terça-feira, 27 de março de 2012

Phineu e a vida compartilhada




Cleópatra, filha de Bóreas deus dos ventos casou com Phineu, Rei da Trácia. Eles viviam felizes com seus dois filhos, até que ele conheceu a princesa Idaea, filha de Dárdano Rei do Citas. Phineu aprisionou Cleópatra e casou-se com Idaea. Tentando livrar-se dos filhos de Phineu, Idaea os acusou de terem tentado seduzí-la. Diante disso, Phineu cegou os filhos e os encarcerou junto com Cleópatra.

Phineu havia recebido de Apolo o dom da profecia com a recomendação de que jamais deveria revelar os segredos dos deuses do Olimpo. No entanto, Phineus ignorou a recomendação e como castigo Zeus tirou-lhe a visão e enviou as Harpias para perseguí-lo.

As Harpias eram aves de rapina, criaturas com rosto de mulher e seios. Elas roubavam a comida de Phineu e o que não conseguiam levar, elas inutilizavam com suas fezes e seus odores. Apesar dos esforços dos servos de Phineu, eles não conseguiam afungentá-las.

Phineu e seu reino estavam prestes a morrer de fome quando os Argonautas chegaram. Phineu pediu ajuda para livrar-se das Hárpias e prometeu revelar o melhor caminho para atravessar as Simplégades, que eram as rochas azuis que se abriam com a aproximação dos navios, mas que se fechavam antes que o navio tivesse feito a travessia e esmagava toda tripulação. Também ensinou os argonautas como se livrar dos pássaros da Ilha de Dia, que usavam suas penas como flechas. Bastava fazer barulho com seus escudos que elas se afastavam.

Calais e Zetes, os irmãos de Cleópatra, faziam parte da tripulação da Argos. Como filhos do deus dos ventos, eles tinham asas nas costas e nos pés e expulsaram as Harpias do reino de Phineu salvando-o de morrer de fome. Mas sabendo do destino de sua irmã e de seus sobrinhos, exigiram que fossem libertados e expulsaram Idaea do reino. Quando os Argonautas estavam partindo, Phineu enviou um pombo e as rochas se abriram. Aproveitando aquele momento, os Argonautas prosseguiram sua viagem para a Colquida para cumprir seu objetivo de buscar o velocino de ouro.


****************


O mito de Phineu se relaciona à aventura compartilhada e revela que todos nós fazemos parte da vida de outros. Embora algumas pessoas possam passar por nossas vidas por breves momentos, outros são aqueles que permanecem junto de nós apoiando para que possamos conquistar os nossos objetivos.

Os argonautas tinham um desafio a cumprir
e, atravessando mares revoltos e monstros, eles tiveram contato com diversas pessoas e lugares, deixando sua marca pessoal. Cada argonauta tinha uma habilidade especial que o tornava imprescindível na missão.

Assim como os herois da mitologia, quando construímos algo com a firme disposição de enfrentar desafios e superar obstáculos, estamos também em constante relação de interdependência com os nossos companheiros de jornada, com as circunstâncias dos ambientes e com as determinações prescritas por deuses e oráculos atemporais.

O modelo de
herói da mitologia é por característica comprometido com o coletivo e a realidade do mundo em que vive. Torna-se portanto uma viagem que, mesmo seguindo um rumo, é construída passo a passo em ambiente de conectividade e muitos são aqueles que exercem papéis relevantes. Quando construímos nossa vida, não seguimos sozinhos. A vida é uma manifestação compartilhada de aventuras e desventuras, uns ajudando a outros.

Inesperadamente ao longo da jornada, eles foram obrigados a cumprir tarefas que não estavam previstas, mas faziam parte do objetivo principal. Assim também, ao longo de nossa vida, vamos ancorando em diversos portos, contando com a ajuda de muitos herois que não nos deixam naufragar, que nos ajudam a ultrapassar muitas terras desconhecidas para que possamos encontrar o nosso velocino de ouro...

sexta-feira, 16 de março de 2012

Hemera, a divindade que traz o dia





Hemera era a personificação do dia, uma divindade feminina filha de Erebus e Nyx, os deuses da noite e da escuridão. Ela era a guardiã das fronteiras, entre o mundo onde chegava a luz e o mundo das sombras. Nascida junto de Ether - a luz celestial e das Hespérides - o entardecer, do romance com seu irmão Ether nasceu uma filha, Tálassa, a personificação feminina do Mar Mediterrâneo. Também gerou outros seres não antropomorfizados: A Tristeza, a Cólera, a Mentira, etc.

Hemera e as Hespérides nasceram para ajudar Nyx a não se cansar, assim nasceu o ciclo diário: Hemera trazia o dia e se relacionava com Eos - a aurora. Helios - o Sol e as Hespérides traziam a tarde e se relacionava com Selene, a Lua. Nyx traria a noite absoluta. Todas estas deidades em conjunto conduziam à dança das horas.

Algumas tradições colocam Ether e Hemera como pais de Urano e de Gaia, logo ela seria a semente de quase todos os deuses gregos. Momentos antes de Hemera conceber Urano e Gaia, ouviram-se grandes estrondos por todo Universo, como se o céu estivesse sendo influenciado pela deusa; isso devido à forte ligação com Ether.

Hemera habita junto com sua mãe Nyx além do Oceano no extremo do Ocidente. Lá, um grande muro separa as portas do inferno do mundo visível. Atrás do muro há o grande palácio onde ambas residem, mas nunca estão juntas. Quando Hemera sai, sua mãe permanece esperando até a hora de lançar a noite sobre o mundo. Quando Hemera retorna, cruza sobre o muro e cumprimenta sua mãe, que sai para correr pelo mundo. Nunca o palácio fecha para ambas...

****************


O mito de Hemera serve para refletirmos sobre a dança das horas. O dia de amanhã nunca será igual ao dia de hoje, porque entre os dois há uma noite (Nyx) que tudo pode modificar. Podemos acreditar que a vida nos oferecerá no futuro dias iguais ao de ontem e hoje. Mera ilusão, se prestarmos atenção vamos nos dar conta de que nenhum dia é igual a outro. Cada manhã traz uma benção escondida; uma benção que só serve para esse dia e que não se pode guardar nem desaproveitar. Se não usamos este milagre hoje, ele vai se perder.

Carpe Diem quer dizer colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã porque acontece sempre no presente. Este milagre está nos detalhes do cotidiano; é preciso viver cada minuto porque ali encontramos a saída de nossas confusões, a alegria de nossos bons momentos, a pista correta para a decisão que tomaremos. Nenhum dia é igual e a cada dia somos diferentes porque estamos em constante processo de mudança.

Carpe Diem! Aproveite o seu dia. Torne a sua vida extraordinária. Agarre as oportunidades que todos os dias estão chegando. Hoje foi um futuro daquilo que você já esperou tanto no passado. O ideal nunca chega; hoje é o dia ideal para quem o faz ideal. Viva o hoje, viver amanhã é tarde demais. Tudo que temos é o agora. O hoje bem vivido nos prepara tanto para as oportunidades quanto para os obstáculos de amanhã.

Carpe Diem! Aproveite o dia e reflita as cores de Deus para seu mundo. Dentro de você há potencial colocado pelo sopro divino. Não o guarde em segredo. Comece a viver hoje o potencial que Deus lhe deu. O mundo é cheio de coisas mágicas pacientemente esperando que nossa percepção fique mais aguçada. O mundo é sua ostra; no meio das dificuldades encontre a sua pérola.

Aproveite bem o seu dia e extraia dele todos os bons sentimentos possíveis, não deixe nada para depois. Diga o que tem para dizer, demonstre, seja você mesmo. Não guarde lixo emocional, não cultive amarguras e sofrimentos. Prefira o sorriso, ria de tudo e até de si mesmo. Não adie alegrias nem contentamentos. Seja feliz hoje. O dia de ontem é uma lembrança, o dia de amanhã é uma ilusão, só existe o dia de hoje...

quinta-feira, 15 de março de 2012

Catreu ensina que os filhos são do mundo





Catreu era descendente do perverso rei Minos e tinha três filhas, Aérope, Clímene e Apemosyne e um filho, Altémenes. Certo dia Catreu recebeu do oráculo a previsão de que ele morreria pelas mãos de um de seus filhos e que sua família seria totalmente destruída. Temendo as previsões, Catreu contou a seus filhos.

Quando soube das previsões do oráculo, seu filho Altémenes mudou-se com sua irmã Apemosyne para Rodhes para evitar a tragédia, recebendo vários conselhos do seu pai. No entanto, desconfiando que ela perdera a virgindade porque ela era constantemente assediada por Hermes, Altémenes assassinou a irmã apesar de não ter comprovado sua desconfiança.

Aérope e Clímene foram entregues para serem criadas por Náuplio que era rei da Ilha de Eubéia. O rei casou-se com Climene e teve com ela o filho Palamedes que foi um dos heróis da guerra de Troya e era odiado por Ulisses. Palamedes desmascarou Ulisses quando ele se fingiu de louco para não participar da guerra e também acusou Ulisses de traição por deixar faltar comida ao exército. Ulisses nunca perdoou essa interferência e jurou vingar-se.

Para se vingar, Ulisses escreveu uma carta supostamente enviada por Príamo rei dos troianos, acusando Palamedes de ser um traidor e, para reforçar sua denúncia escondeu ouro na tenda de Palamedes, o preço da traição. Quando o ouro foi descoberto, Palamedes foi condenado à morte pelo conselho de guerra apesar de nada ter sido provado contra ele. Assim, ele foi apedrejado injustamente até a morte e sua mãe Clímene morreu devido à grande dor.

Aérope casou-se com Atreu tendo os filhos Agamemnon e Menelau. Em Micenas, Atreu tinha prometido a Artemis que iria sacrificar o seu melhor cordeiro a ela. Contudo ao procurar no seu rebanho encontrou um cordeiro dourado, que deu a Aérope para guardá-lo pois quem tivesse esse cordeiro de ouro seria coroado rei de Micenas. Porém Aérope tinha se tornado amante de Tiestes, irmão de Atreu, e em um ímpeto de paixão entregou o cordeiro a Tiestes. Quando Atreu descobriu a traição, vingou-se de Tiestes e assassinou a esposa.

