reveladores do destino. Muitas pessoas passaram a procurá-lo desejando conhecer as artimanhas do destino, porém Proteus se mostrava arredio para revelar sobre os acontecimentos vindouros. Ele considerava que cada um poderia fazer seu próprio destino através de suas ações. Para se esquivar das pessoas, Proteus se metamorfoseava assumindo aparências monstruosas fazendo as pessoas fugirem assustadas.

Entretanto Proteus tinha duas filhas que conheciam seus segredos; uma delas era a ninfa Eidotéia. Quando Menelau, o rei de Esparta, tentava regressar para sua casa após a Guerra de Troia, ventos contrários levaram seu navio até as costas do Egito. Compadecida do rei, Eidoteia revelou a Menelau que bastaria surpreendê-lo durante o sono e amarrá-lo para que não escapasse e fazer-lhe as perguntas.

Seguindo as instruções de Eidoteia, Menelau e seus três companheiros de esconderam na gruta onde Proteus costumava descansar com seu rebanho após a refeição do meio-dia. Proteus chegou na gruta e tomou uma posição cômoda para dormir. Assim que ele fechou os olhos, Menelau e os seus companheiros se atiraram sobre ele e o apertaram fortemente entre os braços. Proteus se metamorfoseava em leão, árvore, dragão, javali e outros monstros, mas era inútil pois eles o apertavam com mais força.
Quando enfim esgotou todas as suas astúcias, Proteus voltou à forma ordinária e deu a Menelau os esclarecimentos que ele pedia. Apesar de ser capaz de prever as grandes tempestades e as dificuldades que Menelau iria encontrar durante sua viagem pelo mar, Proteus só poderia aconselhar. O resto dependeria apenas de Menelau...
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O mito de Proteus nos remete à reflexão sobre o comportamento humano nas diferentes situações da vida. Muitas vezes sabemos o que fazer, mas algumas vezes nos sentimos confusos e precisamos da orientação dos outros. O problema surge quando nos tornarmos dependentes da opinião alheia, sempre esperando que os outros tenham todas as respostas para os nossos problemas.
A excessiva dependência de orientação ou conselhos de outros não é algo saudável, pois pode revelar insegurança e até mesmo um transtorno de personalidade. Caracterizado pelo medo, carência, baixa autoestima, dificuldade para expressar as próprias vontades e necessidades, submissão às vontades dos outros e incapacidade de tomar decisões, esse transtorno pode incapacitar para o trabalho e causar prejuízos em várias situações da vida.
Ser extremamente dependente da orientação dos outros, significa sentir-se desamparado e precisar da proteção alheia. O problema se torna maior quando encontra alguém em quem possa apoiar, que pode levar à limitação da consciência de si mesmo para assimilar as crenças, gostos e sentimentos dos outros, como se fosse parte do outro. Quem age assim, age como se não tivesse vontade própria.
Geralmente a pessoa muito dependente se julga insuficiente, impotente e incapaz, deixando seu destino nas mãos dos outros. Por não acreditar em si mesma, em suas habilidades, virtudes e atrativos, falta-lhe ambição e motivação para desenvolver um trabalho rentável. Pelo medo da rejeição e pela necessidade de se sentir aceita pelos outros, tende a se mostrar excessivamente modesta, agradável, gentil e disponível para fazer algo para os outros. 
Além de colocar-se sempre como um serviçal, a pessoa sofre de uma extrema carência de atenção, podendo recorrer à utilização de alguns esquemas. Uns optam por fazer repetidas queixas de sua vida. Reclamam das dificuldades de relacionamento afetivo ou social, da sua relação com os seus familiares, vizinhos e colegas ou problemas no trabalho. Outros se concentram na queixa de sintomas e doenças.
Nem sempre as queixas estão relacionadas com algum transtorno psicológico, mas serve como alerta para que reflitamos sobre o nosso comportamento. Alugar o ouvido dos outros com as nossas queixas não trará solução para os nossos problemas. Assim como Proteus, nem sempre as pessoas estão disponíveis para ouvir os problemas de outras ou dar conselhos. Importante é tentarmos analisar nossas questões e verificarmos se não estamos muito dependentes da opinião alheia...

    

