quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tétis e Peleu - a construção de um amor



Peleu, rei da Ftia uma região da Tessália, foi o pai de Aquiles, grande herói da Guerra de Tróia e o maior guerreiro de todos os tempos. Elegeu Tétis para ser sua esposa, a mais bela entre todas as nereidas, que costumava aparecer completamente nua numa pequena baía deserta da Tessália, cavalgando um golfinho amestrado. Ali, na solidão de uma pequena gruta oculta por espessos arbustos, ela se estendia languidamente para aproveitar a paz de uma sesta para revigorar sua beleza.

Foi ali que Peleu a viu, e ficou logo enfeitiçado. Chegou a dar um passo em sua direção, mas ela simplesmente correu pela areia da praia e foi desaparecer entre as ondas verdes do mar, deixando-o atônito, infeliz para todo o sempre, condenado a amar uma mulher inatingível. Então ele resolveu aconselhar-se com o centauro Quíron, velho mestre que tinha educado a ele e a tantos outros heróis. Quando ouviu o relato de Peleu, concluiu que se tratava de Tétis. Disse Quiron:

- É uma mulher para poucos, meu filho. Até o próprio Zeus a cobiça. Agora, se realmente é essa mulher que desejas, vais ter de provar que és homem suficiente. Ela pode assumir a forma que bem entender: de serpente, de fogo, de tigresa, sendo dessa forma que ela se livra de todos os seus pretendentes. Se achas que é essa a mulher que te fará feliz, espera que ela adormeça e põe toda a tua vida num abraço definitivo. Aconteça o que acontecer, não fraquejes, e ela acabará sendo tua.

Peleu não vacilou. Foi esconder-se entre os arbustos que escondiam a entrada da caverna. Quando a nereida adormeceu ao meio-dia, ele saltou sobre ela e enlaçou-a com seus braços poderosos, puxando-a contra o peito. Ela transformou-se numa fogueira, mas ele aguentou a queimadura. Como serpente ela o picou várias vezes, mas ele não a soltou. Então ela virou uma tigresa feroz e ele defendeu-se como pode de suas garras afiadas. Por fim, vencida, ela voltou à sua forma natural, aninhando-se junto ao peito daquele que seria seu marido.

Peleu ficou muito grato à Quíron, não sabendo que o velho centauro dava o mesmo conselho a todos seus discípulos, porque toda mulher tem um pouco de Tétis: quando assustada, pode queimar e ferir, mas se o seu homem a envolver num abraço verdadeiro e absoluto, sem nada pedir ou perguntar, em pouco tempo ela voltará à forma com que o conquistou.

****************

Os antigos gregos, que inventaram a mitologia grega com todas aquelas estórias incríveis, ainda possuiam, ao lado da criatividade, um profundo conhecimento da natureza humana. Na imaginação daquela gente, o mundo estava povoado de incontáveis divindades femininas, solteiras e disponíveis: os campos e os bosques estavam habitados pelas ninfas, enquanto as profundezas dos oceanos e as espumas das ondas eram habitadas pelas nereidas - todas elas belas e misteriosas, exercendo seu fascínio sobre todos, homens ou deuses, que atravessassem seu caminho. Ao vê-las, muitos se deixaram tomar pelo amor ou pelo desejo, mas poucos conseguiam conquistá-las.

O mito de Tétis e Peleu simboliza a conquista nas relações humanas. Muitas vezes corremos atrás do amor e apesar da insistência, o amor foge, pois o amor não domina, o amor se conquista e se constrói. E para construir o amor é necessário que estejamos preparados para lidar com as imperfeições do outro, com compreensão e tolerância, aprendendo mais sobre nós mesmos.


O ser humano experimenta, basicamente, três formas de amor, identificadas pelos antigos gregos como: Eros, que está centrado na dependência dos parceiros; Filos, que se baseia na segurança; Ágape, o amor incondicional.

AMOR EROS

Sempre criamos couraças, máscaras que não refletem o nosso verdadeiro eu, na tentativa de nos defender e sobreviver, ficando imune à dor de um amor. Expressamos imagens que, acreditamos, vão garantir a aceitação pelos outros, vão atrair as pessoas até nós ou fazer com que elas nos admirem e queiram ser como nós. Desenvolvemos um conjunto de jogos que não são verdadeiros, mas que serve a nossos objetivos.

Então, Eros, o deus de olhos vendados, nos atinge com as flechas do amor penetrando nas barreiras do ego e dos mecanismos de defesa que criamos. Sem lógica e sem razão, estamos apaixonados, mas não nos apaixonamos realmente pela pessoa, apaixonamos por quem queremos que ela seja. Mais tarde começamos a perceber as qualidades da pessoa, e ela já não é mais o que pensávamos ser.


As pessoas se apaixonam por causa da correspondência de vulnerabilidades e inseguranças, não por causa da correspondência de forças. Os problemas têm início quando, dolorosamente, começam a reconhecer no parceiro características que não são exatamente o que pensava. As defesas se erguem novamente à medida que os dois amantes começam, gradualmente, a reaprender que são pessoas diferentes, com identidades diferentes.


Às vezes, rapidamente saímos do relacionamento que fracassou e, como remédio, procuramos outra pessoa por quem nos apaixonar. Acalentamos a idéia de apaixonar-nos e viver felizes para sempre. Criamos as barreiras do ego umas após as outras, enquanto buscamos o relacionamento perfeito, barreiras geradas por experiências do passado, resultado de muita infelicidade, miséria, projeção, acusação, culpa e censura de relacionamentos anteriores, e isso invariavelmente é levado para o novo relacionamento.