Em Rodhes, Altémenes fundou um templo a Zeus, chamado de Zeus Atabyrius. Quando Catreu ficou velho, querendo legar o reino a seu filho Altémenes ele viajou para Rodhes. Tendo sido confundido com um pirata, foi morto por Altémenes. Cumpria-se assim o final da profecia. Por não conseguir suportar a culpa de ter matado seu pai, ele se isolou do mundo e morreu de desgosto, mas foi honrado em Rodhes tal como um heroi.

***************

O mito de Catreu simboliza a preocupação com os filhos e a tentativa frustrada e evitar que eles sofram diante do mundo. As pessoas sentem imensa alegria quando se tornam pais e mães. Pôr filhos no mundo é uma dádiva que vem acompanhada da responsabilidade e da eterna preocupação. É um amor incondicional que, em excesso, pode se transformar em uma prisão para todos.

Atravessamos várias etapas do ciclo de vida familiar e em cada uma delas são necessárias mudanças na forma de lidar com os filhos. Quando eles nascem, precisam de todos os cuidados para sobreviverem mas precisam assumir pouco a pouco seus próprios cuidados e responsabilidades. Estabelecer um limite entre pais e filhos, é uma forma de deixar que os filhos construam sua própria identidade reconhecendo o respeito que se deve construir entre si.

Os pais são o solo fértil para o crescimento dos filhos mas eles precisam criar asas e formar seu próprio ninho. Libertá-los significa deixar que aprendam com seus erros e acertos. A partir de certa idade, só valem conselhos. Só assim, os filhos se tornam adultos. E, embora a maioria dos pais tentem fazer isso, muitas vezes se sentem culpados quando os filhos sofrem por suas escolhas mal refletidas.

Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter; é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de vê-los sofrer ou perder algo tão amado. São os filhos que ministram um curso intensivo de amar alguém mais que a si mesmo, de mudar hábitos e se corrigir para dar os melhores exemplos.

Esperar que a dedicação de longos anos retornem em sorrisos e amparos na velhice, é mera ilusão. A realidade é que só se pode aproveitar os momentos possíveis juntos. Os filhos são do mundo. Eles crescem e se vão. O problema é que levam com eles, um pedaço de outro coração!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Tiphon e o impiedoso mundo das drogas




Tiphon, deus da seca, simbolizava o elemento ar em sua forma mais furiosa, os furacões. Filho de Tártaro e de Gaia, foi criado em Delfos e era inimigo hereditário dos deuses, principalmente de Zeus por quem mantinha um ódio cruel. Em algumas versões conta-se que Hera teria recebido de Gaia uma semente e ao ingerí-la teria gerado Tiphon.

Maior que todas as montanhas, Tiphon tinha um corpo horrível e amedrontador. Com braços poderosos, pés infatigáveis, cem cabeças de serpente com línguas negras, olhos que expeliam labaredas, estranhos sons provinham da estranha criatura.

Unindo-se a Equidna, Tiphon foi o pai de vários monstros: Cérbero, Ortro, Esfinge, Ládon, Hidra, Quimera, o Dragão de Cólquida e de Ethon, a águia todos os dias comia o fígado de Prometeu. E por ser o pai dos perigosos ventos cálidos, foi relacionado pelo persas aos tufões e os árabes relacionavam-os com as tormentas no Oceano Índico.


Descontente com a derrota dos gigantes, Gaia pediu a Tiphon que se insurgisse contra Zeus. Quando os deuses viram Tiphon avançando em direção ao Olimpo, fugiram aterrorizados. Dominados pelo medo, os deuses tentaram se esconder no deserto transformando-se em animais: Apolo em um corvo, Dionísio em uma cabra, Hera em uma vaca, Afrodite tornou-se um peixe e Ares um porco. De todos os deuses, somente a corajosa deusa Atenas teve coragem de permanecer com a sua própria forma.

Repreendido por sua covardia, Zeus resolveu combater o monstro e enviou um raio contra Tiphon. No confronto, Tiphon desarmou Zeus removendo sua consciência além dos tendões dos seus braços e pés. Impotente, Zeus foi arrastado para a caverna de Corician na Sicília onde permaneceu incapaz de mover-se. Tiphon envolveu os músculos de Zeus em uma pele de urso e confiou-os a Delfina, uma terrível criatura com língua de serpente.

Com sua flauta doce Pã conseguiu fazer adormecer a assustadora criatura. Hermes, que era médico, restaurou os tendões de Zeus que retomou imediatamente ao Olimpo. Mais uma vez Zeus reiniciou a luta contra Tiphon que arremessava montanhas contra Zeus. Enfrentando Tiphon com seus raios e trovões, a violenta luta fez tremer o céu, a terra, o mar e abalou o próprio mundo subterrâneo, mas Zeus conseguiu vencer enterrando Tiphon para sempre no Tártaro.

********************

O mito de Tiphon está relacionado a tudo que interfere em nossa consciência e nos torna incapazes de qualquer reação física para que possamos nos autoproteger. A consciência é uma qualidade da mente que nos permite estar atentos para perceber a nossa relação com o ambiente, cientes da forma que influenciamos o mundo que nos rodeia. Também é uma qualidade psíquica ou um atributo da mente e do pensamento humano, que pode sofrer alterações.

As alterações normais da consciência estão relacionadas ao sono, uma fase normal e necessária para a saúde mental. Outras alterações estão relacionadas a patologias que interferem na qualidade e quantidade de consciência. Um baixo nível consciência dificulta a compreensão ou nos torna incapazes de qualquer ação espontãnea variando até o coma, um grau profundo de inconsciência que impossibilita qualquer reação consciente. Esse baixo nível de consciência pode ser causado por síndromes como a desorientação, alucinações e também por traumas e lesões nos nervos cerebrais.

O estado onírico ocorre devido às psicoses, síndromes de abstinência de drogas e quadros febris. Também se torna comprometida a consciência durante os transes, estados hipnóticos ou quando a pessoa "se desliga" da realidade de modo natural ou artificial.

Mas os maiores danos à consciência, que causam alterações psiquicas e físicas, são provocados pelas drogas naturais, químicas ou sintéticas, incluindo o álcool e o cigarro que podem comprometer a saúde, provocar dependência e, em alguns casos, pode levar à morte.
As drogas são classificadas de acordo com a ação que exercem sobre o sistema nervoso central, que podem ser depressoras, estimulantes, perturbadoras ou, ainda, combinar mais de um efeito.

No mito, os deuses fogem do monstro simbolizando que prevenir-se das drogas é o melhor caminho para estar fora do alcance do vício. Pã e Hermes interviram para libertar Zeus.
Da mesma forma, pessoas viciadas podem se libertar dos vícios recorrendo à psicoterapia e aos tratamentos médicos para combater o vício.

Deixar-se dominar pelo vício das drogas é entregar-se a um monstro impiedoso e cruel. Seu impacto na consciência causa mudanças bruscas, tanto internas quanto externas, o que pode levar ao chamado "efeito dominó", mas é possível vencê-lo com força e coragem.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ate ou Agne, a personificação do erro e da tolice




Tema comum da mitologia, as tragédias gregas incluem personagens que sofriam de Húbris. Castigados pelos deuses como consequência da sua transgressão, lançavam sobre eles Ate, também chamada Agne, que personificava a ruína, o engano, o erro, a tolice e a cegueira da razão que interferia no destino daqueles que não pensavam em suas ações e por isso sofriam suas consequências.

Entre os romanos era chamada também Nefas - Nefasta ou Error - o erro ou desvario. Filha de Éris - a deusa da discórdia, Ate era considerada a deusa da fatalidade e frequentemente acompanhava a Húbris, um conceito grego que pode ser traduzido como "tudo que passa da medida", a confiança excessiva, o orgulho exagerado, a presunção, a arrogância ou insolência, que frequentemente termina sendo punida.

Seu conceito opõe-se à Sofrósina, que é a virtude da prudência, do bom senso, do comedimento, do reconhecimento dos limites e da medida de todas as coisas. Quando Hera soube que nasceria um filho de Zeus e se tornaria um grande governante, Hera antecipou o nascimento de Euristeu para que ele se tornasse rei contando com a ajuda de Ate. Enfurecido, Zeus expulsou Ate do Olimpo obrigando-a a viver na terra junto aos mortais. Assim, Ate passou a percorrer o mundo causando o caos entre os mortais.

Quando Ate foi lançada à terra, ela caiu em uma montanha da Frígia e vive nos montes. Ate sempre está presente diante dos erros e das tolices cometidas devido à arrogância, imprudência ou orgulho excessivo que nos leva à destruição ou morte. Sendo uma deusa alada, ela é muito rápida e pousa, sem ser percebida, na cabeça dos mortais para perturbar-lhes a razão e induzi-los ao erro. Deusa excelsa que os homens conturba, com pés leves e funestos que a terra não roça, ao caminhar passeia sorrateira causando tropeços, principalmente sobre os mais altos enleia...



*****************



O principal pilar da moral greco-romana desde a antiguidade, sobre o qual se assenta a moral contemporânea, é a de que a virtude está no meio. Este princípio que nasceu como teoria, foi reforçado por outros pelo ideal de moderação e garantia de tranquilidade. “In medio est vistus” - a virtude está no meio. O caminho do meio é uma expressão usada desde os antigos mas sugere apenas que devemos evitar os extremos.

Os gregos ensinavam a prudência e a moderação como um estado de espírito saudável. O oposto dessa virtude era o orgulho, a vaidade e o desejo de onipotência. "Nada em excesso", recomendavam os mestres ao contar histórias de homens e heróis castigados pelos deuses por conta de seus excessos. Da mesma forma, perpassam a existência humana dezenas de outros ensinamentos e preceitos morais com a finalidade de enaltecer a preferência pelo caminho do meio.

