sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Polifemo e Galatéia


O caso de amor de Polifemo e Galatéia que resultou numa vingança por um amor não correspondido, é um mito dos gregos. Polifemo era um ciclope, pastor jovem e apaixonado pela bela nereida Galatéia. Mas como era feio, portador de um único olho, a jovem o repudiou e rejeitou seu amor.

Polifemo, era um ser brutal, rude nos seus atos e na sua parca conduta de vida, e vê na bela e frágil Galatéia, o redimir da sua essência primitiva, domesticada pelo amor e pelos sonhos da paixão. Se a beleza da jovem suscita no monstro a delicadeza, o amor verdadeiro; nela ele apenas desperta o medo e terror.

Loucamente apaixonado, ele oferece à jovem as mais belas jóias, belas vestes e moedas de ouro, a tudo ela recusa, sem o mínimo de comoção às súplicas e ao amor do Ciclope. Sem ter o seu amor correspondido, Polifemo passa o tempo a cantar a beleza de Galatéia, para assim tentar fugir da imensa dor que lhe trespassa o coração apaixonado. Polifemo encontra na música o refúgio para afogar a sua mágoa de amor, retratado por Teócrito num de seus “Idílios”.

Mas em outra versão, Ovídio apresenta o amor de Polifemo por Galatéia, transformando-o em um ser compulsivo e violento, diferente do romantismo lírico.
Diante da recusa de Galatéia ao seu amor, o Ciclope desconfia que ela está apaixonada por outro. Polifemo segue Galatéia e, confirmando as suas suspeitas, ao vê-la nos braços do belo Acis, entregando-se apaixonadamente, Polifemo não suporta o que vê. O seu coração magoado enche-se de ódio, transportando-o para uma fúria cega e perigosa.

Desesperado, dilacerado pelo ciúme, ao ver o casal entrelaçado na praia, Polifemo solta um grito cortante, como um trovão a rasgar o céu. Assustada, Galatéia foge para o mar, mergulhando na imensidão das águas. Acis, ao tentar acompanhar a amada na fuga, é atingido por um rochedo que lhe é atirado por Polifemo. O jovem cai sem vida.
Comovidos pelos prantos de Galatéia, ante ao amado morto, os deuses transformaram Acis num rio que corre próximo ao monte Etna. Polifemo sente-se vingado. O ódio aliviou-lhe a angústia do coração apaixonado.

**************
O mito de Polifemo nos remete a uma das maiores dores do ser humano, a de não sentir-se amado e maior ainda é a dor, quando é desprezado. Porém, mais do que se pensa, muitas pessoas já passaram por essa dor e poucas escaparam dessa situação. A primeira reação é ficar se perguntando por quê. Muitas perguntas dilaceram a alma; aquilo que poderia ter sido, não se concretizou; o que antes era amor se torna uma dor.

Muitas vezes, o amor não desabrocha por razões óbvias e concretas, talvez não justificáveis para si, mas suficiente para fazer com que a outra pessoa simplesmente não te ame porque não lhe desperta atenção e nenhuma emoção. Em outros casos, a pessoa amada não encontra uma justificativa para te amar. Você pode ser uma pessoa legal, inteligente, agradável, cheirosa, educada, trabalhadora, amiga, e possuir diversas outras qualidades e, ainda assim, não despertar o amor em outra pessoa. Isso não significa que você valha menos.

Existem casos em que a outra pessoa pode até tentar corresponder, mas depois de algum tempo chega à conclusão que não há razões convincentes para continuar com você. Pode acontecer uma atração física temporária, mas depois não há de novo quando se instala a convivência. Algumas pessoas mais honestas admitem que acabou o tesão.

Diante de situações como essas, pode haver a sensação de ver o mundo desabar, a auto-estima minguar e a alegria derreter juntamente com as lágrimas. Depois das desesperadas tentativas, ao tentar encontrar uma razão, acaba por se culpar por algo que tenha feito ou não tenha feito, seja nas atitudes, palavras, comportamentos, qualquer coisa que mostre, pelo menos, a chance de reverter a situação.

E porque se constata que não há motivos, que nada pode-se fazer, que não há o que justificar, o jeito é conformar-se que o amor simplesmente tenha acabado ou nunca tenha existido. Um amor não morre, um amor quando existe sobrevive a todas dificuldades. E se morre, é porque não existiu.

E para tamanha dor, só há um remédio: o tempo. Porque o tempo tudo cura, tudo revela e tudo faz renascer. O coração cicatriza, a alma se torna mais sábia e o amor ressurge em busca de um outro coração, em busca de uma nova tentativa de ser feliz, na busca de uma nova vida.

O segredo é se valorizar e acreditar em si. Claro que há um período de tristeza mas depois disso o importante é ter consciência de que a vida é feita de tentativas, com erros e acertos. Certamente, acabará encontrando alguém que seja capaz de te amar...

2 comentários:

  1. Obrigado pelas palavras, Lucia...

    No caso do mito, acredito que Galateia não encontrou em Polifemo o que nele lhe despertaria seu desejo (dela). Por razões não exatamente óbvias; a feiúra pode ser compensada pela força, pois o ser humano não tem objeto definido de desejo (Freud). Ela poderia amá-lo apesar de feio, como no desfecho do mito de Hades e Perséfone... Parece haver algo a mais no mito com que possamos aprender, e que vc toca no comentário: a força reprimida, o desejo recalcado (de Polifemo) que se expressa em violência. É hoje aliás um tema corrente, com a pauta do feminicídio, etc...

    Um abraço,
    G

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  2. Lucia, adoro suas interpretações. Elas revelam muito mais do que um conhecimento profundo sobre a mitologia grega, revelam também um incrível saber da vida como um todo, seus sentimentos, seus prazeres, seu caos e ordem. Continue postando sempre. Forte abraço

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Agradeço os seus comentários, críticas e sugestões

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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