quinta-feira, 26 de março de 2015

Nunca esqueça onde queres chegar



Odisseu ou Ulisses foi um dos grandes heróis da Guerra de Troia. Depois de derrotar os troianos, ele iniciou uma longa viagem de dez anos de volta para Itaca, onde sua esposa Penélope o aguardava. Seu regresso foi marcado por muitas aventuras e desventuras, que atrasaram sua viagem.
Numa ilha Ulisses e seus companheiros enfrentaram o cíclope Polifemo e só conseguiram fugir porque cravaram uma lança no único olho do gigante. Eles não sabiam que Polifemo era filho de Posidon, por isso passaram a ser perseguidos pelo deus dos mares que criou inúmeros problemas para eles no percurso da viagem.
Depois de algum tempo navegando, eles se perderam e chegaram à Ilha da feiticeira Circe. Enfeitiçado pelas artimanhas da bela jovem, Ulisses permaneceu na ilha por um longo período. Quando enfim resolveu partir, Circe ajudou-os a passar sãos e salvos pela costa da Ilha das Sereias, recomendando que tapassem os ouvidos com cera para não serem inebriados pelos cantos das sereias.
Depois de terem enfrentando estes e tantos outros perigos, Ulisses pensava que ele e seus companheiros haviam superado todos os desafios da viagem, mas o pior estava por vir. Ao enfrentar uma tempestade o barco onde viajavam naufragou. Tentando salvar-se do naufrágio Ulisses e seus companheiros acabaram indo para a Ilha de Ogígia, onde vivia a ninfa Kalipso.
Kalipso era uma das milhares ninfas do mar que vivia numa gruta na encosta da montanha, cuja morada tinha sua entrada cercada por um bosque sagrado e uma fonte sagrada. A princípio ela os recebeu com cortesia, mas depois de apaixonar por Ulisses ela tornou prisioneiros todos os viajantes.
A etimologia do nome da ninfa kalypto significa esconder, encobrir e ocultar, sendo o oposto de Apocalipse, que significa revelar. Portanto Kalipso era originalmente a deusa da morte. Ela passava os dias a tecer o tempo e a fiar o destino. Ela desejava seduzir Ulisses oferecendo-lhe a imortalidade, mas ele resistia porque tinha a intenção de retornar para Ítaca.
Passado sete anos Zeus compadeceu-se do sofrimento de Ulisses e mandou que Hermes fosse convencer Kalipso para libertar seus hóspedes. O pedido do deus dos deuses foi atendido e, mesmo contra sua vontade, Kalipso deu a Ulisses tudo o que ele necessitava, tal como as provisões, um novo barco e as condições favoráveis para o caminho de volta ao lar.
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A volta para Ítaca pode representar os nossos objetivos, planos e projetos, dos quais podemos querer desistir diante dos inúmeros obstáculos que possam surgir. E mesmo que tenhamos previsto algumas dificuldades, sempre podemos ser surpreendidos por questões que estão além de nossas previsões e controle. É preciso saber lidar com imprevistos e buscar alternativas.
Assim como Ulisses, muitas vezes temos de tapar os ouvidos para não prestar atenção aos pessimistas de plantão que insistem em nos desestimular de nossos planos e projetos. Mas também temos de evitar as ilusões e fantasias que a nossa imaginação possa criar. Nada é mais perigoso do que querermos ir além do que temos condições e do podemos suportar.
Quando estamos atentos à realidade dos fatos temos mais condições de optar e escolher melhor. Muitas vezes podemos encontrar propostas sedutoras de vantagens e lucros, mas conseguidas através de fraudes e negociações pouco honestas. Podemos até pensar que isso servirá para nos ajudar a chegar onde queremos, porém certas facilidades servem apenas para atrasar onde queiramos chegar. Essa é a lição de Ulisses.

terça-feira, 10 de março de 2015

Sabazius, deus da cevada e da cerveja


Perséfone ou Koré era uma linda criança que gostava de brincar nos campos floridos. Quando ela cresceu tornou-se uma bela jovem muito cobiçada pelos deuses. Por onde passava Persefone atraia todos os olhares, porém sua mãe Deméter impedia que todos se aproximassem dela.
Certo dia ao passear pelos campos floridos Persefone desapareceu. Depois de muitos anos de busca, Deméter descobriu que Hades - o senhor das trevas - havia raptado sua filha. E assim foi feito um acordo: Perséfone passaria seis meses junto com seu marido nas Trevas e seis meses junto com sua mãe na Terra. Daí surgiu a divisão da estações do ano.
Sua beleza era admirada por todos os deuses, inclusive por Zeus - o deus todo poderoso do Olimpo. Isso despertou a ira de Afrodite, que sempre desejava ser a mais bela e admirada. Devido a essa rivalidade Afrodite plantou o amor no coração de Zeus, que se transformou numa serpente para seduzir Persefone quando ela viesse visitar sua mãe. Do encontro entre Perséfone e Zeus nasceu Sabazius, que foi viver com Zeus no Olimpo.




Zeus era casado com Hera, mas mantinha seus casos extraconjugais. Entre suas amantes estava Sêmele, a quem Zeus prometeu jamais negar-lhe algo. Para vingar-se da traição, a esposa de Zeus despertou em Sêmele a curiosidade de vê-lo em todo o seu esplendor. Ao satisfazê-la, Sêmele não suportou a visão de Zeus - deus dos raios e trovões - e foi fulminada pelo grande clarão do raio que a atingiu.

Sêmele estava grávida e, na tentativa de salvar a criança, Sabazius costurou o feto na coxa de Zeus. Ao final da gestação nasceu Dioniso, vivo e perfeito. Contudo Hera continuou a perseguir a estranha criança de chifres e ordenou aos Titãs que a matassem. Mais uma vez Sabazius ajudou Zeus a resgatar o coração da criança, que foi cozido junto com sementes de romã transformando numa poção mágica. Eles deram a poção a Perséfone, que engravidou e novamente Dioniso nasceu, sendo chamado "o que nasceu duas vezes".