É preciso moderação e limites para namorar, divertir, trabalhar, comer, beber, gastar etc.
No entanto, esse não deve ser o caminho da mediocridade em nome de uma pretensa segurança, prudência e comedimento, que pode levar a uma vida mediana, castrada, regrada e refreada. A esse respeito é preciso romper com o próprio mundinho e lançar o olhar para outras possibilidades, embora seja preciso ter limites. Muitas vezes é preciso romper com fronteiras que teimosamente interferem em nossa vida saudável, sem medo de ser feliz.

Também podemos desejar colocar limites entre nós e o resto do mundo, mas se riscarmos uma linha na areia para que ninguém atravesse, os limites não manterão os outros do lado de fora apenas nos prenderão dentro. Podemos passar a vida traçando linhas ou atravessando-as, embora algumas linhas sejam perigosas. Mas se soubermos escolher a linha que iremos cruzar e estivermos dispostos a arriscar, a vista do outro lado pode ser espetacular...

Diz a música Epitáfio dos Titãs:
"Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer.

Devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer...
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração..."

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Ninfas e os Místérios Eleusinos



As ninfas eram divindades dos rios, dos bosques, das florestas e dos campos formando uma grande categoria de deusas-espíritos naturais femininos. Ligadas à natureza e à terra, habitavam os lagos, riachos, bosques, florestas, prados e montanhas. Frequentemente participavam do séquito de divindades maiores, como Artemis, Apolo, Dionísio, Hermes e das tramas amorosas de Afrodite.

Representavam a fertilidade e eram amadas pelos deuses. Muitas delas tiveram filhos de deuses e mortais, tendo sua própria lenda. Elas eram mortais e suas vidas duravam tanto quanto a árvore, o lago, o bosque a que estavam ligadas e recebiam nomes especiais conforme o lugar que habitavam. Algumas eram determinadas a uma missão e outras eram incumbidas de proteger um elemento da natureza, especialmente a terra e as águas, sendo relacionadas aos Mistérios Eleusinos.

  • Epigéias eram protetoras da terra
  • Oréades eram protetoras das montanhas
  • Auloníades eram protetoras dos pastos
  • Napéias eram protetoras dos vales
  • Leimáquides eram protetoras das campinas
  • Dríades eram protetoras das florestas
  • Hamadríades eram protetoras das árvores
  • Melíades eram protetoras das árvores do freixo
  • Alseídes eram protetoras das flores e dos campos floridos
  • Efidríades eram protetoras das águas: Oceânidas, Nereidas, Náiades, rinéias ou Crinaias, Limnátides ou Limneidas, Pegéias e Potâmides.
  • As Erínias, Alecto, Tisífone e Megera tinham como missão principal perseguir e enlouquecer os culpados de crimes hediondos.
  • Íris personificava o arco-íris e tornou-se a mensageira de Zeus e Hera.
  • As Harpias, Aelo, Ocípete e Celeno, irmãs de Íris, eram entidades aladas e ferozes, que raptavam crianças e eram capazes de carregar os mortos.
  • Equidna era um monstro metade mulher - metade serpente que deu origem a outros montros como a Esfinge de Tebas e a Hidra de Lerna.

Os mistérios de Elêusis ou Eleusinos eram ritos de iniciação ao culto das deusas Demeter e Perséfone que se celebravam na região de Elêusis, localidade da Grécia próxima a Atenas. Eram os ritos mais importantes celebrados na antiguidade que foram assimilados no Império Romano e ainda podem ser notados em práticas iniciáticas modernas. Os ritos e crenças eram guardados em segredo, só transmitidos a novos iniciados.

Deméter e sua filha Perséfone presidiam os pequenos e os grandes mistérios e muitos desses mistérios ainda não foram totalmente desvendados. Os Mistérios Eleusinos celebravam o regresso de Perséfone que era marcado pelo regresso da vida à terra, da germinação das plantas depois do inverno. As sementes que ela trazia significavam o renascimento de toda a vida vegetal na primavera.
Deméter, deusa da agricultura, era vista pelos iniciados como a mãe das almas e da inteligência divina.

Os sacerdotes de Elêusis ensinaram sempre a grande doutrina esotérica vinda do Egito porém revestida de encanto e beleza. O mito de Elêusis ainda se mantém vivo nas diversas escolas Iniciáticas; é a doutrina da vida universal que se encerra no simbólico grão de trigo de Elêusis, que deve morrer e ser sepultado nas entranhas da terra para que possa renascer à luz do dia, depois de abrir caminho através da escuridão em que germina.


O mito simboliza lançar sementes à terra e aguardar até que brotem novas colheitas, uma espécie de morte e ressurreição. No seu sentido íntimo, é a representação simbólica da história da alma, de sua descida na matéria, de seus sofrimentos nas trevas do esquecimento e depois sua re-ascensão e volta à vida divina.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Enéias e Dido, as consequências da fama




Dido era filha de Belo - o Rei de Tiro e casada com Siqueu - o homem mais rico de todo o reino. Quando o Rei Belo faleceu, Pigmalião, o irmão de Dido, ocupou o trono. Ele era um homem perverso e, sabendo das fortunas do marido de Dido, tramou a morte do cunhado para tomar-lhe as riquezas. Planejando um encontro com Siqueu no templo de Hércules, Pigmalião apunhalou o cunhado e matou-o.

Dido desconhecia quem havia assasinado cruelmente seu marido até que Siqueu apareceu-lhe em sonho e revelou o seu triste destino e o local onde estavam escondidas suas riquezas. Também disse a Dido que seu irmão planejava sua morte e que ela devia partir imediatamente. Secretamente Dido reuniu seus súditos e partiu para uma longa viagem chegando até as costas da África.

Tão logo desembarcou, Dido procurou os nativos do lugar e lhes pediu humildemente um pedaço de terra que fosse do tamanho do couro de um boi, onde pudesse viver com seus súditos. Os nativos riram em deboche pois o couro cobria apenas alguns metros que não caberia todas as pessoas e bagagens. Dido apanhou uma lâmina muito afiada, retirou um fio comprido de seus cabelos e ordenou que o couro fosse cortado em finas tiras que deveriam ser unidas e estendidas até formar um quadrado.

Ao unir os fios de couro a área prometida tornou-se um grande reino. A nova cidade passou a se chamar Birsa onde ergueu-se a cidadela de Cartago, que logo se tornou um dos lugares mais prósperos e florescentes de todo o mundo, governado por Dido, a rainha dos cartaginenses.

A rainha Dido tinha a fama de recato e puritanismo tendo recusado vários pedidos de casamento. Ela tinha conseguido expandir seu reino graças ao seu tirocínio tornando seu reino a maior potência econômica e militar da região. No entanto, Dido era muito hospitaleira e acolhia os errantes dos mares.

Enéias, o famoso chefe dos troianos, tinha partido de Troia depois da guerra e, depois de navegar por muito tempo chegou ao reino de Dido. Enéias era filho de Afrodite e, portanto, também era perseguido por Hera, a grande inimiga de Afrodite. Durante o banquete, Eneias contou sua história e Dido ficou impressionada com seu relato.

Apaixonada por Enéias, Dido organizou uma caçada nos arredores das montanhas de Cartago. Porém Hera convenceu ao deus dos ventos Bóreas a soprar um fortissimo vento naquelas montanhas o que obrigou a todos a buscar refúgio. Ávida por um abrigo, Dido se perdeu de seu grupo e se abrigou em uma gruta onde também chegou Eneias. A chuva continuou a cair e eles permaneceram toda noite dentro da gruta entregues aos seus amores.

Ali morava a Fama, filha da Terra, que sai de casa pequena mas vai crescendo progressivamente enquanto cumpre sua missão. Levando sua trombeta, a veloz deusa por sua própria natureza não anda, ela voa. Agitando suas asas, a Fama tem aparência bela e encantadora, embora aos olhos dos amantes do pudor possa parecer às vezes muito feia. Com suas asas amplas, ela tem o dom da persuasão. Sua passagem por qualquer lugar é rápida, não precisa mais do que instantes para transmitir suas mensagens que logo recebem crédito.

Junto a ela vem outro ser de natureza semelhante, o Boato. É apenas um pouco mais discreto e tem a espantosa capacidade de dobrar de tamanho e volume a cada milímetro que avança. É um imenso ser alado, que rola com asas pelos céus mas sua boca é pequena. Esse ser não fala mas carrega consigo a Calúnia e a Maledicência, suas amigas inseparáveis que falam baixinho.

De repente todos souberam do amor de Dido e Enéias na gruta que a Fama fez questão de levar ao conhecimento da cidade, ajudada pelo Boato, a Calúnia e a Maledicência. A suposta castidade da rainha passou a ser comentada atingindo sua reputação. Mas antes que pudesse recuperar o respeito que tinham por ela, Eneias decidiu partir. Infeliz, a rainha Dido viu a frota de Eneias se distanciando. Por sua paixão e pela fama, a rainha Dido morreu, destruindo o grande reino que com muita astúcia havia construído...


**********************

Muitas pessoas lutam para ter uma carreira de sucesso e se tornarem famosas. Porém poucas são aquelas que alcançam esse objetivo e depois não sabem o que fazer e como lidar com a fama. Muitas são as consequências que a fama traz com ela, pois sempre os holofotes estão apontados para o que as pessoas famosas fazem, sejam atos bons ou ruins. Ter o trabalho reconhecido pelo público e pela mídia é algo maravilhoso. Melhor ainda é a independência financeira que se consegue, mas é preciso humildade para não despencar no abismo.

A fama tem dois lados: se por um lado ela traz sucesso, riqueza e badalação, por outro ela pode ser um tormento. A fama surge como um vulto e pode se transformar em vendaval para desespero das pessoas despreparadas. Muitas pessoas que se tornam famosas deixam que a fama lhe suba à cabeça esquecendo-se que a fama é efêmera. Quem não deixa o sucesso falar mais alto, controla sua arrogância e trabalha firme na consolidação de sua carreira, tem maior chance de sobreviver à fama.