Nos relacionamentos apaixonados de Eros, atraímos parceiros que têm o que falta em nós. E, quando encontramos a peça que faltava, achamos que ela forma uma dupla. As barreiras do ego que mantínhamos de forma tão eficiente vêm abaixo e nos apaixonamos, apesar de não querermos ou pretendermos isso. Somos absolutamente impotentes. Nesse tipo de amor, a intensidade de Eros é sempre temporária. Chega o momento em que acaba a lua-de-mel.


AMOR FILOS

Após o caos inicial da atração de Eros, um relacionamento muda de forma e se torna um relacionamento de compromisso, o amor Filos. Começamos a reconhecer os valores do outro e nos comprometemos a partilhar a vida e os interesses. Num esforço para manter o estilo de vida, frequentemente as partes mais profundas do Eu são suprimidas ou negadas.

Os sentimentos e pensamentos mais profundos são sacrificados. Lida-se com as questões, porém num nível superficial. Geralmente, há respeito e verdadeira compreensão, embora não haja um conhecimento profundo do outro. Com freqência, os parceiros vivem como estranhos, partilhando um espaço comum.
Às vezes, há um sentimento de resignação, ressentimento e tédio nos relacionamentos Filos.

Os parceiros se falam, mas nunca conversam; olham um para o outro, mas não se vêem. Frequentemente, podemos observar Filos em ação em restaurantes, onde à mesa o casal fica de frente um para o outro, e conversa muito pouco ou nada, simplesmente fazendo a refeição junto, passando o tempo. Mil pensamentos podem passar pela cabeça: "Poderia ter sido diferente..." "Se ele fosse diferente..." "Se eu não tivesse renunciado à minha carreira..." "Se nós não tivéssemos tido filhos tão cedo..."


Há o sonho do "que poderia ter sido", acompanhado de sentimentos de amargura ou culpa com relação ao parceiro, por não ser o homem que ela acreditava que fosse ou ela não é a mulher que sonhava, quando se casaram. Às vezes, as razões para se manter um relacionamento são baseadas na necessidade. Precisam manter a aprovação da família, da comunidade, da igreja, etc. Mesmo que o relacionamento não seja totalmente satisfatório, satisfaz em muitos níveis e talvez seja melhor do que ficar sozinho.


AMOR ÁGAPE

O amor Ágape é aquele que amamos a pessoa do jeito que ela é, sem separar em qualidades e defeitos, compartilhando intimidades sexuais e morais, sociais e mentais: um amante, um parceiro, um amigo, um companheiro. Não amamos por causa de, ou apesar de... amamos apenas pelo sentimento. Pode não ser uma chama flamejante como o amor de Eros, mas traz prazer e calma, relaxa, tranquiliza.

Traz segurança, crescimento, amadurecimento, e passo-a-passo trilha-se um caminho que os torna mais cúmplices, mais verdadeiros um com o outro. Não há raiva ou mágoa, muito menos ressentimento guardados, porque acima de tudo há Amor.
No amor Ágape não existe controle; cada um é livre, um ser individual, e sente a mesma reciprocidade.

O comprometimento que existe deriva do sentimento que os une, não da posição social ou financeira; há tranquilidade e paz. Pode surgir atração por outras pessoas, mas nessa fase o desejo será encarado como atração por alguém belo, e nada mais do que isso. Saciados, satisfeitos, não estão carentes ou desprovidos de algo, apenas ainda são humanos e sabem o que é beleza e sedução. Não há jogos, estratégias ou máscaras, não existe a tentativa de aprisionar. Há plena segurança do sentimento que um sente pelo outro.


Dizem que o amor Ágape só se sente pelos filhos, pois quando unidos ao sexo oposto, misturamos desejo e paixão, e nos tornamos possessivos e críticos, desejando ser amados como amamos, às vezes mais do que amamos, jamais menos. Dar implica em receber, sempre. Bem, quem pensa assim é porque ainda não ultrapassou a terceira fase de um relacionamento - a paixão, o desapaixonar-se, a reconquista, o re-começo, e enfim, o relacionamento.


Normalmente estamos sempre correndo, buscando, e esquecemos de fazer do encontro uma união, achando que em outro poderemos encontrar logo a fase Ágape, pulando etapas de sofrimento e mágoa. Ledo engano: amar é um eterno aprendizado, e quanto mais amamos, mais sentimos que não sabemos nada dessa força mágica e poderosa.


Há quem diga que o Amor teria três faces - Eros, Afrodite e Pã; e um relacionamento para a vida inteira passaria inevitavelmente por todas. A conquista da junção seria individual, e dependeria da força do sentimento individual, e da capacidade de relacionar-se, bem como da perseverança em trilhar o caminho em direção ao Amor Ágape.

2 comentários:

  1. Simplesmente maravilho. A lenda é realmente belissima e a reflexão ao final é muito condizente! Perfeito, por isso que me tornei fã desse blog. Adoro mitologia, especialmente grega. E esse já é uma referencia para minhas pesquisas. parabéns pelo trabalho!

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  2. Olá Celly. Obrigado por seu gentil comentário. Gosto de mitologia e sempre busco uma reflexão, já que os mitos nos proporcionam inúmeras interpretações que cabem nas nossas situações diárias, individuais e coletivas. É um modo de transmitir mensagens de autoconhecimento e evolução. Abração pra você.

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Agradeço os seus comentários, críticas e sugestões

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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