Graças a Sabazius o pequeno Dioniso sobreviveu. Convocado por Zeus para viver na terra junto aos homens, Dioniso compartilhava com os mortais as alegrias e as tristezas. Atingido pela loucura, Dioniso perambulava pelo mundo junto aos sátiros selvagens, loucos e animais. Deu à humanidade o vinho e suas bençãos, concedendo o êxtase da embriaguez e a redenção espiritual a todos que decidissem abandonar suas riquezas e renunciar ao poder material. 
Sabazius também possuía seus atributos e era célebre por sua velocidade e poder de transformação. Considerado como uma divindade agrícola, tal como Dionísio ele também tinha chifres na testa.  Alguns chamavam Sabazius de deus-cabrito. Venerado durante a Sabátidas, consagravam-lhe o trigo e a cevada, de onde se fermentava uma bebida inebriante que era servida e apreciada pelos presentes. Essa bebida era a cerveja.


As Sabátidas eram festivais consagrados a Sabazius e também a Pã - deus dos bosques e a Príapo - deus da fertilidade, todos representados pela figura de faunos ou bodes. Durante a festa os convivas banqueteavam sentados no chão sobre peles de animais caprinos, com as quais também se cobriam encarnando seu comportamento e imitando seus berros.
Nesse culto agrário, uma virgem nua simbolizava a fertilidade. Em alusão à Demeter - a Mãe Terra, a virgem deitava-se sobre a mesa ritualística e recebia sobre o ventre as oferendas, geralmente o trigo e a cerveja. Ela própria após o banquete era oferecida à divindade caprina dona da festa, sempre encarnada por um sacerdote com máscara de chifres, vestido com pele de cabra, assim como os demais presentes.
Enlevados pela bebida, durante a festa eles misturavam-se e, não importando o sexo, fecundavam-se mutuamente. Ao final da festa, semelhantemente às Bacanais, invocava-se o raio numa alusão ao mito dionisíaco. Essa era uma forma de relembrar o raio de Zeus que fulminou Sêmele.

A desvirginada do altar arrancava com sua boca a cabeça de um sapo e a cuspia ao chão, em alusão às Mênades possessas que dilaceravam os animais conforme descreveu Eurípedes de modo perturbador nas Bacantes. Estes eram os originais pagãos, cujas festas celebravam no pago ou no próprio povoado, geralmente nos campos de suas comunidades.

Na antiga Roma, Dionísio era conhecido como Baco - o deus do vinho, tendo sido mais popular devido às grandes plantações de uvas e, consequentemente, pela produção do vinho. Além dos limites romanos viviam os bárbaros e pagãos, que cultivavam os cereais, a cevada e o trigo. Isso tornou os povos pagãos - celtas, bretões, gauleses e caledônios - , os povos bárbaros germanos - anglos, saxões, godos - e os povos da suméria, babilônia e Egito, adoradores de Sabazius e  grandes apreciadores  da cerveja.   



quinta-feira, 17 de julho de 2014

Afrodite e seus filhos: as faces do amor


Segundo a mitologia grega, Afrodite era cultuada como a deusa da beleza, do amor e da sexualidade. Para os romanos ela era a deusa Vênus que não tinha paternidade, pois era nascida dos órgãos genitais de Urano que foram atirados ao mar quando ele foi castrado. Imensamente bela, todos os deuses do Olimpo desejavam conquistar Afrodite, mas ela não se decidia por nenhum. Temendo que Afrodite se tornasse um motivo de discórdia entre os deuses, Zeus decidiu casa-la com Hefesto.

Hefesto era um deus feio e pouco apreciado pelas mulheres, além de que mancava devido a uma deformação. Seus pés tortos e seus quadris deslocados faziam do seu caminhar um motivo de riso no Olimpo. Quando ele nasceu sua mãe sentiu-se envergonhada de ter produzido tão horrenda criatura. E por Hera ser tão bela e grandiosa, tentou se livrar do menino atirando-o do alto do Olimpo para que ele morresse no mar. Porém Tétis, a rainha dos oceanos, o salvou.

Durante alguns anos o menino passou escondido sob as águas, mas Hefesto revelou grande talento como forjador inventando engenhosos objetos de ferro e ouro. Ao casar-se com Afrodite ele deu a ela um cinturão de ouro que tinha poderes mágicos, assim poderia se defender do assedio dos deuses. Porém Afrodite usou os poderes mágicos para atrair diversos amantes, tanto deuses quanto mortais, com os quais teve diversos filhos.

Com Apolo ela teve seu filho Himeneu, que era sempre confundido com as mais lindas moças devido à sua exuberante beleza. Príapo resultou do relacionamento de Afrodite e Dioniso, tendo se tornado rejeitado pelas mulheres devido à sua libertinagem e ao seu pênis absurdamente exagerado. Com Hermes ela teve seu filho Hemafrodito, que representa a fusão dos dois sexos sem ter gênero definido.