Para se tornar uma estrela deve-se a pagar um preço: a impossibilidade de frequentar lugares públicos, o fanatismo dos fãs, a falta de liberdade, a cobrança de estar sempre fazendo sucesso, as exigências da gravadora, o empresário, a mídia, a aproximação de pessoas interesseiras que pode transformar-se em solidão, a administração do dinheiro, o cuidado excessivo com a aparência e a invasão da privacidade. Nenhuma atitude passa despercebida pelos outros. Quem é ou quer se tornar famoso, deve ter estrutura para isso. Carreiras brilhantes necessitam de estrutura e personalidade.


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Cíclopes




Os ciclopes, que significam "olho redondo", eram gigantes imortais, alguns com um só olho no meio da testa. Eles aparecem em vários mitos da Grécia, porém com uma origem bastante controversa. Os ciclopes eram divididos em dois grupos de acordo com o tempo de existência: os ciclopes antigos ou da primeira geração e os ciclopes jovens - a nova geração. De acordo com sua origem, esses seres eram organizados em três diferentes espécies:
  • os contrutores que provêm do território da Lícia,
  • os urânios, filhos de Urano e Gaia,
  • os sicilianos filhos do deus dos mares Posídon. 

Nova geração de Cíclopes

Os Cíclopes mais jovens ou da nova geração eram gigantes e tinham apenas um olho na testa. Porém, diferentemente das raças anteriores, eram pastores e viviam em uma ilha chamada Hypereia, conhecida entre os romanos como a Sicília. Diz-se que essa nova raça de ciclopes nasceu do sangue do deus Urano que espirrou sobre a Terra.

A terceira raça de Cíclopes eram denominados construtores, provenientes do território da Lícia. Esses posuíam grande poder físico e não eram violentos. A eles eram dados trabalhos muito pesados que nenhum humano conseguiria realizá-lo tão facilmente. Talvez tenha sido esses ciclopes que construiram as muralhas de Tirinto e Micenas.

Os Urânios

Os urânios, Arges, Brontes e Estéropes são considerados os ciclopes mais antigos descendentes de Urano e Gaia. Diz a lenda que, ao nascerem com enormes poderes, seu pai Urano, senhor dos céus, trancou-os no interior da Terra com seus irmãos os hecatônquiros, os gigantes de cinquenta cabeças e cem braços. Indignada por ter os filhos presos no Tártaro, Gaia os convenceu a apoiar a guerra travada pelos titãs. Filhos de Urano, os Titãs pretendiam tomar o trono do pai que governava os céus.

Os titãs venceram, porém os ciclopes foram enviados novamente para o abismo do Tártaro. Algumas vezes, os titãs Zeus, Posídon e Hades, libertava os ciclopes com a intenção de tê-los como aliados na guerra contra Cronos e os titãs. Os ciclopes, como bons ferreiros, forjavam armas mágicas e poderosas: Zeus recebeu raios e relâmpagos, Posídon recebeu um tridente capaz de provocar terríveis tempestades e Hades um capacete da invisibilidade.

Tempos depois, quando os ciclopes já eram considerados ministros e ferreiros permanentes de Zeus, o grande deus percebeu uma ameaça no médico Asclépio, filho do deus Apolo, que conseguia fazer ressuscitar os mortos. Para que isso não causasse qualquer impacto com a ordem do mundo, Zeus decidiu exterminá-lo. Ofendido com a ira de Zeus sobre seu filho Asclépio, Apolo decidiu matar os ciclopes que fabricavam os raios de Zeus. Há outras versões sobre o desaparecimento dos cíclopes.

Os sicilianos

Os sicilianos são retratados nos poemas homéricos como gigantescos e insolentes pastores fora da lei, que habitavam a parte sudoeste da Sicília. Não se importavam muito com a agricultura e todos os pomares cultivados eram invadidos por eles quando procuravam por comida. Algumas vezes se alimentavam de carne humana, por isso eram considerados como seres sem lei e sem moral. Morando em cavernas, cada um vivia com sua esposa e filhos que eram disciplinados de forma muito arbitrária.

Segundo Virgílio e Eurípedes, os cíclopes eram assistentes de Hefesto e trabalhavam com ele dentro dos vulcões no Monte Etna na Sicília, como também em outras ilhas próximas. Sendo ferreiros, eles trabalhavam para os deuses e heróis, forjando suas armas. O poder dos ciclopes era tão grande, que a Sicília e outros locais mais próximos conseguiam ouvir o som de suas marteladas enquanto trabalhavam na forja. Devido ao aumento da população de cíclopes, sua moradia teria sido remanejada para a parte sudeste da Sicília.

Foi exatamente um desses ciclopes, que Ulisses encontrou quando de sua viagem de regresso a seu lar em Ítaca. Quando Ulisses e seus homens desembarcam na terra dos Ciclopes no caminho de Troia até Ítaca, eles buscaram abrigo numa gruta. Polifemo que era antropófago, filho de Posídon e da ninfa Teosa, morava nessa gruta e não foi amistoso. Logo Polifemo devorou um dos homens. Arquitetando um plano, quando o gigante perguntou seu nome, Ulisses disse que se chamava Ninguém.

Ulisses ofereceu vinho a Polifemo embebedando-o. Enquanto Polifemo dormia, Ulisses furou seu olho e escapou com seus amigos embaixo de peles de animais. Urrando de dor, Polifemo foi socorrido por outros cíclopes mas só conseguia gritar que “Ninguém queria matá-lo”. Por ser filho de Posídon, o deus dos mares, Ulisses foi perseguido por um longo tempo retardando seu retorno para sua casa.


Calisto, a constelação da Ursa Maior




Calisto era filha de Licaon, um fanático que foi transformado em lobo. Licaón tivera quase 50 filhos que eram tão cruéis quanto o próprio pai e se tornaram famosos por sua insolência e seus crimes. Tão logo ficou sabendo das barbaridades dos filhos de Licaón, Zeus se disfarçou de um velho mendigo e foi ao palácio dos Licaónidas para comprovar os rumores.

Os jovens príncipes tiveram a ousadia de assassinar o próprio irmão Níctimo e servir suas entranhas ao hóspede, misturadas com entranhas de animais. Zeus descobriu a crueldade e enfurecido converteu todos em lobos, exilando-os. Apenas Calisto, a bela ninfa filha de Licaón por quem Zeus se apaixonou, foi poupada.

Zeus e Calisto tiveram um filho, Arkas. Não suportando a traição, a ciumenta esposa de Zeus transformou Calisto numa enorme ursa e assim ela fugiu para a floresta. Às vezes Calisto vagava durante as noites ao redor de sua casa com a esperança de ver seu filho, mas ela agora não podia mais conviver no meio dos homens e seu espírito não admitia a possibilidade de conviver com as embrutecidas feras.

Hera tirou-lhe a voz e Calisto tentava lutar contra seu destino tentando despertar a piedade dos deuses, apesar disso, ela só conseguia rugir. Sua vida era repleta de medo dos caçadores que rodeavam sua antiga casa e ela temia as noites que passava sozinha. Temia as feras embora ela mesma fosse uma delas.

O tempo passou e seu filho Arcas cresceu transformando-se em um belo jovem. Certo dia, em uma de suas caminhadas pelo bosque, Calisto reconheceu seu filho Arkas, um homem caçador. Envolvida pela emoção Calisto quis abraçá-lo, mas foi tomada de pavor quando Arkas ergueu a lança para desferir-lhe um golpe certeiro. Ela quis falar com o filho mas de sua garganta saiu apenas um terrível rugido. Arkas esteve frente à sua mãe mas logicamente não a reconheceu.

Aterrorizado Arkas preparava uma flecha para acertar a Ursa mas Zeus compadeceu-se do amor de mãe filho separados e transformou-a na Constelação da Ursa maior. Para que estivessem sempre juntos, Arkas foi transformado na constelação da ursa menor, o guardião da ursa.

Indignada com a interferência e as honras concedidas a Calisto e Arkas, Hera empurrou os dois para perto do pólo norte onde as estrelas seriam sempre visíveis, mas mãe e filho nunca teriam descanso. Hera ainda pediu a Tétis que jamais permitisse que as duas constelações mergulhassem nas águas puras do oceano. Por essa a razão, as duas constelações movem-se sempre em circulos no céu ao contrário de outras que estão sempre junto à linha do horizonte.

Junto a elas colocou a constelação do Boieiro para que não as deixe afastar do pólo gelado. Arcturo, a brilhante estrela do Boieiro, ficou de guarda às ursas para que não se afastassem do gélido pólo. O vocábulo «Ártico» significa «norte» e Arcturo têm a mesma origem grega.


**********************


A Ursa Maior e Ursa Menor, estando perto do pólo, são sempre visíveis nas noites de quase todo o hemisfério norte, por isso são chamadas constelações circumpolares. O asterismo das sete estrelas da Ursa Maior, sendo claramente reconhecível, é de uma grande ajuda para nos orientação no céu. Na cauda da Ursa Maior está a famosa estrela Polar.

Na antiguidade, as estrelas serviam de orientação para os gregos, para as caravanas que atravessavam os desertos e os marinheiros em alto mar. Os diversos padrões que formavam nos céus levou os antigos a nomearem as estrelas conforme as figuras que lhes pareciam: animais, cabeleiras, homens, mulheres etc. Às constelações, os gregos deram o nome de figuras mitológicas, sendo algumas delas parte do Zodíaco.

No hemisfério norte, as mais conhecidas são as constelações boreais da Ursa Maior e da Ursa Menor, também chamadas de Grande Carro ou Carro de David e Pequeno Carro. Embora a constelação da Ursa Maior seja muito grande, são as suas brilhantes sete estrelas desenhando um quadrado e uma cauda no azul-escuro do céu noturno que a tornam tão útil e conhecida. Prologando cinco vezes as guardas da Ursa Maior, está a Estrela Polar na cauda da Ursa Menor, que há mais de 2000 anos nos indica o Norte.

