quarta-feira, 20 de abril de 2011

Côtis, a verdade que não merecia castigo




Ninguém gosta de receber más notícias, ser contrariado ou ter suas expectativas desfeitas, nem mesmo os deuses. Apolo, o deus dos oráculos, devia saber o quanto a verdade podia doer. Ele amava Corones, uma jovem princesa de Tessália, mas ela gostava de outro, um simples mortal com quem se encontrava às escondidas.

Desconfiado Apolo mandou o corvo, um de seus auxiliares alados, vigiar de perto a faceira princesinha. Pobre corvo. Quando veio relatar os encontros furtivos de Corones, Apolo ficou furioso e resolveu castigá-lo. Mandou mudar a cor de suas asas brancas como a neve, para a cor preta que os corvos tem até hoje.

Muitos reis e tiranos do passado agiram como Apolo, punindo o mensageiro por causa do teor da mensagem. Durante a campanha do comandante romano Lúculo contra alguns reinos da Ásia, quando sua legião entrou na Armênia os postos avançados mandaram avisar ao rei local que as forças romanas se aproximavam. O rei Tigranes ficou tão enfurecido que mandou decapitar o mensageiro, por isso ninguém ousou contar-lhe coisa alguma.

Enquanto os romanos apertavam o cerco, Tigranes continuava inerte sem ter a menor idéia do que estava acontecendo. Ele ouvia apenas a voz de seus bajuladores, que lhe diziam que Lúculo já devia estar voltando para Roma. Porém um amigo favorito do rei tomou coragem para anunciar-lhe que a derrota era iminente, como de fato aconteceu.

Outro foi Côtis, rei da Trácia, dissoluto e beberrão que decidiu que haveria de passar uma noite de amor com a deusa Atena, uma das deusas virgens do Olimpo. Para uma ocasião tão importante, preparou um banquete numa mesa luxuosíssima numa alcova ricamente decorada, dispondo uma cama com lençóis e travesseiros dignos da ilustre convidada.


Depois de tudo preparado, Côtis se pôs a beber vinho aguardando a chegada de Atena. Como o tempo passasse e a deusa não aparecia, mandou um guarda verificar se ela não tinha se perdido nos corredores do palácio. Quando o guarda retornou dizendo que não havia ninguém, o rei o matou.

Mais tempo se passou e Côtis mandou um segundo guarda. O guarda também disse que não havia ninguém e morreu também. Quando Côtis mandou o terceiro guarda, apavorado com o que acontecera com seus colegas ele voltou dizendo que a deusa estava chegando ao palácio, pois sofrera um pequeno atraso. Em seguida, fugiu.


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A maioria das pessoas não gosta de ouvir a verdade; elas preferem ouvir as palavras que não destruam seus sonhos e expectativas irreais. E quando alguém ousa ser sincero, dizendo-lhes tão somente a verdade, essas pessoas se afastam.

Muitas vezes, as pessoas não encaram a verdade porque pode ser muito cruel para elas e preferem viver a mentira, num mundo do faz-de-conta. Porém, mais cedo ou mais tarde, elas estarão de frente com o que, em vão, tentaram afastar.

Dessas estórias tiramos pelo menos duas lições:
  1. se fores o destinatário, nada que fizeres poderá alterar o conteúdo da mensagem.
  2. se fores o mensageiro, lembra-te do antigo provérbio árabe: quando fores dizer a verdade, deixa o teu cavalo pronto e fique com um pé no estribo. A verdade é um sempre um perigo.

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Quem sou

Nascida em Belo Horizonte, apaixonada pela vida urbana, sou fascinada pelo meu tempo e pelo passado histórico, dois contrastes que exploro para entender o futuro. Tranquila com a vida e insatisfeita com as convenções, procuro conhecer gente e culturas, para trazer de uma viagem, além de fotos e recordações, o que aprendo durante a caminhada. E o que mais engradece um caminhante é saber que ao compartilhar seu conhecimento, possa tornar o mundo melhor.

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