Mas o amante preferido de Afrodite foi Ares, com quem teve vários filhos: Eros - o deus da paixão, Anteros - o deus da razão, Fobos - o medo, Deimos - o terror e Harmonia - a deusa da concórdia. Eneias foi o único filho nascido de seu relacionamento com Anquises, que era um simples mortal. Com a queda de Tróia Eneias partiu com sua família carregando seu velho pai nos braços, que o orientou até chegar às novas terras.


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O mito de Afrodite e seus filhos mostram as diversas faces do amor e da paixão humana. Ah... o amor. O que seria do ser humano sem amor. Quem nunca desejou amar e ser amado? Desde a nossa primeira respiração já estamos ansiando pelo amor e crescemos desejando ser amados, pela nossa família, por nossos amigos e colegas, principalmente por alguém em especial.

O amor tem diversas faces. Alguns querem amor, mas na verdade anseiam pelo sexo. Amor Eros: erótico, sensual, sexual. Outros querem amor, mas na verdade o que sentem é o medo da solidão. Há aqueles que pensam que amam sem perceber que se trata apenas de paixão. Amor dependente precisa apenas de estar junto de alguém. Amor ventania passa rápidinho. Amor conveniência só enxerga o amor com a razão. Amor cantado por Platão perdura apoiado apenas na ilusão. Ter uma companhia apenas para sair e divertir não é amor, é amizade. 

Há amores que afirmam viver em harmonia, mas vivem apenas da monotonia de uma solidão a dois. Isso acontece quando desaparece a curiosidade e o prazer de conhecer cada vez melhor o outro e dar-se a conhecer cada vez mais. O amor é como fogueira, precisa ser alimentado para se manter aceso. Não deixar que as luzes da curiosidade e da inocência se apaguem.

É preciso encontrar algo novo a cada dia junto de quem se ama, realizar novas atividades e ter sempre algo novo a demonstrar como se estivesse em constante renovação. Certeza demais e excesso de estrutura apaga o amor. Incertezas demais e falta de estrutura também. Ideal é nunca se cansar de desvendar o universo do relacionamento do qual se pode usufruir de experiências construtivas.

Assim como os filhos de Afrodite, nem tudo no amor é perfeito. Cada pessoa tem a sua história de vida, suas ânsias e medos. Em alguns dias o amor pode ser lindo e romântico. Em outras ocasiões pode ser inundado pela paixão. Sexo bom é legal, mas nem sempre sexo quer dizer amor. Inimigo do amor é o medo, o terror das suspeitas e a rejeição do outro como ele é.  O amor não sobrevive diante do egoísmo e da falsidade. Amor é também amizade, tolerância, carinho e compreensão. 

Quem ama verdadeiramente não se perde no outro, não precisa do outro e nada busca em troca. Nada atrapalha, nada interfere, nada perturba um amor verdadeiro. É um amor que brilha, traz energia e transmite energia. Por ser valioso e raro necessita de cuidados em todos os momentos. São inúmeras as faces do amor; saber lidar com elas requer sabedoria. Saber falar e escutar. Saber perdoar e pedir perdão. O amor é falível, mas é preciso crescer e amadurecer através do amor, sem jamais perder a eterna inocência de simplesmente amar.


sábado, 22 de março de 2014

Díogenes de Sínope, um modo radical de viver



Diógenes de Sínope foi um filósofo grego discípulo de Antístenes, fundador da Escola Cínica. Em sua época teve destaque e tornou-se um símbolo do cinismo devido à sua filosofia e modo radical de viver. Nascido em Sínope no ano de 413 a.C., Diógenes foi exilado de sua terra devido a adulteração de uma moeda. Alguns diziam que a culpa era de seu pai, enquanto outros culpavam Diógenes já que ele lidava com a cunhagem das moedas.

Quando Diógenes chegou em Atenas passou a viver como um mendigo, já que ninguém quis acolhê-lo. Ele tentava ser discípulo de Antístenes, um filósofo grego que dizia que o preceito ético fundamental da existência deveria ser a virtude e não o prazer. Depois de muito insistir,  Antístenes o recebeu como seu discípulo.

Certo dia Diógenes viu um rato correndo pela rua de um lado para o outro sem direção. Isso foi entendido pelo filósofo como um remédio para as suas dificuldades, pois o rato não procurava abrigo, não temia as trevas e nem procurava nenhuma comodidade. E assim Diógenes adotou um estilo de vida como uma resposta contra as comodidades e atividades intelectuais. Ele era contra qualquer forma de erudição e expressava-se por atitudes e escolhas concretas.

Ele vestia apenas uma túnica e vivia num tonel. Comia o que encontrava na natureza e lambia água das poças, tornando-se um ícone do quão pouco os homens precisam para viver sem necessidade do supérfluo. Ele acreditava atingir a plena liberdade não se deixando dominar pela necessidades de conforto e prazeres, pois para os cínicos os prazeres enfraquecem o corpo e a alma e o tornam um escravo, pondo em perigo a liberdade do homem.