A Ursa Maior é conhecida por vários nomes conforme as tradições dos povos que por ela se orientam. Assim, na França chamavam de Caçarola, na Inglaterra era O Arado ou a Biga do Rei Artur e na Europa Medieval, de Carruagem ou Carroça. Na Índia, era chamada de Os Sete Sábios. Na China era chamada de “Pei-To” e as suas sete estrelas representavam uma concha que oferecia comida nos tempos de fome.

Os egípcios a associavam à imortalidade, pois as suas estrelas visíveis todo o ano representavam a vida eterna. Na mitologia nórdica é O Carro ou Carruagem de Odin puxada por 3 cavalos. Para os índios Cherokee as estrelas representavam um grupo de caçadores que perseguiam um urso desde o princípio da Primavera até ao Outono. Os árabes viam nela uma caravana.

A Ursa Maior tem alguns objetos notáveis. Em boas condições de observação nota-se que a estrela no meio da cauda não é apenas uma estrela, mas sim duas. Os gregos e os árabes usavam essas duas estrelas como teste de visão. A estrela da cauda se divide em duas: as célebres Mizar e Alcor. Estas duas estrelas não estão fisicamente associadas. A sua proximidade é aparente para observadores sobre a Terra e são chamadas binárias visuais, mas um telescópio permite mostrar que Mizar é um sistema binário, composto por duas estrelas brancas gêmeas que se orbitam mutuamente.

Um outro objeto interessante da Ursa Maior é a galáxia M 81, facilmente visível com binóculos e que revela uma estrutura espiral com braços bem marcados. É um dos grandes espectáculos do céu, mesmo com telescópios modestos. Calisto foi também o nome dado a uma das luas de Júpiter, a terceira maior do nosso Sistema Solar, descoberta em 1610 por Galileu Galilei, mas assim nomeada por Johannes Kepler.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tros e Tântalos, a responsabilidade das decisões




Trós era um próspero rei das Frígia, hoje chamada Turquia. Muito rico, seu tesouro não era feito de moedas mas de muitos rebanhos de carneiros e manadas de gado. Ele orgulhava-se especialmente de seus 3.000 cavalos, os mais belos do mundo. Quando Dárdano, o avô de Trós, instalou-se naquelas terras, tinha formado sítios na extensa planície desde o Monte Ida até o litoral, que foi herdado por Erictônio de Dardânia e posteriormente por seu filhoTrós.

Para proteger seu reino dos ataques das tribos errantes, Trós resolveu construir uma povoação defendida por fortes muralhas no Monte Ida. Dos morros distantes, esse era o monte mais elevado no centro da planície e terminava em um penhasco rochoso. De suas espessas muralhas se podia ver toda a planície e contemplar até as ondas do mar. Ali Trós fundou a cidade de Tróia.

O Rei Tros tinha três filhos: Ganimedes, o mais novo, Assáraco e Ilo o mais velho que herdou o trono. Os três filhos do rei trabalhavam arando os campos e cuidando dos cavalos e a cada ano as safras se tornavam melhores e crescia os rebanhos, tornando Tros o soberano mais rico de todos os reinos.

Já velho, Trós dividiu seu reino em 3 partes e deu a seus 3 filhos. Desde a infância, o filho caçula Ganimedes era o mais belo menino. Por ser o mais afetuoso de todos, era muito querido em Tróia e sempre saía pelos campos para caçar ou galopar. Aos 16 anos, Ganimedes saiu para os campos e nunca mais voltou, embora o rei tenha mandado mensageiros para procurá-lo.

Certo dia chegou um homem contando que havia visto uma grande águia voar levando em suas garras um rapaz parecido com o príncipe. Na verdade Ganimedes tinha sido raptado por Zeus mas logo deduziram que Ganimedes tinha sido raptado um bando do reino de Tântalo. O Rei Trós mandou uma mensagem a Tântalo exigindo devolução de seu filho, que interpretou a mensagem como uma provocação.

Tântalo era um homem rancoroso e invejoso da prosperidade de Trós e, ao ler aquela mensagem, viu uma oportunidade de atacar o reino da Frigia. Quando as duas nações se defrontaram no campo de batalha, o resultado foi diverso daquele que o Rei Tântalo previra. O povo de Dardânia venceu e derrotou os guerreiros do Rei Tântalo que também foi ferido.

Sem alternativa, Tântalo mandou chamar seu filho Pélops para que partissem para outras terras. Levando seu pai, Pélops conduziu seu povo até o litoral. Sem mapas nem fronteiras, Pélops se aventurou no mar em barcos lentos porque tinham de esperar o vento soprar ou remar. Assim velejou até chegar ao sul da grande península grega que foi chamada de Peloponeso, nome que permanece até os dias atuais.


********************


O mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares, já que uma narrativa tem o propósito de levar à reflexão do comportamento humano. Os mitos estão perto do inconsciente coletivo e por isso são infinitos na sua revelação. Aquilo que os seres humanos têm em comum revela-se no mito.

Segundo Campbell, são histórias da nossa vida, da nossa busca da verdade, da busca do sentido de estarmos vivos. Os mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana, daquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente.

A idéia do determinismo expressa que algo ou alguém tem o controle de nossas vidas e que estamos impossibilitados de mudar o nosso destino. Sartre recusava a ideia do determinismo, demonstrando que o ser humano é livre quando escolhe as próprias ações, quando controla a própria vida e sabe que tem a possibilidade e o poder de mudá-la. A liberdade é algo condicionado por questões concretas, entretanto, ao tentarmos resolver os problemas e realizar os próprios projetos, temos escolhas.

A forma como fazemos as nossas escolhas é que determina a realização do que projetamos. Muitas vezes, por forças das circunstâncias, podemos eliminar algumas situações e ao mesmo tempo criamos outras. Assim, somos agentes ativos de nossa história e da história da humanidade.

Não podemos responsabilizar nem aos outros e nem aos deuses por nossos erros e acertos; podemos sim, sermos responsáveis pela nossa vida, por nossas escolhas, pelos caminhos que optamos seguir. Quando escolhemos algo, significa que teremos de abrir mão de outras. Essa é a responsabilidade da liberdade, e as duas são inseparáveis... 



sábado, 10 de dezembro de 2011

Métis, a deusa da prudência




Metis era a deusa da prudência, das habilidades e dos ofícios e pertenceu à geração dos Titãs. Como deusa primordial, era filha de Oceannus e Tétis. Ela tinha o poder de se autotransformar e seu nome significava a qualidade da sabedoria combinada com a astúcia. Esta qualidade altamente admirável, foi considerada como uma das características notáveis do caráter ateniense.

Ela foi a primeira esposa de Zeus, que temia ser destronado devido a uma profecia que dizia que um de seus filhos se tornaria o deus dos deuses. Propondo uma brincadeira, Zeus sugeriu a Métis transformar-se em uma mosca. Sem perceber as intenções de Zeus, ela voou e pousou em suas mãos. Imediatamente, ele a aprisionou e a engoliu.

Zeus não sabia que Métis estava grávida e depois de algum tempo sua cabeça passou a crescer a cada dia. Não suportando as dores, Zeus pediu a seu filho Hefesto que o libertasse. Hefesto usou um machado para abrir a cabeça de Zeus, de onde saltou Athena, adulta e armada com sua lança, a deusa estrategista da guerra e da sabedoria.

A inclinação guerreira de Atena foi reconhecida a partir de seu nascimento e ela era diferente de seu irmão Ares, o deus da guerra. Athena cultivava seus altos princípios e ponderação sobre a necessidade de lutar para preservar e manter a verdade. Ela era estrategista e equilibrava a força bruta de Ares com sua lógica, diplomacia e sagacidade. Filha da prudência, oferecia armas aos herois mas recomendava que deveriam ser usadas com inteligência, maestria e planejamento.


******************


Classicamente, prudência é considerada uma virtude e, de fato, é uma das quatro virtudes cardinais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. A prudência é a principal virtude visto que se utiliza da razão para discernir em todas as circunstâncias o verdadeiro bem e a escolher os justos meios para atingir objetivos. Ela nos conduz às outras virtudes, indicando-nos as regras e as medidas certas, por isso, é considerada a mãe de todas as virtudes.

A justiça está relacionada ao propósito firme e constante de dar aos outros o que lhe é de direito ou que lhe é devido. A fortaleza ou força, assegura a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem. A temperança ou moderação assegura o domínio da vontade sobre os instintos, modera a atração pelos prazeres e proporciona o equilíbrio, sendo portanto uma prudência aplicada.

Prudência vem do latim prudentia, que significa previsão e sagacidade, frequentemente associada à ação com sabedoria, introspecção e conhecimento. Neste caso, é a virtude de julgar entre ações maliciosas e virtuosas, não só num sentido geral mas com referência a ações apropriadas em um dado tempo e lugar. É a prudência que nos recomenda não executar qualquer ação antes de refletir, por isso regula as outras virtudes.

A prudência é gerada e desenvolvida pela experiência e pelo tempo que resulta da memória dos casos repetidos. Consideraria, assim, que os velhos estariam mais preparados do que os jovens para agir prudentemente, embora a prudência não lhes seja exclusiva. Todo o processo da razão procede do intelecto e a prudência é, justamente, a aplicação da razão reta aos atos, que deriva do que se aprende através da realidade de si e dos outros.

Ser prudente é estar atento à realidade e agir de acordo com o que é real. É estar aberto a aprender e apreender de suas próprias experiências. É ter a capacidade de prever os resultados de seus atos. Prudência corresponde à retidão no modo de viver, na obediência das regras e leis estabelecidas para a vida em sociedade, virtude essencial na arte de governar e liderar.

Prudente é quem não gasta mais do que lhe sugere a prudência; é evitar ser movido pelo impulso e pela precipitação. É quem se afasta da desmedida aspiração evitando a avareza e, embora a prudência deva ser aplicada a qualquer julgamento, o que distingue uma pessoa prudente é o discernimento para não causar danos e ofensas.