Os Cínicos pregavam o desapego dos bens materiais, contestavam o matrimônio, a convivência em sociedade e se declaravam cidadãos do mundo. Acreditavam que o homem deveria ser autônomo, auto-suficiente e tratar o mundo externo com indiferença, pois a felicidade deveria vir de dentro do homem e não do seu exterior. Alguns extrapolaram, rejeitando as decências básicas. Defendiam a liberdade de expressão do pensamento e Diógenes dizia:  A liberdade para falar é a coisa mais bela para um homem.  

Conforme relatos históricos, ele andava durante o dia em meio às pessoas com uma lanterna acessa pronunciando ironicamente a frase: "Busco um homem que viva segundo a sua essência". Na verdade ele procurava um homem que tivesse encontrado sua verdadeira natureza e vivesse segundo ela. Sua busca se concentrava em alguém que tivesse superado as exigências exteriores emanadas pelas convenções sociais como comportamento, dinheiro, luxo ou conforto e fosse feliz.

Para Diógenes, os deuses tinham dado aos homens formas de viver de um modo fácil, mas escondiam o modo de ser feliz. Ele tentava demonstrar que as pessoas não precisavam de ter coisas exteriores para ser feliz, pois a natureza já oferecia o que era realmente necessário. Para ele, as reais necessidades do ser humano estariam em sua própria condição animal, como a necessidade do alimento e não na necessidade de ter casa e conforto. Por isso dizia que o homem deveria se espelhar nas necessidades básicas dos animais para conduzir sua vida.

Diógenes faleceu em 323 a.C. Em sua homenagem foi construída uma coluna com um cão no topo, simbolizando seu modo de viver e até mesmo seu apelido, Diógenes - o Cão. Em seu túmulo foi escrita a frase: "O próprio bronze envelhece com o tempo, mas tua gloria, Diógenes, nem toda a eternidade destruirá, pois apenas tu ensinaste aos mortais a lição da autosuficiência na vida e a maneira mais fácil de viver ".


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O modo de viver de Diógenes inspirou a psiquiatria a nomear um transtorno psiquiatrico de "Síndrome de Diogenes", que se caracteriza pelo costume de acumular objetos inúteis e sem valor, recolher e acumular lixo e até dejetos. Chamada também de Síndrome de Miséria Senil por aparecer mais entre idosos, na verdade a síndrome também pode ser encontrada entre pessoas jovens.

A acumulação compulsiva de objetos é um dos sintomas de uma doença mental, um transtorno de ansiedade que muitos especialistas afirmam ser um transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Trata-se de uma perturbação que se caracteriza não só pela acumulação de objetos inúteis e lixo, mas também pela dificuldade de livrar-se de objetos. O acumulador compulsivo costuma colecionar móveis, livros, jornais, revistas, pregos, parafusos, recipientes e eletrodomésticos, mesmo que estejam com defeito e nem funcionem. Eles são a imagem dos sem-abrigo e juntam todo o tipo de velharias.

Entretanto, é preciso saber distinguir o Transtorno de Colecionamento, como é denominado pelos psiquiatras, do colecionismo não patológico. Se uma pessoa tem como hobby colecionar selos, livros, bonecas, carrinhos e outras coleções organizadas, trata-se apenas de uma atividade que serve para distrair ou divertir. Só não é considerado normal quando o comportamento possa resultar em um ambiente bagunçado ou se causar sofrimento ou comprometimento significativos.

Tal como a maior parte dos comportamentos obsessivos, a acumulação compulsiva começa lentamente e se desenvolve de forma progressiva. Dificilmente as pessoas admitem que guardam coisas em excesso. Alguns justificam seu comportamento para poder atender a uma eventual emergência. Eles dizem que poderão precisar daqueles objetos numa eventualidade ou fazem planos para usá-los em alguma oportunidade que nunca chegará. 

Essa é uma doença que evolui com o tempo. A maioria das pessoas não sabe especificar quando começou a ter o vício de acumular. Algumas pessoas podem ter outros sintomas como depressão, esquizofrenia e transtorno bipolar, podendo haver sentimentos como frustração ou arrependimento, assim como medo e ansiedade. Muitas vezes a doença funciona como uma mórbida auto compensação de algo que aflige a pessoa, como conflitos pessoais, profissionais ou uma experiência traumática. Também pode ser um costume aprendido na infância devido à convivência com pessoas que tinham o hábito de acumular.

Os sintomas mais comuns da doença são o isolamento social a a reclusão em casa. Algumas pessoas podem se tornar verdadeiros eremitas; nunca saem, não participam de festas, evitam contato com outras pessoas, costumam pedir comida através do serviço de delivery. Com o passar do tempo, podem abandonar a higiene física, acumular sujeira no ambiente e passar a acumular objetos inúteis. E se sentem irritados e incomodados quando alguém se disponibiliza para arrumar e fazer limpeza no lugar. Sem a desordem e o caos, alguns dizem se sentir perdidos e com sensação de perda. 

Não há uma regra que determine o que poderia desencadear a síndrome. Alguns psiquiatras afirmam que poderia ser um tipo de demência ou associação com outras síndromes. Nota-se que geralmente essa síndrome acompanha as pessoas que vivem sozinhas ou não conseguem superar a morte de um familiar. Idosos podem sofrer pela solidão e stress causado pela idade. 

Embora a síndrome possa surgir em pessoas que sofrem de dificuldades econômicas, há também aqueles que vivem voluntariamente em condições de extrema pobreza, ainda que tenham um considerável patrimônio. Recentemente na Arábia Saudita faleceu uma mendiga que surpreendeu ao mundo ao descobrirem que na verdade ela era milionária. Eisha morreu aos 100 anos de idade deixando uma fortuna sem herdeiros estimada em US$ 1 milhão. Ela dizia estar se preparando para tempos difíceis.  

Apenas uma avaliação psiquiátrica poderia diagnosticar a síndrome, mas podemos identificar a tendência ao transtorno observando quando começarmos a juntar quinquilharias e notarmos nossa avareza e mesquinharia, fazendo de pequenas coisas grandes questões. Geralmente quem acumula inutilidades é porque acredita apenas na pobreza e não acredita que no futuro terá prosperidade suficiente para adquirir novos objetos quando for necessário. 




terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Makaria, a deusa dos finais felizes



Na mitologia grega, Perséfone era considerada a deusa das ervas, flores, frutos e perfumes. Criada no Olimpo, o lar da nobreza divina, na infância ela tinha sido uma linda criança chamada Koré, filha de Zeus e Demeter, a deusa da agricultura, das estações do ano e da feminilidade.
Quando os primeiros sinais da beleza e feminilidade de Perséfone começaram a brilhar em sua adolescência, vários deuses do Olimpo começaram a cortejá-la. Deméter tentava proteger sua filha do assédio dos deuses e rejeitava as propostas de casar sua filha. Porém Hades, o deus do mundo subterrâneo, não aceitou a rejeição. Certo dia, enquanto Koré colhia narcisos no campo, Hades sequestrou-a e levou-a para ser a rainha Persefone do seu reino.
Demeter ficou inconsolável e sua tristeza fez a terra se tornar estéril e nada mais florescia. Diante da falta de alimento, Hermes interceu junto a Hades e fez um acordo. Persefone passaria metade do ano junto com sua mãe e a outra metade no mundo inferior. Quando Persefone vinha visitar sua mãe, o mundo se tornava alegre e florido o que deu origem à primavera e o verão. Porém, quando Persefone retornava ao reino de Hades, as árvores perdiam suas folhas, nada florescia e o mundo se tornava frio e triste, originando o outono e o inverno.    
Tendo se tornado a rainha do mundo dos mortos, Persefone interferia nas decisões de Hades. Era Persefone quem cortava o fio de cabelo que ligava qualquer mortal à vida. Algumas vezes, mesmo que Hades ou outros deuses decidissem enviar alguém ao mundo dos mortos, ela intercedia a favor dos heróis e mortais. 
Da união entre Persefone e Hades nasceu Makaris ou Makaria, a deusa da boa morte e de um final feliz. Ela dava proteção aos justos e concedia-lhes uma morte serena e tranquila, às vezes durante o sono, acompanhando-os até a sentença final no tribunal dos mortos. Descrita como uma bela mulher de pele alva com cabelos negros, ela vagava entre os mortais sem ser percebida, apenas sentida através de seu doce perfume...
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Os antigos gregos, assim como outros povos antigos, tinham uma visão sobre a morte bem diferente do que temos nos dias atuais. Para eles a morte não significava o fim, mas o início de uma nova jornada. Impreterivelmente as almas dos mortos deveriam passar pelo tribunal de Hades, que julgaria toda as ações praticadas e dali poderiam seguir diferentes destinos.
O Tártaro era um lugar de sofrimento, onde ficavam presas as almas daqueles que tivessem sido cruéis, injustos ou despertassem a fúria dos deuses do Olimpo. Mas caso a pessoa tivesse sido bondosa, ética e justa, sua alma seguiria para os Campos Elísios onde repousavam as almas virtuosas.
Nesse local de alegrias eternas, rodeado por paisagens verdes e floridas, só entravam as almas dos justos, santos, heróis, poetas e deuses. Algumas das boas almas tinham a oportunidade de regressar ao mundo dos vivos, mas antes permaneciam por um longo tempo bebendo das águas do rio Lethe, o rio do esquecimento. Quando apagava toda a sua memória, as almas poderiam reencarnar e nascer para uma nova vida.
Para serem agraciados pela benevolência de Persefone, os gregos lhe ofereciam muitos rituais. Na Sicília, local da Magna Grécia ao sul da Itália, Persefone presidia os funerais. Quando alguém morria, os parentes cortavam os cabelos dos defuntos e jogavam numa fogueira em honra à deusa infernal.  
Quando os romanos conquistaram o sul da Itália, Demeter passou a ser chamada de Ceres, de quem derivou o nome dado aos grãos chamados de cereais. No mês de abril os gregos faziam um culto a Demeter. Eles ofereciam mel e frutas pedindo à deusa para limpar a casa e retirar esprectos e sentimentos tristes, pois acreditavam que Demeter fazia a ligação entre os seres vivos e os mortos. 
Quando se sentiam tristes, os gregos consumiam alimentos protegidos por Demeter, tal como a cevada, o centeio e o trigo do qual eram feitos o pão e o macarrão. Hoje sabemos que esses alimentos ajudam a estimular a produção de serotonina, substância que controla as emoções, melhora o humor e combate a depressão. O Macarrão, Macarruni para os sicilianos, vem do grego Makaris, o nome da deusa que protegia os mortais do sofrimento. 
    