Distinguir atos corajosos dos atos descuidados, negligentes ou covardes, é um ato de prudência. Convencionalmente, prudência é o exercício do julgamento sadio em negócios práticos. Modernamente, prudência tornou-se sinônimo de cautela. Neste sentido, a prudência nomeia uma relutância de tomar riscos, que permanece como uma virtude ao evitar riscos desnecessários. Cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém, mas quando a cautela se torna excessiva, pode tornar-se um vício de covardia.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Eros, filho da penúria e da esperteza



Porus - o esperto, era uma personificação da riqueza, filho de Métis - a deusa da Prudência e irmão de Athena - a deusa a estratégia. Na festa em honra ao nascimento de Afrodite, os deuses fizeram um grande banquete e Penia, a penúria e deficiência, foi mendigar as sobras da festa.

Encontrando Porus nos jardins embriagado pelo néctar dos deuses, pela carência em que se encontrava de tudo o que em Porus tinha abundância, Penia uniu-se a ele. Assim ela concebeu Eros, que se tornou seguidor de Afrodite porque foi gerado durante sua festa e também porque era por natureza amante da beleza.

***************

Devido à união da pobreza e riqueza, o amor tem o caráter de estar sempre ávido de algo, ao mesmo tempo em que sente-se pleno. Por ser filho de Porus - a riqueza e Penia - a penúria e pobreza, Eros está muito longe de ser belo como todos pensam. Eros, na realidade, é rude, sujo, anda descalço, não tem lar, dorme no chão frio e duro junto aos umbrais das portas ou nas ruas, sem leito nem conforto. É a natureza de sua mãe. Por influência da natureza que recebeu do pai, Eros dirige a atenção para tudo que é belo e gracioso: é bravo, audaz, constante e grande caçador. Está sempre a deliberar e planejar suas ações, a desejar e adquirir conhecimentos.

Sua vida é a do grande feiticeiro, mago e sofista. Não vive e propriamente não é mortal e nem mortal. Ora floresce e vive, ora morre e renasce graças aos dons recebidos pela herança paterna. Rapidamente passam pelas suas mãos os proveitos que lhe trazem a sua esperteza, assim, nunca se encontra em completo estado de miséria nem tampouco na opulência.

Oscila entre a sabedoria e a tolice. Como os deuses, não deseja ser sábio. Como os tolos, tem o defeito da tolice. Considera-se perfeito, enquanto na realidade não seja nem justo nem inteligente. O mito do nascimento de Eros é usado por Platão para ilustrar a característica fundamental do amor: a insuficiência. E quem não se considera incompleto e insuficiente, não deseja aquilo cuja falta não pode notar. Ama-se quando se deseja algo que não se tem e por isso o amor pode ser considerado filósofo. De fato, assim como o amor não tem a beleza mas a deseja, o filósofo aspira a sabedoria porque não a possui. Portanto, o amor é essencialmente uma necessidade não satisfeita, a percepção da falta de alguma coisa essencial para a própria completude.

O pleno gozo, oriundo da mãe, é interditado pelo pai. A partir daí, cada homem vive uma busca constante por sanar sua incompletude. Cada mulher é uma tentativa, sempre fracassada, de saciar seu desejo primordial. Dessa dialética entre carência e astúcia move-se o desejo, agitando Eros infinitamente. Filho da penúria e da esperteza, o amor é medicante mas cheio de artimanhas...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Dioniso e Penteu, o preço das paixões




Cadmo e Harmonia reinavam em Tebas e eram pais de Ino, Sêmele, Autônoe, Polidoro e Agave. Quando Sêmele estava grávida sua família não acreditava que o filho era de Zeus, o deus dos deuses. Apaixonado pela bela Sêmele, Zeus atendeu ao seu pedido de mostrar-se em seu esplendor e foi fulminada pelos raios que dele emanava.

Zeus conseguiu salvar o filho e guardá-lo em sua própria coxa, onde ele completou seu desenvolvimento. Quando Dioniso nasceu, foi entregue para ser criado pelas ninfas pois foi rejeitado pela família de Sêmele que se recusou a prestar-lhe um lugar de honra.

Ao se tornar adulto, Dioniso não era ainda, totalmente divino. Tendo descoberto a videira e seu uso, foi enlouquecido por Hera e vagou por algum tempo até ser curado por Cíbele, a deusa-mãe da Frígia. Depois disso, disseminou seu culto pelo mundo e estava sempre acompanhado por um cortejo de seguidoras que bebiam vinho e, em êxtase místico, dançavam freneticamente.

Dioniso estabeleceu o seu culto e enlouquecia a todos que se opunham ao culto oferecido a ele. Embora Tebas tenha prosperado sob o reinado de Cadmo, ele havia sido amaldiçoado por ter matado o dragão consagrado a Ares e todos os seus descendentes tiveram a vida marcada por tragédias.

Já idoso, Cadmo entregou o trono de Tebas ao seu neto Penteu, filho de Equion e Agave. Após viajar por toda a Ásia e outras terras estrangeiras, Dioniso foi a Tebas disfarçado em forasteiro onde reinava seu primo Penteu e que havia proibido o culto a Dioniso.

Reunindo um grupo de devotas, as Bacantes, Dioniso levou todas as mulheres de Tebas ao delírio no Monte Citéron. O velho Cadmo e Tirésias, embora não estivessem enfeitiçados, apaixonaram-se pelos rituais das bacantes e quando estavam saindo para a celebração, o Rei Penteu ordenou que fossem presos todos os que participassem do culto dionisíaco.

Os guardas do palácio retornaram com o próprio Dioniso, disfarçado como um sacerdote de seu próprio culto. Penteu o interrogou com grande interesse nos ritos, mas Dioniso não se revelou e foi encarcerado. Sendo um deus, rapidamente conseguiu se libertar e destruiu o palácio de Penteu com um grande terremoto seguido por um incêndio.

Logo em seguida chegou um pastor trazendo a notícia de que as Bacantes estavam no Monte Citéron realizando feitos incríveis, como colocar serpentes em seus próprios cabelos para reverenciar o deus Dioniso, amamentando gazelas, lobos selvagens e fazendo o mel e vinho brotar do solo. Quando tentaram capturar estas mulheres, elas avançaram sobre um rebanho de vacas rasgando-as em pedaços com suas próprias mãos.

Atendendo ao desejo de Penteu em ver as mulheres em êxtase, Dioniso o convenceu a vestir-se com roupas de mulher, como uma Mênade, para observar os rituais. De repente, Penteu começou a ver tudo em duplicidade. Quando quis escalar uma árvore para poder ver melhor as bacantes, Dioniso usou seu poder divino e colocou-o nos galhos mais altos.

Assim que ele chegou ao topo da árvore, Dioniso gritou às suas devotas e mostrou-lhes um homem no topo da árvore. Ensandecidas, as bacantes arrancaram Penteu da árvore e rasgaram seu corpo em pedaços.

Agave, a mãe de Penteu, estava junto das bacantes e ainda em estado de êxtase retornou à sua casa carregando a cabeça de seu filho Penteu acreditando que fosse a cabeça de um leão da montanha que havia caçado. Ao perceber a expressão de horror de Cadmo, lentamente Agave percebeu a tragédia consumada e enloqueceu.

Inconformados, Cadmo e Harmonia não esqueciam seu infortúnio e atormentado pela lembrança dolorosa que não o abandonava Cadmo descontrolou-se, voltou os olhos para o céu e exclamou inconformado: “Se a vida de uma serpente é tão cara aos deuses, eu preferia ser uma serpente!”. Imediatamente, eles foram transformados em serpentes. Porém a maldição pesaria sobre todos os seus descendentes como nos mostra o mito de Édipo, o trineto de Cadmo.

************************

Para os gregos os mitos não eram apenas contos de entretenimento, eles diziam algo a respeito do mundo e dos seres humanos. Essa fonte de conhecimento, por sua profundidade, atravessou os séculos e até hoje nos valemos dela.

Distinguindo-se dos animais, não sendo dominado apenas pelos instintos e nem somente pelo condicionamento biológico, o ser humano aprendeu a pensar e a se questionar sobre sua existência para entender a si mesmo e conhecer sua natureza. Se o conto é apenas um mito, o que ele nos revela é realidade humana.

O filósofo e político inglês Francis Bacon, um dos homens mais importantes de sua época, se dedicou especificamente sobre a mitologia grega e, de cada personagem, Bacon retirou um ensinamento.

Do mito de Penteu podemos depreender as consequências das paixões, da ilusão desordenada, do delírio do poder, da irracionalidade, do desvario, da perturbação e das loucuras, demonstrando a necessidade de auto-controle, moderação e sabedoria para evitar dois extremos: a tirania da ordem excessiva e o frenesi das paixões.

De fato, a paixão nos estimula a viver cada instante com intensidade, nos motiva a realizar façanhas inimagináveis em busca de objetivos aparentemente inatingíveis, tornando possível o que antes parecia impossível.

Apaixonados por um estudo, por um trabalho, por uma causa ou por uma pessoa, somos capazes de buscar em nosso íntimo a maior das forças para superar qualquer obstáculo. No entanto, se nos entregarmos irracionalmente ao frenesi da paixão, nos tornamos cegos para todas as outras questões, o que pode nos levar além do que é moralmente e eticamente aceitável.

Se uma das funções do mito é possibilitar que estejamos em contato com os nossos próprios aspectos que nos causa temor, também nos mobiliza para nos reconhermos em nossos atos. A vida humana não tem a melhor das eficácias, não é regular, nem linear e muito menos coerente.

Somos responsáveis por nossas paixões e pelos rumos de nossa vida. Se nos deixarmos ser governados pela desrazão, podemos pagar um alto preço. No entanto, a razão excessiva impõe limites e restrige a nossa criatividade.


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mênades ou Bacantes, o lado sombrio de todos nós



As Mênades, também conhecidas como Bacantes, Tíades ou Bassáridas, eram fanáticas mulheres seguidoras e adoradoras do culto de Dioniso, conhecidas como selvagens e enlouquecidas porque delas não se conseguia um raciocínio claro. Durante o culto dançavam de uma maneira muito livre e lasciva, em total concordância com as forças mais primitivas da natureza.