Nos tempos modernos, costumamos negar a morte esquecendo que ela é inevitável. Isso se torna evidente naquelas pessoas que tratam a morte como uma remota possibilidade, que se arriscam todos os dias aos perigos de acidentes ou se expõem à violência das grandes cidades. Também morremos um pouquinho a cada dia, não porque cada dia vivido nos aproxima da velhice, mas quando permitimos que os dissabores e desesperanças assumam o lugar dos nossos sonhos.
Para os antigos povos, a morte era vista como uma mudança que levava a uma transformação. Diariamente também enfrentamos mudanças e transformações, que estão presentes na finalização de relacionamentos, na demissão do emprego, na perda de entes queridos, de bens materiais, de oportunidades, da nossa juventude e outras perdas.
Algumas vezes resistimos a aceitar que algo chegou ao fim e tentamos por todos os meios prolongar sua permanência. Nesse esforço inútil, acabamos sendo conduzidos ao mundo do sofrimento, sem contudo conseguir reverter as situações. O mito de Makaria serve para nos ensinar a não resistir às finalizações e deixarmos que as situações sigam seus próprios caminhos, pois cada fim traz consigo a esperança de um recomeço...

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Medusa, um elo para o autoconhecimento


Durante um banquete, Polidectes - o rei de Sérifo - queria um presente de cada um de seus convidados e desafiou o herói Perseu a trazer-lhe a cabeça da Medusa. Ela tinha sido uma das três gorgonas sacerdotisas de Athena, que foi transformada em uma besta horrorosa com cabelos de serpentes e vivia numa caverna. Todos que miravam em seus olhos se tornavam petrificados. 
Sem saber por onde começar a procurar a Medusa, Perseu contou com a ajuda de Hermes - o deus da astúcia e inteligência - que mostrou-lhe o caminho das Gréias, três velhas irmãs que compartilhavam um olho e um dente entre si. Instruindo-lhe como fazer para que elas lhe mostrassem o caminho, Perseu conseguiu se apoderar do olho e do dente, recusando-se a devolvê-los até que as Gréias mostrassem como chegar até as Ninfas, que lhe dariam tudo o que necessitava para lidar com Medusa.
Encontrando as Ninfas, elas deram a Perseu uma capa de escuridão que permitiria pegar a Medusa de surpresa; botas aladas para facilitar sua fuga e uma bolsa especial para colocar a cabeça após tê-la decepado. Perseu partiu para cumprir sua missão e ao entrar no covil da besta viu-a através de seu escudo brilhante. Evitando olhar para ela, Perseu mostrou o escudo para a Medusa e ela apavorou com sua própria imagem. Nesse momento, Perseu cortou-lhe a cabeça e, acomodando a cabeça da Medusa em sua bolsa, retornou rapidamente a Sérifo auxiliado por suas botas aladas.
Do sangue da Medusa nasceram os gêmeos: Pegasus, com o corpo de um cavalo alado, e Chrysaor, que tinha com o corpo de um gigantesco javali alado e uma espada de ouro nas mãos. Chrysaor cresceu, tornou-se rei na Península Ibérica e casou-se com Callirhoe, a filha de Oceanus e Tétis. Algum tempo depois nasceram seus monstruosos filhos: Gerião, o cão de três cabeças, e Equidna, um monstro com o corpo metade jovem mulher de lindas faces e na outra metade uma serpente de alma cruel.
Sua filha Equidna vivia nas profundezas da terra, distante dos deuses e dos homens. Em função de sua própria monstruosidade, uniu-se ao horrendo deus Tifão, tornando-se a mãe de outros monstros. Equidna e suas crias possuíam uma natureza terrível e adoravam devorar viajantes inocentes. Certo dia enquanto dormia, Equidna foi surpreendida por Argos Panoptes, um monstro de cem olhos, que a matou a pedido de Hera.
Seu monstruoso filho Gerião de três cabeças tornou-se proprietário de um grande rebanho de bois vermelhos que eram cobiçados por diversos reis. Um deles era o rei Euristeu que incumbiu Hércules de capturar o rebanho de Gerião. Durante sua jornada pelos mares, Hércules afastou com seus ombros duas grandes rochas dando origem ao Estreito de Gilbratar. Gerião e Hércules entraram em combate às margens do rio Ântemo, até que Hércules venceu seu adversário matando-o com uma flechada.
Athena domesticou o cavalo alado e, com um coice, Pegasus fez nascer a Fonte de Hipocrene que se acreditava ser a fonte de inspiração dos poetas. Quem de suas águas bebesse se tornaria um poeta. Quando Belorofonte foi incumbido de matar a monstruosa Quimera, ele partiu montando Pegasus. Viajando pelos ares, Belorofonte atingiu a Quimera e depois decidiu voar pelos céus. Ingloriamente Belorofonte caiu e Pegasus prosseguiu até ao Olimpo onde serviu a Zeus. Após a sua morte, Pegasus foi transformado numa constelação, um belo aglomerado de milhares de estrelas...