Os mistérios que envolviam o deus Dioniso provocavam nelas um estado de êxtase absoluto e elas entregavam-se à desmedida violência, derramamento de sangue, sexo, embriaguez e autoflagelação. Estavam sempre acompanhadas dos sátiros embalados pelos sons dos tamborins dos coribantes, formando uma espécie de trupe que acompanhava o deus do vinho nas suas aventuras. Andavam nuas ou vestidas só com peles, grinaldas de Hera e empunhavam um tirso - um bastão envolto em ramos de videira.

Por onde passavam iam atuando como chamariz na conversão de outras mulheres atraindo-as para a vida lasciva. Evidentemente que o comportamento livre e desregrado delas causava apreensão, senão pânico nos lugarejos e cidades onde o cortejo báquico passava. Quando assaltadas por um furor qualquer, não conheciam limites ao descarregar a sua cólera. O maior divertimento das Mênades ou Bacantes era submeter os homens ao sofrimento, despedaçando-os antes de comê-los enquanto estavam em transe. Por isso, obrigavam-se a procurar refúgio no alto das montanhas, onde podiam exercer sua estranha liturgia sem a presença de olhares de censura ou reprovação.

As Mênades estão presentes no mito de Orfeu, que se recusava a olhar para outras mulheres após a morte de sua amada Eurídice. Furiosas por terem sido desprezadas, as Mênades o atacaram atirando dardos. Os dardos de nada valiam contra a sua música mas elas, abafando sua música com gritos, conseguiram atingi-lo e o mataram. Depois despedaçaram seu corpo e jogaram sua cabeça cortada no rio Hebro, que flutuava cantando: "Eurídice! Eurídice!"

Por sua crueldade, às Mênades não foi concedida a misericórdia da morte. Quando elas bateram os pés na terra em triunfo, sentiram seus dedos entrarem no solo. Quanto mais tentavam tirá-los, mais profundamente eles se enraizavam até que elas se transformaram em silenciosos carvalhos. E assim permaneceram pelos anos, batidas pelos ventos furiosos que antes se emocionavam ao som da lira de Orfeu.

No mundo grego e romano, a Bacchanalia ou Bacanais eram festas em honra de Dioniso e as sacerdotisas que organizavam a cerimônia eram as Bacantes. O culto primitivo era exclusivamente feito por mulheres e somente para mulheres, cujo culto teve início na época de Pã. Introduzido em Roma em 200 a.C., a partir da cultura grega do sul da Itália ou através da Etruria influenciado pela Grécia, os bacanais eram realizados em segredo e com a participação exclusiva de mulheres no bosque de Simila, perto da Aventino.

Posteriormente, os rituais foram extendidos aos homens mas denunciado por um jovem que se recusava a participar das celebrações, o Senado, temendo que houvesse alguma conspiração política, proibiu as festas prometendo recompensas a quem desse informações sobre os rituais. Apesar da severa punição infligida àqueles que violassem o decreto, os bacanais continuaram a ser realizados no sul da Itália. O carnaval vem do legado atual do antigo Bacchanalia, Saturnália e Lupercalia. Na obra intitulada Dionísiacas são citadas dezoito Ménades:
  • Acrete - o vinho sem mistura
  • Arpe - a flor do vinho
  • Bruisa - a florescente
  • Cálice - a taça
  • Calícore - a formosa dança
  • Egle - o esplendor
  • Ereuto - a corada
  • Enante - a foice
  • Estesícore - a bailarina
  • Eupétale - as belas pétalas
  • Ione - a harpa
  • Licaste - a espinhosa
  • Mete - a embriaguez
  • Oquínoe - a mente veloz
  • Prótoe - a corredora
  • Rode - a rosada
  • Silene - a lunar
  • Trígie - a vindimadora
********************

O mito das Mênades ou Bacantes revela a apreensão do ser humano no que ele tem de selvagem, perigoso e sombrio. Consideradas devoradoras dos homens, essa característica das Bacantes tem um simbolismo muito marcante, pois o mito leva o homem a olhar para si e a reconhecer sua passionalidade e sua desrazão.

A violência que Dioniso impõe, na
verdade já está dentro do homem. Essa violência inclui tudo aquilo que é negado, rejeitado, oprimido, desprezado, tudo o que assusta e que é moralmente e eticamente inaceitável e que, como parte da natureza humana, precisa ser aceito e pensado. Se não se dá o espaço necessário na mente para o encontro com o lado sombrio de si mesmo, as perturbações afetivas podem ser muito amplas e, por vezes, irreversíveis, desencadeando-se a loucura e o sofrimento desnecessário.

Um dos dramas humanos está associado à necessidade e à dificuldade do homem em aceitar e se entender com seus aspectos destrutivos, com seus sentimentos agressivos, o ódio, violência, o medo, sem deixar-se dominar por aquilo que sente. A necessidade de aprender a conviver com a própria realidade interior impõe-se ao homem, desde que ele nasce e começa a interagir com o ambiente. O destino que cada um dá a tal necessidade vai depender do interjogo constante entre as condições psíquicas e as facilitações ou obstáculos que o ambiente externo lhe propicia.

O não que Dioniso diz às normas pré-estabelecidas, ao estado controlado e regulador das coisas, às leis, abre infinitas possibilidades. É preciso se opor para criar. A criatividade implica um movimento em sentido oposto ao corrente, ou pelo menos, um novo enfoque ao conhecido, que venha a lançar outra luz sobre ele. Implica numa tomada de posição pessoal.

Apesar de sua proposta de liberdade, o grego não se iludiu a ponto de supor que o homem poderia escapar de si
mesmo. O homem conhece seu destino e não pode evitá-lo, quando tenta fazê-lo paga um alto preço. Não há concessões, ou aprende a conviver com sua realidade ou se perde na loucura, na morte, na alucinação e nas sombras...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Satiros, Egipãs e silenos, o bode expiatório



Os Sátiros, Egipãs e Silenos eram ardentemente cultuados pelos pastores e agricultores gregos, que faziam ofertas de animais e produtos da terra. Os sátiros, em grego Sathê que significa pênis, eram divindades menores da natureza com aspecto de homens com cauda e orelhas de asno, barbas longas e grandes órgãos sexuais frequentemente exibidos em ereção. Tinham um apetite sexual insaciável, assim como a voracidade para o vinho e a embriaguez. Eternos perseguidores das ninfas, a permanente sensualidade dos Sátiros revelava sua vigorosa forma física.

Filhos dos Curetes e das Hecatérides, irmãos das Oreades, eles viviam nos campos e bosques perseguindo as ninfas, principalmente as Mênades, como também aos homens e mulheres que a eles se juntavam no cortejo de Dioniso. Caracterizados por uma bestialidade, de gênio preguiçoso, covardes e movidos pela sensualidade, os Sátiros se divertiam aterrorizando os pastores e os viajantes, mas, ao mesmo tempo, protegia-os das feras dos bosques, assim como protegiam os seus rebanhos.

Com o tempo passaram a ser descritos como dóceis, maliciosos, travessos, amantes da música e da dança. Com uma nova imagem, os Sátiros passaram a ser representados com as orelhas pontiagudas, pequenos chifres e os pés caprinos. Apesar de serem divinos, eles não eram imortais mas normalmente eram-lhes consagrados o pinho e a oliveira.

O mais famoso dos Sátiros foi Pã, o deus pastor, filho de Hermes e da ninfa Dríope. Segundo a lenda, Dríope rejeitou o filho tão logo nasceu por não aceitar a sua forma híbrida. Hermes levou-o para o Olimpo onde foi criado. Por seu jeito alegre, logo conquistou a simpatia e a afeição de todos os deuses, sendo chamado por eles de Pã, que em grego significa O tudo. Vivendo errante pelas montanhas e pelos vales, Pã se tornou o deus dos rebanhos e em torno dele viviam os gênios campestres e os espíritos dos bosques. Além de pastor, Pã dedicava-se à música.

A origem do mito vem da Arcádia, lugar montanhoso, que tinha como riqueza apenas a criação de cabritos e carneiros. Pã era um deus secundário representado pelo corpo coberto por pêlos negros, chifres na cabeça e patas de bode. Devido à sua fisionomia, Pã teve muitas desventuras amorosas. Os Egipãs eram descendentes diretos do deus Pã e também tinham os corpos peludos, chifres e pés de cabras. Nascidos da união de Pã e a ninfa Ega, eles foram concebidos numa noite de embriaguez dos pais. A eles são atribuídos o som que se ouve nas conchas do mar, que se transformou num instumento de sopro. Por isso tornaram-se considerados gênios das águas.

Os Sátiros compunham o cortejo de Dioniso, deus da luz e do êxtase, que foi perseguido por Hera mesmo antes de seu nascimento. Dioniso foi criado por Sileno e quando cresceu, ele foi convocado por Zeus para viver na terra junto aos homens. Dioniso compartilhava com os mortais das alegrias e das tristezas, mas foi atingido pela loucura de Hera e passou a perambular pelo mundo atraindo seguidores como os sátiros, os loucos e animais. Dioniso deu à humanidade o vinho e suas bençãos, concedeu o êxtase da embriaguez e a redenção espiritual a todos que decidiam abandonar suas riquezas e renunciar ao poder material.

Dezoito sátiros eram servos de dioniso: Pomenio, guia dos pastores - Thiaso, guia dos seguidores - Hipcéros, o grande chifre - Oréstes, guia nas montanhas - Flégraios, a paixão ardente - Napeus, guia nos vales - Gemon, era o carregador - Licos, o fanático e foi transformado em lobo - Fereus, guia das bestas - Petreu, guia nos rochedos - Lamis, o guia das covas - Lenóbios, o guia pisador das uvas - Ecirtos, guia satador - Oistros, guia frenético - Pronomios, guia da pastagem -Férespondo, guia das bestas - Ampelos, guia da videira - Cisseus, guia da coroa de heras.

Apreciando a alegria de Dioniso, o vinho, a música e as orgias, os Sátiros o seguiam dançando ao som de flautas, dos címbalos, castanholas e gaitas de foles. Junto também seguiam as Ninfas, os Silenos e as Bacantes carregando troncos de videira, coroas de hera, taças cheias de vinho, cachos de uva e o tirso enlaçado com folhagens. As Bacantes ou Mênades eram as jovens que tomadas por loucura mística, pareciam tomadas pelo deus. Em sua jornada Dioniso castigava severamente todos aqueles que se recusassem a cultuá-lo.

Com grande habilidade de envolver as pessoas, algumas vezes muito teatrais, os Sátiros usavam de sua forte sensualidade como fator de atração. Muito autoconfiantes, não se deixavam afetar pela oposição às suas ideias ou suas ações. Concentrados em seus objetivos, se distinguiam porque acreditavam no seu poder de persuadir as pessoas e na sua capacidade de liderança.

Os Sátiros envelhecidos eram chamados de Silenos, isto porque Sileno era o líder ou pai dos sátiros e silenos, representado calvo e barrigudo, montado num burro onde se equilibrava com dificuldade devido à sua constante embriaguês. Sileno era um descendente de Pã e foi encarregado de tomar conta de Dioniso que o criou junto dos seus filhos Astreu - o brilho estelar, Maron - o cinza puro e Leneus - o vinho forte.

Quando Dioniso cresceu, Sileno se estabeleceu na Arcádia. Seu caráter jovial e brincalhão atraiu a simpatia e o afeto dos pastores, que construíram um templo dedicado a ele. Com sua coroa de hera e uma taça de vinho nas mãos, Sileno era carregado pelos sátiros durante os cortejos e as ninfas admiravam sua bondade. Durante seus momentos de sobriedade, Sileno se tornava grande profeta e sábio. Ele tinha o dom de prever o futuro, porém só revelava a verdade quando estava embriagado sob os efeitos do vinho.

***********

As estranhas e fascinantes criaturas mitológicas, com a dualidade do seu corpo traduziam a essência da evolução da civilização humana, muitas vezes racional, outras vezes meramente animal. Esse misto humano-animal era comum na mitologia grega e muitas vezes simbolizava exatamente algum aspecto animal da natureza humana. Comumente associados a Dioniso, os Sátiros estão relacionados ao lado instintivo do ser humano.

O mito dos Sátiros está relacionado ao desejo desenfreado, a todos os tipos de excessos e às forças incontroláveis da natureza animal e vegetal. Eles eram a personificação da vitalidade animal, se distinguiam pela impulsividade e eram ligados à luxúria, ao êxtase, sexo e embriaguês. Dos sátiros derivam os termos satirismo ou satiromania, que significa o desejo sexual excessivamente forte nos homens ou uma insatisfação sexual que leva a uma compulsão sexual, assim como a ninfomania está relacionada à insatisfação sexual da mulher.

O êxtase está relacionado à modificação da consciência através de uma experiência que leva a um estado de total ausência de sofrimento, um despreendimento do mundo material que corresponderia a um absoluto sentimento de prazer, orgasmo ou estado de transe. E por derivar-se de uma palavra grega ékstasis, poderia se ter como padrão o transe profético e visões.

Os sátiros apareciam obrigatoriamente nos dramas satíricos, peças leves que o teatro grego apresentava como complemento e alívio cômico de uma trilogia trágica em honra de Dioniso. Nos dramas satíricos, os heróis são sérios mas seus atos são satirizados por comentários irreverentes e obscenos dos sátiros. No entanto, a sátira não está etimologicamente relacionada aos sátiros pois provém do latim, uma mistura de prosa e verso, um gênero satírico ou também satura, um prato cheio de vários tipos de frutos reunidos, abundante, uma saturação.

Na mitologia grega, o bode era associado à depravação, considerado um animal lascivo e desprezível. Hoje tem o simbolismo do bode expiatório, algo ou alguém sobre a qual projetamos o lado inferior de nós mesmos para nos livrarmos da culpa ou culpamos por nossos problemas. Pã mora no domínio mais inacessível do inconsciente.

Os romanos identificaram os sátiros gregos com o deus Fauno e com os faunos. Suas características eram originalmente diferentes, mas a literatura e a arte clássica da Europa moderna trataram os dois termos como sinônimos e misturaram suas características. Os faunos tinham aspecto animalesco mas eram de comportamento digno. Nas traduções do Antigo Testamento, o termo sátiro é às vezes traduzido como demônios ou bodes. No folclore dos antigos hebreus, se'irim era um tipo de daimon ou ser sobrenatural que habitava lugares desolados.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Daimones Coribantes, Curetes e cabiros





Os Coribantes eram sacerdotes de Réia, peritos na arte de trabalhar em metais. Assim como os Curetes e os Cabiros, os coribantes eram divindades misteriosas. Nos seus êxtases sagrados executavam danças e conduziam seus cultos em ritos de orgia, acompanhados por gritos selvagens e a música frenética de flautas, tambores e címbalos. Possuídos pela febre da dança, não realizam suas evoluções segundo uma clara consciência e eram capazes de atrair seguidores embalados por sua música.

Poetas líricos obtinham a harmonia de seus versos embalados pelo Coribantes em suas belas poesias. Daimones rústicos, os Coribantes e os Curetes foram nomeados por Réia para guardar Zeus quando ele ainda era criança. Escondido em uma caverna do Monte Ita em Creta, Zeus era o único filho que tinha sido salvo de ser engolido por seu pai Cronos. Os daimones abafavam o choro da criança com uma dança frenética fazendo ruidos com suas lanças e escudos.

Os Curetes eram deuses das montanhas selvagens e inventores das artes rústicas do trabalho em metal, pastoreio, caça e apicultura. Foram também os primeiros guerreiros armados e os deuses da dança orgiástica da guerra executada pelos jovens de Creta e da Eubéia. Eram nascidos do esperma de Urano juntamente com Afrodite, as Erínias e os gigantes quando Urano foi castrado.

As Hekatérides eram cinco ninfas e estavam relacionadas às danças rústicas. A dança Hekateris envolvia o movimento das mãos e na dança Hekateros os dançarinos saltavam alto batendo os calcanhares contra as nádegas. As cinco irmãs e cinco irmãos eram conhecidos como os Dáctilos ou Daktyloi - Os dedos, porque cada um tinha 10 dedos e juntos somavam 100 dedos. Quando eles se casavam, uniam-se dedo-a-dedo, simbolizando uma união harmoniosa das mãos para construir.

Da união dos Curetes com suas irmãs, as Hekatérides, teriam nascido os Sátiros, as Oréades e as tribos dos Curetes, os primeiros Cretenses. As Oréades eram as ninfas protetoras das montanhas, das cavernas e das grutas. Elas não eram imortais mas tinham vida muito longa e não envelheciam. Com seu dom de curar, profetizar e nutrir, elas agiam sempre em grupo. Eco era uma das oréades que foi privada do dom da fala pela deusa Hera e, desde então, foi condenada a repetir os sons que são produzidos em montanhas e grutas.

Os 100 curetes mais jovens casaram-se com as Melíades que eram as ninfas nascidas do Freixo, uma árvore que simbolizava a durabilidade e a firmeza. Nascidas quando o esperma de Urano fecundou a terra, as Melíades alimentaram Zeus quando ele era criança fornecendo o mel e o leite. Melia, uma das melíades casou com seu irmão Ínaco - deus rio e foram os pais de Io, Foroneu, Egialeu ou Fegeu e Nilodice. Io foi uma das paixões de Zeus e, por isso, foi transformada em novilha. Melia também é citada como mãe de Amico, filho de Poseidon.

As conotações militares do freixo, deu uma suposta origem violenta e belicosa às Melíades e também por serem irmãs das Erínias. Entretanto elas tinham um doce aspecto, pois os freixos também segregavam uma seiva açucarada chamada pelos gregos de Méli ou Mel, considerados pelos gregos como manifestação da ambrosia dos deuses. A espécie de freixo mais comum nas montanhas da Grécia, Fraxinus ornus, é conhecida como "freixo do maná".

Outras Melíades mais conhecidas eram:
  • Hidas, a nutriz e visão
  • Adastréia, a inevitável
  • Idotéia, o saber
  • Melissa, a doce
  • Cinosura, a sagaz e proteção
  • Helice, a alegre
  • Amaltéia, a cura e alívio
  • Adamantéia, a indomável

***************


Os Daimones em grego significa divindades e eram a personificação dos gênios. A designação de Daimon originou com os gregos na antiguidade e ao longo da história surgiram diversas descrições para esses seres. O nome em latim é dæmon que originou o vocábulo em português demônio e eram considerados intermediários entre os deuses e os homens. Sócrates, que ao contrário de seus colegas sofistas não abriu uma escola e não cobrava por seus ensinamentos, atribuia o que dizia ao daemon, seu gênio pessoal.

O temperamento dos daimones estava relacionado a um elemento natural ou a uma vontade divina. Um mesmo daimon podia designar tanto o bem quanto o mal, conforme a circunstância que influenciasse. No plano teleológico, os gregos falavam de Eudaimons - "Eu" significando o bom e favorável e kakodaimons - "kakos" significando o mal e desfavorável. Por isso, a palavra grega que designa o fenômeno da felicidade é Eudaimonia, ser feliz para os gregos era viver sob a influência de um bom daimon.

O conceito original entre os gregos ainda os conectavam aos elementos da natureza, surgidos em seguida aos deuses primordiais. Assim surgiram os daimons do fogo, da água, do mar, do ar, da terra, das florestas etc. Podem estar conectados aos espíritos que regem ou protegem um lugar, uma cidade, fonte, estrada, etc. Também se relacionam às afetações humanas, do corpo e do espírito, entre eles, o sono, o amor, a alegria, a discórdia, o medo, a morte, a força, a velhice etc.





Related Posts with Thumbnails

Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

Seguidores

Minha lista de blogs

Postagens populares