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Os antigos gregos, que inventaram a mitologia grega com suas estórias incríveis, possuiam muita criatividade e um profundo conhecimento da natureza humana. Desse mito podemos depreender o quanto é importante reconhecermos as nossas aptidões, habilidades e competências, mas também as nossas incapacidades, dificuldades e limitações.
A jornada de Perseu em busca da Medusa representa o enfrentamento dos nossos medos e temores, mas são as três Gréias que nos levam ao autoconhecimento. Como guardiãs do que se encontra mais oculto de nós, algumas vezes precisamos olhar para nós mesmos. Ora devemos ouvir o que dizemos para nós mesmos; ora devemos falar sobre o que mais tememos. São as Greias que poderão nos indicar o caminho para a autodescoberta.
A velhice das Gréias representa as crenças que adquirimos sobre nós mesmos desde a mais tenra idade e que influenciam em nosso presente. São as crenças que temos a respeito de nós mesmos que nos levam a criar afirmações do tipo: eu não consigo... eu não posso.. eu não... Essas são convicções que gravamos em nós desde a infância, porém muitas vezes não reconhecemos as nossas qualidades positivas, principalmente quando as coisas vão mal. É preciso existir uma grande força interior para assumirmos o controle da nossa mente. Hércules representa esse domínio.
Das três gorgonas, apenas Medusa ganhou destaque por demonstrar a vontade de evoluir. Considerada pelos gregos como uma das divindades primordiais, na evolução do mito nota-se como uma autoimagem distorcida pode gerar um grande sofrimento, por encontrar em si mesma apenas a monstruosidade do que não gostaria de ser. Perseu mostrou o espelho à Medusa para que ela visse sua monstruosa imagem, mas uma vez combatida ela libertou Pegasus, seu lado poesia.
"Conhece-te a ti mesmo", dizia a filosofia socrática há mais de 2.000 anos, fazendo uma referência ao auto-conhecimento, ao conhecimento do mundo e da verdade. Para o pensador grego, conhecer-se seria o ponto de partida para uma vida equilibrada e, por consequência, mais autêntica e feliz. A maioria das pessoas anseia por esse reconhecimento, já que muitas vezes não se sentem satisfeitas consigo mesmas.
A autoimagem que temos de nós mesmos vem desde a infância, através do feedback recebido dos adultos. À medida que amadurecemos, gradualmente perdemos essas informações a nosso respeito e as pessoas com as quais convivemos evitam chamar atenção para as nossas deficiências, nossa falta de educação ou conduta imprópria. Não há dúvida de que muitas vezes não abrimos espaço para isso e sentimos desagrado pelas advertências a respeito de nosso comportamento.
Podemos nos conhecer melhor através da visão de outras pessoas em quem confiamos, mas se não tivermos amigos verdadeiros que possam nos dar um feedback sincero, basta observarmos as pessoas que nos causam repulsa, antipatia ou cujo comportamento consideramos reprovável. O autoconhecimento não é tarefa fácil e grande parte da humanidade prefere se debruçar na janela para encontrar defeitos nos outros, esquecendo que enxergamos nos outros o que nos recusamos a ver em nós mesmos. Isso se chama "Projeção".
Quando criticamos gratuitamente o comportamento de outras pessoas, temos uma grande oportunidade de refletir porque nos sentirmos incomodados. É muito comum nos irritarmos com o jeito dos outros ou algumas coisas que os outros fazem, talvez porque nos falta coragem ou porque temos valores e crenças que nos impedem de fazer as mesmas coisas. Ou seja, atribuimos aos outros nossos sentimentos e desejos porque sentimos vergonha, medo ou porque nos ensinaram que seriam incorretos. Assim, tentamos nos proteger reprovando o que vemos nos outros.
A projeção é um mecanismo de defesa que usamos para atribuir a outras pessoas qualidades, motivações, pensamentos e sentimentos que reprimimos e não aceitamos em nós mesmos. É uma forma do Ego continuar a fingir que está no controle em todos os momentos, quando, na realidade, seria um meio de acessar suas próprias verdades. O que nos agrada e nos desagrada nos outros é um meio de conhecermos a nós mesmos através das pessoas, porque a projeção pode ser positiva ou negativa.
Embora não tenhamos consciência disso, também projetamos nas pessoas que admiramos e em nossos ídolos o que não somos ou o que gostaríamos de ser. Quanto mais conscientes formos de nossas projeções, mais estaremos nos aproximando do autoconhecimento. Crescer para além das projeções é uma forma de liberdade, pois à medida que nos compreendemos podemos aprender muito mais a respeito de nós mesmos... 
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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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